Quinta-feira, Janeiro 31

Jogo duro



Certos quadros têm a tranquilidade das tempestades - pensou o Sr. T..
Uma secretária, papel e caneta não podem ensinar-nos a andar com a tempestade pela trela. Não é a mesma coisa.
As palavras são lançamentos. E o que lançamos assalta-nos com uma estranha medida - como se nos déssemos socos. A tempestade em palavras não tranquiliza.
É um jogo duro, domar tempestades. Duro demais para a palavra.

Quarta-feira, Janeiro 30

Fait divers


Ao fundo da sala, Hélio Luna Martins dirige a porta de alumínio. Do lado de fora, à chuva, uma fila de putos, treze anos talvez a maior parte, alguns bastante mais velhos. Um dos mais velhos, talvez dezassete, é o primeiro da fila, cabelo molhado, pérolas escorrendo pelo negro do casaco de couro e zippers, as pernas claras rasgadas por tiras de ganga preta seguras por um cinto de banda, fivela faiscando cinza prata, a corrente até ao bolso, ainda íntegro. O Sr. D. desenha catetos e a hipotenusa, usa uma régua de quadro de madeira e fala de Pitágoras. O Sr. D. quer a atenção da sala e fala de favas, de música, de potes de barro de diferentes proporções, mas não pode deixar de notar a fila que se forma à porta da sala, alastra pela banda de coberto e não recua perante os fios de chuva, numa algazarra imperturbada pela aula.
Súbito, Hélio Luna soergue-se, pára os olhos num ponto no quadro negro e desce lentamente até os pousar nos olhos negros do Sr. D.. Acto contínuo, saltando do bolso como navalha, a mão direita bate com o grosso maço de notas de vinte no tampo da carteira.
- Quanto tem ao fim do mês que eu não faça numa semana? Abre bruscamente a porta de alumínio envidraçada, fecha-a, sem realmente a bater, e posta-se no degrau por um momento para de imediato submergir na algazarra impenetrável. O Sr. D. fica a olhar enquanto os putos rodeando Hélio aproximam-se e se afastam, cada um ao seu caminho de chuva. Do lado de lá da vidraça, Hélio por vezes volta-lhe os olhos por delicadeza. Era a sua palavra contra a dele. Ali, torres aLx, ninguém bufa e a coragem pode ser a última fraqueza. O Sr. D. pergunta se alguém tem dúvidas apenas para descargo de consciência, ele sabe, faz parte do jogo, nunca ninguém tem dúvidas. Ninguém vê nada. Depois toca para sair e fumar dois cigarros. Enquanto fuma à porta do estabelecimento sob chuva cerrada, o Sr. D. evita pensar.

Terça-feira, Janeiro 29

"... com este mesmo ramo de árvore na mão..."


(This complex of beliefs involving male power, naked models, and the creation of art receives its most perfect rationalization in the ever-popular nineteenth-century representation of the Pygmalion myth: stone beauty made flesh by the warming glow of masculine desire. - Linda Nochlin)

- O que é um poeta, Anacreonte? - perguntou o Sr. T.. - Alguém que morre - atreveu, surpreendido, Anacreonte. - Sobretudo - quase sussurrando - alguém que não pensa em termos de shock. Que nunca foi moderno, mas delira no extremo de dois pares de olhos, por vezes de um. Ou então o que paga a kalachenikov como a voz paterna recebe um filho turbulento - leve e fria e que embacia por dentro do modo como os emblemas abatem.
- Alguém que olha continuamente e mesmo assim olha - com dois ou com um par de olhos. É tudo uma questão de Eros e Psique e de Narciso e Pigmalião, se quisermos. Falamos de alguém que esbraceja talentosamente a continuidade da teia a partir de um pequeno nicho, e ainda assim de alguém que procura uma Índia entre um rosário imperfeito de fortins e feitorias.
- ... no melhor e no pior dos casos.
- Com certeza. Um estucador, uma estação, uma rasura, o palimpsesto, tudo com um ou dois pares de olhos. Também alguém que depois da tempestade vigia o negrume que chega a um porto e levanta pelos jardins os poucos trinados distorcidos. Neste caso, um par de olhos é por vezes já demasiado.

Domingo, Janeiro 27

Comunidade (segundo Anacreonte)


Há pessoas com quem choco e há pessoas a quem acosto - e muito poucas no meio. Depois, há sempre aqueles que têm essa atitude para comigo - e nem sempre coincidimos.

