Quinta-feira, Novembro 29

Tia


... literatura? Tia regressara. Estivera às portas de Petra. Revira no Líbano os cedros majestosos com as farpas da guerra. Vejo que conhece um pouco a nossa cidadezinha, entoou o guia maronita. Ela olhava já. Os olhos pequeninos nos figos e romãzeiras de Wadi Mousa. Síria, Líbano, Síria, Jordânia. As bossas sobre o tapete avermelhado eram um cais pequeno como uma boca gorda em que os maxilares estremecessem sem ceder, mas não rasgassem. O corpo rodopiou, as mãos procurando os pontos onde as mossas pisavam.
(Tia lembrou-se dele a pôr bombons na sopa, a engolir o pudim em throat-singing, todo de uma vez, só para a arreliar) .
... literatura? - perguntava-lhe. Tia tinha sonhos cultivados e dissolvidos um a um. Uns querem o amor, o
utros não querem morrer, outros ainda querem fama ou dinheiro. Ela só queria deixar o querer em desgaste mínimo. Tudo a aconselhava. Crescera na idade em que os abismos ainda extenuavam. E, desde então, ardera e gelara repetidamente à cabeça dos mortos e fora despovoando de sangue as roseiras com que ainda se intoxicava. Porquê construir paisagens de gelo, como se ainda tivesses medo? - perguntava ela. Porquê mostrar os músculos ou eriçar ridiculamente o pêlo, como se ainda ardesses? O que é que realmente mudava?
Bim nunca sabia responder a Tia. O fígado não metabolizava. Tivera, havia seis meses, um AVC que lhe deixara um braço pouco menos que morto e um sorriso irónico. Mesmo assim, Tia fora. O camelo a estender a horizontalidade da tenda para cima, como mastro na lividez da lua. O céu fundo por cima das esquinas, ao longe, a areia a avermelhar. Últimas brincadeiras da farda da criança. Sabes Bim, vou tirar a farda, um destes dias vou tirar a farda. O problema é Maria - Maria era a filha de Tia. - Costumo dizer que a minha família é o mundo. - Não estás a ser romântica? Não. Fica entregue à vida; só perfeitos idiotas podem apelidá-la de madrasta, madrasta é a morte. Depois, não se tem medo com o deserto ao lado. Medo tenho de pegar no carro. E tu sabes porquê. Mas as nossas rectas ainda não galgam o deserto.
... literatura? Toda a literatura é terapia ocupacional, Bim - dizia Tia, lançando pouco e logo repuxando a mesma gota de cuspe - ou é profissão. Infortúnios e trabalhos, citava Tia de memória, não necessidade. Vês aquela gárgula? É o exército de terra de Shaanxi. A necessidade há, mas olhos não. Queres saber a única coisa que me lixa? Diz, Bim, diz. Responde-me, quem deseja escrever aos seis? E aos oitenta? Porra, Bim, responde-me, porque é que lêem as pessoas que ainda lêem? Percebes?
Tia tinha que morrer em vão, e todos nós sabíamos.

