Domingo, Outubro 28

Sancho


Lá continua - disseste
- como moinhos!
Sim, como moinhos, disseste. Isso terá que dar história, disseste. Talvez com agiotas, moleiros zunindo, lindas padeiras baixando o olho e o herói arqueando no peito o coração de pardal.
Ou armadilhas mortais e agentes duplos, à Le Carré.
Mas hesitas em ter-te como soco e que o recebam com juro.
- Têm o tempo da necessidade, as histórias.
-... como os moinhos!

Só para que...


Ficas com menos uma casa. E contigo o segredo. E estendias tu a má partição, os cobertos como outra espécie de chuva. Só para que eu... ou a expectativa de mudança...
Só para que um braço recolhesse este último líquido fresco e
aberto
como uma flor
germinasse.

Sábado, Outubro 27

Em poucas palavras - "Double Elvis" - A. W. R.O.L.


antes eram as danças
da armadilha em redor e os vinhos para
a solidão acompanhar
de carne a envelhecer das unhas
e taco a taco
eram os postos e as deserções
os grãos da velha mó a doer
e era quando a pender do corpo abrias a cabeça
que doía um rio em sangue erecto
que estendias a achar ou perder
em poucas palavras.

eras puto, eras parvo, e faziam-te
a correcção da flor para a morte.

Bim Manuel Maria

Terça-feira, Outubro 23

Costumes e usos


Saí no salto mesmo da janela e atirei a metralhadora ao chão, as mãos bem espetadas, os dedos abertos. Acho que foi nesse momento que senti o cowboy. - Foi quando ela saltou no ar a dardejar a morte em pontas de bala. Uma varou-me o peito. Depois, explodiu algo na minha cabeça. - Fizeram um spot publicitário: por cima do meu rosto aberto, as palavras a vermelhão, proteja-os. O meu rosto estava a preto e branco. Não me reconheci de imediato, quando isso aconteceu os olhos humedeceram-se-me. Eu não era aquele resto, apercebi-me quase de seguida. Mas, desse por onde desse, eu era a objectiva. - Eu era aquele calafrio na espinha à hora do jantar. - Anos mais tarde, reapareci no metro. - Desta, em placards gigantescos, também a preto e branco, onde agora se lia, de novo a vermelhão: ... este resistiu. - Súbito, eu era um calafrio das horas mortas. - Mas foi coisa de dois anos, se tanto, depois esqueceram-me, pura e simplesmente.

Segunda-feira, Outubro 22

De como Bim está morto e bem morto.


Bim desatou-se em corrida, afinal a morte devolvia-o num vórtice.
- Sr. Rocambole - ainda lhe falou D. Morte ...
Mas a Bim entretinha-o já a infinidade de tons de água sobre os peixinhos vermelhos. E só quando, saltando as cordas, o reflexo de sua mãe veio perturbar as águas é que Bim percebeu que estava mesmo morto.
Tirou o papel do bolso e desamarrotou-o.
- Pensylvania Gershwin...
- Professor?
- Se me telefona é certamente porque está morto. E isso é um bocado tarde.

O professor Singeverga


a C.N.M.
Não convivia bem com a educação actual (Deus nos livre dos falsos profetas), nem com a ciência actual (dos fachidioten, filhos da divisão social do trabalho científico), nem com a sócio-política actual (pós-capitalismo? uma ova!), nem com a consciência actual (pós histórica, isto é: descafeinada ou tecnocrática) e, honestamente surdo a amanhãs que cantam, desfizera-se já (ou quase) de didactismos, mesmo os de diversidade.
O que lhe restava se, aparentemente, era ainda demasiado novo para a morte? Espécie de goliardo envelhecido, búdico assistia ao jogo da corda - de um lado os homeostáticos, em três tons de azul, do oposto os homeorréticos, em calção laranja e meias e t-shirt vermelhas. Por vezes divertiam-no as espectaculares mudanças de campo, de outras entristecia perante a convicção e sua ausência. De quando em vez, escrevia umas palavras no canhenho preto, depois outras no canhenho verde. Mas não vacilava, nem em intenção. Só mesmo quando escrevia, por vezes quando dava aulas, e apenas por momentos, deixava de ser sequencialmente o espectador ideal que, em paralelo, efectivamente era.
Em momentos raros, o seu rosto era um sorriso do bem.