Sexta-feira, Janeiro 25

Acompanhar com bastante Nova Ordem mundial

Quinta-feira, Janeiro 24

A propósito de nomes...



- Conde de Montesquiou, barão de Montesquieu, Sr. de Montesquietos - propunha Anacreonte, fazendo pose e rindo a bom rir. O Sr. T. sorria a cada nova pose, escolher um novo nome era como escolher novos os pais e a tribo, algo apenas mais fácil do que escolher a idade. Depois, havia uma diferença essencial: o Sr. T. nunca se levantava às cinco da manhã. Era um filho da energia eléctrica. Vez alguma se deitava a essa hora, era um assalariado.
Francisco seria um nome neutro e inactual, ou Manuel. O Sr. Francisco Figueiredo ou o Sr. Manuel Quintais. Mas tirem-lhe o Sr. ... os dedos indicadores de Anacreonte apontavam-se os olhos da pequena multidão.

- É todo um outro tratamento.

Quarta-feira, Janeiro 23

Quando Bim conheceu Pum!


- Pum! - Queres dizer? - Não quero dizer. -Não queres dizer? - Não. - Dás-me um cigarro? Apalpo os bolsos - toma! - estico gentilmente o cigarro. Ela puxa como se puxasse um dedo a mais, muito, muito fino e sorri, muito por debaixo dos olhos negros. Depois volta a fazer: Pum! O cigarro já na boca, os olhos um pouco já para cima, estende-me vinte cêntimos. Recuso. Faço, espantado, um barulho estranho com a garganta, ela percebe e diz obrigado; sabe lá ela!, penso. Era daquelas mulheres que gostavas de puxar para fora da rebentação, curar e levar para casa. Não, filhota, não estás obrigada, é só um cigarro - digo. Ela dá um jeito ao cabelo e volta a fazer: Pum! - És bonita Pum, disse ele. Ela sorriu. - És recente aqui na rampinha, Pum - exclamei.
- Pum! - disse ela, aspirando o cigarro como se o usasse para respirar. - Dás-me um cigarro? - repetiu. - Amanhã já não terás os vinte cêntimos, Pum. - Daqui a uma semana ... - Não gosto de desperdício, Pum. Ela olhou o anel e fez contas de cabeça.
- Pum! - sorriu Pum, erguendo os olhos.
Era morena, os cabelos loiros quase brancos e um dedo espetado a dizer: Pum! Sem qualquer recuo, a coronha marcara-me. Descemos a rampinha, comprei cervejas no mini-mercado, e deixei-me ficar a observar o discurso dos corpos. Passados não eram dez minutos, Pum surgia, os olhos muito negros e desembaraçados, trazia presentes para a nova casa.

Terça-feira, Janeiro 22

Por dentro das arcas


O Sr. T. tinha uma arca onde guardava os problemas para que não conseguia divisar solução satisfatória. Uma vez na arca, os problemas mais recentes, como as camisolas dobradas, pesavam sobre os problemas mais antigos, arrumando-os mais para o fundo. É verdade, que por vezes, o Sr. T. tinha um problema, pequeno ou grande, que, fosse qual fosse a posição a que o pretendesse acomodar, simplesmente não comensurava com a arca. Não é menos verdade que com os anos o Sr. T. rendera-se à necessidade de se munir de mais uma arca, dedicada a problemas, em termos correntes, não psicológicos, e, algum tempo depois, de uma terceira, onde passara a guardar os problemas de carácter prático, separando os que lhe apareciam como de maior complexidade, inclusive em termos de uma adequada formulação, que se mantinham na primeira arca. Atingira assim uma classificação trinitária que o satisfazia razoavelmente: tinha problemas psicológicos, problemas sociais e problemas práticos assim divididos por três arcas de formato diverso. Sobre todas as três arcas uma mesma lei grave assegurava a bondade da solução.

Ao contrário do que acontecia com Sr. F., o Sr. T. tinha para ele que quanto mais fundo, melhor se realizava a função de um problema, e era recorrendo a simples metáforas hortícolas que o Sr. T. respondia a quem lhe saísse com o Sr. F. a caminho. Por exemplo: 'Quanto mais fundo, mais anóxico o ambiente, menor o problema.' 'O que se decompõe não pode constituir problema'. ' Não é qualquer estação que revolve os mantos'. ' A quantidade de turfa faz a qualidade dos solos', etc.