Na pastelaria


Anacreonte olhava as mulas que ora riam ora escoiceavam, pastelaria adentro. É claro que havia por ali outras congregações, mas nenhuma tão do seu agrado como aquele pequeno corpo de mulas de lábios vermelhão em espasmos de zona lombar, espumando cerveja, priscas long size e tragando longas tíbias com o creme a escorrer entre os pingos de chocolate.
Mais na coxa do vidro, beirando os tabuleiros com as bolas de Berlim, os mil-folhas e os jesuítas, o conciliábulo dos cardeais e bispado porfiava da democracia liberal, rodeados da senescência dos anjos e da apetecível beleza de jovens demónios em vermelho, enquanto, bons cristãos, estendem Europa pela mesa e acariciam-na por debaixo da constituição. Na parede, um pouco acima, uma desprimorosa reprodução da Madonna col Bambino, angeli e San Girolamo, do Parmigianino. Ao fundo recuado, como outro tufo depois dos degraus, o balcão de ulemas entregava-se, humilde, à maior contenção verbal. Na esguelha, distinguiam-se as adagas sob as longas dishdashas, um que outro scud mais expressionista, um cinto armadilhado... - maus muçulmanos! Que fariam com aqueles portáteis? Naturalmente, os maus muçulmanos, os que nos explodem em casa e no berço, tinham Saladino nos olhos. Sobre a mesa uma miniatura da mesquita Al-Aqsa de Jerusalém. Por dentro dos olhos uma suspeição do branco que recuava a Sir T.H. Lawrence.
Uma tarde corrente na pastelaria tinha todos os ingredientes; e Anacreonte dava consigo a pensar como seria se o sol se engalfinhasse com o crescente e, na pastelaria, bispado e califado precipitassem na pequena batalha croissants e almendrados.
- Sou ocidental até à medula - disse o Sr. T., adivinhando-lhe o pensamento.
Anacreonte moveu os olhos que vieram repousar no amigo. Claro que ele era ocidental. Um e o outro tinham, a fogo no peito, bem impressa a condição de vítima ocidental em solo islâmico fanatizado. No mínimo, decapitados, talvez despidos de escalpe como ocorrera entre esses outros maus-maus que eram os índios americanos. Não era, contudo, uma questão dessa ordem que se punha, mas outra anterior e bem mais simples: estava o ódio isento de razões, estaria acaso impoluto o rosto de quem olhava para acusar papel de vítima na geral carnificina e arvorar a copa do kantiano juízo universal? É coisa para dizer que uma mão não sabe o que faz a outra e quanto lhes é devido entre zelotas e fariseus. Também ele, Anacreonte, era grego, apenas, como estava certo que acontecia com o Sr. T., tratava de pôr, obscenamente, os olhos para lá do seu quintal.
- Obscenamente... - repetiu o Sr. T. cofiando o bigode e anuindo com um movimento do shimagh, para largar de novo os olhos naquele pequeno grupo da cabriolice de alegres mulas, apenas importunadas, aqui e ali, pelo corropio de inquietos hamsters da cor do creme de chocolate; mas já aquela alegre nuvem debandava num tropel deixando o Sr. T. meditabundo e a sala num silêncio rotundo. Não era todos os dias que havia mulas e hamsters da cor do chocolate na pastelaria.
- Yourcenar? - espantou o Sr. T., os olhos no livro.
- 'As religiões monoteístas serão a desgraça dos homens...' - leu Anacreonte em voz habilmente alteada enquanto sorvia o café demasiado quente e mordia um bolinho de cenoura demasiado seco. Nenhuma reacção nas confrarias! E, no entanto, ainda que Yourcenar interpretasse o espírito grego cortês em versão provençal, disso mesmo também o Sr. T. estava convicto. O monoteísmo, em qualquer das suas imagens, arriscava levar o homem à ruína como outrora, de Babel, sabiam os livros.
Para já, havia que mudar de pastelaria, talvez seguir a ruidosa pista das mulas e dos hamsters, os braços de D. Vida, o sorriso dos pássaros. O Sr. T. recolheu a cabeça, Anacreonte o bastão acárdico e dirigiram-se para a porta.

Terça-feira, Novembro 27

Assunção

Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. Mesmo Deus, na medida em que nos intriga, não é no mais íntimo de nós que o discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro tão ruinoso para Ele como para nós. Ferido pela maldição que se liga aos actos, o violento só força a sua natureza, só se ultrapassa a si próprio, para a ela regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as ter feito nascer. Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção. Destrói-se quem, respondendo à sua vocação e cumprindo-a, se agita no interior da história (...). Perece-se sempre pelo eu que se assume: ter um nome é reivindicar um modo preciso de ruína.

- E. Cioran, Pensar Contra Si Próprio

Segunda-feira, Novembro 26

Acontecimentos recentes


Quando os nossos ocidentais filhos se tornam assassinos em massa e varrem escolas a metralha - note-se que não falo de comandos nem de ideologia - algo está definitivamente podre neste nosso Reino da Dinamarca.

Entretanto, rebentam novos motins nos subúrbios de Paris... É claro que nada disto é social.