Domingo, Outubro 21

O professor Carol

E, simpática, demoradamente, o professor Carol apanhava as canetas, borracha, folhas no outono das mesas. Depois, fitava-as - tão menos mortas do que os dias.

Nove

o apelo do ovo dificilmente é-o do novo
a menos
não haja noivo e o bolo de ovo não seja novo
nem a galinha de novo após o ovo, mas paté de miúdos
ficado o bolo sem noivo novo e o ovo com uma linha

Pelo telhado


Muitas vezes, quando vejo um homem ocorre-me pensar: todos os homens, quando não tagarelam, falam da morte e do amor.
O que ainda admira nisso - perguntas-me tu, leitor - se os homens apenas vivem e morrem e, ainda assim, vivem e morrem?
Precisamente isto. Talvez apenas a imagem de quantas vezes nos é inócuo o pensamento da morte - de quantas vezes a vida nos sorri como vida apenas.
Como poderia ser de outra maneira, leitor? Mais belo do que a vida olhada como milagre, só, porventura, o milagre olhado como destino - em que D. Morte não é sequer uma verdade do mundo. Por fundo, o intelecto reconduzido a mais um instinto. Mais uma maneira de sentir e de crer. Apenas o modo actual da velha tentação de sair, pelo telhado, da animalidade.

Sexta-feira, Outubro 19

Momentos interessantes do utilitarismo


Curioso momento: o grande ocidente envelhece e traz três novas bandeiras: pedofilia, eutanásia e fascismo verde - o resto são unhas já velhas.

Elementar, caro Watson.


- Tio Anacreonte, tu vais morrer, não vais?
- Um dia, como toda a gente.
- Porque temos de morrer?
- Talvez porque o mundo é pequenino...
- ... e não podiam morrer só os pretos, os árabes, os chineses?

O novo velho mito de Fausto (Zizec)


O novo velho mito: só a ciência não conhece limites próprios, o que a assegura, como ilimitado, na proximidade do transcendente. Deste ponto de vista, repor a ciência entre limites humanos, por exemplo, seria, como sugere Z., não apenas inoperante, por alheio à sua lógica oficinal, como um regresso do fantasma fascista. Z. confere a essa pulsão, inclusive, uma importante anterioridade, anterior à história, essa pulsão seria o fascismo primordial. O ponto de vista de Z. não deixa de ser interessante. Onde, em Oitocentos, o peso da realidade pesava nas artes, que saberiam sem saber e, em consequência, apresentariam a pulsão de verdade em sua 'pureza', um olhar inocente e uma dimensão libertadora - o berço do modernismo -, o filósofo dá não apenas em propor ser esse desde sempre o domínio da ciência, afinal, um ir para além da 'clausura da metafísica', como, em lhe opondo em bloco a ética - enquanto esta visaria descarrilar o grande veículo da liberdade humana-, a arruma, usando de alguma liberdade, como a grande serva inoportuna. Em suma, a satisfação do saber teria de exclusivo tratar tão somente do próprio saber, independendo de fins, pelo que nada aí trataria de ética. Em contraposição ao sentir e ao crer, o saber seria o puro real.
Z. comparece assim em palco como um estranho gladiador, alguém que tratasse apenas de recolocar a Carta de Atenas onde devido, esquecendo a história.
Alguém talvez ainda demasiado exuberante para fazer frente a Fausto e, como Filémon e Baucis, morrer por um jardim.

Quarta-feira, Outubro 17

A figueira


"quando um grupo engendra um louco, não transferirá para ele a
necessidade de suportar passivamente o sofrimento que pertence a todos?"

Slavoj Zizek, La Subjectivité à venir

Pedro dormia a sono solto. Enfarinhado em redes sonhava. Na realidade, Pedro sonhava pouco.
Judas não saberia de que côncavo de obscuridade o espreitavam as recordações, simplesmente havia aquele canto triste de ave a morrer-lhe no peito prostrado e uma lágrima que lhe rolava o rosto e abria um sulco.
Uma abelha rendava toda a volta de um prepúcio de orquídea - sustinha o ouro entre o abdómen e as pinças pilosas que tremiam pouco. Um momento depois pousava nos lábios de Judas com um cheiro a figos.