Ora, sendo qualquer vida um conjunto de acções aproximando a desorganização irreversível, os problemas acumulavam-se com o pó e, periodicamente, o Sr. T. tratava de escavar o jardim em três sítios diferentes, logo atulhando cada buraco com o conteúdo de uma arca. Para que os mantos mantivessem alguma integridade, o Sr.T. retirava os problemas de cada uma das arcas um a um, colocando-os no solo de baixo para cima, depois invertia o processo enchendo os buracos com os problemas mais antigos primeiro, depois os mais recentes, atapetava tudo com um palmo aberto de terra e regava com água abundante. Para o efeito, o Sr. T. rasgara no jardim seis talhões que delimitara com ardósias e seixos quebrados e moídos pela avidez do musgo. Deste modo, sempre que recatava os problemas pelos talhões, uma arca bem fundo por talhão, o Sr. T. enternecia-se na contemplação das mais peculiares soluções, do cerúleo ao rubro, que, solenes enigmas de ninguém, lhe povoavam o remanescente do jardim. Essa visão absolvia-o. Impedia-o de grelhar lentamente nos divãs.
Depois, porque muitos e renovados fossem os problemas, o Sr. T. recomeçava a encher as arcas.

Segunda-feira, Janeiro 21

Por dois cantos...



O Sr. T. deitara os seis filhos com uma história com cavaleiros e batalhas, monstros e sereias. Agora, a noite abria-se-lhe solitária como se alguém lha contasse.
Olhou para um lado e para o outro, os filhos dormiam, três de cada lado, dificilmente identificáveis sob o edredão creme. A toda a volta da cama, as Sirenas carpiam em vozes de açúcar triste e sorriam-lhe entre os acenos. O Sr. T. sorria, amarrado ao manto por seis grossas cordas. Era necessário que permanecesse onde estava, pelo menos até que naquelas pequenas cabeças a literatura soçobrasse, e ele pudesse então finalmente escrever.

Quando finalmente o pano parecia afastar uma linha de terra e, lentamente, já o Sr. T. se soerguia, a mais nova das crianças rebentava num episódio de choro. E de novo, a mais doce das sereias o tentava, lúbrica, atractiva como uma faca que rasgasse o meio dos choros.
- Nem tudo é efeito da verdade, pois não? - perguntava-se o Sr. T..
- Quando a verdade brinca com a mentira ambas dizem a verdade - respondiam-lhe as Sirenas.
A ele, uma única sereia lhe capturara a atenção. Fora há cerca de trinta anos e era uma pintura.

Quarta-feira, Janeiro 16

Episódio setenta



O Sr. T. tinha outros nomes debaixo do chapéu, talvez tantos como as manchas acastanhadas que agora teimavam em pintar-lhe o alto da testa, talvez mais - por isso se apresentava sempre como o Sr. T., como se apenas dissesse: ele.
De uma vez, inclusive, o Sr. T. tratara de aprender com um ventríloquo a colocar a voz no chapéu o que, chegou a acreditar, facilitaria as coisas. Quem no mundo podia dar importância a um chapéu que se referia ao seu possuidor como se tratando do Sr. T.? Infelizmente, como o Sr. T. rapidamente iria constatar, demasiada gente. Um chapéu falante, concluiria o Sr. T., só nos protege na medida em que fizer de nós um centro de redobradas atenções.
Por um momento desiludido consigo mesmo, logo o Sr. T. recobraria o ânimo recolocando a voz onde era devida. O truque, concluiria após alguns dias, era os lábios referirem o centro vazio do chapéu e não o inverso. Deste modo, assim mantivesse o chapéu sobre a cabeça, nunca ninguém se aperceberia de nada, nem mesmo ele próprio.

(Como um dia perguntassem ao Sr. T. se era filho do M. Tavares, apressou-se a garantir que não, que tal senhor não constava da lista de convidados aquando do seu baptismo. Que era mera coincidência. Mas porque as coincidências rapidamente se tornassem significativas, pela primeira vez o Sr. T. pensava em mudar de nome. )

