
- O que há de maravilhoso num ser de outro planeta? - perguntou-se o Sr. T.
"Não existe imagem certa do Sr. Teste. Os seus retratos são todos diferentes." p. valéry


- Sempre à mesma hora, entendes?
Bim põe os olhos a rodear as coisas.
A escolha entre estilos de vida não será algo especialmente proposicional.
- Vamos?
- Então, vai ou não vai?
Bim fez caminho distraidamente para se deter a escassos centímetros da porta. A camioneta apoderava-se da rua e revolvia-se em acessos de vigor e acabrunhamentos quase simultâneos como o resfolegar de um animal. Ouviu o cheio dos sons, de sacos, sentiu o acre dos cheiros em fornalha, agasalhados, dadivosos. Por um breve instante, ali, Bim era um ponto de repouso entre a azáfama geral, uma infracção às leis do movimento e, em substância, alguém livre.
O resfolegar do animal subia de tom. Dominava.
Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba.
- Vai um barco a dizer meter-se nele - pensou.
Olhou ainda uma vez a janela. Do lado de lá as gentes confluíam e divergiam ao encanto das correntes, ora distantes ora tão próximas que em estendendo o braço repentinamente arriscaria a violência de um embate. Abriu uma revista que acabara de comprar no pleistocénico quiosque sem que reparasse que comprava, que apontara à senhora, que do interior, como toupeira hesitante mas diligente, lha estendia e já lha entregava e fazia o troco que ele nem verificaria. - Adentro o féretro, os seus olhos fitavam com estupor o tejadilho. - Tentava ver-se a si próprio de longe. - De um outro que o olhasse como ele olharia. - Mas não sabia com que se debatia quando era ele outro, mais sereno, talvez, mais aquietado; e como se distinguiria ele ainda, olhando-se como se fumo e flutuasse assim como se fumo? - Não obstante, ali estava ele, sempre ele mesmo, quase repousado no sintético de pele do assento, a mesma revista mordendo entre os dedos.
Quis lembrar-se do seu primeiro impulso: não ir, não comprar bilhete. Mas sentia-se costurado àquele gesto, àquele bilhete - galopando inadvertidamente um qualquer contágio de destinos.
A posição rebatida permitir-lhe-ia descontrair-se. A revista intacta, repousada, quase genital sobre o colo. - Pensou-se o passageiro embalado nos movimentos do brigue, o movente movido, enredado no lusco-fusco das meias realidades, uma visão que os olhos ferissem abaixo da linha de água daquilo que está à superfície.
Dispostos todos os bilhetes, salpicados por bancos os viajantes, a camioneta arrancou um violento puxão combinado a todas as suas peças e a concertação dos sons, dos movimentos e dos cheiros empurrou com grande facilidade aquele colosso que já galgava os paralelos, enquanto a porta hidráulica, lenta, conteve o mais que pôde o irremediável.
Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba.
Mise-en-marche, mise-en-scéne -- sorriu.
Chegaria lá para o jantar. Desde a morte de seu pai Bim evitava visitá-la.
Como estaria a velha? Desde que ressequida e arrastada saíra de sua casa, naquela terça-feira, perdera feições. Havia uma lembrança vaga, resumida, mentirosa. Uns olhos azuis de todos os azuis, enquanto a palavra azul não especificava nada. Dizia menos do que olhos ou casa ou mar. Como estaria? - Tinha covas quando ria e umas mãos trémulas como cordas a verter do casaco. Um dia - lembrava como se tivesse sido ontem -, a velha escondera todas as jóias na sanita. Não eram muitas. Por milagre escapariam aos convulsivos ressaltos da água agitada do autoclismo. - Por milagre. - Não fora um canalha em não a ter ido visitar mais vezes? Sim, era um canalha, mas não a iria visitar - limitaria a visita à irmã. - Quando se chega à situação da velha não se tem visitas. Mesmo que todos os dias a visitemos.
- Sabes... assim tenho uma razão, sorriu.
Atravessar os mares num pombo.
- Não serve de nada viver de recordações - disse.
Mas nada mudou e não serve de nada viver sem recordações - não era também assim?
- Vamos? – ouviu.
- Então, vai ou não vai?
- Vai - disse Bim para si próprio. – Vai! - Sem atrito a pomba não voa.

"A minha filha conjurou o maligno; e o espírito, que fugiu da inocência, atirou-se àquela velha que se gabava de ser livre-pensadora.
A dança macabra continua toda a noite, e a senhora é vigiada por amigas que a protegem dos ataques da Morte. Chama-lhe Morte porque nega a existência dos demónios. Às vezes chega a dizer que o seu defunto marido é quem está a atormentá-la."
- August Strindberg







Num só dia Anacreonte depenicou uvas americanas, conheceu um anjo, ouviu falar de um castanheiro num lugar de N.ª S.ª de qualquer coisa, lá para a Peneda, que aparecia e desaparecia, e percebeu que estava a ficar velho.
A festa era íntima, umas centenas de pessoas. O anjo era negro, rasta e brasileiro – mas cheirava a anjo, mesmo se a aura não trazia cartão. Anacreonte ouviu o anjo porque também estava undercover. - A desenhar uma elipse, uma centena de anjos custódios azuis velavam distraidamente pela nossa saúde de pecadores. As gaipas, aos pés e a toda a volta, davam um certo rayonnement. Anacreonte pôs os olhos: o merceeiro, o louco, o Satanás, mais três ou quatro ferrinhos - já aqui estavam quando ele nascera, aqui ou em qualquer outro lado. E por um dia os anjos tinham costas.
No caminho para casa um imbecil conta na rádio como ainda é novo para gostar de escrever como o Sr. Antunes e como não tem jeito para complicar.
Novamente debaixo do seu castanheiro Anacreonte olha a taça e sente na boca uma alegria salina de partir. As sereias nunca desistem de Ulisses - mesmo se este vive costeando terra habitada.


