A alegria apesar do mundo, toda a pena do mundo e a irrelevância do mundo - pensava o Sr. T.. - Onde o Buda ri, o Cristo pende do madeiro e Maomé, como manda a Lei Mosaica, é irrepresentável. Três ideias de auto-representação e de percurso, três metáforas do tempo e da vontade humana. E virando-se para Anacreonte: - o que é que isto nos pode e não pode dizer?
Mas Anacreonte estava distante, pensava talvez na Índia, de como aí se mantinham todos os rostos do divino em miríade de cores, pensava talvez no 'Deus em todas as coisas' e de como o panteísmo resistia incólume no vaso dos povos, e tinha tudo aquilo por muito belo. Depois, festividades de fim e início de ano eram terreno pouco propício a deuses celibatários, deuses que trespassam como uma linha de flecha.
A 22 de Outubro do ano que agora finda uma rapariga de 28 anos, aparentemente, deixou de escrever. É verdade que a rapariga não tinha pretensões ao Pulitzer Prize, sequer a aparecer na The New York Review of Books, mas não é menos verdade que durante quatro anos, mais precisamente de 17.o8.o3 a 22.1o.o7, essa rapariguinha alimentou num inglês violentamente irrepreensível as melhores crónicas de guerra que conheço. Guerra de ocupação, com certeza; guerrinha entre guerras de destituição da velha Ordem, apenas mais uma. A impessoalidade do 'Brave new world' não perdoa - Terry Jones, o humorista dos Monty Python, disse-o recentemente sem sorrir, o que, suponho, me livrará de imputações de peculiar melancolia. Fosse como fosse, não era jihadista, a menina, não era Baasista - claramente, é sunita, a rapariga, somente. Em Agosto de 2003 identificou-se: I'm female, Iraqi and 24. I survived the war. That's all you need to know. It's all that matters these days anyway. Durou quatro anos, amadurecidos a petardos. Hoje a rapariga tem 28 anos e está refugiada na vizinha Síria desde Outubro. Talvez seja também para isto que servem os blogues, para dar voz ao inaudível, mesmo se apenas durante quatro longos anos. Riverbend, o nome de utilizadora, e Baghdad Burning, o blogue, pelo menos de momento calaram-se. No cotovelo do rio pousou um grande silêncio.
Em Mundo Vizinho terá em breve início 'Brave new world'. Sim, 'brave new World'. Acaso a leitora já exigiu o seu desconto familiar? Não? Pare pois, pouse os pratos e faça-o já. Não estrague mais as unhas, querida leitora, faça-o já e habilite-se a um ginásio completamente apetrechado para os primeiros mil inscritos mais uma máquina faz-tudo a energia limpa, recomendada por Al Gore. Em qualquer caso, nunca seja a última, são já poucos os lugares da frente. Repita para consigo: eu tenho de estar na primeira linha no combate ao fumo. Mais uma vez: eu tenho de estar na primeira linha no combate ao fumo. Está convencida? Seja, pois, bem vinda ao 'brave New world'.