Ab ovo


Zigur tocava o piano no quarto ao lado. Tariq, na sala, ajoelhado junto ao tecido azul indiano da mãe, olhava fixamente a estante das pautas, muito em baixo, e pegava muito sério na flauta transversal pela quinta vez, tinha cinco anos. Felizmente, estava na hora de preparar o peixe para o jantar, o que por uma hora lhe permitiria um silêncio apenas quebrado pelos estalidos do fogão e da água. Ele conhecia Tariq. Assim persistisse, em breve seria o melhor executante da sua idade, seria uma questão de tempo até entrar em concursos. Tariq se queria uma coisa dobrava a atenção em acções, todas elas eficazes. Preocupava-o Zigur e as suas explosões sobre as teclas, mas não demasiado. Em grande parte, a responsabilidade cabia à mãe que queria meninos para sempre; meninos e depois músicos e poetas como o tio Tair. Alberto não apreciava realmente que os filhos tocassem um instrumento e aprendessem a ler uma escrita que ele mesmo desconhecia, como não apreciava essa veia que bombeava músicos há quatro gerações. Os meninos podiam estar a apreender o que deles iria fazer o futuro mais prosaico. É claro que o futuro os poderia querer ter como executantes - mas se assim fosse, assim acabaria por ser, uma vez que tinham os rudimentos, mais do que rudimentos o Zigur, e músicos na família próxima não faltavam. Entretanto, era a sua opinião, deveriam polir as asas, como se supunha as crianças fizessem, uma vez que os pais não voavam. O que só consegue uma prática profissional precoce ou o deserto. Ele não ignorava que a opinião do mundo era avessa à sua, mas nunca o que outros pensavam o desautorizara. Eles deviam arranjar um ofício e treinar o pensamento com a paciência e a regra.
- Marieta, para semana o Zigur vai trabalhar com o tipógrafo que também lhe aperfeiçoará a palavra; almoça por lá - depois das quatro poderá continuar com o piano. Terá que se levantar as seis para lá estar a horas, já fiz o caminho.
Marieta digeriu em silêncio, dentro de si sabia que Alberto tinha razão, era tempo de deixar Zigur, que perfazia nove anos em Novembro, esculpir ele próprio a sua incapacidade de voar. Tanto mais cedo, mais feliz ele seria e mais discreto no embrulhar das asas sob o asfalto do trabalho. Depois, dentro de meses nasceria Bim.

Terça-feira, Janeiro 15

O grande olho





A ideologia da eficácia não se limita a ginasticar-te o doméstico e a polir-te duas assoalhadas de caixa craniana, ela diz-te o que pensas como se fosses a fotografia, donde: é fazer o favor de sorrir.


"De facto, a anarquia baixara o preço nos últimos anos. Os pontos de onde agora se poderia começar eram baratos e estavam por todo o lado. (...) Lenz sabia que, se juntamente com os outros elementos do Partido, decidissem cortar a energia eléctrica, garantindo porém a segurança de cada indivíduo de maneira plena e contínua e não intercalada como agora, em pouco tempo os teríamos de novo - à populaça, dizia Lenz - a segurar em velas, orgulhosos por estas lhes permitirem assistir às paradas militares nocturnas, onde os homens que protegem os seus bens e os seus filhos desfilam. Todos queriam segurança, mas ainda faltava sentirem-se mais ameaçados."

- Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica

Segunda-feira, Janeiro 14

Ou um besouro



As carruagens e as pessoas na rua movem-se e caminham hesitantes num chão que brilha, pois eu ainda estou a sonhar. Os cocheiros e os peões são tímidos, e cada passo que eles pretendem avançar procuram o meu olhar, como se me estivessem a pedir licença. Eu encorajo-os e nada se me apresenta como obstáculo.


- Franz Kafka, Preparativos para um casamento no campo

Sábado, Janeiro 12

Questões de veículo


Desatrelou a charrete, desmontou o selim, a cilha, os estribos e retirou lentamente as rédeas e a barbela. Montou tudo no cavalete, picou a madeira com as esporas apostas às meias vermelhas que usava por debaixo do pijama e soltou um galope.
A charrete, o equino destituído, a mulher e os seis filhos, a alma, o trabalho tudo ficava rapidamente para trás. O Sr. B., de pijama old fashion às riscas verticais azul claro, azul mais claro e branco parecia feito de pasta de dentes. Quando o cavalete abrandou o passo num campo de trevo, as meias vermelhas sobressaíram, felpudas, em lã grossa e albergueira, no verde. Nessa altura, apercebendo-se de que estava de meias, o Sr. B. revirou-se e lançou a montaria na direcção de que proviera. Ao invertido galope da besta avistava já o trabalho, a alma, depois os seis filhos por ordem crescente e, finalmente, a mulher, o cavalo e a charrete. O cavalete estancava no justo ponto de que partira. O Sr. B. subiu a charrete, calçou e apertou os sapatos castanhos e desceu.
Entretanto, de sapatos sobre as meias vermelhas, o Sr. B. sentiu que o mundo voltara ao normal, beijou a mulher e cada um dos seis filhos e picou o cavalete que largou num galope desabrido.