Era chegado o momento, a esperada confirmação.

A festa, saltitando as encostas das torres quatro e cinco, oferecia um relevo singular. Vinho a jorros, do Beaume e Beaujolais, diluição de nepentes, iguarias do doce ao picante, tiras e base, tabaco americano duty-free. Os assados tostavam no ponto quente ou repousavam entre o pão de centeio e os pimentos, o peixe, em baixelas de folha de papaia, nadava em iogurte e menta. Em pequenos grupos os homens confraternizavam com a população e bebiam.

Junto ao muro o montículo de terra e erva escassa crescia pouco e arredondava de todos os lados como um substancial grão-de-bico. A toda a volta pendiam, nunca podados, os ramos das oliveiras centenárias que cresciam do outro lado.
- Pai, porque pedes um gesto meu... - ouviu-se. Ou ouviu ele.

Judas encostava o azul-bebé do graffiti XL, torre quatro, e era consigo mesmo que vociferava.
- Não é esse o monstruoso jogo que entretém e assegura os deuses? Faça-se! Afinal, que escolha tenho, já cheiro as lentilhas... Prometeu e Judas, Judas como anti-Prometeu. A história sorri sempre que se dobra ou algo de parecido. Mas a vida é contradição. - Judas, ó pobre Judas! - Qual pobre, Pai, lembras-te, precisavas de mim. -De borco, de borco. -Vê Pai! Vê como lhe levanto as saias. Nomine Filii.

- Mas Pai, porquê eu? Porque foi preciso um gesto meu entre os vossos? Porque pesaste tanto num beijo?

Menos eu - teimamos.


A palavra poeta quebrou. Fechou a gasta palavra, mal dita como alma. Somos todos estucadores desalmados e a alma do espectáculo.
-Menos eu - teimamos.
- Somos culpados. Antes de tudo de contradição.

Segunda-feira, Outubro 15

Aprendizagem de Mogli sapiens-sapiens


I.
Kipling: - Mas, Baghera, foi um pequeno erro que nunca se repetirá, não se pode errar? - perguntou Baloo.
Não - disse Baghera -, não na selva, Baloo, nunca na selva.
II.
Struggle for life: entre a infância irrecuperável e o berço como perigo. Darwin teria aplaudido. O neo-liberalismo também.
Pode dizer-se que não, K., quando tudo aplaude?
III.
Rhinoceros and other plays. Somente o necessário. E no entanto, a selva é, por natureza, o lugar do extraordinário. Lugar de crianças-lobo. De lobos antes que de cordeiros. De girafas. De impalas, de mulheres carecas e de rhinoceros à janela.
IV.
Divided, um pé cá, outro lá, o escritor - ah, Baghera, Baloo...
ah, mentira. Mogli nunca foi possível - só por isso nunca cresceu.

Pneuma


- Como apareceram as palavras, tio Anacreonte.
- Ninguém sabe, mas há muitas teorias.
- E o primeiro homem, tio?
- Também ninguém sabe, mas há algumas teorias.
- E a poesia, a filosofia...
- Diz-se que... mas deixem-me facilitar-vos a vida. Perguntem-me o homem, o que lhe é devido, e talvez vos possa ser de algum auxílio. Mas se persistirem no que ao homem não é devido, terei de vos repetir, uma e outra vez, o que já por duas vezes vos disse.
- E teorias, tio, sim, o que são teorias?
- Digamos que são modos de olhar o mundo, não com os olhos, mas com o espírito.
- E o que é o espírito, tio Anacreonte?
- Ninguém sabe ao certo, mas há muitas teorias.

Quinta-feira, Outubro 11

'A obra descobre, numa descoberta que não é verdade, uma obscuridade' - M. B.C.H.O.T.