A apresentação


Bim pediu um Bushmills, depois outro e puxou de um cigarro. O balcão era uma bolha negra e meia dúzia de luzes frias cuspiam as bebidas. Tinha a cara gelada, luvas e um longo sobretudo que tratava de desabotoar quando cruzou o seu olhar com o dela, ainda do outro lado, entre o vidro e a noite fresca do exterior. As T-shirt pretas dos rapazes tremeluziam na luz e uma lista azulada pintou-lhe na cara um esgar sonolento e sinistro. Ela deu-lhe um beijo, os lábios ainda frios, e afastou-se em direcção à sala interior. 'Vens?'. Devia ter recusado aquele trabalho, mas já era tarde para isso. Descascou o cigarro e dirigiu-se também ele para a mesa grande. A sala estava quente e havia gente a pé.
Ela convidou-o a sentar-se; o gajo no meio, ela de um lado, ele do outro, alguns exemplares do livro e os três microfones; não poderia fumar, avisaram-no. Tirou as luvas e deu um gole enquanto os olhos pousavam no título, 'Todos os paraísos são artificiais', depois ergueu nervosamente os olhos para a assistência iluminada pelo borbulhar dos clarões. Era um bom título verdadeiramente perdido num mau livro, o gajo definitivamente não era o Luís Fernandes*, e como romance, ... Ela ripostava, 'nem tu o Pitta'. Ele sorriu com um gato pela boca.
A seu lado, uma árvore tropical em polyester, que de dia seria terrível, mergulhava-o apenas mais na sombra, à sua frente posters de cinema americano, do outro lado uma dezena de écrans sobre um fundo vermelho a fuzilar filmes com Edward G. Robinson. O gajo já lá estava, sentado, um ar repousado, os ombros quase tombando nas mãos aninhadas no colo. Sorriu vagamente e disse qualquer coisa simpática. Ela fez-lhe sinal e soletrou um 'sabes o que vais dizer?' com os lábios. Ele não respondeu.
Era a ela quem cabia começar. No fim falaria o gajo do livro. Para ele ficariam os dez minutos no meio. Um foco explodiu-lhes na cara e ouviu a voz dela dar as boas noites. As janelas ressoavam batidas pelos écrans. Passados alguns minutos, novo sinal e o seu nome ampliado pelo microfone. No circo, o momento dos grandes felinos é no fim, quando a plateia está demasiado exausta para os palhaços. A ele cabia-lhe ser o último palhaço, actuaria enquanto montavam os gradeamentos - depois, o gadjo sociologicus.
- 'Todos os paraísos são artificiais'.., - procurou um cigarro no bolso do sobretudo e rasgou a ponta. Esticou o tabaco no papel e começou com o isqueiro a aquecer a pedra que pousava na ponta com o filtro. Enrolou, levou-o à boca e estalou o isqueiro - '... é um bom título'.
'Todos os paraísos são artificiais'. Definitivamente, era um bom título. Entretanto, ganhava alguns segundos e um silêncio de pedra. Quando recomeçou a falar a desordem dos sons reiniciava e um forte odor metálico enchia a sala. Tinha todos os olhos e rapidamente também os ouvidos. 'Desde a origem, podemos imaginá-lo, o artifício tornou-se o paradisíaco'. ' Um pacemaker, um conto-de-fadas, o soma, a máquina...' - largou uma nuvem de fumo espesso e passou-lho pela frente do gajo como se ele não existisse. Ela apagou-o no copo com uma expressão ofendida de austera censura.
O trabalho estava feito. Foi só esperar que o gajo fizesse os agradecimentos da praxe. No fim decorreria a sessão de autógrafos. Depois, novamente o frio da noite, os gatos. Entretanto, aquela gente acotovelava-se oferecendo o lombo do livro à mão diligente do gajo que não era o Luís Fernandes; certamente não um dos condenados da cidade.
- Porque fizeste aquilo? - perguntou ela.
- Referes-te... queres um café?
- Sabes a que me refiro e, não, não quero café. Bim beijou-lhe a testa. - Já tenho idade e não tenho nome a defender, Eva. O gajo era um idiota, não sabem do que falam estes gajos, teve publicidade extra, que mais queres? Vais vender mais livros, Eva. E ninguém virá atrás de mim. - "E, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também ao homem, e ele comeu com ela." - Génesis, 3:6.
- Foi um gran finale, Eva, n'est-ce pas?


* - Luís Fernandes, psicólogo; aqui, sobretudo, porque a única pessoa com mais do que a escolaridade obrigatória que viveu em Torres aLx. A sua tese de doutoramento, baseada nessa experiência, está publicada sob o título 'O sítio das drogas'. Um pequeno tributo em série negra.

Quinta-feira, Novembro 22

Questões de ouvido


Se por um instante a verdade tivesse conteúdo, e não somente imagens - disse o Sr.T - as diferentes línguas deixariam de ser línguas e passariam a ser ouvidos.
- Anacreonte era todo ouvidos.

... e deram de cão


- Aquele que se preocupa com a sua alma, não sabe o que seja o sofrimento no corpo - atirou Anacreonte à multidão, depois calou-se como a desculpar-se de ter perturbado os Cânticos. Porém, isto foi o que o Sr. T. disse: - A quem realmente sofreu no corpo só o preocupa a alma nenhuma. Mas os Cânticos haviam recomeçado e falavam o espírito humano. Uma outra linguagem que eles entendiam nos olhos que se lhes viravam como se torturassem insectos. As crianças, guiadas por sinais, corriam a concentrar-se junto ao pórtico. Foi quando saiam que desataram a apedrejá-los com balões de água quente, pequenas pedras e mau-olhado.
Precavidos, alçaram-se céleres ao triciclo e deram de cão.