Só a mentira convém naturalmente a quem quer escrever com verdade.


As confidências do escritor são desprezíveis se não forem o exagero, a mentira e o delírio - se forem íntimas. E o exagero e o delírio ainda assim não são nada. Algo como a concha de um sótão com o peso dos poderosos rastos e os voos de corvos e gralhas que sempre esvoaçam em torno das más notícias. Só a mentira convém naturalmente a quem quer escrever com verdade.

Sexta-feira, Janeiro 11

O troféu


Quisera marcar o mundo com a marca com que havia cunhado os seus brinquedos de menina primeiro, os seus livros depois. Quisera ser amável naquele terreno, tão maior do que o seu quarto de brincadeiras amáveis. Serenamente, saía daquele estado de pequeno forno, daquele estado se confissão absoluta. Mas, se fracassamos, devemos fazer o quê? Foi colar-se à obscuridade do quarto. As brincadeiras haviam-se tomado de um pânico sem generosidade e o pânico alimentaria os genes da revolta, confirmando os vaticínios. Antes esvoaçaria entre os amores sincronizados de um pai e uma mãe. Agora o quarto sacudia-se num singular aperto. A vida atira repetida, repentinamente a sua sombra sobre a nossa. Ela fora o último visitante, vira o desmoronar como se um diagrama que se lhe exibisse num écran, uns olhinhos ocorridos quando as carradas de coisas bonitas denunciavam a eminente elefantíase. As paredes pergaminhavam-se. Acocorou-se como uma mola em tensão e ninguém vislumbrou qualquer indício. Não fez investidas. Não manifestou destempero. Ficou imóvel na intimidade do desmoronamento. Mas os pensamentos eram empilhados como caixas de fósforos. Com a dignidade que auferiam da imobilidade. Eram naturais e salientes, achou. Chegou a temer que qualquer excessividade de um ou de outro a denunciasse como uma explosão. Mas não aconteceu. Se os pensamentos fossem algo de físico não seriam mais do que pregas na testa, entre as sobrancelhas, logo acima da cana do nariz. Esteve assim, num ranger imóvel, algum tempo, como a petrificação de uma sombra. Mas o silêncio detinha o sabor da eternidade.

Ao fundo da sala, que do quarto parecia imensurável, a escada encostava-se excrescente a uma parede, por detrás de um reposteiro. Era da severidade das coisas que o esquecimento guarda. Desprovida de qualquer alusão humanizante, não entrava em qualquer conversa, não preenchia uma função necessária, ninguém a sovava com a emissão de juízos ou a olhava com olhinhos de recurso. Era algo completamente inútil, esquecido desde que deixara de ser usada, inexistente, não se houvesse acusado àqueles olhos quando os átomos ameaçavam a desconstrução definitiva.
Um dia, como se um qualquer disparo lhe trocasse as voltas, viram-na, estupefactos, arrastar a escada para o quarto e sentar-se no terceiro degrau. A menina mexia, a menina arrastava-se com a escada pelo soalho, a menina. A ela, a relativa facilidade com que o fizera aturdia-a. Havia conquistado o velo de oiro sem se defrontar com a dramaturgia habitual a estas coisas. Sentia-se feliz como nas suas brincadeiras de infanta, quando era protagonista com direito a destino sobre as personagens secundárias que sempre rodeavam o sem destino das histórias de criança. Mas jamais os objectos importam do peso do ânimo, como era duro reconhecer que estávamos sós, que era a nossa tragédia e que tudo lhe passava indiferente. Que o único elo entre o sofrimento humano e uma coisa era a acção que o nosso sofrimento imprimia a essa coisa, nada mais, nenhuma solidariedade.

