Quinta-feira, Junho 28

Arbeit macht frei!


Era uma vez um outro mundo, nesse mundo o Sr. Pinlim aparecia num consultório como se tomasse a avaliação dos seus recursos em mão. O coração batia magister na caixa torácica. Os pulmões aguentariam sem dificuldade mais trinta anos de alcatrão e os rins encafuavam-se, sem história, na zona lombar. O sistema digestivo poderia causar-lhe algum embaraço, mas jamais o mataria.
- Nada - disse-lhe o médico -, encaminha-se saudavelmente para a morte.
- Mas, Dr., ele precisa de procurar repetidamente a morte. - Não poderá compreendê-lo. Os excessos revitalizam-no, dão-lhe uma elasticidade que os músculos lhe roubaram...
- Nada. Tanto quanto as máquinas foram bem treinadas, não há nada, Sr. Pinlim , na realidade é, dada a sua idade, tão são como um fruto que a casca ainda não feriu demasiado. Não há sinais de Milnip.
- Mas devia haver algum sinal. Sabe, Dr., ele sente-se num continente estranho que explora e teme e, no qual, erige-se das aventuras de exploradores e antropólogos. Necessita de fazer coisas inúteis como rolar por terra, para baixo das mesas, nos cafés. Apanhar moscas com a mão. Pintar lambris. Passar três dias a dormir para conseguir sair de dentro da lâmpada do génio onde, vai não vai, mergulha.
- E como lhe bate o coração nesses momentos?
- Taquicardia! Taquicardia! - E eu tranquilo como um lago com cisnes!
- Nada, Sr. Pinlim , peço desculpa.
- Não percebe, o Dr. não percebe. Ele gosta de viver circunstâncias em que acredita como se não as houvesse ele criado. Escrever a obra como se fosse o escritor, juntar-se a corsários sem causa, a mercenários como se fosse o aventureiro - ser o amigo de bocal do M.L., o branco negro de W. F., o amante de M. D.. Tentativas e tentativas de ser a essência de qualquer coisa fora dele, que todos sabemos não existir. É claro que aí também reside todo o humor da situação: ser soldado e herói e bandido a olhar para o espelho de camarim que se avista do palco e seguir a fazer poses à morte, desempenhando um seu género - o acidente. Mas não será normal... Eu não fico normal, depois da passagem de Milnip.
- Todas as criaturas são uma arrogante intromissão na morte e todas ao seu seio regressarão. Entretanto, constroem impreterivelmente a casa. - Podem ter os nomes que quisermos...
- Mas o Dr. ouviu o que eu disse? Ele não comparece, simplesmente porque ele é sempre outra coisa. Procure em outras coisas e... encontrará Milnip.
- Nada a fazer, Sr. Pinlim, foi dado como psíquica e fisicamente são. Amanhã entrará ao serviço. Ah, terá de cumprir as horas em falta pelo que perde os fins-de-semana durante seis meses.
- Mas...
- Isso é o seu problema. Caso se indisponha, estou aconselhado a apresentar-lhe as Páginas Amarelas.
O Sr. Pinlim entrara no futuro catapultado pelo exame médico. Não só já não estava doente como nunca estivera doente - o exame médico especializado garantia-o no escalão dos quarenta anos, em termos de força de trabalho - maravilhas da ciência! Não só nunca estivera doente como rejuvenescera, adiando-se a a reforma que estava a dois passos. São como um pêro, era o veredicto. Nenhuma alusão aos traumas de guerra que o projectam para o chão a meio do trabalho e do café, à esquizoidia delirante. Nenhuma referência à sua quase completa surdez. Haviam-lhe mesmo devolvido a perna que a mina estilhaçara, enquanto lhe retiravam as regalias, como agora se lhes chamava, que a condecoração que não trazia ao peito dizia conferir. Era uma perna forrada a pele verdadeira, com uma excelente imitação de veias. Em baixo, na sola do pé, em vez do made in china estava simplesmente escrito: 'Arbeit macht frei!'

Quarta-feira, Junho 27

Sem título


A selva, meus senhores, está por dentro, dizia o velho. Bem no meio do verniz que estala, assegurava. - Atentai nos vizinhos antes que se vos atirem as primeiras pedras! Eles estão cheios de razão e nunca sabemos de seu juízo final. - E o problema não é se eles farão melhor, mas se nós fizemos o melhor.
O Sr. T. ouvia o velho. Quem era o nós? Quem era o ele?

Le Violon d'Ingres - M.R.Y.

a pedra não fala e ninguém lhe escreve
porque a pedra fecha-se
com as pedras seus pares
mesmo se gritasse
(a pedra fala para si em voz alta)
ninguém ouve as pedras - e elas pouco se ouvem entre elas
e porque se haveria de ouvir o que canta uma pedra
se a pedra não é pássaro e nem mesmo o seu galho é Setembro?
a pedra gasta-se apenas menos do que a íris
porque a embriaguez da pedra é total
desconfortável - não dorme
e porque as pedras ainda que primas dos ossos
não lhes reconhecem o rosto.

- foste pedra, planta e animal e agora és humano
- não, agora fui pedra outra vez
(mas ninguém sabia)
e a pedra está triste porque a lua existe
e ela não percebe talvez porque as pedras não percebam o que insiste
e a senhora do pomar a fitar-te com os olhos pequenos
e dissimulado há um homem pequenino debaixo de cada pálpebra
dois humanos em miniatura que te analisam
e os dois homenzinhos
a escrutinarem a própria exactidão do modelo
e o diagnóstico: este é o que fala com os pássaros
que ninguém vê
o que não enxota os insectos
e calcorreia os palácios pelas varandas
o que diz que duas almas nunca se encontram por acaso
num museu.