Terça-feira, Novembro 20

Falsa conversão


Todos os domingos de manhã o Sr. A. faz a marginal à procura de histórias. Por vezes cai-lhe uma na cabeça. De uma vez, estendeu o braço para deter um papel que ameaçava no vento e três tombaram-lhe aos pés, atemorizadas. Eram histórias ainda pequenas a quem sua palma sulcada e aberta certamente amedrontara mais do que aquela folha de jornal à deriva. Quando assim é, o Sr. A. deixa-as partir, não as quer nem pequenas, nem medrosas - mesmo se repetidamente lhe custa abrir mão das pequeninas. Uma outra vez, o Sr. A. tropeçou numa história que já levava um escritor pela mão e teve que se desculpar imensamente - o que lhe desagradou apenas menos do que o ar portátil do escritor. De outra ainda, deu consigo a surpreender-se por três vezes com a mesma história, julgando-a outra até às últimas linhas. Maravilhado, abriu gulosamente o saco, apenas para descobrir que estava assinada. Nesse instante, porque desatasse a chover, o Sr. A pôs o saco preto na cabeça, certificou-se de que abotoara o sobretudo e foi para casa sem qualquer história.

Por vezes, o Sr. A., apanhava duas ou três histórias. Não raramente, regressava a casa tão aligeirado como saíra, o que lhe era supinamente desagradável. Além do que boas histórias são difíceis de apanhar e requer astúcia. Talvez por isso, o Sr. A. andasse desalentado. Entretanto, ocorria uma boa história apanhar um escritor. Casos de histórias, nem muito grandes, mas que engoliam escritores de uma só vez eram vulgares e o Sr. A. sabia. O vostok de pulso, resgatado quando duas histórias tranquilamente lhe deglutiam o irmão, não permitia esquecer.

Naquele domingo o Sr. A. ficara por casa. O caçador recolector daria lugar ao agricultor. Pazinha na mão, revolveu longamente a terra preta enriquecida com composto, perfurando-a depois várias vezes em profundidade e deixando cair as sementes. Porque não tivesse senão seleccionado a melhor semente, não tinha milhares no saco, mas pouco mais de duas dezenas. Guardou meia dúzia para outra altura e fez a água circular lentamente entre as que depositara na terra. Em Novembro teria os primeiros frutos, quando as delicadas flores brancas do piripíri estoirassem em malaguetas verdes, pretas e finalmente vermelho ardente, depois uma cornucópia de histórias a partir de Março, do doce ao limão. Agora os domingos de manhã encontram frequentemente o Sr. A. curvado sobre a terra do jardim, tratando de medrar o dia em que ela rebentará em histórias.

É claro que porque nos demais dias trabalhe numa repartição e nem tudo nascesse da terra, o Sr. A. passara a fazer a marginal aos sábados e estava feliz; o sábado não só palpitava inexplorado, como refulgia em histórias. Na verdade, estava duplamente feliz, nunca, até àquela data, tivera sábados e domingos como se tem anjos e demónios.

Segunda-feira, Novembro 19

Antigo


Se o moderno é fértil, após o moderno será já a demasia em que se o reconhece como o mais antigo.

Tales qual


Depois do moderno o antigo, como no poço o fundo do céu.
O símio em blocos de repetição: depois do moderno o clone.
De antes, sempre antes, a lascívia torácica das mulheres de Trácia.