A escada permanecia o objecto sacro, o marco da superação a que se votara. Ela via-os, fitados e satisfeitos, mesmo se apreensivos. Ela movera-se. A menina movera-se. Toda a vizinhança acabaria por saber. A menina movera-se. Era inevitável que o mundo soubesse. A menina erguera-se, a menina. Dona Ernestina rojava-se por terra e agradecia aos santos de devoção, o Sr. José olhava para o tecto folhado a madeira como se olhasse directamente nos olhos de Deus. Curioso era ver o pai empurrar-se contra a parede com medo de ceder na direcção contrária e os olhos marejados da mãe, o seu peso e força contra si, o ombro molhado, frio e quente. O quente da pele molhada. A satisfação que damos àqueles que nos amam é algo comovente. Mas havia que permanecer lúcida e não provocar expectativas para além das que se quer satisfazer. Metade dela ainda era a mesma, seria sempre a mesma como uma âncora definitiva.
A menina movera-se, gritava D. Ernestina. A menina arrastara a escada a pulso e elevara-a até ao tecto sentando-se no terceiro degrau. Tudo a menina fizera sozinha. Mas já a menina estancava todo aquele movimento.
Como a escada também ela perderia a agilidade das novidades e definharia de novo. Como seria ser como era daqui, digamos, a dez e vinte e mais anos? Os anos, como os passos largos, tudo deixam rapidamente para trás. Muitas vezes se perguntara uma razão para esta passagem por este mundo. Por que deveria passar a provação de ter pai e mãe e têmporas e dedos, e sentir fome e sede, desejo e ódio, vontade e paralisia? E ali estava ela como é próprio das coisas vivas, naquele seu quarto do torpor babado olhando o vazio entre os degraus.
A escada acabaria como a cabeça embalsamada na parede. O troféu e o fim do animal. Uma cabeça de veado para que olhava continuamente como se aquela ascensão desse para outro lado qualquer onde estaria o resto do corpo do animal, quem sabe, talvez, o movimento que as suas pernas não tinham.

Quarta-feira, Janeiro 9

Fish

I
Noite. O escuro em torno dos ruídos todos, um mundo de murmúrio nos ouvidos. O vazio espantado de estar sozinha com um cheiro diferente à volta dela e a cama vazia de dois lugares, um para ela e outro para Fish - amava aquele peixe desde o primeiro mergulho. Não era novidade. Fish era o seu peixe escorregadio entre as asas, o peixe dela. Ela era uma rola com um peixe volúvel no centro.


II
Crepúsculo. Quando o sol se põe as gaivotas ficam aflitas, há insectos de todas as espécies no ar - mas só se os vires num microscópio os podes venerar. Fish queria ser ornitólogo. Profissão: ver os pássaros, anotar sobre eles num bloco.
Eu também quero - disse ela. Mas não faço nada, ainda que me chames, ainda que eu arda - ainda que eu não saiba não sou um peixe que sabe ver pássaros ao crepúsculo. O esquecimento é uma fonte, jorra. A morte pode vir depois. Antes vem o sol e a lua. Quantas vezes ainda, Fish?


III
Noite. Vou ser metódica, Fish. Agarramos as vidas dos gregos, e foram tantos e posso fazer uma estimativa. Saber quantos gregos viveram na Grécia antiga, deve haver censos, depois multiplicar por anos vividos em média, calcular ainda o número de horas. Será uma bela estatística. Pode levar muitos anos a vasculhar e operar dados, mas as contas são mesmo assim, tem de ser feitas. No fim vais sentir que fizeste algo na vida. Podes fazer ainda uma estatística das tigelas quebradas pelos egípcios enquanto o Egipto foi grande. Leva-te algum tempo, mas a vida é mesmo para isso. Ou para o que importa.


IV
Crepúsculo. Agora já não enchiam aqueles saquinhos transparentes da força com que a despenhava sobre os lençóis. Despejavam de um para o outro a baba das bocas como quem cospe mel e lambuza mais que o corpo - pensava.
- Aquilo é um pisco-de-peito-ruivo - disse ele.
Ela era uma rola na contemplação do pássaro, uma rola que pensava um peixe.
- Foi talvez o melhor das nossas vidas, pensou ela acariciando um lugar nos lençóis, vazio - da vida dos gregos não sabia, só podia suspeitar. Fish migrara como os atuns; por vezes, como o salmão subia rios e ia a fontes.
Ver os pássaros pode ser danoso para um peixe - era verdade, mas era melhor do que estimar contas ou enredar fios. Mesmo se acabas no bico de uma garça. Do outro lado, amar um peixe não era certo para uma rola, talvez, inclusive, fosse contra natura - mas há natureza outra, fora o fazer de amor? Os gregos com toda a álgebra e geometria não teriam mais, no fundo, do que este fogo. Depois, Fish voltava sempre.
E ela amava Fish. Era um amor Fish.