e logo ali
a perseguirem-te porque um pássaro te falava
e a tua vizinha a olhar de baixo
para a tua varanda
está à minha procura, decerto - pensas
também ela já sabe, tu és o homem que fala com os insectos
e designa as aves pelos nomes mais privados
sim, todos sabem, agora apercebes-te
e tu a pensar que se não pensares nisso
a vizinha de baixo pode desaparecer
e, afinal, tu ali, debaixo do cipreste
em frente dela, abaixo da varanda
o único que levanta o dedo que quer responder à chamada
mas como poderia a tua vizinha adivinhar-te ali, a pedra enredada nas raízes do cipreste

e a senhora do pomar
sempre muito simpática
a remexer o quieto do seixo e a dizer da fraga
- sabe, os pássaros não existem
são pequenos sáurios
o senhor não existe, continuava ela
sim, tratava-se de um hiato desabitado
eu apenas tinha quatro paredes como toda a gente
e um vazio que ela dizia habitar
o senhor não existe, a sua geração não existe
- a cliente a abanar a cabeça, que sim, que era verdade
como podia ele saber a linguagem dos insectos
ele que sorria àquela gente.

dos pássaros a voar
claro que o mineral sabe que nada é seguro
(acontece, foi-lhe dito, certas rochas desfazerem-se em cúmulos)
mas não se pode dizer que lhe interessasse
pelo que nada opunha ao perigo
não sendo voraz, aquela rocha podia ser cinza

e de repente
é a tua vizinha a perscrutar a varanda
- está a falar com a senhora do pomar que aponta
(mas como eu não existo decido não ligar
estão a falar do que não existe)
a dar nomes aos olhos
e a senhora do pomar a fitar-te com os olhinhos pequeninos
com os dois homenzinhos ao canto do olho
a tomarem notas como se soubessem um segredo
e tu a compreenderes o coração daquele sorriso
- afinal, é das pedras o terem raízes
o tempo profundo, a longa história
as noites do frio
minúcias mais do que se pode.

apascenta-se flores sãs e doemo-nos devagar
a fiar a sorte, como se tudo contasse como um segredo do universo
pode ser que o infinitésimo tenha uma fisionomia
pode ser
pode ser que Alice já não more ali
pode ser
pode ser que essas notas te salvem da antropologia
pode ser
mas para a pedra tudo é embriaguez de totalidade
mesmo um rosto nunca é suficientemente lento
e só mesmo talvez os anjos
se não existirem ou forem um fumo
saibam da língua de pedra
o que nela se cala, já sem pose, a olhar o cipreste
onde nenhum animal acordará.

Alberto Velho

Fuel Dress Uniform


'Blair envoy for the Quartet group of Middle East negotiators'.
O Sr. T. estava boquiaberto. Porque não um trio, com o discreto Sr. Bush e a amável Dª. Condolências?
Já agora, porque não os manos polacos, Putintin e o Querido líder?
O Diabo, como sempre, já escolheu.

Terça-feira, Junho 26

O - PTI-CIEN



Se havia coisa que Anacreonte admirava era o tom desenvolvimentista, épico, que hoje irrompia entre os grandes e poderosos cachorros que queriam ser pequenos cães, um pouco como os países que queriam ser baixos. Anacreonte, esse, era da estatura que tinha.

Falam... faz parte


Há os que pensam que ética é algo que vem no sangue como o azul, mesmo como verde, mas nunca como o vermelho - mesmo que seja tudo uma questão de bons e maus exemplos. Falam do quê? Quando olhas do teu olho solar, primo, peço-te, não comentes o modo de falar do meu casoto - não ajuízes do valor da minha moral, a menos que queiras vir viver comigo e saber como se cresce como cresci - há umas chapas ainda válidas e uma porta erguida a céu descoberto, mesmo ao lado da minha decadência, ofereço-ta. Vem. Quis deus que antepassados ali plantassem o limoeiro e, primo, crescem verdes os limões nos meus rins. E puseram-me pedras entre os troncos, primo, e uma velha, quando passa e estou a jeito, vai de varapau - a ver se amadureço, debalde, primo, até hoje não amadureci. - Grande merda, pensas, morrer verde dos limões! - Tens toda a razão, primo, mas em que é que é melhor morrer podre? - à minha volta morre-se sem dentes, sem pernas, sem critério. Sempre se apodrece cedo. Morre-se porque acabou, desde que nasci. - Sabes o que é uma personagem, primo? Morrem porque acabei. Morrerão sempre que alguém acabe. A ética? - Falas de boas maneiras ou falas-me de homens? - perguntaste. Mas não era eu quem falava, nenhum eu falava desde o princípio, pelo menos não por aqui. Persistias. - Quem fala de ética? Não te saberia responder, saio pouco como sabes, falam... faz parte.

Segunda-feira, Junho 25

Questões de mais que trapos

Não recordo quem disse que o homem erótico não pensava a mulher sem pensar o vestido. Mas hoje, atravessava tranquilamente a rua em frente a uma loja de vestidos, essas palavras assaltaram-me, portadoras de um sentido inusitado - disse o Sr. T.. Depois, num tom mais baixo acrescentou:
- Súbito, apercebia como a ciência não podia ser erótica, mesmo sem se lhe poder negar algum sex appeal, e que a religião sabia vestir, mesmo sem que o tivesse.
Não deixava de ser algo inesperada, esta associação. Mas agradou ao Sr. T. que seguiu as mãos atrás das costas, assobiando.

O meu nome é Rodeiome


Uma vez, o Sr. T. presenciara o delírio de um homem e de uma cidade. O homem descia a avenida cheia de gente e, mãos na cabeça e sobre os ouvidos, berrava desalmadamente. Chegava à praça, dava duas voltas e encetava o percurso inverso, rua acima, sempre a berrar - um berrar intervalado, apenas, pelos surtos ar que o acalentavam. A cidade aparecia em minguante, a investir a crina e os talentos em sentido contrário. O ruído que antes rodeava os homens resolvia-se num silêncio carregado de condenação. Os automóveis pareciam deslizar uma imensa tristeza porque o homem berrava. Os homens baixavam os olhos para o interior dos casacos e, curvando-se, ruborizavam. Mas o homem, a face absorta, berrava por eles, contra eles. O homem gritava. E o grito era virtualmente contínuo. Aborrecido. Intimidante. Temivelmente convidativo.
Felizmente, munida de auriculares e vastos camaroeiros, chega sempre a polícia montada. E enquanto a polícia constrangia o homem, o Sr. T. pensava em Jericó.

