Sábado, Setembro 29

A instituição simbólica


A confiança, como o fetiche, só pode vingar longe da verdade quotidiana.
Bem perto da mentira está o extraordinário.

Glosa



Nos dias que correm uma pessoa que não chafurda em felicidade, não é ocidental.

Sexta-feira, Setembro 28

Mas... e a visão, Senhor?

- Andei a reler N.
- E...? - anuiu Anacreonte desinteressado.
- A certeza é algo de terrível.
- ... e de inevitável.
- Pois.

Terça-feira, Setembro 25

No dia em que Bim morreu...



Afinal não sabem tudo - sussurrou. Bim tinha posto pé em terra e era o centro de um pequeno amontoado de gente iluminada de cima. Também os putos estavam agora ali, acotovelando-se no afinco de completar a roda da vida. Apenas um pé à frente, o professor e os ajudantes, o homem de casaco castanho um pouco atrás, mais atrás a violácea lentidão dos velhos. Bim faria o pino, não fosse não gostar de dar nas vistas.
- Afinal não sabiam tudo. Nem tudo. A sua mãe morrera, fazia anos. E nunca ela ali morara.
- Era a casa de um velho. Um velho que morava sozinho e um dia morreu sozinho, não sei pormenores. Apenas que o velho morreu sem família próxima. A mãe morrera-lhe há um par de anos. Vivia com ele. A mãe e livros. Livros de tudo. A casa forrada. Por isso permanecia quente, por isso estava mais vazia. Quando o velho morreu, ficavam os livros e a casa. O sobrinho só queria a casa. Como isso chegou ao meu conhecimento, já não me lembro. Mas quando ali entrei, os vazios já muitos a pedirem-me os olhos, e vi o saque silencioso, o modo como esventrávamos uma vida - fiquei paralisado. Não que endurecesse, nem propriamente estancara - antes estaria perto da liquefacção, sem que ela, no limite, se desse. Um daqueles ursinhos de goma ao sol, uma cor carcomida, talvez esmeralda carcomido, ananás carcomido. Talvez acabasse por secar, mas agora amolecia. Depois essa imagem já não era apropriada. Acho que pensei sobretudo em água, água contida no limite, mas não uma bexiga, não havia qualquer película...
- Passara a vida a ler, está a ver? E nem uma só palavra. - Nem mesmo o comentário na margem - apenas alguns sublinhados, tremidos nos livros recentes. Posso dizer que senti aquilo como uma morte dupla. Não o é a de tantos outros? Mas ali acontecia comigo. Era eu que estava ali. Era eu quem olhava e, à volta, o revestimento interno daquela cabeça. Confesso que vasculhei os papéis. Não os livros, mas os papéis sim. Abri gavetas e agendas, vi e revi tudo que pudesse abrigar algumas palavras. Eu tinha autorização, fora-me dada a chave, poderia ter ficado com os livros, com todos os livros - ainda a tenho, a chave - não sei se o devia dizer. De qualquer modo, não sou culpado de nada - apenas um favor que fazia a um amigo. E só levei os livros que pensei que o velho gostaria que eu levasse. O sobrinho não os queria. - Que método usei? Ora, por favor, nenhum. Folheei algumas prateleiras e escolhi, não folheei outras; peguei num livro, não peguei noutro, não sei explicar, a minha mão escolhia sozinha. - Agora que me pergunta, talvez o faro. - Mas eu contava-lhe dos papéis... ao sobrinho nada daquilo interessava, apenas queria vender a casa... havia camisas dobradas nas gavetas, percebe? Não foi propriamente curiosidade ou então sim. Que tipo de homem vive coberto de livros sem que escreva uma linha? Que tipo de homem morre tão sozinho? Pensaria eu que se encontrasse uma página escrita isso o ilibaria? - ... me ilibaria? - Talvez, de certo modo. Mas de quê, exactamente, me ilibava eu, pergunta-me? Não sei, mesmo se é uma questão oportuna, talvez porque seja uma questão oportuna. Talvez eu quisesse apenas saber mais sobre essa ausência, sobre como é que um homem passa ausente pela vida e ainda assim morre. Houve um momento em que pensei ficar com tudo, reconstruir o homem a partir dos sublinhados. Seria toda uma vida, como imagina. Mas que homem se pode retirar dos seus sublinhados?
- É verdade, por vezes ainda venho cá. Fico a ver a casa, mas apenas por fora. Uma ou duas vezes por ano, às vezes menos. É do outro lado da cidade. Agora está habitada... durante anos não morou ali ninguém. Já mora. Vê a luz? E não é o reflexo do lampião. Finalmente mora ali gente. É bom que assim seja. As casas desabitadas são um excesso à face da rua. -Sim, excedem-nos. A si não? -Também fiquei com um cartão-de-visita, achei apropriado. E ainda tenho a chave. Agora posso deitá-la fora, certamente mudaram as fechaduras. Acha que a poderei guardar?
- Bim... Bim... Porque me foges da realidade, Bim? - Bim já não ouvia. Pensava uma última vez no velho quando aquela velha, com certeza alertada pelo ruído, assomara à porta.
- Bim? ... Porque continuas a fugir-me, Bim?
- Mas não - Bim recuara para um resto de sombra - haveria com certeza algum engano.
- Naquela casa vive agora uma velha senhora, com certeza, posso vê-la. Até pode ocorrer que também viva com a filha, as duas sós, cada uma com o peluche, o canário. Talvez se trate de uma casa ciumenta. Talvez as haja. - Mas, não. A velha senhora que ali vive não me é familiar.
E virando-se para a luz que escoava da porta:
- Perdão, minha senhora, com certeza é toda a encenação que a fere, a luz, esta gente toda... Gostaria de lhe poder agradar, mas não, não sou nem posso ser o seu filho. A minha mãe morreu.
- Bim?
- ...
- Bim?
- A senhora está morta. Estão todos mortos.
- Bim? ... Dói-te, Bim?... Bim...
- ... Mãe? ... Deve doer, mãe. Onde estamos?
- No teu quarto, Bim. Deliravas. ...é a luz? ...queres que baixe o candeeiro, queres?
- Não julgue que nos enganou com esta pantomina - ainda disse o professor.
Depois a luz cedeu.