Aziz aproximara-se, encostara-se ao canto do balcão e enrolava outro, sempre com Bim ao canto do olho. Bim não conseguiu perceber se o seu cabelo ainda estava molhado ou se já fora molhado de novo. Os olhos percorreram-lhe a cara enquanto Aziz, o semblante opaco e indiferente, se inclinava para a frente e lambia o papel. Sarita Saporta fitava-o. Se os olhos dizem alguma coisa, via-o de novo nesse ano da claridade da Itália de 1979. - Aparentemente, tens sempre quem tos faça... - Bim puxou um cigarro, inclinou-o no lábio e parou os olhos por um momento na direcção dela. Depois acendeu-o. - Também sei envelhecer, Bim. E não, não estamos todos igualmente na merda, Sr. Direcção, não da mesma maneira. Não na mesma merda. O Aziz chegou até mim com a minha morada e um pedido de Ali. Ainda tinha a nossa morada, vê lá. - E ...? - Um agradecimento, depois destes anos todos. Vinte, mais? - os olhos dela eram enormes. Bim olhou para eles com frieza. - O homem que Ali salvou em Itália já não existe, Sarita. Tu já não existes, Sarita Saporta, já não és quem pensas que és, além de que ficas ridícula a passear o Aziz. Não venceste, ninguém vence, faz apenas parte do jogo que todos sejam vencidos. Quanto a mim, não sinto senão desprezo pelo homem que me salvou. Não sou obrigado a gostar de um homem só porque me salvou a vida, não há nenhuma razão para ele pensar que possa alguma vez depender de mim. Pela minha parte, não daria um passo para salvar a sua vida. O lábio superior de Sarita Saporta tremeu ligeiramente, sem expressão. - Julgava que estava a falar com um miúdo que não podia ver uma data de fedelhos espancar um bêbado só para se divertirem. - Se não era capaz de ver tapava os olhos. Vejo hoje as coisas com alguma objectividade, Sarita, penses o que pensares. E sei precisamente quem sou. Não pretendo descobrir o que é a vida só quando for tarde de mais. Bebes mais um e mudamos de agulha? - Estranhos numa peça estranha... - disse Sarita Saporta, enquanto a mão levantou ligeiramente o copo para que Bim o enchesse. - ... o mais estranhos possível - concordou Bim. - Porquê queixar-se se podemos usufruir tranquilamente do que não podemos vencer, não é, é este o teu lema, não é estupor? - Gosto mais da ideia dos estranhos, mas também podes dizer assim. - Não é só a tua cara que é a de um velho, Bim, pareces tão desencantado como um. - Então, é porque deve ser verdade. Bim ficou a vê-la indiferente, ela continuou a fitá-lo durante alguns segundos, depois deu meia volta, seguida de perto por Aziz. Bim viu-a dirigir-se lentamente e em diagonal em direcção à escadaria. Ela também não estava mais nova, pensou, sem deixar que qualquer traço menos desejado transparecesse e o apontasse. De qualquer maneira, nunca devia ter vindo. Não fora ele o convidado, mas aquele que morrera há vinte anos e que, por um momento, quase ressuscitara. Nessa noite não naufragaria.
Milão, passa das três da manhã. Bim tenta ainda relembrar, só vê o escuro de uma noite, o bêbado a contorcer-se junto às vespas no descanso e cinco ou seis indivíduos com coisas nas mãos, depois, o que deveria equivaler à perda de sentidos, nada, absolutamente nenhuma memória. Na cena seguinte Bim está no hospital, alguns pontos em dois sítios e a cabeça ligada. Ali dormita sentado, a seus pés, a cabeça apoiada na cama. Quando percebe que Bim acordou a boca abre-se-lhe num sorriso meridional. Com a mão esguia de tamarindo, aponta Sarita Saporta, no cadeirão de lona. Ela Sorri, com os olhos muito abertos. O seu número de telefone estava perdido na carteira de Bim. E agora os seus olhos grandes sorriam e velavam por ele. Entretanto, Ali encostara-se a um canto com o ar satisfeito e nervoso que sempre tinha e sem o qual - mesmo depois daquele dia - lhe era impossível revê-lo. Do seu canto olhava-os, examinava a emotividade da aproximação distraidamente como se saboreasse a carne sumarenta de uma tâmara. Sarita Saporta fora professora de literatura, chegara a publicar um livro polémico em que expunha a refutação do Cânone Ocidental de Bloom, parágrafo atrás de parágrafo. Agora tinha uma empresa