Sábado, Junho 23

Filme italiano com gaiola de pássaro.


- Descobri que tenho um bom leitor - exclamou Anacreonte, como se estivesse sozinho e voltasse a si ouvidos.
- Alguém que sabe rir do que lê? - perguntou o Sr. T..
- Exactamente, alguém que ri bem e com gosto. Melhor, alguém que me faz sorrir.

Sexta-feira, Junho 22

De facto


- mesmo que não ouçamos já as sereias
somos esculpidos pelas nossas estátuas para sermos dissecados nas nossas imagens. Mas não há eu por debaixo destas máscaras, apenas um anti-rosto, apenas nós de relação.

De pouco senso - porque não?


Naquele lugar virtual pontificavam um sábio e alguém que enjeitava toda a responsabilidade.
Um e o outro contavam-se mutuamente histórias. - Ocorria que o sábio estava sempre sobrecarregado e alguém enjeitava toda a responsabilidade - bem no meio o muro circular afundava o poço onde Bim contava histórias para ninguém.

Entretanto, há quem, como pequenos Dedalozinhos, faça bioarte - manipulando artisticamente genes. Porque não um belo minotaurosinho?

"Mistério e melancolia de uma rua "- M. G.R.T.E. - Poema do amor casado



preenche-me como um casaco por dentro
da fome, da falta de dinheiro
a mulher de quem sou o caderno de campo
a fêmea que me fixou numa curva das Throttleman

conforme determinaram nossas naturezas
gosto de vê-la quando fala o raio de sol e o seu rosto se move
ouvi-la quando me olha
a menos perfeita rosa do seu jardim

se faz bolas de gelado de amora
silvestre digo que temos de ir ao fundo da questão
se é entrada a noite e muito já dormem as sereias
- e porque a borboleta ame a rosa

da necessidade
pergunto-me se há num caderno de campo
enquanto só os olhos masturbam dela os lençóis
nocturnos na confissão de amor

Manuel du Bim Maria

Quinta-feira, Junho 21

Para ver o que acontece...

Porque se continua a escrever uma história que já terminou? - perguntou-se o Sr T.
Anacreonte não entendia o espanto. Para a rebentar, para, uma vez feita, a desfazer. Para ver o que acontecia se a quiséssemos continuar. - Não seriam razões suficientes?

- Então, pá, já és o homem da casa?


Rasgou a rua estreita que após a porta se esgueirava à direita. Não era longe. Talvez o mar corresse já sob as tábuas do chão. Talvez tivesse a intenção desesperada de um rio pronto a romper as margens de pau. Talvez a casa estivesse prestes a ruir, e não apenas em sua memória. A velha casa dissimularia a violência de um vulcão. Recordações sulfídricas, irrompendo inadvertidamente a seu cérebro. Dos lodos da memória espremeria imagens da mãe, dos velhos, das formigas, de receio e medo, do pai, da casa... recordações de uma visibilidade imperfeita. Uma estranha solidão recapitulante como aquela que fornece material às insónias; o regresso do filho pródigo. Percorreria o túnel longamente escorado, ameaçando o desabe. O cenário era agora de mesas à direita, mesas de um café de arredores, caras imóveis de bêbados, putas, cortadores de gargantas, desempregados com a suavidade de uns olhos toldados pelo vinho a rodos, pelos comprimidos, pelos paraísos. O cenário a cortar à esquerda na esquina - todos os pormenores de um muro em alvenaria, branco e ocre, uma velatura de meia-de-mousse escura. - Estugou o passo.

Os olhos que presenciavam a morte que ali se construía devagar eram como grossos poços de breu tragando a tragédia à distância. Nem a teriam notado. - Quem? ... a D. Fulaninha? - Aquela que tem o filho longe? - Os seus olhos encararam os olhos dos vivos como um medo que se afrontasse. Entre os pinheiros, na Rua de Trás, debaixo do velho castanheiro, no jardinzito, os passos matariam as formigas. - Milhares de formigas desenhando linhas serpenteantes, crescentes, ziguezagues. Bim evitava calcá-las. Observava, rodeava-as - e a cada volta mais se lhe estrangularem os passos. - Teria que idade então? - Calcaria uma linha observando a devastação - os pontos que se individualizavam gesticulantes, debatendo-se como polvos ou línguas, e esfregaria com a palma do pé as linhas serpenteantes e sentiria estranhos pontos de frio, pequenas carnes como arames a besuntarem o pavimento, manchas como borras de café esbodegadas e óleo. Do outro lado da rua, o tacto pálido do Sr. Figueiredo a alastrar sobre os géneros que espasmódicas as moscas digeriam - o pó miúdo por tudo o que é nesga, duas natas e uma metade rendilhada de queijo numa redoma convertida em kindergarten para dípteros.
- Então, pá, já és o homem da casa? - o Sr. Figueiredo a dizer por cima de uns pequenos óculos de arame, os lábios secos - Olha lá, queres trabalhar connosco? E as formigas a correrem oblíquas para o pacote de açúcar ao canto, caído. - Ao fundo da rua, uns putos a galgarem uma vedação (o que iriam fazer?). - E em frente, depois do cimentado, o mar, sempre o mar, as águas revoltas perfurando o lençol de céu que o vento revolvia em redondos turbilhões. A barra açoitada pelas vagas. Tudo a ganhar redobradas atenções. - O desejo de num arremesso que viesse de cima pisar outra vez as formigas, o Sr. Figueiredo, os olhos violáceos, a mãe, com a inocência que tivera e que estava definitivamente perdida.

