
Era uma vez um outro mundo, nesse mundo o Sr. Pinlim aparecia num consultório como se tomasse a avaliação dos seus recursos em mão. O coração batia magister na caixa torácica. Os pulmões aguentariam sem dificuldade mais trinta anos de alcatrão e os rins encafuavam-se, sem história, na zona lombar. O sistema digestivo poderia causar-lhe algum embaraço, mas jamais o mataria.
- Nada - disse-lhe o médico -, encaminha-se saudavelmente para a morte.
- Mas, Dr., ele precisa de procurar repetidamente a morte. - Não poderá compreendê-lo. Os excessos revitalizam-no, dão-lhe uma elasticidade que os músculos lhe roubaram...
- Nada. Tanto quanto as máquinas foram bem treinadas, não há nada, Sr. Pinlim , na realidade é, dada a sua idade, tão são como um fruto que a casca ainda não feriu demasiado. Não há sinais de Milnip.
- Mas devia haver algum sinal. Sabe, Dr., ele sente-se num continente estranho que explora e teme e, no qual, erige-se das aventuras de exploradores e antropólogos. Necessita de fazer coisas inúteis como rolar por terra, para baixo das mesas, nos cafés. Apanhar moscas com a mão. Pintar lambris. Passar três dias a dormir para conseguir sair de dentro da lâmpada do génio onde, vai não vai, mergulha.
- E como lhe bate o coração nesses momentos?
- Taquicardia! Taquicardia! - E eu tranquilo como um lago com cisnes!
- Nada, Sr. Pinlim , peço desculpa.
- Não percebe, o Dr. não percebe. Ele gosta de viver circunstâncias em que acredita como se não as houvesse ele criado. Escrever a obra como se fosse o escritor, juntar-se a corsários sem causa, a mercenários como se fosse o aventureiro - ser o amigo de bocal do M.L., o branco negro de W. F., o amante de M. D.. Tentativas e tentativas de ser a essência de qualquer coisa fora dele, que todos sabemos não existir. É claro que aí também reside todo o humor da situação: ser soldado e herói e bandido a olhar para o espelho de camarim que se avista do palco e seguir a fazer poses à morte, desempenhando um seu género - o acidente. Mas não será normal... Eu não fico normal, depois da passagem de Milnip.
- Todas as criaturas são uma arrogante intromissão na morte e todas ao seu seio regressarão. Entretanto, constroem impreterivelmente a casa. - Podem ter os nomes que quisermos...
- Mas o Dr. ouviu o que eu disse? Ele não comparece, simplesmente porque ele é sempre outra coisa. Procure em outras coisas e... encontrará Milnip.
- Nada a fazer, Sr. Pinlim, foi dado como psíquica e fisicamente são. Amanhã entrará ao serviço. Ah, terá de cumprir as horas em falta pelo que perde os fins-de-semana durante seis meses.
- Mas...
- Isso é o seu problema. Caso se indisponha, estou aconselhado a apresentar-lhe as Páginas Amarelas.
O Sr. Pinlim entrara no futuro catapultado pelo exame médico. Não só já não estava doente como nunca estivera doente - o exame médico especializado garantia-o no escalão dos quarenta anos, em termos de força de trabalho - maravilhas da ciência! Não só nunca estivera doente como rejuvenescera, adiando-se a a reforma que estava a dois passos. São como um pêro, era o veredicto. Nenhuma alusão aos traumas de guerra que o projectam para o chão a meio do trabalho e do café, à esquizoidia delirante. Nenhuma referência à sua quase completa surdez. Haviam-lhe mesmo devolvido a perna que a mina estilhaçara, enquanto lhe retiravam as regalias, como agora se lhes chamava, que a condecoração que não trazia ao peito dizia conferir. Era uma perna forrada a pele verdadeira, com uma excelente imitação de veias. Em baixo, na sola do pé, em vez do made in china estava simplesmente escrito: 'Arbeit macht frei!'


