O Sr. T. ministrava um seminário. Anacreonte fora assistir.
- ... deste modo, o homo aestheticus não existe, em qualquer sentido forte. Como avançou K., o sentido forte esgaça no religioso.
Vejamos, fazer é o lugar da errância, uma errância que nasce na primeira violência: suster o tempo.
Em consequência, ver é apear-se, fantasiar-se, pôr-se como se intemporal ou para lá da verdade. Colocar-se no exotismo de um olhar que se exila. Quem, uma vez marcado pelo fogo da arte, recorda que estar vivo é apenas matar até que algo nos mate, beijar até ao último beijo? É claro, isto pede uma ideia estética. Um... afinal é belo - exalado por olhos de todos os dias. Apenas, mais uma vez, uma ou outra operação semântica e acrobacia de contextos, janelas que fechem alguma coisa como crianças atrasadas cultivadas - macaquinhos de realejo que nos traiam a atenção dos fios. - Sim, como diria N. depois de P., o poeta é culpado de ilusão. Apenas que a arte - mesmo antes que ilusão. Janelas altas, mesmo antes que abertas.
E, então, chamar-lhe-íamos, a um tal ser poietico-patológico, um doente prático-instrumental. Isto na medida em que o que representa nunca é o mundo, mas uma sua opacidade epocal personalizada, uma ideia deusa - para mais, passível de reutilizações vivificantes -, uma duplicação sensível que assegura, no mesmo momento em que altera; uma mentira que nos enfeitiça a tenda na qual vivemos como, dentro da garrafa, a porra da mosca de W..
Resumindo, e atentai os ouvidos: é um ser manhoso esse poeta que vive e cresce de nos iludir a proporção da cabana no deserto, a profundidade da gruta... - L. diria o olhar de Deus.

- ... e és tu que dizes isto, logo tu, poeta-coleccionador?- resmungou Anacreonte.

O Sr. T. não ouviu ou por tal se deu. Sorriu perante aquelas poucas estrelinhas que ora se lhe iluminavam na retina e contribuiu:
- ... e no entanto, sim, por um lado é a guerra das imagens de mundo; do outro, viva-se a arte como ruína apoteótica, escolha-se a arte como se escolhe um beijo ou um murro. Mas não - quem atreve perder a cidade? O que seria perder a cidade? Percebem, minhas andorinhas?

Anacreonte não gostou de se sentir apelidado de andorinha, depois aninhou uma cidade, como se faz sua uma criança - como silenciosamente numa criança se faz uma morte.
- Sim. O que seria perder a cidade?

Au quinquina...


O poeta tinha uma janela alta de onde olhava fenómenos, uma sina com a pele de uma cidade e um janelo passional muito baixo de cota catacumba. O poeta tinha dois berlindes, porca e porquinho. E três filhinhos todos de santíssima igual. Um dia o pássaro pousou no porquinho. No outro dia na porca pousou. E quando coberto de suor os repousava, acordava profundo o poeta. No primeiro dia para escrever: a realidade é um desempenho. No segundo, para acrescentar: ... de ovo. No terceiro, limitou-se a ler em voz alta: a realidade é um desempenho de ovo.
Huguinho, Zezinho e Luizinho, todos de santíssima igual, estendiam iguais braços à direita para os repuxarem ao ombro, entoando a capela:
- Ninguém é imperfeito, é isso pai? O poeta sorria, santo por bem de procriação.
Diz-se ter sido esse o primeiro momento das janelas . E também é escutado ser esse o ovo de mais poeta algum mostrar berlindes, mesmo num jardim.

Quarta-feira, Outubro 10

Por onde um fio - "O anjo Ancorado" - J. C. P.


hoje pus o anel na outra mão
e fui beber como um marinheiro
todos os baixios moços abaixo
da cor acostumada das mulheres

e o mar enraivecido
que vaga a vaga explendia o espelho
para morrer de amor ocasional
- zootecnicamente alheio -

rejuvenesceu entre as quadrigas
- não, não era de morrer que eu ousava - ousaste
e enquanto mexias o anel
na mais alta janela sentei-me eu chegado o fim

para que no dedo que vias tenaz junto
ao matutino dos honrados
o teu ouro ministrasse o velho armistício
mas, Penélope, eras a noite inexorável

do que nenhuma mãe aguentaria
e, exulta, contorcias já o relevo
nos montados
por onde um fio

Manuel Maria du Bim

Terça-feira, Outubro 9

Cultura Pop


Nas Torres aLx, onde mora o Sr. T., ninguém sabe quem seja o che, mas Anacreonte mantém o cartaz.
Um dia, isso tornou-se notável, e por um longo momento foi o Sr. T. quem sorriu.

Mimeses - "à mi chemin entre l'object et le langage" ( C. L.-S.)


E como ocorre seja belo?