A mesa


Lembro-me perfeitamente. Sempre na mesma mesa de canto, antecipada pela garrafa de vinho tinto hasteada no pano cru
. Há homens que sagram lugares. Quando morreu, percorreu-se toda uma semana sem que alguém ousasse a mesa. Quando morreu veio no jornal da terra o acontecimento: o último boémio. E o jornal foi posto cuidadosamente na mesa. Em certas circunstâncias é difícil permanecer morto. Tinha noventa e tal e os dedos eram uma montra de amarelos velhos e castanhos. Lembro-me perfeitamente. Alto e muito magro, colete às riscas verticais em vermelho, amarelo indiano e siena queimada, casaco de peles negras, sapato preto polido e polainas, a toalha branca, uma garrafa para ele, mais nova trinta anos a mulher, fugida de marido e filhos por ele, meia garrafa. Os cigarros entremeavam o vinho, mas não interromperam a sopa. Quando morreu, sentou-se à mesa a pedir o mesmo vinho, um sábado, a querer plantar os seus sapatos e morrer da lenda da mesa vazia. A mesa recebeu-o. A garrafa hasteava no pano cru.

Domingo, Janeiro 6

Morreu, como a maior parte das vezes...

"Ah, qual pureza e inocência." - Luiz Pacheco

... um homem. Talvez o último homem que Oitocentos ofereceu à paródia mundana. A própria paródia e um escrito que, malgré lui, ficará: Comunidade. O resto é a vida do homem que dava um romance. Mitómano que sou medito cuidadosamente o homem Pacheco. Não vou dizer que o bom bandido fracassou como bandido, menos por ser bom, apenas o Pacheco será o Pacheco, o Pacheco foi o mito do Pacheco - já é muito e o mais é embuste. Com uma certeza, a haver outro lado, a mole de anjos estará já a ser fintada, ludibriada e escarnecida. Este é o Pacheco. O resto não é.

Sábado, Janeiro 5

Mas é o vazio no centro...


É coisa velha como os séculos, mas muito pouco é o retido. Um cínico de imediato invocaria a luta pela vida, amando a carnificina como um mecânico a destreza simples de um motor, mas a memória não é um terreno de combate. Naturalmente, muito se perde na intempérie que é cada momento e pouco realmente se transforma de modo útil.
Contra esta erosão da memória os antigos falavam por sobre os antigos. Para expor o evangelho Paulo vai escorar-se em narrativas anteriores, uma delas a Odisseia. A técnica é conhecida, importa-se a estrutura e introduz-se uma alteração inicialmente insignificante, decisiva para impor o novo final.
É o que acontece com o obscuro episódio de Elpenor, o jovem soldado que na Odisseia parte o pescoço ao cair de um pátio alteado. Ao acordar, depois de uma noite de embriaguez, Elpenor aparece apenas para morrer. E só reaparece, mais tarde, para exigir um sepultamento condigno. Mesmo que para isso Ulisses tenha que negociar com Circe e privar com os mortos antes de seguir viagem.
Em termos actuais, Paulo seria simplesmente acusado de plágio no episódio de Eutico, o infante que cai de um terceiro andar para morrer. Ocorre que ao contrário de Elpenor que já só pede o funeral digno, Eutico é aquele cuja alma ainda está nele e a quem, onde Ulisses e o mundo pagão mais não podiam do que dar sepultura, S. Paulo pode fazer reviver. O impressionante salto doutrinal acontecia sob os olhos atónitos dos auditores, enredados na estrutura mnemotécnica e certamente dóceis à mensagem que aí se modelava. A mensagem cristã não recuava perante a morte: a alma não morre, não antes do juízo.
O que de formidável e impressionante se vinca como a diferença, melhor se impõe na fidelidade ao recitado. Paulo não quer a autoridade das palavras, mas a da doutrina. Não apenas o falado não tem autor como é a linguagem que faz o autor como aquele que acrescenta. Há aqui um desprezo da palavra humana que os modernos nunca poderão entender porque iludiram parte natural do sentenciado, já entre os antigos gregos: a Palavra é divina e no início era o Verbo.
Na realidade, a modernidade começa exactamente aí, no momento em que o homem se acreditou superior ao recitado e quis ele próprio erigir-se em criador de língua - paradoxalmente será a prima autoritas do Deus-autor cristão que imporá a transição, mesmo se simultaneamente assegurava a lentidão do processo.

