Terça-feira, Maio 29

Perguntou-se o Sr. T.


- O que há de maravilhoso num ser de outro planeta? - perguntou-se o Sr. T.

De greve.


- Há greves que deveriam ser gerais. - disse Anacreonte.
Mas o Sr. T. estava muito atarefado.

Nada


- Pensei em sub-denominar tudo isto de contos da banalidade quotidiana - disse o Sr. T.. Depois achei que ainda era um subtítulo pretensioso.
-
Bouvard et Pécuchet... - sugeriu trocista Anacreonte.
- ... Flaubert ... demasiado pretensioso - coçou o queixo o Sr. T..
- Naturezas Mortas...
- Rebuscado.
- Pois.

A velha. O velho. A velha.


Como estaria a velha? - pensou, mas estava sozinho demais para ter imagens. A camioneta era agora um miradouro para uma outra cidade. Uma cidade enclausurada na memória. Um quarto de hotel com um espelho por cima de uma mesa espargida de marcas de cigarros e de canivete. Uma cama.
A velha era digna de pena. Provavelmente passara a vida a azucrinar a cabeça ao velho - não o amava, fora-lhe espetado na garganta, sua mãe assim quisera - mas para o velho as coisas seriam diferentes. Bim conhecia a historia demasiado bem.
Saía a seu pai, tal como a irmã. O pai que perdera a fortuna no casino que empreendera e tomara do gozo restrito de intelectuais de província, putas selectas e dançarinas espanholas ou ao contrário. - Bebera e jogara até ao limite das forças e das posses. Gozara a ultima prata. E sua mãe lá coseu interminavelmente os veludos vermelhos das cortinas, com que vestiria as duas durante os anos que seguiram a desgraça. - Algo bizarras essas efígies a que o veludo repetidamente vermelho dos repetidos vermelhos vestidos não retirava o encanto que herdavam da mãe. - Moravam então numa casa senhorial, sob os ramos das genealogias, como no santuário onde oficiassem. Depois, era uma pequena casa e outra cidade. Uma cidade maior. A casa ficaria ainda mais pequena, mas a cidade crescia.
E ela apaixonava-se. Um dançante maravilhoso, de humor elegante, uma ligeireza cheia de afectação. E o velho, a explicar o francês, a pedido da mamã, a escrever cartas apaixonadas a outro - cartas que ela nunca lhe faria chegar. Mas escrevia-as, e como se lhe fossem dirigidas, e compunha o afinco de poemas que o outro jamais entenderia e marcava-lhes os encontros que chorava, e ela achava-o ridículo. Mas era preciso que ela fosse feliz, sobretudo que não tivesse pena dele - sobretudo que não desse por ele. E o velho era por essa altura jovem - e o jovem começava a ser velho.
Nisto, a mãe acha em tanta dedicação merecimento e torce-lhes o destino casando-os e selando o casamento com a sua presença para sempre. Casaram os três. Ele radiante e humilhado, ela prometendo-lhe a vida negra, de seus olhos azuis - a mãe chorosa e satisfeita, parecendo menos magra e não deixando ainda adivinhar o esclerosamento e a hemorragia. Foram para o casamento como para o destino, reconhecendo-se mutuamente no drama que conspiravam, tudo nascendo de compatibilidades e incompatibilidades cruzadas. Depois, apesar da sua condição modesta, o velho era empregado de um grande banco, estava acima de remediado - o que garantia, de momento, a subsistência dos três. Um filho recomporia o quadro, pensaram. - Ou pensou a mãe. O filho, Bim, nasceria dum franzir de sobrancelhas seguido de um aperto dos lábios e de um gemido morto, tão lustrado das sanhas do corpo materno como macilenta a assinatura, um quase-morto a abalar qualquer simbologia de primogénito. Tentaram uma segunda vez. Tiveram uma nina que saia da face do pai. - Ele preencheria o silencio franciscano de sua vida com uma dedicação invulgar aos filhos e ao trabalho. Ela carregava-os nos giros da ociosidade, era encantadora, plena de humor, fútil e infeliz - odiava o velho abertamente e o mundo secretamente. Não, o mundo não.
Afinal, agora ele morria, e ela a fazer um escarcéu. Aquele mal-estar inesperado privava-a de ar. Não havia como faltar à tertúlia de velhas valquírias do Majestic. - E ele morria como vivera. - Calmamente. Nunca levantando a voz, nunca ripostando os ataques - quem sabe compreendendo a sua culpa na dor que ela, brusca, cuspia e repisava, acompanhada de convulsões empenhadas e imprecações acusatórias, repetidas num zunir contínuo, pesado, arrastado, a que ele anuía levantando e baixando os ombros e fechando os olhos, como se murmurasse entre dentes - esgotado, esmagado por aquela pantomina azeda - perdoa-me. perdoa-me. perdoa-me. - Agora ele morria - os olhos de ressentimento, de remorso, de amor ainda. - Aquele amor que o dia-a-dia atordoante dos deveres hercúleos queimava. E que lhe sobrevivia - agora ali, nos vítreos olhos do morto, esbatidos num branco choroso - incapazes de chorar. Morreu. Morreu sem uma vez que fosse cuspir num arrojo de génio o imenso quisto que lhe atravessava a garganta, lhe atravancava a voz que ecoava triste como um poço, que lhe provocaria o eczema nervoso, lhe derreteria o peito de atleta e, depois, o ataque - quando fatigado, já incapaz de tomar conta dela, esclerosada como a mãe e mais e mais azeda, viu as forças lhe faltarem. A imagem pálida, leitosa de uma morte escavada, pacificadora, amada. - Morria sem que ela o perdoasse.
Morria.