O Sr. T. andou a reler N. ... (lápis atrás da orelha)


N. reinventou o anti-santo, activo amante da vida como do aniquilamento, para o prender ao santo: amor fati, necessidade e 'tornai-vos duros' - dureza como imperativo estético. Não há santo que não pudesse fazer seu segredo este triplo imperativo. A arte é antes de tudo arte de viver, um excedente de que as obras são acessórios. E também nisto o herói está perto do santo, mesmo se ele é o adivinho onde o santo era profeta.

A arte de viver do bobo é ainda uma fraqueza, uma rejeição do sensível, da parte, um moralismo encapotado em ironia. No fim, a expressão de um mundo exige o bardo: só o bardo faz superfície. Só ele não procura o sentido das coisas, nem o retira - antes o introduz! No caso, a arte do bardo, a obra, seria um tónico, um estimulante fisiológico agindo 'sobre os músculos e os sentidos'. A obra de arte não mente como o instinto não mente, mesmo se apenas como os sentidos não mentem quando interpretam o mundo - dito de um modo simples: a obra de arte não mente porque não pretende à verdade. O seu território é a sedução: a arte tem que embelezar a vida, dar forma às relações.
Depois, a arte é sempre adequada ao seu real: como a multiplicidade da vida ela é múltipla, diversa e temporal. Mais, a arte faz a adequação, na medida em que é ilustração viva das relações entre conhecimento, crença e acontecimento.

A arte - a propriamente dita - sobrevive como uma ilusão tardia, uma relíquia e uma dança atrevida, como o 'estado sem medo', mas sem lugar, entre dois sinistros: a religião e a ciência. E tem-se um regresso à ideia feita sensível: o bardo ilustra a possibilidade, uma resultante para a sedução da vida, uma manha entre o mundo e a ideia, a continuidade da vida.