Falo de coisas em que não consigo o silêncio


Mas um alter-filho, um halter-filho redime o melhor dos poetas.

Até à quinta geração


Filho de seus pais e pai de seus pais. Pai e filho de seus filhos.
- feliz abelhinha.

Segunda-feira, Outubro 8

Virtudes trágicas



"We feel sick about this grand show that goes on every year on the anniversary of his death."
Gary Prado, comandante da unidade dos rangers do
exército Boliviano que capturaram Che Guevara.


- Tudo é vaidade, tudo será pó - anuiu Anacreonte - mas a coragem e a determinação na coragem, a crença em que assente, será ainda assim uma virtude, mesmo se trágica.

Domingo, Outubro 7

Loco furioso ou porque não somos todos cowboys ou ele há morais e moralidades as mais inesperadas...


- ... e o que se lhe oferece dizer sobre Mugabe, Sr. T.?
- Sobre Mugabe? Parece que como Mahmoud Ahmadinejad recusa o fenómeno homossexual, calhando também não respeita os direitos das mulheres. Dá cá um jeito, já viu. Não são Ocidentais. Viu como até nos pudemos rir? O mesmo ocorrerá, porventura, com Chávez. Uns incivilizados irrecuperáveis. Palhaços, é o que é!

- E no entanto, é quando uma ideologia se veste de virtuosa que ela é mais perigosa - acrescentou o Sr. T.. Desde quando tais bandeiras se podem sobrepor a todas as outras? Como se chegou a este desprezo pela mais elementar justiça, a este empoleiramento em pergaminhos moralistas - sim, moralistas, querido leitor -, a este desprezo pelo 'adversário', a lembrar os tristes anos trinta? Como se tornou possível um artigo como o que hoje pude ler no Público, assinado pelo Sr. Paulo Moura. O puro aviltamento do outro enquanto outro, mesmo quando jogado do interior - o velho recurso ao estrangeirado ou ao homem-do-Ocidente, o bom sábio em terra de maus, um dos nossos. - Apercebeu-se o Sr. Paulo Moura do que fez? Não, estou em crê-lo. E no entanto, basta que se substitua a cada referência ao mundo islâmico um paralelo hebraico e estaremos perante um parente próximo de textos que em tempos não menos tristes circularam pela Alemanha. Como se tornou isto possível? Note-se que não questiono o Sr. Paulo Moura, apenas o como aqui se chegou. E não nos venham com o 11 de Setembro, que ameaça ter as costas apenas menos largas do que o holocausto - sim, caro leitor, só de o escrever ponho-me em mira de anti-semitismo. Resta calar? É isso que me pede?

- ... que tem isto a ver com Mugabe, pergunta-me? - Ora, estamos todos fartos de saber que isso de bons e maus ditadores é como a fruta, tem época, ou como as fadas, que os há os que nunca o são e outros que passam a ser, o vice e o versa, e tudo porque dá jeito à vindima do perlim-pim-pim; não é preciso usar o óculo de Eça para aperceber o que uma entidade como o F.M.I. faz das economias 'regionais' a bem da mais etérea das deusas que alguma vez pisou solo sagrado: a Economia. E o que resta? - Pois claro, resta o apelo ao nosso orgulho liberal - mais uma versão do ai que bons nós somos, ai, ai que bons nós somos -, capaz também ele, repentinamente, de envergar a cruz que antes porventura enjeitaria. - Percebe? - Heródoto, longe da tradição do livro, alertava contra o desprezo sobranceiro do adversário. Talvez, não seja mau recordá-lo; afinal era um grego e dizem que sensato. - A menos que queiramos recuar a esses idos de Oitocentos em que chamar de macaco o preto justificou a escravatura e o circo, ou então... ou ainda... Mas, é sabido, ele há morais e moralidades as mais inesperadas.

Quinta-feira, Outubro 4

Homo sociologicus



Não - disse o Sr. T. - eu moro nas Torres aLx. Anacreonte é que vive no palacete na Foz Velha.