Segunda-feira, Maio 28

Um domingo nos braços - "Un chien andalou" - L. B.



feitura de músculos
que o osso vibra
e a mão esbulha se a esticas
acossa-te
essa invenção inútil
de que és vivo

e esquivas o centro
- ufano o timbre -
na memória suspenso
do corpo
o sopro que fazes morto
acaso respires


é perfeita esta explosão
que vem dos mortos derramar-se
e que ínfima
esfria um domingo
para que o recebas
estiolando nos braços

Manuel Maria du Bim

Domingo, Maio 27

O Leiria

- Sempre à mesma hora, entendes?
Bim ouvia-o encantado. Apreciava aquela hora e meia de quando em vez. E Leiria continuava: - Eu a passear a cadela e ela a passear o cão - e, pá, enche os olhos a mulher, os dois. Entre os quarenta, antes dos cinquenta. Mas não julgues que seja fácil, lá porque há cães no meio. - Estás a ver o cão dela, pá: é um daqueles tacos felpudos e irritantes - e a cadela sabe mostrar distância, eduquei-a - é humana. - Claro que ela reconhece um cão, mas prefere privar com humanos. Mas o diabo do cãozinho disparava a ganir, perfeitamente possesso - entontece aquele girar ganido, saltado - já me reconhece, o bicho, e pressente algo no meu cheiro - sabe mais do que a dona - os homens têm o instinto atrofiado, mas os cães não. - Até que a cadela abre a boca - vê a boca da Setter, pá - a fazer ió-ió do cãozinho, a trela a repuxar às pernas da gaja, o pom-pom, súbito, entre os sapatos e a meia branco-beje, semi-transparente a subir acima do joelho. - Como depreendes, só a uma certa distância.
- Um dia percebi que ela tinha carro - via-a a fechar a porta, depois de estacionar. E ela tinha no vidro de trás um espantalho em pano, sim deste tamanho, ali a baloiçar, para aqui, para ali - que género de pessoa guia um carro com um espantalho de pano a baloiçar no retrovisor? - Até o H. fala disso, pá. Era um mau sinal. Decididamente, era um mau sinal. - Ah, e isso foi na altura em que pensei que afinal eram duas, sim, que ela tinha uma irmã - um dia, à mesma hora, lá a vi, o mesmo cãozinho irritante, mas pareceu-me mais velha. Ela tinha uma irmã mais velha, devia ser isso - um mau sinal, mas enche o olho, a mulher, entendes não entendes?
Claro que Bim entendia, há quantos anos conhecia ele o Leiria? - um solitário por ofício e um solitário fantasioso, um homem fantasia. Desde o ofício às histórias com que mobilava um mundo funcional, mas de todo descoincidente, na verdade, um mundo supra coincidente, onde ocorria não uma falta, mas um surplus.
- Mas já sei o que vou fazer - continuava Leiria. - Ando concentrado nisso. Tenho pensado muito. - Ela já reparou em mim, pá. Já percebeu que eu reparei nela. Mas o pom-pom quer-me à distância. Um dia surpreendo-a, viro-me a ela no momento em que a besta atacar e digo-lhe: o seu cão é sagitário, não é? - Entendes, o seu cão é sagitário, não é? - tudo nela soa o sagitário, os sinais... - Ora, se eu estiver certos e ela for... - se ela não for sagitário é um fracasso, uma vergonha e não dá em nada - é claro que posso sempre aludir a simbologia, o animal mítico... - Mas, olhando ao taco, só por ironia - quer perceba quer não perceba, é a mesma coisa. - Mas, vê, e se ela for mesmo sagitário? Evidentemente, se ela for vai perceber que há bruxo aqui. - Depois, vê-me a Setter, ela deve pensar que eu sou rico, um bom carro, aquelas coisas.
Bim, ouvia, gostava do Leiria. Admirava-o, inclusive. O seu modo de viver mergulhado num diálogo íntimo entre todas as coisas. A sua condição de lado de fora incomparável a viver uma salinha e quarto em penumbra contínua, acima de uma vintena de degraus rangentes e estreitos em cotovelo. - Chegara a dar aulas, escrevera para um jornal de grande tiragem nos idos de setenta. - Um dia tudo mudava. Deixou de trabalhar e passou a ter o ofício. Como o ofício lhe deixasse suficiente tempo livre, fotografa árvores. - Álbuns e mais álbuns de fotografia, empilhados aos cantos, junto aos sofás e a encher a salinha, as paredes, a mesa - árvores - milhares de árvores a sorrirem ou penarem para a objectiva, cada uma com a sua personalidade, cada uma a exibir a sua formalidade. Cada uma a sinalizar um percurso. A capturar sugestões: cabeças, animais, coisas que até aí se escondiam nas árvores. - Mas nada disso era o ofício. - E quando as coisas corriam pior com o ofício, o Leiria vivia com uma mão à frente e a outra atrás. - Tinha de cortar nos passeios de fim-de-semana e no café, no filme. E vivia demasiadas vezes com menos de um ordenado mínimo. - O ofício ia de mal a pior. Já não era o único no burgo, estaria desactualizado talvez - as redes também envelhecem. - Fora o primeiro, mas o que é que isso lhe interessava hoje? Tinha uma clientela selecta e valia-lhe o almoçar e jantar em casa da mãe, ele e a Setter. Mas acaso diminuía a atribulação o encanto descentrado do quotidiano do Leiria? Nem um grau. O mundo do Leiria era à prova de realidade. Um mundo onde castanheiros e penedos podem aparecer e desaparecer e onde todos os encontros são incoincidências mágicas e sinais. - Claro que Bim entendia. Infelizmente para o Leiria, aquela sua história era pouco povoada. - Que mulher, em seu mais imperfeito juízo, abraçaria aquele modo?
- Da próxima contas o desfecho. - Fosse o que fosse, Leiria caía sempre de pé. Ocorreria outro sinal, outra incoincidência, outro teste, um afirmar recuando - e Bim, na margem da margem, ouvi-lo-ia, encantado, pontificar na serenidade da sua divina anomalia.