Sexta-feira, Novembro 16

Presciência e ou


Bim virou a folha. - Os vigilantes estavam bem treinados. Perguntou-se a que espécie de treino os sujeitariam, porque neles nada mexesse, salvo movimento seu. Aí pareciam armadilhar-se e os olhos despoletavam telescópicos, a desvairar na mínima medição, capazes de prever por trás dos aros.
O examinando vira a folha e os olhos viram-na com ele. - Nada mais, nada menos. Nem um pestanejar a alijar qualquer carga, o levar a mão à cana do nariz debaixo dos óculos, para coçar. Teriam família? - pergunta-se Bim e olha de soslaio. Mas já retoma as folhas. Sabe que a qualquer momento podem ler o que escreve, que a condenação definitiva pode a qualquer momento apeá-lo.
Ao toque, tinham soletrado o seu nome. A sua cadeira era a da ponta, junto à janela e à secretária. Esperou. Os examinadores demoraram as instruções. A sala era pequena mas alta, as carteiras apertavam-se estreitando os cantos. Enquanto os examinadores liam as instruções, a sua mesa ascendeu lenta mas seguramente, parando então no ar, pairando, a cabeça a uma régua do tecto. Os vigilantes permaneciam imóveis, apenas o pescoço inclinou e os olhos pendiam a oblíqua, a corda a puxar um pouco mais de cima. As outras carteiras permaneciam impávidas, definitivamente ancoradas ao soalho.
Bim voltou às folhas, escrevendo como dele se esperava e a cadeira adaptou-se à nova posição, tão naturalmente como o faria a casca de um caracol. Os olhos sossegavam quando a pequena multidão irrompeu pela sala. Mudos por um instante, os olhos percorrendo cada centímetro, logo a multidão eclodiu num berro junto gregoriano. O regime caíra.
Que o regime caíra.
Os vigilantes permaneceram alguns instantes parados, os olhos postos no examinado. Dir-se-ia nada terem ouvido. Mas era esmagadora a sombra da sala e assim que saíram era como se a pele lhes pesasse menos. Ninguém diria, eis dois vigilantes.
No dia seguinte o examinado foi várias vezes cumprimentado e ocasionalmente cumprimentou, flectindo repetidamente o pescoço à distracção.
Quando aquele homem entrou na sala o examinando continuava a escrever.
- O regime caiu - disse o homem olhando para cima, e como não obtivesse resposta, insistiu: - Ó homem, o que faz aí em cima? Os examinadores fugiram todos, homem. O regime caiu! - repetiu.
O examinando olhava-o, estranhando a falta de presciência. Os vigilantes foram longamente treinados para aparecer e desaparecer, pensou Bim, aprenderam com o diabo a piscar o olho. Sabem as artes do e e do ou. 'Virão outros', disse ele. 'Vêm sempre outros', disse Bim. E retomando a escrita, 'quando voltarem terei o trabalho adiantado, há uma certa margem de liberdade em ter o trabalho adiantado.'
- Daqui a pouco pode estar aí sentado a examinar-me, já pensou nisso? - Bim virou de novo a folha.

Naquela noite ele e ela


Ele tinha andado alguns passos ao luar quando desembocou naquela mão. Ela espetava-lha na cara e deixava-a lá por um instante. Logo a seguir outra que o deixa tombado. Ele desata a berrar nomes e agarra-lhe um braço. Ela marca-o pela terceira vez. Tem uma mão pequena. Para ali é a ravina, depois o mar. Ele está bêbado e e ela berra-lhe: - Se te queres matar, mata-te! Mas amanhã, quando estiveres sóbrio. Agora ela agarra-o pelas golas do casaco. Ele é maciço, mas permanece curvado. O homem urra. E ela berra-lhe novamente: - Amanhã.
De pé ele parece um pouco de granito. Os olhos na terra. Então ela volta a berrar: - Quero ver com estes olhos, à luz do dia. Para ela a autenticidade não prescindia dos olhos. Depois desapareceram na noite e não se ouviu nenhum outro berro, apenas o riso das rajadas e um vento que engrossava.

Quarta-feira, Novembro 14

Branca de Neve


- Vamos lá a acordar, nina. Vamos, chega de boa vida.
A nina estremunhada, baloiçando a cabeça, depois de arrastar as mãos pelos olhos: - Mas ... não é suposto acordarem-me, não quando elaboro...
- Nem ai, nem ui - irritou-se Zangado - toca a levantar, isto é que nos saiu uma galdéria. Estamos nisto há ano e meio e nada, nem príncipe, nem sopa. Saiu-nos a ervilha seca.
- A fava... - tentou Dunga, desenhando com as mãos e a boca e habilmente traduzido por Feliz.
- A casa é pequenina, menina, não é que dê trabalho... repare que a minha prima... - principiou Dengoso, ao que foi interrompido.
- ... perceba menina - disse o Mestre - cama e roupa lavada todos os dias, depois, o soro, a mudança do penso, os cateteres, a algália...
- E a porcaria do vidro, sempre sujo! - disse Soneca - a menina desculpe, mas é um bico-de-obra pô-lo a brilhar. Se a menina fumasse menos...
- E os passarinhoooo - oo -oosssss - espirrou Atchim - não é nada fácil manter o quórum a alpiste, nada fácil. E a terrível da alergia... nada fácil, menina. Depois, menina, iludido pelos vaticinados sinais, já por seis vezes vazei os olhos a rouxinóis... sem que príncipe houvesse, só a mesma cambada de andrajosos, pestíferos, leprosos...
- ... tudo a lambuzar o raio do vidro! - não conteve Soneca.
- ... sem vocês eu não era mais do que um músculo coagulado num alforge de assassinos...
- Ficava-nos mais barato! - vociferou Zangado.
- Está bem, já percebi, eu saio de dentro do vidro... vou-me com os animaizinhos e o passaredo. Mas, acaso um dia a Sorte Grande passe por aqui, por vossa saúde lhe saibam contar o que de mim fizeram!
- Cheirou-nos a maldição? - perguntou Soneca.
- Qualquer maldição é melhor do que aquilo - exclamou Atchim. Soneca abanou a cabeça.
- ... e o que é que, exactamente, nós fizemos dela? - escreveu Dunga no caderno, rasgando o papelinho.
- Na melhor das hipóteses, uma Gata Borralheira, na pior a mulher do Barba Azul - disse o Mestre, cofiando a barba.
- Olha! Não é o príncipe quem vem ali?
- ...
- Feliz, Zangado, Dunga, tratem de meter a Branca de Neve a Bela Adormecida, rápido! Rápido!
- Atchim, prepara uma de a pôr a dormir.