E os dois velhos de sempre sentados no velho banco vermelho no jardim fronteiro à casa. As mesmas mãos engelhadas, os corpos nas roscas e pregas dos trajes de lázaros. - A seus pés, íntimo, encolhendo-se, o cão. O cão ergue-se de um salto. Os velhos moveram-se um pouco - o suficiente para não serem importunados pelo cão. Bim ampara a grade. O cão investia. Os olhos ficavam para trás.
- 'Seja feita a Vossa vontade' - exclamou.
No momento seguinte, Bim, de tornozelos cruzados, era, a três metros do chão, a estranha cabeça de um poste de iluminação para que um cão ladrava. O mesmo lampião frente à casa e ao janelo da infância - os mesmos velhos a franzirem o sobrolho, a olharem-no com desfavor.
- Achou que aí não o encontraríamos? - ouviu então.
- Já tentaram mais e melhor... não é nada original! - dizia uma outra voz.
Olhou para baixo, ferido pelo gume de luz. Ao fim de um instante, conseguia divisar oito braços e o mesmo número de pernas como se a base do lampião tivesse sido redecorada a azul e castanho. Alguns segundos depois reconhecia aqueles quatro vultos de óculos escuros aos estremeções. Mais atrás, percebeu com espanto os vultos erectos dos velhos que o fitavam pesadamente. O cão desaparecera - e já só ele teria o pêlo hirto. - Quantos passos? - pensou.
- Cinco passos de gigante - disse a primeira voz. Os putos a galgarem outra vez a vedação, agora em sentido contrário (o que teriam feito?).
- A sua mãe está a morrer?

Quarta-feira, Junho 20

O espectador como arqueólogo



“O presente nunca apresentou uma textura uniforme, por muito que o seu registo arqueológico possa parecer-nos homogéneo. Este sentido do presente que vivemos em cada dia, como um conflito entre representantes de ideias tendo idades sistemáticas diferentes e todos eles competindo pela posse do futuro, pode ser enxertado no mais inexpressivo dos registos arqueológicos. Cada fragmento, cada caco, testemunha, silenciosamente, a presença dos mesmos conflitos. Cada material que ficou é como que uma lembrança das causas perdidas cujo único registo é o resultado logrado de várias sequências simultâneas.”
- George Kubler, The Shape of Time

Terça-feira, Junho 19

Anunciação


E tudo girava à volta do amor, não era assim? gostarias de ser um gnomo? A questão é esta, haverá razão de ser gnomo? malambarices?, moços tortos te fazem a comichão que agora se te ressente. E se fosses duende? - não havia a velha, também não haveria as ninas, as louras e as Célias, o dom de alvoraçar e conquistar virginalmente, não, nem... ah, passar definitivamente ao “vocês”, um trespasse fisiológico - e não haver senão o lento de depois do império dos sentidos.

Ali vivera quase quinze anos, naquele quarto recortado, condensado, aberto no medo de perder-se. Nunca fora para o mar. O mar permanecia, em movimentos de granito, gravado no silêncio do seu sangue. Sabia-o quando olhava as vagas corroendo a areia, talhando os rochedos. Sabia, quando o olhar partia à preia-mar da madrugada a seguir os barcos soturnos a perderem-se na neblina. A seus olhos o azul era forte e espesso como as teias de um fado. Não sabia que tudo é mar.
Bim está sentado e olha para lá da janela que o subtrai à inconveniência das moscas e dos ventos. - A talhada de serra cinge-lhe agora os olhos. Tenta pensar que está longe do mar. - Resguarda no entre-olho a camioneta ainda, e já uma rua impelindo-a. Uma cidade já lá para trás, um passado, o seu, insaciado, que volta, a imagem do quarto, da mãe, já menos distante agora, um letargo indescritível, e, agora lerda, a imagem de si, a revista sobre o colo, aberta nos sublinhados, e um título, Daydreaming--Experiments reveal links between memory and sleep, de um tal John Horgan. E sim, era esta a sublime arte da escuta. - Bebeu o café, trincou um bolo de arroz seco.


Quinze anos. - Quinze anos habitando aquela catedral estreita, apertada como uma camisola de tripa. O tecto exageradamente sovado pela humidade, manchas escuras e mais claras e largas e luas, flores de humidade e fumo. - Viu-se ali deitado de novo. Era o seu quarto, claramente, as manchas como um denso arvoredo ou sangradouro de suores velhos espraiavam-se gorgolejantes por sobre todo o corpo das paredes. Nunca as sentira tão apertadas, aquelas paredes que agora o sufocavam, o contornavam, sem que um cabelo coubesse de permeio - sentiu-se rodeado como por um antigo braço de pedra que o sorvesse, o esfregasse de contra as manchas que já não olhava. A cama era quase todo o espaço. Uma mesa do lado, caturrenta, da itinerância de quartos de terceira ordem em hotéis desafamados, uma gaveta a meio, três tábuas de nogueira esbeiçadas, corridas a verniz-cera, queimadas aqui e ali, e uma cadeira ao fundo defensivo, vermelha, algo desenclavinhada, descascada como uma laranja a que se houvesse retirado raspas para compota. Ligeiramente para o lado, púrpura, o cadeirão cardinalício, esforçado, a avantajar-se, a devorar o pequeno quarto. - Viera mais tarde. Recolhera-o do lixo, junto ao patriarcado.

E ali estava ele, ele-Bim, no centro de tudo, embrulhado de si, uma solidão agora examinada, vigorosa, olhando mal a ocidente, a oriente. O centro onde afinal as paredes o não guardariam - a ele-um, o ele-scriptor, alguém que engrossava no quarto ou à volta e contava a alguém. A pele queimava-se-lhe sob a pouca luz que abria do janelo e o quarto era um silêncio e um reumático. Apenas a luz rompendo a golpes de bisturi uma acamada penumbra. E era assim: Um. Um, a casa. Um, as recordações desordenadas como são sempre as recordações de um homem novo. Um, o compasso de espera, a demora, os passos recuando - minha mãe, quantos passos? A noite a querer repetir-se. As estrelas fixas, que podia jurar que se moviam, mas que apareciam sempre, impávidas, no lugar que se esperava. Afastou o prato e para que os papéis não voassem colocou a chávena por cima de tudo. Levantou o dedo indicador.
- Queria pagar... - disse quase demasiado baixo, quase escondendo a face.
- Quando fugia de casa trepava ao poste de iluminação... seria simbólico, é no que quero acreditar - exclamou.
O empregado sorriu, decerto por gentileza. - Que podia ele saber? De qualquer modo, não lhe parecera trocista, mais como se também lhe acontecesse. - Mesmo que fosse dali era bastante mais novo. Não podia recordar nada. Não podia saber nada. - Levantou-se, recolheu a revista e a maleta, baixou a cabeça e seguiu sem olhar para trás.