Sexta-feira, Maio 25

Ele acha!

Bim põe os olhos a rodear as coisas.
O largo estorcer inerme do mar - um branco-azul-verde ligeiramente encapelado e baço que rumorejava para lá do paredão. Um pouco de branco-Morandi, do rosa-Matisse, de amarelo-Gauguin, um ocre que embeveceria Daumier. O empregado: Busto romano, trajes brancos; "figura decorativa sobre fundo ornamental".
Atrás e ao lado direito, a perder-se entre leiras e arvoredo ralo, algum casario branco.

O ar está quente, um calor húmido que se cola à pele. Sob o alpendre a mesa é alva a pesar dardos na sombra - e o branco do fato do rapaz de faces rosadas que os recebe, alveja. - Tem um ar de anjinho à beira de enfarte - cadáver maquilhado, prodigioso arrepiado, incansável recuperador de copos, o rapaz. E a mesa muito bem-me-queres e há perceves e o cansaço de sexta-feira. O medronho teofânico e néctares fermentados. Chá de menta. Bolos também.
Saltaricando, há ninos e ninas morenas de chlapchlap rangentes nos óleos de coco e cenoura, as pranchas de Body Board nos calções coloridos, nos cabelos louros parafinados - e já a despacharem trajectórias - e a voltarem os meninos - e a atalharem à confidência das ondas, declives decalcados de declives como arcos ressurgidos num mar de contrabaixos. Súbito, chove. Bátegas de água estalam brutais, pardas, empestando as janelas. - A corrida que dão os meninos. - Roufenha, atrás, uma canção mole, lavada, a competir pouco com a chuva.