de distribuição de legumes biológicos e tinha que desligar três telemóveis para poder estar ali. Mas o tempo não lhe fizera marcas que a desfeassem, continuava magra, um ar de miúda, a mesma expressão ferida e os olhos pretos enormes estavam impossivelmente maiores sob o cabelo acobreado e ferozmente desgrenhado que ela atara com um gancho japonês. Desmond Dekker arrancava com Shanty Town. Os corpos assaltavam por frases como num imenso e ensurdecedor filme mudo. Aziz aproxima-se dele e estende-lhe - demasiado devagar para os olhos - um bilhetinho, diz que é de Sarita. Sarita Saporta encosta o corrimão junto à improvisada casa de som, copo alto na mão à altura do candeeiro de mesa rosa. Os olhos viravam-se na sua direcção e os joelhos sorriem com os lábios. Bim abre o papel, amarrota-o sem o ler e põe-no no cinzeiro. Pede gin e água tónica, dois copos altos. - Não lês os meus recados? - Para quê, continuas a gostar de gin não continuas? Diz, sou todo ouvidos. - Nada Bim, perguntava-me se ainda te recordarias de Itália. Lembras-te? 1979, regressavas a Milão, vinhas de Siena via Florença, tu e o Ali e uma garrafa de Chianti. Tu a entrares no café em frente à esquadra e eles a pedirem papéis, tinha havido algo com as Brigate Rosse, recordas? O Ali não tinha os papéis em ordem e desapareceu. Os teus papéis estavam em perfeita ordem, mas zangaste-te quando quiseram que esvaziasses o cartucho das sandes. Já estavas de mau humor e quando à noite aquilo aconteceu foi porque o causaste, eu sei que não estava lá, mas o Ali contou-me tudo, como decidiste enfrentar o enxame de vespas atraídas pelo vinagre do velho bêbado e como acabaste por cair desamparado e a sangrar da testa - de como te bateram e perfuraram a fronte com um santo em terracota - e como ele te carregou para longe da escaramuça que desencadearas e subiu os oitocentos metros até ao táxi que vos levaria ao hospital contigo às costas. Ali contou-me tudo... - Antes ou depois de me ficar com o dinheiro? - Na altura. Depois disso vi-o tanto como tu, tu sabes. Mas sem ele... - Eu sei. Era isso que me querias dizer? - Não. Lembrei-me apenas. Ao ver-te, e de novo ao Aziz, lembrei-me de quando te salvei. De Ali, de como ele te pôde salvar para que te roubasse sem acréscimos na consciência. O teu ar indefeso... - Tu não fazes nada por acaso. - E quando fui ter contigo, nessa altura não precisamos de papéis... - Éramos mais novos, muito mais novos. Eu não tinha brancas e tu não pintavas o cabelo de acaju. - Envelheces, Bim? Perguntou Sarita Saporta esvaziando o copo. - Isso é bom na tua idade.
- Queres? Bim virou-se. Os olhos de Sarita Saporta esbugalhavam, bastante bêbados. - Este é o Aziz. Estou a baptizá-lo. Pisou ontem a merda do sonho europeu e é a sua primeira noite no dorso de Europa. Aziz olhou-o, primeiro a mão e só depois a cara, de baixo para cima. Tinha o cabelo molhado e o ar de quem perdera o oriente muito antes da festa. Ria com o irmão de Sarita e levava os dedos ao cabelo encharcado repuxando-o para trás. A visão de Sarita Saporta e de Aziz empurrara Bim num outro tempo imenso de há vinte anos em que se ouvia: - Vens de um outro mundo, não será Ali? - Nesse mundo ainda não havia Aziz, mas já Ali. - Não, de Ceuta, retorquia Ali fingindo não perceber e acrescentava: de outro mundo vem vocês, turistas. Durante as duas semanas em Itália, Ali fora o companheiro e cicerone de dias frívolos começados tarde na manhã. Ensinara-lhe a comer e dormir barato e todos os truques que cuidavam de diminuir montantes. Mostrara-lhe a cidade, dispusera-o nos meios estudantis, abrira-lhe o lado obscuro da noite toscana. Ali pagara-se bem. Para o caso não interessa como lhe ficara com as liras, nem sequer se Bim lhe guardou rancor. Ali vivia de bons parvos e Bim fora um parvo extremamente interessado tanto como, num sentido muito estrito, um parvo duro, extenuante. Olhou melhor para Aziz. O cabelo revolto, os olhos negros aureolados de vermelho e rápidos como esquilos, bem menos desatentos do que queriam fazer crer - muito mais escuro, nada que menos o aproximasse de Ali do que o tom