A obra de arte por analogia com a arte de viver não é nem uma graça outorgada nem a expressão do eu - constitui um trabalho de endurence, de endurecimento - o artista deve ser duro como o filósofo deve ser cruel - o olhar artístico é uma disciplina. A distância artística uma acção.

A arte, já perdida de lugar, perder-se-ia como estado na festa e no mistério.
A arte é a última mentira que nos protege da verdade.

Em última acepção, o artista nunca sois vós.
De novo, temos a imagem do santo. E também a ideia de que há algo que nos sobrepassa e determina: a vontade da própria vida, essa vontade que decide da arte e da cultura como elaborou as secreções gástricas e o estômago. N. abraça intimamente F. e M.: é o que permanece oculto que guia o nosso comportamento e o pensamento é apenas um comportamento.

Sexta-feira, Setembro 21

A caminho de Damasco


Há coisas que o romance policial nos ensina:
quando tudo aponta conspícua e insistentemente para um mesmo suspeito, raramente é aí que está o culpado.

Na boca


Vai-se da tarde

na boca

Por isso...

Olhas do espelho – como aprecias a imagem depreciada.
Se a não amam é porque nunca a viram do espelho.
Por isso olhas do espelho.
Sempre do espelho. Do espelho, o mundo é belo como uma ideia.

O real


- Juízos de crença, de razão e de experiência. Três incuráveis modos de juízo que não podem senão tornar tudo certo ou vil - disse o Sr. T., e continuou - uns, a razão demonstrava-o, não eram verificáveis, outros, a experiência mostrava, não eram refutáveis, os restantes, evidenciava-o a crença, sequer seriam totalizáveis, logo passíveis de objectivação. Três tipos de juízo que, a rigor, nos condenam à morte.
Anacreonte não podia deixar de sentir o sorriso que se esboçou nos seus lábios e que nem mesmo à proverbial distracção do Sr. T. pôde passar despercebido.
- Os sofistas tinham pouco em comum entre si - sorriu então o Sr. T. -, excepto talvez isto, a diferença entre Natureza e Lei. A lei, a ideia, não tem a força da natureza. O real não é o racional.

Segunda-feira, Setembro 17

O cordeiro


Irmãos - disse o lobo -, entre nós encontra-se um cordeiro.
A lua deslizava pelo fio da bruma coroando um odor a boca.
Os lobos tiveram um espelho. Um dizia e outro olhava como revólveres no movediço de um jogo de êmbolos.
- Serei eu? - uivou um. - Serei eu? - ganiu outro.
O lobo não dizia sim ou não. Desconfiava do mais feio como do mais afoito, olhou os que amamentavam e os que dormiam. Sentia uma jovial alegria de caçador.
O cordeiro era um mestre em disfarces, perturbador, e ele, a temível fera, o chefe aclamado, o caçador cru.
À volta, o silêncio era de chumbo e apenas aqui e ali um pouco de saliva retorcia fios de mato.
Olhou as fauces sedentas de sangue dos mais jovens, o cenho carregado dos mais velhos e, por um momento, a sombra do sacrifício perpassou-lhe os olhos pouco firmes, a que anuiu um cerrar de pálpebras.
- Irmãos - disse então o lobo -, encontrei o cordeiro. Tremia levemente. Falava rasgando a terra com as unhas.
Mas na alcateia os lobos deslizaram apaziguados, saciados.
Assim: vigiai!
Uma beleza provocante esboça já sempre uma crucificação.

Segunda-feira, Setembro 10

De Job ao Cálice - "auto-retrato com tigre e leões" - F. H. Y.Z.


Lembras-te se
era eu a varicela
que atenuavas displicente?

Agora durmo silencioso para o lado esquerdo
sou estigma e sou acinte
- dizem que se morre mais cedo
que nos importa! -
também tenho muros militares a debruar coisas que tu eras
e eu não entendia poder-se ser

Mas se me deste uma bomba de não escapa um
porquê, Pai, lambuzares-me as uvas com Dicloro-Difenil-Tricloroetano?