Sábado, Junho 16

Um dia, Sanchez Cotán fechou as asas no Hipermercado


E um dia, talvez haja um índice de imagens - desses com nomes verdadeiros nos lugares certos. De momento, Anacreonte desliza.

Sexta-feira, Junho 15

A ponte e a regra


- ... mas não percebi.
- Digamos que é a parábola da relação - dois mais ou menos dois - uma táctica de sobrevivência. Acontece que sobre essa ponte suspensa os homens fizeram ringues de patinagem artística e que as famílias aí fincaram as cadeiras e os chapéus cresceram para o sol. Depois vieram os poços, as liteiras para evitar os poços e as cítaras. Depois, os corpos agitaram as cidades e o perigo circundou-as. A lógica trouxe o livro, o esplendor das trompetas e a súplica. O servo e a gleba, a matilha e as cabras. A nossa leitura da vida e da morte. - Anacreonte parou.
- Está a tentar dizer que a lógica...
- Não estou a tentar dizer nada que já não tenha dito.

Tio Anacreonte, o que é a lógica das coisas?


Anacreonte
estrelejava sobre o pouco piedoso cascalho os sapatos velhos, o olhar absorto nas colinas ao longe - sentia-as particularmente desgraciosas, como casacos que pousassem ao fundo de uma sala, quase todos em tons de verde, coçados - acossados pelo líquen da cidade. A toda a volta, o chão tapava-se de casas e aqui e ali uma grua pontificava. As montanhas tinham pés de gesso e artérias de ferro. Em toda a rua par
assomava um engenheiro - nas ruas ímpares, um especialista. Um carregado de casas, o outro diminuído pelo peso das instituições. Por todo o lado, em passo curto e concentrado, os dedos abotoando o casaco, o prestamista e o receio da puta. O dia e a noite a actualizarem-se. O beijo e o canivete - o dinheiro (de que só diz mal quem não lhe falta, diz o dito). As casas que caiam dos ombros de um dia para o outro para logo se reerguerem os berços new look. - Por outro lado, o mundo era belo - garantia-o. Para Anacreonte o feio era um quesito de moral e nós podíamos maravilhar-nos com isso. - Quando fechasse a porta, fechá-la-ia com pena.
- Estava Anacreonte nesta disposição, quando a realidade saltou.
- Tio Anacreonte
, o que é a lógica das coisas?
- Digamos que tudo começa no 2 + 2.
- E...
- Acho que também acaba aí.
- Então?
- Exactamente, começas a perceber.

O Coleccionador

Era uma vez uma necessidade de renovação permanente do que interessava e deixava de interessar. E havia um coleccionador a quem o que interessava não era o que interessava e deixava de interessar, mas o que mantinha um interesse - o seu interesse, claro, não tinha outro.
E o coleccionador contava a história daquele povo nómada que onde parasse para pernoitar estendia uma mesa, ao centro, e nela, dispostos como títulos na montra da livraria, a figura dos tesouros de cada um. Depois, continuava: - A coisa de arte serve ao entendimento e razão da tribo - a comunidade de fiéis e de súbditos. - Isto pensava o coleccionador. - Depois, foi a morte de Deus - disse. E a projecção dos fiéis e das fidelidades. - Nos nossos tempos, talvez a pulverização extremada viva à sombra de Babel, é como se um deus que ainda não conhecemos quisesse vingar num incêndio...
- Ora porra, ideias... - rebentava Anacreonte. - E o jogo concreto com as coisas, o viver em faz-de-conta, a manha da criança que aí finca os pés e teimosamente se embriaga da falta de terreno? - O coleccionador parou, levou a mão ao queixo e apertou os lábios. - É o velho nó - o que há de mais bizarro, o que faz de nós criaturas tão estranhas como as hordas de animais. - Não pararam os físicos no mesmo sítio? - Porventura, mais intenso o homem, mais intensa a obra - mas a mais intensa das obras, o mais belo dos objectos, é apenas mais um objecto numa atmosfera - ainda um modo de fazer traços na paisagem. - Somos um jogo que joga, talvez, e uma decoração da natureza. Talvez o universo seja um jogo que joga. Como coleccionador eu tenho o meu jogo, que não se estende à maior visibilidade, mas à relativa invisibilidade - veja-me como um solitário revendo cartas de amor! Tenha-me como a versão virtual do Gabinete de Curiosidades. - Se quiser, o regresso do coleccionador, depois do tempo do historiador.
- Como o comissário? - perguntou Anacreonte.
- Como o comissário - aquiesceu o coleccionador - Essa é a outra grande nova figura desta ópera bufa. Cara e coroa. Vivemos, coleccionadores e comissários, da pulverização do poder no mercado. Somos a indústria cultural que pensa o que é hoje a arte e o que a arte deve ser amanhã - pelo menos, é isto que gostamos de pensar que somos. Acontece que a tribo já não é tribo, já não é cidade e possui demasiados objectos. Ora, por inerência, o comissário institui as linhas de exclusão. É aí que nós aparecemos, onde eles não têm arte, nós temos curiosidade; onde eles não observam actualidade, nós desconfiamos. - Tem toda a razão, é o vale tudo - mas nem tudo que vale, vale o mesmo. Se assim fosse, desapareceríamos, comissários e coleccionadores. Regressaríamos, talvez, à tribo. - Faça-me justiça, e não suponha que quando, ainda há pouco, invoquei a sombra de Babel, o tenha feito levianamente. - Sim, Babel e de novo alguma forma da tribo. Talvez o pulsar de Gabinetes de Curiosidades e das novas Galerias do Príncipe só venha acelerar a retribalização ou talvez seja já um seu sinal, onde ela ainda não ousara penetrar. Repare como o Gabinete de Curiosidades é toda uma outra ideia de arte. Talvez.
- Talvez.
- E quanto aos manuscritos?
Anacreonte permanecia calado. O coleccionador da relativa invisibilidade cobiçava-lhe os manuscritos, e isso nunca lhe acontecera.