E os olhos de Bim de novo a ausentarem-se. Há peixe seco pelos pátios e varandins. E há uma velha, encafuada em negros, apertada num asco transpirado de cabazes de peixe - a velha vai sentar-se. - Doidamorta, gaja mijada, ouve - é o resentadura, velho podre a mostrar a falta de dentes, o cabelo pingado, sempre a abanar a cabeça e a arfar. E a velha a beber um copo tinto, compacto, junto ao balcão. Não ouve. Os olhos são poços. Não vê.

Restaurant... Rooms, Chambres, Zimmer... Artigos de pesca.

Parara de chover. - Uma última gota, renitente na derrota, estatela-se sofrendo o fim. Pim, reclinado a seu lado, faz um gesto alto. - Cumprimenta um rapaz manco e negro chamado Amir que vai à faca amanhã e emana um cheiro de âmbar. Há hipóteses de ficar bom, de deixar de mancar, diz, e sorve o copo ruidosamente. Vê-se-lhe a língua desbotada enquanto, quase engasgando, afecta o chlapchlap dos meninos repentinamente reemergidos de uma qualquer esquina ou desnível e deita-lhes a língua de fora. - Estás a vê-los? - pergunta. Eram uma praga. Pim disparou um dedo. - Duas de xarope prá tosse, miúdo.
Ainda tinham uma hora. O Samantha completava quantos anos?

O sol a abrasar de novo nos chapeados lá fora e no branco da igreja de S. Pedro. Cheira a cordas e a óleo de peixe, engodo. A cascas de caranguejos a frigir ao sol. Junto ao velho fogão cozinha-se peixe, metades de navalheira e batatas doces.
- Achas mesmo que o Amir ficará bom? - Bim sempre conhecera o Amir naquele passo de subir e descer.
- Ele acha.
Pim põe-se a cantarolar um mascavado amore mio, io ti darò di più…

Quarta-feira, Maio 23

Ulisses no Restelo


E ali estava ele, depois de tanta desdita, a aprender a calar de outra maneira e aquele rendilhado de espuma a esforçar a terra de angra em angra, e ele a escancarar um bocejo, enfarado de repouso, a bocejar a alma, a engolir todo o reino dos vivos.
- Apaziguar-me? O que poderia apaziguar-me, amor? Esta noite bebi com esforço. Pousei as armas. Por vezes pouso as armas. E o arfar de trovoada, se te explico, abafa-me e amolece. E dá-me para sentir medo e dor nessas alturas, as mãos cheias das melhores lágrimas possíveis. E perguntas porque é que não tenho paz? Quando o coração palpita, amor, ouço a brutalidade da paz dos outros.

Segunda-feira, Maio 21

Valor da pena


- Chora?
- Não, não sente nada.
- Então, não vale a pena continuar a bater.

Sexta-feira, Maio 18

Fitos


A arte só tem um fito - dá em pensar o Sr. T. - tornar suportável o insuportável. Fazer como se belo o sinistro. Entretecer-nos ao mundo que é o mundo humano.

The Fighting Temeraire, tugged to her Last Berth to be broken up

A escolha entre estilos de vida não será algo especialmente proposicional.
Até aqui o Sr. T. está de acordo com o Sr. H.P.. Mas o Sr. H.P. é intrinsecamente americano.
Quer isto dizer o quê? O que o Sr. B., francês, e o Sr. C.S.P, americano, diagnosticavam já na segunda metade de Oitocentos - que o modo como um país cresceu não é separável do que ele possa pensar. O que, aliás, é aplicável como regra generalíssima - ao mundo árabe como à cidadezinha portuguesa.
No caso, que se o Sr. H.P. considera que a imaginação artística tem, eticamente falando, um papel determinabte continua a pensar a imaginação como devendo apresentar estilos de vida ideais ou tipos como soluções eventuais a uma pergunta. Deste modo, o Sr. H.P. pensa a imaginação artística como exemplar, isto é, o palco como um concreto, uma espécie de mercado de escravos das ideias de vida. Numa sociedade organizada de determinado modo e apresentando determinadas características imaginárias, o palco exibiria as perplexidades e o catálogo que nos permitiria, simultaneamente, apurar uma nossa reflexão sobre a desejabilidade e o dever e filiarmo-nos, tornarmo-nos figura e parte de determinado filo. Mas a arte não pode fornecer soluções, ela só lida com imagens e a sua composição. O que ocorrerá - atreve o Sr. T. -, é a arte evidenciar as questões que já jazem e fazem a atmosfera. Que, de certo modo, jogue às cartas com o baralho que foi fornecido desde sempre. Sempre de um modo diferente. Que dê matéria às posturas de acordo com o espectro moral possível, com as imagens gerais, com o acontecimento - não, nunca as posturas possíveis ou uma sua combinatória.
A imaginação artística é filha de posturas - pesa o Sr. T. - uma filha que pinta os lábios e as unhas, mas não uma mãe. Uma hesitação, nunca a resposta.