Terça-feira, Novembro 13

A bela e o monstro


- Tirei as pestanas - disse-lhe ela.
- Não achas estranho? - perguntou.
- Que tenhas tirado as pestanas?
- Não, Álvaro. O facto de termos pêlo por cima dos olhos.
- A gente habitua-se a tudo... Também tinhas outros pêlos...
- Sim, mas mais nenhuns que me fizessem parecer uma máquina de varrer ruas.
- Dizias o mesmo dos pêlos do nariz, rotativas de um aspirador industrial...
- E esse problema está temporariamente resolvido.
-... como o dos fios de plástico das máquinas de varrer ruas!
- Sinto-me melhor assim.
- Mas, Maria Manuel, retiraste os últimos pêlos que ainda tinhas...
- Eram uma agressão, Álvaro. Algo que é como se nós, mas que não somos nós. Como as árvores não são a terra.
- Pensava que seriam uma protecção natural...
- Indícios é o que são, Álvaro. Algo que se tem para cortar. Por debaixo da pele é ainda o animal que excede a lâmina; a mínima distracção e o bicho retomará posse.
- Nada modificará o homem, Maria Manuel...
Conhecia aquela linha de argumentação. A seguir, ela iria recordá-lo de que a evolução se fizera contra o pêlo, mais do que pela posição vertical ou o polegar oponente; nem mesmo o incremento do volume craniano evidenciava uma mesma continuidade e constância; no fim, como sempre fazia, acrescentaria: - É por ti que o faço, é para ti que me quero perfeita. E Álvaro ficaria ali, a olhá-la até que a sombra desaparecesse. Não conseguira deixar de a amar, estava tão doente como ela.
-... somos sempre o velho antropóide - ainda disse.

Nessa noite e nas seguintes Maria Manuel dormiu com os olhos abertos.

Segunda-feira, Novembro 12

A ordem natural das coisas - segundo as abelhas.


Um dia as primeiras flores largaram do pé e rasgaram o ar. Nada havia de grave em tão delicado espectáculo, e nada teria sido feito, não ocorresse as flores, aos milhares, desatarem a roçar as abelhas para aí depositar o pólen.

Onde está o editor?


- É claro que existo, como bem pode ver - disse o Sr. T.. - E está certo de que eu exista? - perguntou Anacreonte. - É tão certo quanto eu poder vê-lo - respondeu o Sr. T.. - E, acaso, há mais alguém que nos veja? - Que eu tenha dado conta, não. - Então, acrescentou Anacreonte, como pode estar certo de que existimos?

Aquele fim-de-semana


Suspiro Pacheco, 38 anos feitos há oito dias, está no escritório e deita a mão para a descansar. Súbito, nem teclado, nem security option, nem reinitiate. Uma fortíssima dor de cabeça a puxá-lo para trás e a arremetê-lo para a frente, os dedos a mexer por espasmo num juízo próprio e remoto e, já sem remédio, a cabeça a tombar, solta, entre o M e a vírgula. O gato não o lambeu porque a janela estava fechada. Os pais, cada um no seu maple de couro, sorriam com a última situation comedy da 8. Passava pouco das 10 da noite e era uma sexta-feira.
Três dias depois, foi Sócio quem pôs a chave à porta. A cabeça de Pacheco pesava no teclado sem qualquer fio de sangue, a boca aberta parecia engolir ar e os braços tombavam. A gravidade não tem falhas. O écran ainda dardejava. Por um momento, Sócio não mexeu um músculo. Depois, tratou de se desembaraçar da garrafa de Ballantine's e dos papelinhos, despejou o cinzeiro atulhado, percorreu e esvaziou os bolsos e gavetas. Por fim, pegou no telefone.
- Bim?
Houve que quebrar-lhe as pernas e os braços. Três homens sentaram-se-lhe em cima para endireitar a coluna em conformidade.

