
Afinal não sabem tudo - sussurrou. Bim tinha posto pé em terra e era o centro de um pequeno amontoado de gente iluminada de cima. Também os putos estavam agora ali, acotovelando-se no afinco de completar a roda da vida. Apenas um pé à frente, o professor e os ajudantes, o homem de casaco castanho um pouco atrás, mais atrás a violácea lentidão dos velhos. Bim faria o pino, não fosse não gostar de dar nas vistas.
- Afinal não sabiam tudo. Nem tudo. A sua mãe morrera, fazia anos. E nunca ela ali morara.
- Era a casa de um velho. Um velho que morava sozinho e um dia morreu sozinho, não sei pormenores. Apenas que o velho morreu sem família próxima. A mãe morrera-lhe há um par de anos. Vivia com ele. A mãe e livros. Livros de tudo. A casa forrada. Por isso permanecia quente, por isso estava mais vazia. Quando o velho morreu, ficavam os livros e a casa. O sobrinho só queria a casa. Como isso chegou ao meu conhecimento, já não me lembro. Mas quando ali entrei, os vazios já muitos a pedirem-me os olhos, e vi o saque silencioso, o modo como esventrávamos uma vida - fiquei paralisado. Não que endurecesse, nem propriamente estancara - antes estaria perto da liquefacção, sem que ela, no limite, se desse. Um daqueles ursinhos de goma ao sol, uma cor carcomida, talvez esmeralda carcomido, ananás carcomido. Talvez acabasse por secar, mas agora amolecia. Depois essa imagem já não era apropriada. Acho que pensei sobretudo em água, água contida no limite, mas não uma bexiga, não havia qualquer película...
- Passara a vida a ler, está a ver? E nem uma só palavra. - Nem mesmo o comentário na margem - apenas alguns sublinhados, tremidos nos livros recentes. Posso dizer que senti aquilo como uma morte dupla. Não o é a de tantos outros? Mas ali acontecia comigo. Era eu que estava ali. Era eu quem olhava e, à volta, o revestimento interno daquela cabeça. Confesso que vasculhei os papéis. Não os livros, mas os papéis sim. Abri gavetas e agendas, vi e revi tudo que pudesse abrigar algumas palavras. Eu tinha autorização, fora-me dada a chave, poderia ter ficado com os livros, com todos os livros - ainda a tenho, a chave - não sei se o devia dizer. De qualquer modo, não sou culpado de nada - apenas um favor que fazia a um amigo. E só levei os livros que pensei que o velho gostaria que eu levasse. O sobrinho não os queria. - Que método usei? Ora, por favor, nenhum. Folheei algumas prateleiras e escolhi, não folheei outras; peguei num livro, não peguei noutro, não sei explicar, a minha mão escolhia sozinha. - Agora que me pergunta, talvez o faro. - Mas eu contava-lhe dos papéis... ao sobrinho nada daquilo interessava, apenas queria vender a casa... havia camisas dobradas nas gavetas, percebe? Não foi propriamente curiosidade ou então sim. Que tipo de homem vive coberto de livros sem que escreva uma linha? Que tipo de homem morre tão sozinho? Pensaria eu que se encontrasse uma página escrita isso o ilibaria? - ... me ilibaria? - Talvez, de certo modo. Mas de quê, exactamente, me ilibava eu, pergunta-me? Não sei, mesmo se é uma questão oportuna, talvez porque seja uma questão oportuna. Talvez eu quisesse apenas saber mais sobre essa ausência, sobre como é que um homem passa ausente pela vida e ainda assim morre. Houve um momento em que pensei ficar com tudo, reconstruir o homem a partir dos sublinhados. Seria toda uma vida, como imagina. Mas que homem se pode retirar dos seus sublinhados?
- É verdade, por vezes ainda venho cá. Fico a ver a casa, mas apenas por fora. Uma ou duas vezes por ano, às vezes menos. É do outro lado da cidade. Agora está habitada... durante anos não morou ali ninguém. Já mora. Vê a luz? E não é o reflexo do lampião. Finalmente mora ali gente. É bom que assim seja. As casas desabitadas são um excesso à face da rua. -Sim, excedem-nos. A si não? -Também fiquei com um cartão-de-visita, achei apropriado. E ainda tenho a chave. Agora posso deitá-la fora, certamente mudaram as fechaduras. Acha que a poderei guardar?
- Bim... Bim... Porque me foges da realidade, Bim? - Bim já não ouvia. Pensava uma última vez no velho quando aquela velha, com certeza alertada pelo ruído, assomara à porta.
- Bim? ... Porque continuas a fugir-me, Bim?
- Mas não - Bim recuara para um resto de sombra - haveria com certeza algum engano.
- Naquela casa vive agora uma velha senhora, com certeza, posso vê-la. Até pode ocorrer que também viva com a filha, as duas sós, cada uma com o peluche, o canário. Talvez se trate de uma casa ciumenta. Talvez as haja. - Mas, não. A velha senhora que ali vive não me é familiar.
E virando-se para a luz que escoava da porta:
- Perdão, minha senhora, com certeza é toda a encenação que a fere, a luz, esta gente toda... Gostaria de lhe poder agradar, mas não, não sou nem posso ser o seu filho. A minha mãe morreu.
- Bim?
- ...
- Bim?
- A senhora está morta. Estão todos mortos.
- Bim? ... Dói-te, Bim?... Bim...
- ... Mãe? ... Deve doer, mãe. Onde estamos?
- No teu quarto, Bim. Deliravas. ...é a luz? ...queres que baixe o candeeiro, queres?
- Não julgue que nos enganou com esta pantomina - ainda disse o professor.
Depois a luz cedeu.