Quarta-feira, Maio 16

Da janela ou havia uma velha e debaixo da camotinha

- Vamos?
- Então, vai ou não vai?
Bim fez caminho distraidamente para se deter a escassos centímetros da porta. A camioneta apoderava-se da rua e revolvia-se em acessos de vigor e acabrunhamentos quase simultâneos como o resfolegar de um animal. Ouviu o cheio dos sons, de sacos, sentiu o acre dos cheiros em fornalha, agasalhados, dadivosos. Por um breve instante, ali, Bim era um ponto de repouso entre a azáfama geral, uma infracção às leis do movimento e, em substância, alguém livre.
O resfolegar do animal subia de tom. Dominava.
Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba.
- Vai um barco a dizer meter-se nele - pensou.

Olhou ainda uma vez a janela. Do lado de lá as gentes confluíam e divergiam ao encanto das correntes, ora distantes ora tão próximas que em estendendo o braço repentinamente arriscaria a violência de um embate. Abriu uma revista que acabara de comprar no pleistocénico quiosque sem que reparasse que comprava, que apontara à senhora, que do interior, como toupeira hesitante mas diligente, lha estendia e já lha entregava e fazia o troco que ele nem verificaria. - Adentro o féretro, os seus olhos fitavam com estupor o tejadilho. - Tentava ver-se a si próprio de longe. - De um outro que o olhasse como ele olharia. - Mas não sabia com que se debatia quando era ele outro, mais sereno, talvez, mais aquietado; e como se distinguiria ele ainda, olhando-se como se fumo e flutuasse assim como se fumo? - Não obstante, ali estava ele, sempre ele mesmo, quase repousado no sintético de pele do assento, a mesma revista mordendo entre os dedos.
Quis lembrar-se do seu primeiro impulso: não ir, não comprar bilhete. Mas sentia-se costurado àquele gesto, àquele bilhete - galopando inadvertidamente um qualquer contágio de destinos.
A posição rebatida permitir-lhe-ia descontrair-se.
A revista intacta, repousada, quase genital sobre o colo. - Pensou-se o passageiro embalado nos movimentos do brigue, o movente movido, enredado no lusco-fusco das meias realidades, uma visão que os olhos ferissem abaixo da linha de água daquilo que está à superfície.

Dispostos todos os bilhetes, salpicados por bancos os viajantes, a camioneta arrancou um violento puxão combinado a todas as suas peças e a concertação dos sons, dos movimentos e dos cheiros empurrou com grande facilidade aquele colosso que já galgava os paralelos, enquanto a porta hidráulica, lenta, conteve o mais que pôde o irremediável.
Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba.

Mise-en-marche, mise-en-scéne -- sorriu.
Chegaria lá para o jantar. Desde a morte de seu pai Bim evitava visitá-la.
Como estaria a velha? Desde que ressequida e arrastada saíra de sua casa, naquela terça-feira, perdera feições. Havia uma lembrança vaga, resumida, mentirosa. Uns olhos azuis de todos os azuis, enquanto a palavra azul não especificava nada. Dizia menos do que olhos ou casa ou mar. Como estaria? - Tinha covas quando ria e umas mãos trémulas como cordas a verter do casaco. Um dia - lembrava como se tivesse sido ontem -, a velha escondera todas as jóias na sanita. Não eram muitas. Por milagre escapariam aos convulsivos ressaltos da água agitada do autoclismo. - Por milagre. - Não fora um canalha em não a ter ido visitar mais vezes? Sim, era um canalha, mas não a iria visitar - limitaria a visita à irmã. - Quando se chega à situação da velha não se tem visitas. Mesmo que todos os dias a visitemos.
- Sabes... assim tenho uma razão, sorriu.
Atravessar os mares num pombo.
- Não serve de nada viver de recordações - disse.
Mas nada mudou e não serve de nada viver sem recordações - não era também assim?
- Vamos? – ouviu.
- Então, vai ou não vai?
- Vai - disse Bim para si próprio. – Vai! - Sem atrito a pomba não voa.

Terça-feira, Maio 15

O meu escultor é um vidente.


