
... literatura? Tia regressara. Estivera às portas de Petra. Revira no Líbano os cedros majestosos com as farpas da guerra. Vejo que conhece um pouco a nossa cidadezinha, entoou o guia maronita. Ela olhava já. Os olhos pequeninos nos figos e romãzeiras de Wadi Mousa. Síria, Líbano, Síria, Jordânia. As bossas sobre o tapete avermelhado eram um cais pequeno como uma boca gorda em que os maxilares estremecessem sem ceder, mas não rasgassem. O corpo rodopiou, as mãos procurando os pontos onde as mossas pisavam.
(Tia lembrou-se dele a pôr bombons na sopa, a engolir o pudim em throat-singing, todo de uma vez, só para a arreliar) .
... literatura? - perguntava-lhe. Tia tinha sonhos cultivados e dissolvidos um a um. Uns querem o amor, outros não querem morrer, outros ainda querem fama ou dinheiro. Ela só queria deixar o querer em desgaste mínimo. Tudo a aconselhava. Crescera na idade em que os abismos ainda extenuavam. E, desde então, ardera e gelara repetidamente à cabeça dos mortos e fora despovoando de sangue as roseiras com que ainda se intoxicava. Porquê construir paisagens de gelo, como se ainda tivesses medo? - perguntava ela. Porquê mostrar os músculos ou eriçar ridiculamente o pêlo, como se ainda ardesses? O que é que realmente mudava?
Bim nunca sabia responder a Tia. O fígado não metabolizava. Tivera, havia seis meses, um AVC que lhe deixara um braço pouco menos que morto e um sorriso irónico. Mesmo assim, Tia fora. O camelo a estender a horizontalidade da tenda para cima, como mastro na lividez da lua. O céu fundo por cima das esquinas, ao longe, a areia a avermelhar. Últimas brincadeiras da farda da criança. Sabes Bim, vou tirar a farda, um destes dias vou tirar a farda. O problema é Maria - Maria era a filha de Tia. - Costumo dizer que a minha família é o mundo. - Não estás a ser romântica? Não. Fica entregue à vida; só perfeitos idiotas podem apelidá-la de madrasta, madrasta é a morte. Depois, não se tem medo com o deserto ao lado. Medo tenho de pegar no carro. E tu sabes porquê. Mas as nossas rectas ainda não galgam o deserto.
... literatura? Toda a literatura é terapia ocupacional, Bim - dizia Tia, lançando pouco e logo repuxando a mesma gota de cuspe - ou é profissão. Infortúnios e trabalhos, citava Tia de memória, não necessidade. Vês aquela gárgula? É o exército de terra de Shaanxi. A necessidade há, mas olhos não. Queres saber a única coisa que me lixa? Diz, Bim, diz. Responde-me, quem deseja escrever aos seis? E aos oitenta? Porra, Bim, responde-me, porque é que lêem as pessoas que ainda lêem? Percebes?
Tia tinha que morrer em vão, e todos nós sabíamos.




