Quinta-feira, Novembro 8

O agitador


O homem agitava as mãos, para cá e para lá.
Era maestro.

Quarta-feira, Novembro 7

Das rábulas de homenzinhos


Saiu do sarcófago forrado a jornais, o das pinturas com pedras, ali - e apontou. Cambaleou até ao quiosque, comprou tabaco, mortalhas, isqueiro. Foram por uma pequena rua, ela levada pela saia castanha acima do joelho, ele empurrado pelo cigarro.
Penso em ti - escreveu num papel que tirou do bolso e lhe entregou, depois outro - Fofo-te minha tola. - Depois escreveu mais coisas como estas e ela escreveu no guardanapo, um dedo a pedir o café - Sim? Não? - e depois escreveu - Talvez e Não sei. Depois deixaram de escrever porque eles sentavam-se a seu lado dizendo - Cafés, por favor...
Depois ele ainda escreveu - Quero lutar contigo até à ingestão - e - És a minha rainha africana.
Então ela engasgou-se - Está na hora, hoje faço ioga... - Engasgar-se-ia de qualquer modo, era a sua pequena rábula. E, nesse dia, ele pensou seriamente em fazer ioga.

No edifício da puberdade


- Sou um bolo de andares, largo, com requintes de glacée. Sou um tesouro de bolo. E elas são cinco fuzis de seta e boca com dentes. Querem mexer no bolo. Depenicar-me as gemas - lamber papas de açúcar baunilhado, segredos guardados em água, embrenhar-se ao ventre dos odores. - Cinco belos carrascos cravados como moscas no doce da luta. Cinco penetrantes fuzis de dentes e baioneta a perfurar um fofo, como lagartas o nicho da morte do fruto que desabrocha.
- agora sei que não é um infortúnio, a erupção de corpo-valores. Venham vossas as setas de vespas!

Há pequenas derrotas que se fazem de infância


Uma revoada de iscas aos berros ao longo da cana do executante. - Não tens crédito no jogo! Dá tudo por tudo. As iscas vão inchar no tapete, subir à lombada e terás de perder ainda uma vez. Saibas atiçar bem o fogo nessa floresta de sombras. Então, executante exímio, degolarás as iscas e não serão amieiros, mas fósforos queimados. Então, já de cima, dirás - Ah, essas derrotas foram preciosas.

Segunda-feira, Novembro 5

Homenagem a ESTE Robert Rauschenberg - Cardbird, que milagre nas tournées do mercado aqui vos trouxe?



"You have to have the time to feel sorry for yourself
in order to be a good abstract expressionist."

Apesar do ambiente intensamente cultual e do baile de máscaras, o Sr. T. fora tocado pela graça. Sentia-se francamente invadido pelo dom do entusiasmo, coisa que de há muito não lhe sucedia.
- Vês?! É em tecido e cardboard boxes o regresso do jogo de textura, do tom sobre tom, os véus, as velaturas, a cintura da escola intimista de Oitocentos, o ...
- Sim, anuiu Anacreonte, e agora, apreciamos os jardins?


O Vol-au-vent.


- Doze costeletas do cachaço. O mesmo de bifes de peru. Quatro bifes altos, bico da pá. Uma posta de oitocentos gramas, vazia. Nispo, seiscentos gramas. E dois frangos abertos a meio. Não, sem cabeça, sem pescoço, sem pito, sem as patas.
- ... o patrão permite?
O Sr. T. fez um sorriso contrafeito, 'com certeza, com certeza', mas manteve inflexível a sua dianteira psicológica - o homem tinha entrado pouco depois, mas depois ainda assim. Só então olhou para o lado como se para trás se virasse. Era um homem alto e magro, mas entroncado, o nariz extremamente largo, demasiado artificialmente aproximado das maçãs do rosto, telemóvel numa mão, a outra aproximada do vidro.
- ... a cabeça, pescoço, pito e patas de galinha para o Vol-au-vent.
O Sr. T. reconhecia aquele nariz. Era melga velha, o Vol-au-vent. Mas era mais: o Vol-au-vent era um dos artistas da rampinha.
- Sr. José, ouviu o senhor.