"A minha filha conjurou o maligno; e o espírito, q
ue fugiu da inocência, atirou-se àquela velha que se gabava de ser livre-pensadora.
A dança macabra continua toda a noite, e a senhora é vigiada por amigas que a protegem dos ataques da Morte. Chama-lhe Morte porque nega a existência dos demónios. Às vezes chega a dizer que o seu defunto marido é quem está a atormentá-la."

- August Strindberg

Chama-se Dave O'Mara Trevillyan? Claro que não!



Encontrava-se o Quarenta-e-cinco a meio do grande corredor... - Um bom dia! - era o Nove que chegava da venda. Estendera a toalha na rua que subia - onde os tróleis no regresso cheiravam a vaca - último reduto e ameia da cidade. - Fizera também a sua venda, o Quarenta-e-cinco. - E porque o Nove lhe perguntasse de doces, foi vê-lo, distante, confessar-se um simples praticante e mencionar o relativo pouco sucesso. O nove ficou calado. Primeiro muito. Depois, consentiu. Pouco sucesso, aquiesceu. Falaram de doçaria fina e do sabor raro de certos mil-folhas, e depois seguiram silenciados. - Desceram escadas em bonaparte e chegaram a um hall. - O Nove despediu-se com a voz baixa que tinha nessas alturas. - Estava-se num quarto andar. - O Quarenta-e-cinco continuou a descer. Nesse preciso momento, uma imagem assaltou-o. Um conjunto de pequenas artérias, uma massa que levedasse no fluído cefalorraquidiano, pródiga e forte, lânguida, a estalar das águas e grutas como espuma limpa. - O Quarenta-e-cinco continuava a descer, agora com o bolo acobertado no crânio.

Como frutos doces


Um grito imóvel, mordido na boca, sem congelares
e a noite morre nos olhos como terra no tacto.

Sexta-feira, Maio 11

Naves


O navio era de vidro, liso era o mar.
E de um verniz de olhos vinha o pintor depois
antes mesmo das nuvens.

Efeitos e flatos


Anacreonte dependurara-se naquele fio branco de avião e sorria. - Quando pela primeira vez o Sr. T. mencionou o efeito estufa, Anacreonte também sorrira, abrira mesmo o sol para que um brilho lhe encadeasse os olhos, até depreender que mais uma vez falhara alguma figura. - Não se tratava certamente de flores por todo o lado - alguém garantiu.
Anacreonte, cujo primeiro nome era Cândido, era o ingénuo natural - como tipo e na carne. Aquele que serve de nível e no nível da bolha que não sabe a que obedece. - Isto dito, para Anacreonte estar vivo era matar. Degola a degola até que a morte sobreviesse e o trouxesse nos braços, ele ele, já já desprovido de toda a luxúria. - No entretém, era criar nicho, ou em termos correctivos: deformar, transfigurar, cultivar, poluir.
- Mas mais uma vez, era Anacreonte quem estava enganado - não era a vida que ceifava. Fumar mata, dizia-se no packet, e entregavam o cartão de pêsames… achou que do Estado. - Do mesmo modo, já ele apreendera, o nicho técnico era virtuoso - culpado só o alívio das bestas: uma sua nunca especialmente notada flatulência. Flatulência que projectara, num piscar de olho, Al Gore e a fissão atómica - átomo versus dióxido.

Mas era assim que tudo se passava, sempre do modo exactamente oposto. Anacreonte sentiu que apreendia algo de importante.

Catulo



- Implodiu… - dizia o velho comunista e fazia aquele gesto de lançar um pombo-correio.
Bim imaginava o muito velho Platão, escrita a República. O coração do homem estilhaçado em cada letra com sangue - estupefacto por os homens não serem filósofos.
Anacreonte abraçou aquelas barbas brancas, sentiu-lhes uma espessura de cheiro, a aureola ocre à volta da boca que em breve seria peça de museu.
- ‘A causa vencedora agradou aos deuses, mas a perdedora agradava a Catulo’.
- Grande homem era Catulo! - admirou Anacreonte.

Bica que bica, trac-trac, bica que bica


O Sr. T. fez uma carícia à galinha e a galinha deu um ovo quia absurdum, em latim do verdadeiro - Anacreonte sorriu para si mesmo. - Trac-trac, bica que bica, trac-trac, bica que bica. - A mão esquerda lançando a corda e amparando o madeiro. - Trac-trac fazem as réplicas, trac-trac, bica que bica. - Súbito, as íris iluminaram-se-lhe. - Trac-trac, bica que bica, trac-trac, bica que bica. - Só o céptico pode encolher, impugna Anacreonte. Só ele pode professar o quia absurdum - só ele pode festejar longamente os ovos nas galinhas de ouro e só a ele é dado acreditar em mais e menos coisas. - Trac-trac fazem as réplicas, trac-trac, bica que bica. - É então que o Sr. T. acorda - com o ruído do sorriso nos olhos de Anacreonte. O Sr. T. cresceu ao tamanho de não poder encolher – eis quando não, o criado, um laputando, lhe bate nos olhos e nos ouvidos, não vão deixar de funcionar a meio caminho para Glubbdurbdrib. - Trac-trac, bica que bica, trac-trac, bica que bica. - Eis o que ouve o Sr. T. - Faz o que tens de fazer e sorri, dizem-nos os olhos. Porventura os que nos olham em Anacreonte.