Terça-feira, Junho 12

A primeira pessoa enquanto tal


Nada mexia.
A primeira pessoa rasgou um pacote de açúcar e envolveu-o no café. Esquecera-se da baronesa no cinzeiro. - Faço outro, ouviu. - A segunda folha era a outra, ouviu.
A primeira pessoa viajara durante anos nas espirais do umbigo com uma agulha entre o polegar e o anelar. Um dia a primeira pessoa ficava doente. Como um caranguejo casca mole, sob o rochedo, em água inerte, uma película esbranquiçada (ouve-se o vento à tona). Nada mexia. E a primeira pessoa a boiar até longe, a arribar a uma montanha encostada de pequenas árvores, a ser um peixe-dourado num lago sereno. Supremo. - No pino do sol.
Toda a sua pessoa se apurava naquela doença - a chuva preciosa que esperou apenas para se tornar a molhar, para se molhar melhor.
- Alguém não pode prescindir de alguém, ouviu. - E era mesmo assim, ninguém.
Mas a primeira pessoa enquanto tal era a sua pessoa quem a sufocava. Alguém que ele não deixara livre de ser apenas. Alguém que prescindira de alguém demasiadas vezes?
A secretária estava limpa. Voltou a colocar folhas soltas num canto, direitinhas, prontas para a precipitação.
- Porque se perdem encontros? - escreveu
a primeira pessoa.
Depois, a primeira pessoa repousou a caneta e pôs-se a gesticular com os braços como se as águas fossem profundas e sufocasse.

Treme o reflexo...


a rosa -
como se houvesse séculos de botão
e além dos rubores de Pesto
palavras que encadeassem a verdade de uma vida
quando menos já se espera da ostentação de um perfume.

Terça-feira, Junho 5

Lugar dos dias


'Este blog vai estar uns dias num lugar pequenino, a recarregar', escrevia o Sr. T. no canhenho preto.
- Nos lugares pequeninos as margens inteiras dos objectos desatam-se em olhos - acrescentou Anacreonte.
O Sr. T. pôs um ponto final. Não apreciava que lhe mimassem as palavras.

... apenas gaiteiro.


Querer ser moderno é como querer umas Geox, uma primeira viagem no vaivém ou pagas as cotas do Country Club - pesou Anacreonte. Ser antigo é o que há de mais antigo - o que devém mais antigo - similisque in amore voluntas.
Anacreonte parou para pensar, mesmo se as pernas o prosseguiam.
Palavras como moderno e antigo faziam pouco sentido no seu vocabulário, mas Anacreonte ouvira ao Sr. T. coisas como pater familia e enfant-roi, coisas que aqui fariam sentido - pensou. Coisas como a Querelle des anciens et des modernes. A polémica em torno da imagem. O para trás é o berço, de Pascoaes. Coisas assim.
Mesmo se, ele próprio, não era moderno ou antigo - apenas um velho gaiteiro.

E a arte é...


- Arte é o que o artista faz! - foi o chavão que circulou entre os convivas. - O Pão fazem-no os padeiros, acrescentava a conivência - e os ninhos os passarinhos.
- Todas as definições acabam por se revelar impróprias ou circulares, o Sr. T. sabia-o, mas para quê intervir? De nada serve perguntar o que é a barriga quando os convivas trazem o rei na barriga. - É onde está o rei, dirão. Sendo que o rei é quem ali trazem - e está tudo respondido para todas as perguntas - aliás, um luxo de animal doente, de passaroco pouco dado a gorgolejos confortavelmente melódicos. Coisas que só massacram quem não tem o dom de ter o rei na barriga, nem diapasão, nem deus.
- A terra a quem a trabalha - despropositou ou talvez não um conviva, entre o manhoso e o bizarro.
- ... é o que o mundo da arte chancela como tal - atrevia o especialista. - Aquilo com que me deito hoje como se tratando do objecto que obedece à etiqueta amanhã - garantia, sem que o Sr. T. percebesse se havia ali um sentido menos literal. - Mesma direcção, sentido inverso - apurava oportunamente, tacteando o destinatário com os olhinhos estrábicos.
O Sr. T. esmorecia a um canto.
É certo que para o Sr. T. o que fosse a arte não era irrelevante, mas arte, para o Sr. T., era todo o tecido humano sensível - o nosso modo de coral. Um mundo que teria modas, melhor, que terá atmosferas, deslocações morais, mas, em todo o caso, um mesmo modo humano de coral. - Como se não nos revestíssemos de roupa, canas, adobe, mas já de arte apurássemos quando o fizemos pela primeira vez.
Uma obra, só por si, é nada - pesou. Faz parte de um rasto e participa de uma atmosfera. Um rasto de decórs - de sucessivas cidades dos homens - formas de vida. E uma atmosfera ilustradora de possíveis. Depois, tais atmosferas e rastos não pesam a alvenaria, antes terão a ligeireza do alento, ainda que por aí mesmo lhes sejamos mais dóceis. - Talvez imagens ambiente do poder entre os humanos: uma sempre primeira imagem em muro, um primeiro labirinto entre um dentro e um fora, entre zoologia e ideal, entre partilha e voz. - Talvez, ainda, algo de uma metafísica ingénua - como se para nossa felicidade o poeta fosse um ingénuo em alguma parte de si; não obstante, para nossa infelicidade, o ingénuo fosse uma espécie de metafísico com mãos - mãos ao serviço. Talvez.
Uma das razões porque o Sr. T. pergunta é porque não sabe.
Ocorre, que o que interessa o Sr. T. é propriamente o homem, mesmo se lhe interessa pensá-lo do ponto de vista prosaico da pele, do canto e da casa (do bibelot, do soap e do quadrinho). Estava, pois, no lugar errado. Ora, quando se está no lugar errado sai-se para outro lugar, o que se apressou a fazer o Sr. T., instigado por um levantado desconforto.

Segunda-feira, Junho 4

Era uma vez a cortina ou 'e se fosse ao contrário, Kundera?'

