Quarta-feira, Julho 4

Pássaros

Anacreonte não tem férias.

O Sr. T. apenas as tem por insuficientes.

Segunda-feira, Julho 2

Num lado e no outro


Na poesia - dizia o Sr. T. - há o dom e o massacre; não sei o que seja o primeiro, mas conheço o segundo, mesmo se nada aqui seja verdade - mesmo que tudo seja verdade em algum lado, e tudo ficção em algum outro.

Domingo, Julho 1

The Bizarro World











Dizer coisas novas - a mais antiga vaidade do filho. As crianças e os velhos, de cada vez, fazem tudo de novo - pensou o Sr. T.. - Porque há uma altura em que as crianças ainda não são filhos, como há uma altura em que os velhos deixam de estar. - É claro que já não fazemos sacrifícios a Baal - que resguardamos melhor a morte e a humana soberba. Somos povos civilizados porque resguardamos Isaac. Matamos melhor e mais lento, como bons samaritanos (ai que belos e bons nós somos!). - Individuum est ineffabile. Diz-se.

O Sr. T., como todos os ocidentais condoía-se muito com a sua singular alma, mas em momentos de maior lucidez não conseguia opor-se melhor imagem do que a de um monge budista que um dia surpreendera sentado na Tv Cabo, a boca em crescente a animar as rugas da face, os olhos como crianças. As perguntas que lhe faziam eram sobre Deus e sobre a alma e ele sorria:
- ... 'se for bom'
- ... 'se fizer bem'.

O Sr. T., pela sua parte, preferia, era um seu hábito, ver as coisas em termos pouco contemporâneos. Gostava particularmente de pensar a invenção como acasos da mimese técnica, acontecimentos comuns ao humano coral - vaidades humanas ao serviço da vida - pontos, se olhados da montanha.

E as crianças e os velhos, de cada vez, fazem tudo de novo - regressava o Sr. T.. - E entre umas e os outros, o tubérculo que cai ao mar é o acontecimento que já não ocorrerá aos velhos e formará o novo paladar. - O insosso tubérculo, parte tão importante da memória cultural como o balão do João, Aljubarrota, a revolução francesa, a guerra de África, Portugal dos pequeninos. -É claro, com os degelos e a genética do tubérculo surgem novas oportunidades. De vida e de morte. Novas velhas vaidades a implodir em novos acontecimentos velhos episódios da história em comum.

Mas é sempre assim, portanto algo no meio de tudo isto deve ser belo - em algum lado Anacreonte terá de ter razão.

Com uma cabeça


Há sempre alguém com a cabeça de alguém debaixo do braço.

Pelo meio dos pássaros



O instante de um melro voa como um salpico de tinta
um gaio desaparece atrás de uma impressão digital
lasciva, uma lavandisca emerge das raizes da linguagem, dos homens que a trouxeram e a levaram
- e alguém correrá ainda pelo meio dos pássaros, por trilhos que piscam, que picam os olhos, por prados, por baldios cor de ratos, a cabeça de alguém debaixo do braço.

Alguém


Alguém deixou o existo do espelho decapitá-lo - alguém guardou a cabeça debaixo do braço e corre.