Quinta-feira, Maio 10

Com cepticismo, segunda tentativa. Um bom dia para estar com os outros.



- O céptico sempre acaba por afirmar que a verdade não existe ou que é a vida ou a morte - adiantou o Sr. T.. No menos, que a coisa é humanamente inapreensível; pelo mais, que é uma crença nociva à vida. Paradoxalmente, o céptico parece assim pretender à verdade, incorrendo deste modo em contradição. - E no entanto… - o Sr. T. fez uma pequena pausa e exalou um gordo cone de fumo - … desde Aristóteles, sim, pelo menos desde Aristóteles, que este argumento é esgrimido, sem que vez alguma tenha convencido um só céptico.
- …
- … primeiramente, talvez porque essa contradição é argumentativa. Como no paradoxo de Epiménides, não infirma nada. O cretense pode efectivamente mentir ou falar verdade que o paradoxo mantém-se. Depois, talvez porque nunca a raiz do problema possa aí residir, uma vez que o que o céptico visa é o instrumento lógico que o obrigaria - que, em última acepção, ele, céptico, deu o salto. E não propriamente para um enunciado de ordem superior, como disse um inglês, mas para fora do enunciável. Sim. Finalmente, presumo, porque seja o céptico o primeiro a aplaudir quando o lembram que não pode estar de fora. Desde o início, ele não diz outra coisa, na verdade, nem sabe o que isso quer dizer.
O Sr. T. avaliou-se.
Anacreonte quis demonstrar algum contentamento, mas sentindo-se apalpado, mais não concretizou que uma pálida imitação da Mona Lisa Gherardini.
- O interessante… - hesitou o Sr. T. para cofiar a barba - é que o céptico tem ainda isso que se a verdade não existe, todas as verdades são iguais. Outro não dizia Fiódor Mijáilovich. - E no entanto, se todas as verdades se equivalem não estaremos já no engano ou no cinismo? Como bom céptico - continuou o Sr. T. - defendo que o que deste modo se liberaliza não é a crença, mas a dúvida - parou um bocado - … e se a primeira atomiza, a segunda, como se vê, não pára de fazer comunidade. - Trata-se simplesmente…
- … de não haver crença nova que nunca tenha sido vista e velha crença que se não volte a ver – disse Anacreonte e expeliu uma seta de fumo que abriu em pequenas alianças que cresciam.
- … coexistindo ou alternando.
- Liberalização da dúvida?
- Liberalização da dúvida!

Com cepticismo


Tudo repousa sobre crenças últimas, disse o Sr.T., crenças cujas raízes estão demasiado profundas. Anacreonte que admirava o modo como um velho invocava toda a sua juventude percebeu o indivisível e o original. - No entanto, as crenças mudam, e tudo muda quando mudam os deuses – acrescentou ainda o Sr. T..
- Mas isso não nos leva a duvidar quer de toda a crença quer de qualquer sua eventual ultrapassagem? – perguntou inseguro Anacreonte. - Não é um pouco como nadar sem tirar a roupa?
- De modo algum, não - permitiu o Sr. T. - quer talvez dizer que os homens mudam com os deuses em que mergulham mas nunca mergulham em todos, nem totalmente em nenhum. Mas sobretudo, que os deuses, e com eles os homens, mudam e não mudam. Que a verdade é imutável e múltipla. Que se estivéssemos, uma vez que fosse, enganados no essencial, não sobreviveríamos. Que se alguma vez sobrevivemos é porque, em cada momento, sempre estivemos suficientemente perto da verdade . Que…
- … toda a verdade é a vida, na condição de se duvidar disso mesmo!
Anacreonte afastou-se. Fosse como fosse os deuses mudam por si e entre si, e isso, ao contrário do que acontecia com o Sr. T., não o afligia especialmente.
Escusado será dizer que esta postura de Anacreonte punha o Sr. T. num estado correctamente deplorável.