da pele. Depois a mão de Sarita Saporta a acenar, afirmativa. - O que tens feito? E ele com um sorriso seco: - Caça ao imigrante ilegal. Sarita fuzilou-o com o olhar. - E o que fazes mais, para além de ser delator? Bim sorriu e indicou a tabuleta, acima da porta. - Estou de certo modo ligado à boa gestão das residências universitárias. - E, Senhor Direcção - disse ela passando-lho - posso fumar charros ou vai pôr-me à porta e a ferros o Aziz? - Está sossegada que não vou fazer nada ao Aziz. E podes fumar todos os que quiseres. Hoje não tenho nada a ver com isto. Vim só ver como estávamos passados vinte anos. - E, Senhor Direcção, como estamos nós? - Pára de me chamar assim, e que queres que te diga de novo, estamos todos igualmente na merda como antes e durante. O resto tanto faz. - Tanto faz, Bim? - os olhos de Sarita Saporta estavam enormes. Bim puxou o fogo e entregou o charro a Aziz que fez por agradecer com o ar mais idiota deste mundo. - Vou dar uma volta. Já nos vemos. Sarita Saporta disse-lhe que estava certa de que sim. Afastara-se em direcção à escada que dava para a cave, seguia a música e já decidira naufragar. As paredes forravam-se de cima a baixo de papel de cenário pintado, escrito, com colagens. Línguas de papel tombavam do tecto como ondulados de um cabelo retido no piso de cima; uns escritos da ponta para o tecto, outros, do tecto para o caracol. Por cima, a bola de espelhos, a luz estroboscópica a bater. Alguma da escrita sobressaía na luz negra e completava frases apenas tão estranhas como os bocados de rosto que assomavam e logo desapareciam, gente de que não podia sequer saber se conhecia. As poucas cadeiras haviam sido forradas a papel de jornal e, ao fundo, uma porta alta, transformada em casa-forte dos três porquinhos abria só por um quinto, obrigando os circunstantes a dobrarem-se quase em metades no acesso aos jardins e às casas de banho. A portinhola de cartão, ao descer, a todos pospunha um rabicho de porco. Para os mais altos ou que àquilo não se quisessem prestar não restava senão voltar a subir a escada, seguir em direcção à cozinha e descer novamente os degraus de pedra que davam para o jardim e que terminavam no meio de buganvílias cor de laranja iluminadas pelas listas das janelas. Ali salvara-lhe a vida, pouco tempo depois roubava-o e desaparecia. Já passara muito tempo, demasiado tempo.
Por vezes, nos seus dias mais negros, o Sr. T. pensa que só falta que um Arquiduque dê um passo para a morte em Sarajevo para que tudo rebente. Mas no dia seguinte, como S. Francisco, o Sr. T. sabe tratar do jardim. Na Primeira Grande Guerra, que eufemismo!, tal era a ânsia que bastara um Arquiduque. Na Segunda, alguma anexação de terra e homens morou perto da necessidade e, por algum tempo, na insuficiência. Na possibilidade da Terceira, a velocidade é uma promessa, talvez, de que nada possa acontecer com a celeridade suficiente que evite a ultrapassagem. Caso não, e as várias cadeias de consequências ocorram convergir num milagre matemático, o Sr. T. beijará os filhos e a mulher e continuará, talvez com eles, a tratar das rosas no jardim, talvez a correr atrás deles, a matá-los num abraço ou das cócegas. A última palavra, sinalética surja, será ainda de amor violento.
É a heterogeneidade de imagens que nos deleita... É Natal, leitor, e os gatos, os deserdados da fortuna fortificam no frio a atitude crítica. Os bem humorados e os piedosos enfraquecem à lareira como um modo de vida. Os que têm de cantar cantam. Os de acção detêm-se no que não conservarão, uma última vez. É Natal, leitor.
- Fiz o que tinha que fazer com a perfeição de que sou capaz, disse Anacreonte, fitando o galito da índia. - Qualquer um pode montar um tronco e cumprir o seu canto. E ninguém sabe o que experimenta um que eriça as penas com a seriedade prudente do animal, não é assim? Alço o pescoço? Ressoo nas superfícies, penetro o concreto com um tom de autor.
Está frio, estou frio, diz o espírito ao corpo. Pudesse isto ser tão movediço, oprimisse tão pouco como o contrário. Medo, não queiras tu nada de mim, neste intervalo burlesco.