Quarta-feira, Outubro 3

O se psicagógico



Se as artes têm alguma importância - pesou o Sr. T. - de algum modo Platão terá que ter razão e as artes, os artistas, deveriam ser postos fora de portas.
Se Aristóteles lhes abre as portas da cidade, é porque, como bom engenheiro, os põe a trabalhar para a ideia de cidade: as artes são inextirpáveis, mas as paixões são clarificáveis, o corpo é purgável. A cidade vence, muito antes da máquina a vapor.
Ora - perguntou-se o Sr. T. -, se o veneno vem a ser a base passional persuasiva da cidade homeopática, o seu poder minorou realmente? flectere animos é pouco poder? Sobretudo, o que é hoje a cidade, onde estão as suas mãos?

Ponson


O que quer ser quando morrer? - os ombros da mulher espetavam um microfone. Ponson olhou a bola de ténis, nunca tinha tido aquela perspectiva.
- Algumas imagens, uma 'Composição com algumas imagens'.

O vendedor (agora com moral no fim)


- Allan Street? - No, Hallem Street. H.A.L.L.E.M. - Ah, à direita. A próxima à direita.
Um laboratório sobre os ombros, sobre a testa. Enfiado pelos olhos. Bim sua, deve suar, tem duas manchas a abrir e gotejar sob as axilas, sente molhado acima do cinto. As nurses tinham olhos que se colavam nos dele e se afastavam depois. Recriminatórios? Não. Vinha na Time Out. 20 libras. Estavam ali para isso. Bim levara a revista consigo, fizera questão de a repousar no balcão. Não poderia haver dúvidas. Mas os olhos envergonham.
Escreve white no registo. A enfermeira corrige com um dark expressivo, não risca, escreve por cima, com força. Enverga a bata branca e os olhos azuis com a mesma força. Bim sente-se um pedaço de merda. Os olhos envergonham sempre. As mãos tremem-lhe. Seis ou sete folhas rubricadas; a assinatura final. A seringa gorda e vermelha. Blood test.
- Pronto? - Pronto, responde Bim com convicção.
A casa de banho é pequena. Um rolo de papel sobre o autoclismo. Um air-freshener, Mountain Pine. Um pequeno sabão verde. Um cesto de papéis, bastante cheio. A linha amarela rodeia a altura dos olhos. Por cima um espelho demasiado pequeno para ser indiscreto, mais abaixo algumas revistas sobre a napa vermelha do banco.

- O vento está a tentar atormentar-me, pai. Eu sei, pai, mal feito. De pequenino... Talvez agora te pudesses orgulhar de mim, quem sabe? Sou o caçador da oportunidade, percebes? Eu como antes que me comam, corto antes que roam. Fica, fala comigo. Tu que eras o bem do meu mal... Mas, pai, o meu cérebro agora voltou a funcionar sozinho. Lembras-te daqueles dias, pai? Fiz por me matar por ti. Não conseguiste, sobrevivi-te. Aceita, agora, que há algumas coisas que eu faço bem. Tudo deve dedicar-se a alguém, não é?

- Pronto? - Pronto, responde Bim com convicção, pensa nas 20 libras.

Moral da história: um pai, por maiores as razões que lhe assistam, nunca deve cortar uma mão a um filho.

Segunda-feira, Outubro 1

Os infelizes são ingratos: isso faz parte da sua infelicidade - V.H. (uma visão a branco e preto)

(em http://escroque.blogspot.com)

- ... e os O viviam felizes bem no meio do mundo, no umbigo da luz. O 'Fundo', que tratava de tudo por eles, transformava morteiros em flores e, povo de ourives, do esterco tirara a arte do oiro. Um dia o povo de Redondezas nacionalizou o esterco e transformou caniços em bombas e fez rede. E como ninguém tinha pombas, lançaram-se as bombas. E ninguém percebeu nada, ninguém quis ouvir, ninguém viu os sinais que vinham de todos os lados. A PlayStation jogava sozinha e o gato era o culpado.
- Isso, isso é a apologia do terrorismo! - injuriou um ouvinte.
- ...
- Mas... - recolheu o Sr. T. contristado - fiquemo-nos pois por aqui, que não minto se afirmar que a polícia política voltou e que as pessoas só percebem o que querem perceber.

Eis uma bela noite


- Porque não comeres-me? - perguntou-me antiquíssima a noite
dormia a sombra de uma árvore, não se sentia a demência de um vento.

- Ainda me vi alçar os braços a abrir a boca
depois, antiquíssima a noite, comi-a.

Não se sentia a demência de um vento.