
O Sr. T. ministrava um seminário. Anacreonte fora assistir.
- ... deste modo, o homo aestheticus não existe, em qualquer sentido forte. Como avançou K., o sentido forte esgaça no religioso.
Vejamos, fazer é o lugar da errância, uma errância que nasce na primeira violência: suster o tempo.
Em consequência, ver é apear-se, fantasiar-se, pôr-se como se intemporal ou para lá da verdade. Colocar-se no exotismo de um olhar que se exila. Quem, uma vez marcado pelo fogo da arte, recorda que estar vivo é apenas matar até que algo nos mate, beijar até ao último beijo? É claro, isto pede uma ideia estética. Um... afinal é belo - exalado por olhos de todos os dias. Apenas, mais uma vez, uma ou outra operação semântica e acrobacia de contextos, janelas que fechem alguma coisa como crianças atrasadas cultivadas - macaquinhos de realejo que nos traiam a atenção dos fios. - Sim, como diria N. depois de P., o poeta é culpado de ilusão. Apenas que a arte - mesmo antes que ilusão. Janelas altas, mesmo antes que abertas.
E, então, chamar-lhe-íamos, a um tal ser poietico-patológico, um doente prático-instrumental. Isto na medida em que o que representa nunca é o mundo, mas uma sua opacidade epocal personalizada, uma ideia deusa - para mais, passível de reutilizações vivificantes -, uma duplicação sensível que assegura, no mesmo momento em que altera; uma mentira que nos enfeitiça a tenda na qual vivemos como, dentro da garrafa, a porra da mosca de W..
Resumindo, e atentai os ouvidos: é um ser manhoso esse poeta que vive e cresce de nos iludir a proporção da cabana no deserto, a profundidade da gruta... - L. diria o olhar de Deus.
- ... e és tu que dizes isto, logo tu, poeta-coleccionador?- resmungou Anacreonte.
O Sr. T. não ouviu ou por tal se deu. Sorriu perante aquelas poucas estrelinhas que ora se lhe iluminavam na retina e contribuiu:
- ... e no entanto, sim, por um lado é a guerra das imagens de mundo; do outro, viva-se a arte como ruína apoteótica, escolha-se a arte como se escolhe um beijo ou um murro. Mas não - quem atreve perder a cidade? O que seria perder a cidade? Percebem, minhas andorinhas?
Anacreonte não gostou de se sentir apelidado de andorinha, depois aninhou uma cidade, como se faz sua uma criança - como silenciosamente numa criança se faz uma morte.
- Sim. O que seria perder a cidade?