Diz o poeta em resposta, sem que a pergunta tenha sido feita: - O que sou é um escritor livre. E as bocas abrem, tanto de esclarecidas como de espantadas. E diz mais o poeta, que escritor independente não é, e pergunta: independendo de quê? Ele é escritor de liberdade, não de independência. Ele é o escritor livre, não o escritor independente. O escritor confessa-se. Ele não independe da língua - imaginemos que não - nem da vida que o empurrou, menos dos antecedentes pré-natais. E, no entanto, ele é livre. Independente não, livre sim. Pergunta, naturalmente, o académico: livre como poder nadar ou deixar-se afogar nas águas do rio ou livre como desesperar ou aceitar as areias movediças? Em que caso a liberdade independe das águas ou da areia? Livre como poder dizer sim e não? Mas se tudo empurra a questão, e portanto dela não independe, o que é a liberdade de um não ou de um sim, senão uma escala na privação de outras questões, porventura mais determinantes? Se sou pensador livre? Não, não sou, ó senhor poeta. Livre de quê, livre como? O que sou é um atrevido. Por vezes, as mãos lembram as correntes e os olhos são irónicos, de outras, são as mãos livres que desenham o presídio e o ajuste, de outras ainda o exorcismo faz a conveniência - como a onda dá a direcção e a velocidade e determina-se numa resultante e numa reacção (hoje tão visíveis). Por vezes as mãos fecham-se em aríete, de outras abrem-se a outras, por vezes uma mão não sabe o que a outra faz, mas, ó senhor poeta - alguma vez foram elas livres, mesmo se, em certa medida, independem do corpo? Não, vez nenhuma. E, porventura, o que ocorre não será menos fantástico, apenas não será nem livre nem independente de tudo o resto. Não há senão relações, senhor poeta, relações e o seu jogo, não liberdade de movimentos, livre nem o vento, senhor poeta.
Quis deixar-lhe um recado. - Um recado como um papel amarelo que pudesse colar-lhe nos joelhos, ao amanhecer. Que lhe deixasse pousado ainda nas pernas quentes da noite em que ele tomava banho. E ela a seguir os seus movimentos pelo ruído que transpunha as escadas e acometia o corredor, a passar pela sala, espalhando-se, indicando-lhe que desligara o chuveiro. - Planeara dizer-lhe. Quando ela acordasse. Domingo de amanhã. Planeara dizer-lhe enquanto os desenhos animados a enterneciam. - Aquele recado que lhe deixaria agora entre o teclado do computador que partilhavam, como cama, as pernas, casa. O amanhecer. - A sua dor tinha, estranhamente, um nome. Mas talvez fosse só hoje. - Amanhã o nome desapareceria outra vez. E a restar, talvez apenas o recado que queria ceder desde o princípio. Um recado como uma maneira de estar de volta em todos os momentos, naquele momento, mais um. - Todos os momentos de estar de volta com ele. Ouvia-lhe a voz, quase perto. - Amo-te, murmurou rapidamente no teclado enquanto ele fechava a água, para que não a escutasse. - Ela não se habituava a ideia de que ele a podia magoar. E a sua dor que tinha estranhamente um nome, que tinha o mesmo nome e doía-lhe na dor dele. - Mas que talvez fosse só hoje. Que amanhã o nome desapareceria outra vez. - Ousou. - Ousou pensar. - Pensou em dizer-lho. - Que ... Mas sabia-a mais intensa. - Como um sopro danado, sem resguardo, destravado de cautelas e rasgado, sem mil recados: uma solidão que celebrava. - Não sabia de nada que tivesse mais importância do que a solidão de um anjo, pensou. O esquentador calara-se pela segunda vez. - Perguntava-se porque se calava, ela também.
Naquele dia ela quase chorou - Bim viu-lho nos olhos, com vontade de se ir embora. Não embora dali. Nem embora dela. Embora da sua tristeza onde não podia fazer nada.