Manuel Maria du Bim

Domingo, Setembro 9

No trampolim de Platão


"Se não tivéssemos aprovado as artes, se não tivéssemos inventado esta espécie do culto do erro, não poderíamos suportar ver o que nos mostra a ciência: a universalidade do não verdadeiro, da mentira, e que a loucura e o erro são condições do mundo intelectual e sensível. A lealdade teria, por consequência, a náusea e o suicídio. Mas à nossa lealdade opõe-se uma contrapartida que ajuda a evitar semelhantes consequências: a arte, enquanto encarada como boa vontade de ilusão. Nem sempre proibimos aos nossos olhos o concluir, o inventar uma finalidade: a partir daí já não é a imperfeição, essa eterna imperfeição, que levamos pelo rio do devir, é uma deusa na nossa ideia, e sentimo-nos infantilmente altivos de a levar connosco. Enquanto fenómeno estético, a existência conserva-se-nos suportável e a arte dá-nos os olhos, as mãos, sobretudo a boa consciência que é necessária para poder fazer dela este fenómeno por meio dos nossos naturais recursos. É preciso de vez em quando descansarmos de nós próprios, olhando-nos do alto, com o longínquo da arte, para rir ou para chorar sobre nós: é preciso descobrirmos o herói e também o louco que se dissimulam na nossa paixão de conhecimento; é preciso sermos felizes, de vez em quando, com a nossa loucura, para podermos continuar felizes com a nossa sageza! E é porque, precisamente, no fundo, somos pessoas pesadas e sérias, e mais pesos do que homens, que nada nos faz melhor do que o ceptro de guizos, temos necessidade dele perante nós próprios, precisamos de toda a arte petulante, flutuante, dançante, trocista, infantil, satisfeita, para não perder essa liberdade que nos coloca acima das coisas e que o nosso ideal exige de nós."
- F. Nietzsche, A Gaia Ciência, 107

A. - um exemplar salto mortal no trampolim de Platão. Nada que purgar, nenhuma catártica exortação à resignação...
B. - a arte é ilusão.
C. - ... ocorre que essa ilusão é salvífica!
A. - ... como uma boa vontade de ilusão: animar-nos-ia, impedindo-nos de soçobrar na verdade.
C. - um antídoto contra o niilismo inerente à civilização científica!
A. - sim, mas também a propedêutica quase metafísica da sageza - a escora e o amparo. O eterno desfile dos deuses...
B. - ... o bardo que fabrica os melhores olhos, a boa consciência, o cenário sugestivo.
C. - e a distância artística? Não permite ela rir e chorar sobre nós e, numa derradeira heroicidade, devir o seu próprio bobo?
B. - ... ou, então, como parece, o bobo que ri colide com o bardo que suporta com cânticos?
A. - precisamos da arte porque precisamos de ilusão. E, antes do mais, da ilusão de liberdade. A confiança na vida exige a ilusão.
B. - ... afinal, de que riria o bobo, não houvera o rei e o canto do bardo?
C. - e a arte, isto é, para o não herói?
B. - ... a arte? ... um lugar no engano, um padecer do remédio.
A. - gosto mais de pôr as coisas assim: o fundo originário descarrega-se uma e outra vez refigurando-se, de cada vez redesenhando atmosferas que nos envolvem e que emulamos ...
C. - o herói é então um tipo de céptico? É isso?
B. - um céptico que venceu o pessimismo, um sátiro.
C. - ... e ainda falamos de arte?
B. - sim, da arte fundamental de viver entre a arte e o conhecimento.
C. - ... e quanto à primeira...
A. - anima, segundo atmosferas estéticas, dá vontade de viver, debaixo de certas imagens...
B. - ... redesenha-nos, no acordo de certas ideias ou figuras.
A. - dá-nos os olhos e as mãos...
C. - ... e ainda estamos em Nietzsche?
A.- não muito longe.
B. - ... decerto, decerto.