Domingo, Novembro 4

Tinha o instinto no pescoço e um frio nos olhos


- Não olhes agora, disseram-lhe.
Todo o seu instinto inclinava o desabe - foi coisa de segundos. Talvez houvesse um revólver, fosse ele um ponto na linha de tiro que porventura começaria atrás de uma sebe, do lado oculto de uma esquina. Talvez. Mas tudo era apoucado naquela tradução de vontade. Não olhou. Logo logo conheceria a impossibilidade de perigo imediato - caso em que pedirem-lhe para não olhar seria apenas despropositado. Mas isso seria depois. Então, coisa de segundos, apenas o rodar quase dos ombros e do pescoço, depois, a acalmia súbita, tendida, de músculos por um instante traídos, talvez já a vaga ideia de perigo que se tentava, tornando mais pungente a vitória. Era deliberadamente que o Sr. T. submergia naquele pequeno triunfo - que mais lhe poderia dizer o mundo, acaso mais importante?
Teve a certeza de que a haver revólver, o tiro falharia a linha.
Depois, o Sr. T. sabia que a vida exige o tiro, sobretudo em Torres aLx.

Tudo


Fosse só chuva o nome todo
e a tarde, o mundo, fluísse tudo numa gota.

Sexta-feira, Novembro 2

... aos uivos nas curvas

"O carro mordia a estrada, aos uivos nas curvas."
José Cardoso Pires, fim de O anjo ancorado

Quinta-feira, Novembro 1

Estado de sítio


... ah, e os juízes são uns canalhas, e os professores, e os funcionários públicos e... seus... seus... corporativistas!

E no entanto, teimo com a história, bem nas fuças da tecnocracia liberal:
Da Mesopotâmia à China dos Song; do império Árabe a já bem entrado o século XIX - todos, mas TODOS, os momentos civilizacionais de alguma relevância viveram um incremento em número e qualidade da função pública.
Hoje, dizem-nos, trata-se de tomar o sentido contrário. Naturalmente, em nome do Progresso. Mesmo se o progresso, como é sabido, não irá a lado algum - euforias e esbaforias de um vento. Mas, por um momento, Malthus e W. Townsend terão uma vitória póstuma. Na ilha, os cães tratarão de estraçalhar as cabras. O problema será então o excesso da fome nos cães, terminadas ou inacessíveis as cabras.

A cigarra e a formiga


Dando em reflectir na história da cigarra e da formiga, Anacreonte finalmente percebeu: uma parte significativa das cigarras acabava por casar com a formiga.

Maria Manuel


Quando Bim acordou naquele dia sentiu-se apertado a ponto de lhe ser impossível erguer-se da cama. O problema não era conseguir mexer os membros, tudo nele remexia palpitante como habitual. Mas inesperadamente Bim estava constrangido ao leito pela sua mesma casa. Como se a casa tivesse diminuído violentamente, abrigada pela noite, ou houvesse, durante o sono, ele crescido mais do que é humanamente formal. Foi com esforço que conseguiu levar a orelha ao auricular e discar o número.
- OmniCom, em que podemos servi-lo?
- E o Sr. Bim, com certeza, fechou os contractos de originação, transposição e solidificação. -
- Como se lembrará, o nosso contrato só nos impõe a colocação, a casa está onde e como nos pediu?
- Felizmente, o seu caso está contemplado na nossa lista de dúvidas do cliente, Sr. Bim. Se o Sr. Bim fizer o favor de desligar e voltar a ligar-nos pelo 211, 212 e 213 pode não só regularizar a sua situação de uma forma personalizada como expor seu problema para que possa ser prontamente resolvido...
Do outro lado, uma voz maviosa que já não ouvia - ... as nossas casas têm sempre a dimensão da razão do cliente! Tenha uma boa tarde.
Desmoronado, Bim discou de novo.
- Maria Manuel?

Apedrejamentos, bombas, cultura e iconoclastia

- Claro que é a dúvida o que vos aconselho - exclamou o Sr. T. -, sim, ainda se os pragmatistas advertem a sua impossibilidade, eis o que deponho perante vós: a impossibilidade como dever. Perante o superávit de convicções bélicas no nosso mundo actual não seria apenas conveniente o suposto homem universal investigar as suas crenças últimas? - Sim, porque todos as temos, universalmente - acrescentou - e suficientemente particulares para não suscitarem a menor sombra de dúvida. - Sobretudo, porque será esse algo, esse último, o que afinal torna uma cultura empunhável e o que porventura melhor esboçará o sentido total das condutas.
- Mas para isso, minhas andorinhas, haverá talvez que sair da filosofia, esse lugar onde a dúvida não comparece em parte nenhuma. Depois, devagar, do universal. Mas lembrai-vos que cada movimento brusco apenas resultará em mais apedrejamentos.

Entretanto, diz a história: faço templo sobre templo, cultura sobre cultura. E diz o mundo: é tudo um segundo, um tão admirável quanto arrogante segundo.