Imagine-se o contrário.
Um cenário, algo que se gasta e começa a puir - uma cortina. A cortina não pode ceder. - Mal ela descosa mil serão os artesãos para a reparar. Os grandes rasgos, naturalmente, estabelecerão a hierarquia. - Trata-se sempre da arte de coser o cenário, de remarcar o mundo. - Depois, de fazer o homem para o acontecimento, quer-se dizer, pô-lo a condizer segundo o novo gosto e decoro - proporcionar-lhe o traje ajustado à ocasião, dulcificá-lo.
Tudo começa em casa, na sala - a olhar o écran.
- Quando Duchamp expõe o urinol e Le Corbusier assegura a sanita o objecto moderno por excelência, dispondo ele próprio de uma no living-room, o que é que ocorre? - Legitimou-se uma imagem do mundo moderno, a atmosfera regularizada da máquina, o mundo feito de objectos utilitários que perfaria o novo cenário - inaugurava-se um caminho do mundo em pouco diferente daquele que ocorria já em Bizâncio: uma teoria da imagem ao serviço de uma ideia de civilização. Só que desta vez os iconófilos perdiam - em consequência ganhava o Imperador.

Sexta-feira, Junho 1

O Sr. Nascimento



Primeiro, ali postado, Bim recusava-se a acreditar. Depois, hesitando, reconheceu alguma plausibilidade à notícia. Dizia o vespertino que o Sr. Nascimento envergara o machado em riste e entrara repartição dentro para o abater sobre o Castanho do Sr. Chif. - O Sr. Nascimento era um funcionário de Secretaria, ausente de qualquer ligação à oposição de Esperança. Viera para Secretaria anos sessenta, oriundo das colónias - um chapéu negro de abas largas e uns óculos escuros, monovolume, red light transversal, atrás do guichet há vinte anos.
- Zum-zum, zum-zum, a luz a luzir vermelha, a ir e voltar, o chapéu negro de abas largas a cobrir o seu mutismo, a agilidade dos braços compridos e magros. Tanto quanto se sabia, o Sr. Nascimento viera das colónias e ingressara na função pública, ponto final.
De um dia para o seguinte, soube o Sr. Nascimento que tinha mudado a gerência de Secretaria quando ali foi chamado. - Caro Sr. Nascimento, como sabe está em curso um processo de creditação global e todos os serviços estão a ser reavaliados. - Sim, ouvi dizer. - Acontece, Sr. Nascimento que se a sua eficácia é reconhecida, o Sr. falha nos itens pontualidade e apresentação - e a luzinha a ir e vir. - Há também indícios suficientes para acreditar que roubou um roupão branco, nas Pousadas de Secretaria. Finalmente, terá prestado falsas declarações contaminando a impecabilidade do nosso registo.
O Nascimento não conseguia cerrar a boca ali em ó, o queixo tombado à maça de adão. Como é que sabiam do roupão? - ao lado daquela culpa tudo o mais era irrisório e verdadeiro.
Só no dia seguinte, como o queixo regressasse a preensão maxilar, o Sr. Nascimento se apercebeu que tinha sido despedido.
Conta-se que o Sr. Nascimento subira as escadas que davam para o primeiro piso de Secretaria - que o cutelo na mão levantada, seguro pelo vazio entre o cabo e os dedos suados, desferraria um golpe de morte.

- o corrimão de madeira apara o golpe, na mesa corta outro - sobre a lâmina ferrada na carne de Castanho todo o peso de músculos tensos. - Um segundo golpe cortaria a carne das costas, estilhaçaria as costelas do Sr. Chif que fugia. - O Sr. Nascimento foi apanhado entre o primeiro e o segundo golpe, diz o jornal. Não chegara a correr sangue.
- Há outras coisas que se contam, com ou sem fundamento, sugere o articulista.

O caminho, o caminhante


... Depois de tanto tempo soube que tinhas adoecido... um aspecto descuidado, uma disposição dolorosa, maçada, um perfume acre, dormido, que gotejava do surrado pijama... e estava tudo dito. Mas não a doença que teimava em se não saber qual - chegara imprevista e calçara-se bem a teu corpo. Bem de mais. Evitando todos os ventos que não lhe eram de feição, incrustava-se em todas as vertentes do teu corpo e experimentava-lhe a robustez... Só soube depois?, teria mudado alguma coisa? Depois, já havias morrido... disseram-me que finalmente sucumbiras a um ataque cardíaco. E só eu sei que não, morreste porque a velha vivia dentro de ti, matando-te...