Neste bloco de espaço de Torres aLx à Foz Velha, ida e volta, vela um anjo dourado numa curva e os barcos apontam o mar. Num baixio pousam garças altaneiras entre um baço de gaivotas e o ensopado de água preta com tatuagens infectas e empalhados ainda rígidos. Adiante, a Rua do Ouro escala a cidade para desaguar Rua das Condominhas, Lordelo do Ouro. No outro extremo, a Rua dos Prazeres e a Rua do Paraíso. Do outro lado, línguas de areia e o molhe de S. Pedro rompem como braguilhas a lisura de peles a reflectir no rio. É este o bloco de paisagem deste espaço. Além, uma filigrana de vias exige o país, o mundo, a terra. Os humanos. É neste bloco de espaço de Torres aLx à Foz Velha, ida e volta, que Anacreonte e o Sr. T. conversam sobre Deus e o Diabo. Por vezes, um olhar desce à grande cidade das nações e o temperamento explode com o jogador, mas logo se regressa à quotidiana mansidão. De outras, ensina-lhes o mundo que não há caminho para pés que não destrua a paisagem, bafo que não altere o ozono, que habitar é poluir, que fazer cilada à sua própria existência é o trabalho do tempo numa forma de vida. Afinal, matar e morrer é o humano da vida, nada mais. Mas logo apercebem a comédia, e nisso mesmo consiste a sua tragédia; por mais fracassos que lhes assistam Bouvard e Pécuchet, netos de Bouvard e Pécuchet, nunca regressarão ao seu ofício de copistas como vez alguma pugnariam uma Encyclopédie de la bêtise humaine. A maior parte das vezes, uma santa bêtise é objectivo suficiente para que as taças salpiquem as palavras. O resto são apenas histórias entre Deus e o Diabo ou entre entre Eros e Psique. Entre a vida e a morte. Histórias vestidas de homens apenas para que se sinta a fragilidade e a sublime bizarria deste esforço entre o céu e as águas.
Ela era bonita, o tipo sensual, esguia, pernas bem roladas e ria, ali na esquina, e perdia o pé, retomava o cimento rasgado a fios e ria, e juntava os joelhos, o pé já fugindo de novo, e ria. Ele não sabia se era a primeira vez de rua, mas, claramente, era uma primeira semana e ela estava exageradamente sedada. Durante uma noite - brutalmente analítico - perseguiu-a. Os olhos faziam a ligação ao motor. Viu-a envelhecer de carro para carro, a pele a ficar marron, rasgada, os traços mais talhados, o fácies apenas menos cru do que os olhos cinzentos e sem brilho. Seguiu-a para a perder, um carro depois de outro. De manhã, já alto o sol, surpreendeu-a quando emergia da areia, desgrenhada, sapatos de salto na mão e impressionante. Já não periclitava em pés de agulha como ainda há pouco. Mais perto da condição de rochedo, nem pressentia os olhos que acompanhavam as pernas firmes, os músculos tesos que escalavam o paredão. - Uma nota de dez - ouviu, ainda ela se abeirava da rua. Eram as 11.50. Depois o Audi arrancou lentamente e virou à direita.
"Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. (...) Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós..."
- Bernardo Soares, Livro do Desassossego
Daqui à tese do Sr. T. - seja que a arte trata de fazer suportável o insuportável - são poucos passos, mas todos interessantes. De não menor importância, aquele que questiona a sua ausência de função. Para todos os efeitos, o artista é um porquinho prático (pelo menos, tanto como o engenheiro). Um mundo sem nenhuma arte simplesmente não seria um mundo humano, mesmo se um mundo com ela é apenas humano.
" O objecto de um crítico autêntico deveria consistir na descoberta do problema (consciente ou inconsciente) que se estabeleceu no autor e investigar se houve ou não algum resultado"
Gosto mais do Valéry da forma, que também tenho por ludibriado. De resto, é certamente mais dúbio saltar daqui para o mote da 'corrupção' do discurso do sujeito. Entretanto, faltaria questionar: se só são verdadeiros problemas aqueles cuja solubilidade é desde logo pensável e, portanto, solucionável com recurso a conhecimentos detidos à partida, que sentido pode aqui ter problema? O que é um resultado? Ou são as 'obras de arte' afirmações - e, nesse caso, não apenas se mantêm as questões anteriores como outra se lhes acrescenta: em que sentido pode uma afirmação não ser patente? Se não há problema, se a única solução é a própria evanescência da afirmação, porque então deveria o crítico procurar um problema fundamental? Se nada havia a compreender, só a agir como se formularia tal problema, fora da vida? E se é apenas a vida o problema da arte, se o ser é o que está fora de questão, porque lhe é imperioso sair dela? Ou não é!? É a arte um modo de tornar problemático o que está fora de questão ou, a contrario, o meio de balizar o espectro das questões? Tudo o que tem o seu sentido aqui tem a sua explicação num outro lado que não se pode pensar, nenhuma solução é definitiva, nenhum problema é refutável com recurso a resultados. Neste sentido, teríamos que a arte - e não as artes - mais não seria do que o campo mesmo da interrogatividade em que todas as afirmações são questões; num outro sentido, teríamos que todas as questões fazem um solo afirmativo comum que se pode pisar. E, não certamente contra Valéry, sairíamos então da pessoalidade do problemático. Só feita esta ginástica se pode compreender a sentença imediatamente seguinte:
"A duração das obras é a sua capacidade de ser útil. Por isso, é descontínua. Houve séculos em que de nada serviu Vergílio. Porém, tudo o que existiu e sobreviveu tem amplas possibilidades de não perecer. Experimenta-se assim a necessidade do exemplo, de um argumento, um precedente, um pretexto. E é quando um livro morto se agita e volta a falar."