Terça-feira, Maio 8

"A cidade queimada" - M.C de V.





sumido da melodia das sílabas
curava ainda um segredo
no alfarrábio do tradutor de mitos

mas esquivo se tornara o segredo desse rei antigo
a quem os olhos não serviram

conta-se que arremessados à terra mais próxima
a seus pés marcados
os olhos entravam

e como desde então
na cegueira, perdida era a fé

Bim Bim Manuel

Sábado, Maio 5

Um coelhinho de chocolate?


... e um dia, de podermos comer juntos, passamos a juntar-nos para não comer e foi engraçado ...

Barão Munnikhouson ou Munchausen, de Bodenweder, Hamelyn sobre o Weser

Num só dia Anacreonte depenicou uvas americanas, conheceu um anjo, ouviu falar de um castanheiro num lugar de N.ª S.ª de qualquer coisa, lá para a Peneda, que aparecia e desaparecia, e percebeu que estava a ficar velho.

A festa era íntima, umas centenas de pessoas. O anjo era negro, rasta e brasileiro – mas cheirava a anjo, mesmo se a aura não trazia cartão. Anacreonte ouviu o anjo porque também estava undercover. - A desenhar uma elipse, uma centena de anjos custódios azuis velavam distraidamente pela nossa saúde de pecadores. As gaipas, aos pés e a toda a volta, davam um certo rayonnement. Anacreonte pôs os olhos: o merceeiro, o louco, o Satanás, mais três ou quatro ferrinhos - já aqui estavam quando ele nascera, aqui ou em qualquer outro lado. E por um dia os anjos tinham costas.

No caminho para casa um imbecil conta na rádio como ainda é novo para gostar de escrever como o Sr. Antunes e como não tem jeito para complicar.

Novamente debaixo do seu castanheiro Anacreonte olha a taça e sente na boca uma alegria salina de partir. As sereias nunca desistem de Ulisses - mesmo se este vive costeando terra habitada.

Quinta-feira, Maio 3

Divisar


... um modo de encher a paisagem de linhas, de apurar a teia ao radar. De ver antecipadamente. De atirar bolas e ver o que acontece. Reduto, reino dos sinais, desenhem-me por números. Desenho-te por números.
Radar. Pistola.

Tabelas de violência e santos em granito


Por vezes Anacreonte salta e expande-se, escoicinha a aorta, explode consigo
(todos somos pequenos homenzinhos em algum lado de Anacreonte).

Electrocardiograma


A coragem é metade de tudo, mas há uma mancha, uma atmosfera que pesa uma linha em que pouco somos chamados - observava o Sr. T., meditabundo. Terá sido nesse solitário momento que o pintor o retratou, ao fundo, simbolicamente amparando a empena.

Quarta-feira, Maio 2

Sem intenção


Imagem a imagem a figura, a exclamação, o símbolo que outros apontaram. E não há modo de trazer à superfície o inabitado. Todo o esforço completa-se em alguma coisa outra: a transfiguração das palavras, imagens, histórias de que somos a breve intenção.

Terça-feira, Maio 1

Innermost thoughts


Anacreonte olha os olhos pássaros e fala-lhes do amor, da morte, de vento e por um momento breve esquece-se de si. Mas logo no momento seguinte, vê um alvo ser muito bem pintado na melhor roupa e, diligente, o aço das lâminas que lhe procuram o corpo.
Ao fundo, o Sr. T., aos pinotes, provido de tanga, a lança em riste, parece gritar ritmadamente qualquer coisa relacionada com os episódios em que Cristo queima a erva má e seca a figueira.

"... year after year, down into the unknown" - F.H.


mergulho na boca da onda e só ganho a vida no limite do palato
é essa a água onde os torsos são fundos e os vórtices são corpos e macios para o mergulho.
e quase foges, no momento antes de rasgar a pele
de furar o cano estreito por onde passarei
por esse quadro, dentro de uma metáfora.

tentei, é verdade, segurar pulmões frescos
recortar-te uma imagem do amor dentro da história
mas a feiticeira era a onda da onda.
a formiga que era um dragão que era uma formiga.

Manuel Bim Formiga

O Sr. T. foi à praia


Se o Sr. T. sabe que é apenas o seu peso que faz o sulco na areia, também sabe que o seu sulco terá feições habitáveis e propagará o modelo. Sabe. Mas apenas porque assim é. Trata-se, como com os elefantes do Gabão, de manter o trilho. Apenas uma arte de se amarrar ao mastro e olhar de frente a insónia do mar.