Embora muito passasse das oito ainda era dia. Da popa à ré as vozes silvavam ou rondavam sem interrupção, apenas breves alterações de ritmo e nível, reunindo-se ao resmonear abafado do bicho-à-bomba.
Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba, Bicho-à-bomba.
Aparentemente mudo, um cenário desdobrava-se e rasgava na direcção contrária. Casa, café, carro, carro. Carro, rio, montanha, carro, árvore, árvore. Carro, carro, carro, montanha, montanha atrás de montanha, montanha com casas, montanha com café - vida com vento adufando as roupas, bulindo nas agulhas dos pinheiros, escorrendo das gelosias.
De uma fábrica enfileirou-se um prolongado silvo metálico. Uma leve gradação de sombras acolhia agora os homens como um ventre sonolento. Segurariam uma memória pelos cabelos, os movidos moventes. Uma memória que revelada se não saberia a qual mais pertencia, qual a guardava, qual a ouvia.
A velha agora metia dó. Vê-la dentro, para além do debruado de peles e vestido e não ter pena - talvez ganhar algum amor, perdoar. O velho gostaria. Se pudesse tirar os olhos, deitá-los para longe ou queima-los - o branco gesso dos olhos dos peixes fritos. Ser olho é acusatório.
Nisso as pálpebras cerravam. Inúmeros convidados entravam quase de roldão numa sala fortemente iluminada. Agitam-se febrilmente, ninguém conhece ninguém, ninguém fala, olham os olhos dos outros e fogem quando outros olhos vêm neles pousar. Um silêncio rufado geme nos tacões. Ninguém sabe porque está ali, porque foi convidado - é uma festa, acha, o salão está profusamente decorado, dourados... e há balões de hélio entre as mãozinhas dos puti no tecto, serpentinas. Entre absortos-de-deus-me-ajude e deslumbrados de eles-são-assim-fechados-pelo-lado-de-dentro-e-condensados -nas-janelinhas-do-rosto, os homens sós em meio aos homens sós olham os rostos que olham os rostos - e nada acontece.
Repousam bebidas numa mesa no centro da sala. - A toda a volta do salão um fosso que um a um os convidados ultrapassavam por uma ponte, o salão enchia. Depois deste, toda a impureza de um teatro inerte ultrapassando os limites do palco e apenas um velho, um velho fora da sala.
E o sonho rodava e baixava agora sobre o velho.
O velho pesa a solidão com a palma pouquíssima, calejada, escura da mão. Faltam-lhe dois dedos. Não são muitos, tem oito outros a desprenderem-se das mãos. O velho não pensa nos dedos, pensou, mas sabe, estranhamente, de muito longe, um murmúrio, um sussurro que fala e diz dos dedos. Diz que lhe faltam, pressente-o. Nos arrabaldes um narrador num mimetismo incidente fala dos seus trementes dedos. E o velho no sonho sabe.
E o velho deitar-se-á sobre um vermelho de caruma, recheado de jornais. Embrenha-se já à terra, as mãos papudas e pequenas alargadas pelo frio, gretadas, com frieiras, levadas ao abdómen que aquecia. - O frio húmido da manhã cedinho pingava - achava que era manhã, não sabia porquê. E agora havia um lago e era longe do mar. As trutas saltavam água fora com um ruído cortante, onomatopaico. E o velho comentava: As recordações do homem novo são inconsequentes, recordações de comediante que se rasgam como vestidos.
E Bim a querer chegar ao velho, a debater-se, a gesticular em vão. Bim apanha mais uma truta que salta no canto do olho - mas não há para onde sair. - À volta do velho e do lago das trutas, não há nada - como se de um outro sonho se tratasse, um sonho que alguém perdera no seu. Em todo o caso, estava preso. Absolutamente preso, sem que conseguisse mover-se um só passo que fosse em qualquer direcção - cada homem estava absolutamente preso no salão pela simples presença de todos os demais, até aos últimos que ainda tentavam entrar.
Quando Bim acordou, a camioneta recolhia a si as rodas a repousar no macadame e as vozes soaram mais incisivas, mais secas. O azul do mar pintava até meio as janelas. Pela frente tinha um dia quente. Dos lados do porto subia um cheiro agreste a cabos ressudados, sal e óleo. O céu num arrumo sem nuvens, cheio, flectia nas águas levemente e uma apenas brisa fresca roçagava na pele. Eram 6 horas, ao meio-dia estaria em casa da irmã.

... Mais uma vez chegava a casa. Três horas da madrugada. Mais uma vez a velha caga-se pelas pernas abaixo, pelas juntas, milha e tal, apinha-se em merda. - Estou a morrer!, estou a morrer! - diz a velha mãe. A mãe tinge. As pernas a arranharem-se nos saiotes, a merda jorrante, perfume que embaraça. - A mãe cagara-se largamente. E Bim lavaria as regras do cu. Quatro horas, a mãe, a velha mãe, fantasma que esbarra as voltas do mundo num corredor e quarto. A carpete. E mais uma vez só. E a velha. Bim e o ódio e o amor à velha. Morrem entre as pregas restos de sopa de legumes. Trajecto metafísico. Bim encontrara a velha sem modo, inerte, segurara-lhe a cabeça de caracóis brancos de leite. A mãe grunhe que morrerá desta. Será desta. Pedaços de estufado, puré, dá-lhe água a beber, mais uma vez - samaritano amargo. - O cavalo que golpearias dali para fora. - A solidão é um percevejo gigante. Faz comichão. E a mãe que Bim limpa dormirá melhor que o herói, que danado e disparado, bala que perdida, profusamente sangrará. Horripilante desvantagem. Samaritano de merda, tens a cama fria e não mais que um santo padroeiro na moldura. Dedilho-te rato! Mais uma vez, seis horas, sete horas, não dormirás...

Em caminho apanham-se mais pensamentos, imagens, memórias. Mas a morte não deixa imagens, talvez pontos frios. E a imagem que Bim persistia em tentar reconstruir desvanecia-se em sombra, uma sombra que vagamente seria o velho, mas não era, nunca era - e a saudade vogava sem suporte, surda, e desaparecia. Restava como uma suposição - apenas vaga como uma tolerância da morte.
A velha agora metia dó. - Enfastiava-se em casa da filha, contorcia-se do ócio que a velhice obriga, para o qual ela não fora feita. Passava os dias fechada no quarto, no musgo do seu tédio. O azedume tornava-se melancolia e frustração. - Insinuava-se, estudava as cenas de desespero em que a sua mente dava os últimos sinais de uma inteligência teatral rica em indumentárias. E chorava, e aquela jovialidade cruel que Bim envergonhara fazia agora pena na pele enxuta, pálida, nos olhos que ficavam cinzentos, nas pálpebras engelhadas, nas covas que marcavam as faces e o queixo, nas pernas que titubeavam - no exílio que se lhe tornara a vida, um bilhete para o inferno. Todavia, naquela face de velha ainda algo permanecia da beleza da juventude - algo que ela retinha furiosamente sob camadas densas de pó-de-arroz e rouge, como proezas de amor que a falta de amor envelhecesse. - Como se o dia em que o não fizesse, sua alma, ligada à terra só pela pele e a cor dos olhos, se desarticulasse do corpo e se enterrasse, sem um suspiro, no lacre do inferno.
O velho morrendo vingara-se. Uma vingança seca, que ele certamente não desejava, mas de que a providência se encarregava friamente.
- Absolutamente preso - lembrou - cada homem estava absolutamente preso no salão pela simples presença de todos os demais, até aos últimos que ainda tentavam entrar.
A velha agora morria, e ele ia vê-la morrer.