ou esta outra:
" A literatura oscila entre a diversão e a educação, entre a pregação e a propaganda; entre o exercício de si mesma e a excitação dos outros."
De onde, em forma apenas aparentemente paradoxal: a arte é parte da solução apenas na medida em que é parte do problema. E então:
"Nada há mais difícil do que descobrir os verdadeiros problemas (...) estes são, precisamente, os problemas invariantes para todas as modificações de expressão."
Mas, e Valéry sabe, um problema invariante é um problema sem solução ou com todas as soluções; e um problema com todas as soluções como hipótese, não é problemático, mas fundador. Identicamente, um problema invariante reduz-se a uma sinalização das 'modificações de expressão', não porque lhes seja efectivamente redutível, mas porque não se lhe possa sequer equacionar um hipotético fundamento. E se o verdadeiro problema é fundador, ele mesmo sem fundamento perceptível, não pode de facto ser problema; nem aquela pode ser a função do crítico - pelo menos, até àquele momento em que ou o crítico deixa de o ser ou já não há problema, isto é: o problema deixa de ser actual.
Um dia um tipo acorda e quer dar uma foda. Vê a vizinha e quer dar uma foda. No trabalho olha as estagiárias e quer dar uma foda. Uma doente diz-lhe que quer dar uma foda, mas ele sabe que foi um devaneio súbito e preenche tranquilamente os papéis. À noite quer dar uma foda, a mulher dorme e ele quer dar uma foda. Ele que nunca liga o bicho cede agora ao bafo radiante da televisão e engole o xanax com a bebida. A mulher está de enxaqueca nocturna há anos e o tipo prepara a terceira bebida enquanto despe o roupão e põe o casaco. Os faróis do carro mostram mulheres que dão fodas. Nem tem de voltar a olhar para elas. Uma foda solitária é ainda assim uma foda. Fecha os olhos. Quer dar uma foda, não a quer ver. Quando os abre vê um rosto exangue doer-se, uns olhos como gelo voltarem-se-lhe, depois um tremor e um frio que o arrepiam. Larga-a sobressaltado só para a ver tombar. O corpo de uma mulher nos seus quarenta jazia ali, a seu lado, exibindo uma pele crua e desconhecida e uma bolsinha preta de usar ao ombro trilhada sob as pernas metidas em meias de nylon descidas pelo joelho. A saia, muito curta, levantava pelas costas. Ainda lhe pegou o pulso, mas não havia nada a fazer. Abriu a porta e empurrou o corpo que rolou para a valeta. Subiu as calças. Ficou algum tempo imóvel, depois ligou os faróis.
Sou uma máquina de fazer máquinas, não faço milagres. Ainda assim, cabem-me 220 por dia, independendo de materiais. Por vezes, quase sem que saiba porquê, uma ganha vida e desempenha o sucesso da máquina como ideia. São casos raros, mas ninguém quer saber das centenas de máquinas que não consigo fazer regressar a uma utilidade mínima. Ninguém. Se eu contar o caso de um aparelho sovado, se disser que a não intervenção da assistência social, em muitos casos, é preferível à sua eficácia, caçam-me a licença. E eu só arranjo máquinas.
«Se fosse muçulmano (...) perguntar-me-ia, como fez o semanário jordano Shihane, "o que prejudica mais o Islão, estas caricaturas ou um sequestrador que degola a sua vítima em frente às câmaras?" Infelizmente, já não teremos resposta nem debate, porque o semanário foi imediatamente fechado e o seu director despedido» - o Sr. T. pousou a revista esperançoso num qualquer engano. Haviam trocado talvez o nome e a entrevista. Por outro lado, não - o Sr. T. sabia que podia mesmo ser. E assim era, o Sr. Savater que até seria supostamente filósofo e não apenasmente professor de filosofia, vertera-se tal e qual para o gravador, mijando a enxurrada basto fora do penico.
"O que prejudica mais o Islão", Sr. Savater? - perguntou-se o Sr. T., incredulo, apercebendo-se de quanto a questão era imprópria. Naturalmente, e sem maior disparate, pergunta-se: prejudica aos olhos de quem, Sr. Savater? Dos homens? Se ao olhar islâmico nada de humano pode prejudicar a vontade de Deus, a própria questão não tem sentido. Onde o cristão, laicizado desde a origem, olha no outro o reflexo ideal da própria correcção e no humano aparelho uma igualdade em juízo, o muçulmano não parece poder pensar outra concreção senão em Allah (Alāhā) e outra vontade senão a que de cima se dirige para baixo. Estranha, portanto, a ideia de que algo humano pudesse traficar com o divino. Estranha, então, a ideia de voz humana interveniente em coisas de Deus, seja porque Allah é infinitamente distante em grandeza e perfeição, arredado portanto da pessoalidade do Deus cristão, seja porque em nenhum caso o espectador será o outro humano, mas a própria divindade.
Menorização do sapiens sapiens? Orgulhosa humildade do deserto? Talvez. De qualquer modo, a pergunta pelo que prejudica ou incentiva o islão só fala ao ouvido ocidental, amolecido em propaganda e lisonja, diluido em campanhas promocionais, usado em sondagens de opinião. Do outro lado, só o olhar e o juízo de Deus importará, sendo que esse é sobre-humano, o juízo de um Deus desincarnado, sem filhos. Um Deus capaz de pedir o sacrifício de Issac com a mesma facilidade com que pede a cabeça de Golias.
- Sr. Joaquim, o senhor tem um cancro em estado adiantado, as metástases... - O Senhor não gosta das coisas perfeitas - disse o moleiro. -Tinha eu a minha casita ao cozer do rio nas fragas, as ovelhas, moía o meu pão e deu-me a mulher os três pastorinhos: Lúcia, Jacinta e Francisco. Mas o Senhor não quis que as coisas fossem perfeitas, Dr., e levou-me o Francisquinho ainda ele não tinha três anos. - Lamento, Sr. Joaquim. - Perfeito só o Senhor. Em sendo de outra maneira quem mais Lhe lembraria a perfeição? O meu Francisquinho foi por ajuda ao Senhor que ama acima de tudo os pequeninos e, em morrendo, os quer junto a si. Quando as minhas casarem... - Gostava de as casar Dr., mas não terei tempo, pois não? ... assim tenha o Senhor presteza para um velho, será sem maior pena. Quis Deus que à minha Lúcia já lhe arrastem o pé , é boa rés o rapaz. O pai tem um café na vila e um antepassado andou por estes montes, era miguelista e comeu deste pão; um outro andou com o meu pai a passar republicanos fugidos de Espanha. A Jacinta, queira-a Deus, é pior que as cabras, mas é feita de miolo de pão. Não ficará por aqui, mais cedo ou mais tarde irá para a cidade; como uma borboleta procurará a luz. Não irá ter boa vida, tem demasiado de feitio e coração. A Lúcia sim. Há sempre uma primeira vez para tudo, não é Dr.? A Jacinta irá para longe e esta tosse não quer que eu veja netos, o Francisquinho herdaria o moinho e as leiras, parte das ovelhas; agora será o dote delas. Não é a tosse, pois não Dr., não se morre de tosse. A dor... A Lúcia tomará conta disto e da mãe, o rapaz não terá nisso prejuízo. O Francisquinho, de qualquer jeito, estaria em terras de França, como os que não morreram, quase todos. Ficará sozinha a mulher, mas é de têmpera, Dr. - ela velará pelo rio e pelo moinho, um rapaz para o pastoreio e para amanho das leiras conversa-se. A Lúcia não vai chorar, sai ao pai. É assim, não é Dr.? Deus saberá porquê e velará pela minha Jacinta, para que cumpra o seu destino. Sempre verá a mãe nas festividades, não é? ela sempre virá nas festas, não é? - Sr. Joaquim... - O Senhor não gosta das coisas perfeitas, Dr..