Há grandeza neste despojamento de eu. Uma grandeza de que já não há memória humilde.

Sexta-feira, Janeiro 4

A Morte por sorte

Bim já morrera muitas vezes, era uma coisa que estava sempre a acontecer-lhe. Por sorte, nunca tivera que nascer, cada morte sua catapultava-o de imediato para o meio da vida de um outro. Assim, era sempre outro que morria. O que só era justo, uma vez que era sempre outro que nascia.

Uma parábola de costas


'Deveríamos abandonar a ideia de uma verdade que se encontra diante de nós à espera de ser descoberta' - quem o escrevia era um tal R.R..
Anacreonte pousou o livro que o Sr. T. lhe emprestara e deixou-se ficar, os olhos no vazio estreito entre dois plátanos a desenharem uma pomba de Magritte - porque estivesse demasiado perplexo Anacreonte acabou por perder a pomba. É que o dito senhor com isto queria dizer outra coisa. Não que a verdade está à nossa frente, já descoberta desde sempre, mas que a verdade simplesmente não existe. Ora, que ela não existe era óbvio para Anacreonte, tratava-se de algo tão evidente como o facto de toda a verdade afirmar sempre outra coisa do que ela mesma - Anacreonte sabia o que era passar um dia a tentar apontar uma verdade, trabalho extremamente cansativo, votado ao fracasso. Mas há coisas que ainda que aparentemente não existindo é como se existissem: a coragem, o amor, a morte são bons exemplos. Depois, parecia-lhe que esse abandono da verdade não seria menos suicidário do que, digamos, a expatriação do amor ou a destruição dos seus vinhedos - estados búdicos à parte (e esboçou uma pequena vénia sincera).
Sobretudo, era fraca conclusão para tanto arrojo. Em sua humilde razão, a conclusão deveria ser bem outra - talvez, simplesmente: 'a verdade está à nossa frente desde sempre' - mesmo se diversas são as formas da atenção, mesmo se nem tudo pode estar em foco no mesmo momento.
- É outra vez parábola do paquiderme - lembrou Anacreonte, desamparando as costas lentamente. Cada um dos cegos terá talvez uma parte de sua verdade, mas só na grande conversação se distinguirá talvez, não o perfil do elefante, incomensurável esse - pensou -, mas o ridículo no âmago da questão.
Nesse momento, deitado de costas sobre a relva, Anacreonte recuperava a pomba, que parecia baloiçar levemente a cabeça - e, nesse mesmo instante, perdia os plátanos.

Quinta-feira, Janeiro 3

Última felicidade


Não se pode agir numa casa vazia, pensou o Sr. C. e saiu. Mas o mundo estava vazio e o Sr. C. ocupava todo o vão de porta entre a casa vazia e o mundo vazio.
Quando retirou o chapéu e passou o lenço pela testa, o Sr. C. não podia imaginar como despia o vão de porta - mas rodeado de vazio, qual não foi a felicidade do Sr. C. quando também ele desapareceu.

Quarta-feira, Janeiro 2

Pela minha parte, Carlos, cada vez menos, com cada vez menos...



«A idade da poesia cedo nos abandona.
A prosa, pelo contrário, vai-se tornando imperativa,
obriga-nos às flexões da fala e encobre,
com elas, possibilidade tão bela, tão nobre.
Como se falar fora maneira de transformar
o menos em muito»

- Carlos Bessa, Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta, 2007

Teoria dos jogos


Os seis filhos do Sr. B. tratam o pai por Sr. B.
O Sr. B. ora está a fumar e a beber no escritório onde os livros constroem os castelos. Ora está a fumar e a beber à janela da lavandaria que dá para o rio e para as árvores e para os melros. Ora está a fumar e a beber e a tratar das plantas no frio da terra preta, lá - fora da casa e dos filhos, no reduto do lá. Ora, afinal, estendido na cama entre cobertores, pouco está; desandando os filhos por ele adentro entre lençóis de lava-me e leva-me à escola que se faz tarde.
- Chegar a tempo - primeira lição - é um jogo de azar - disse o Sr. B., enquanto afogava o café.
De seguida, entre um sinal vermelho e uma rotunda, o Sr. B. fala de competição, de sorte, do simulacro e da vertigem, entre o inumano na criança e a impessoalidade da Lei. Sempre que o semáforo fica verde, o Sr. B. faz uma pausa e um arranque. Chegados ao lugar de poiso, e frente ao destino naturalmente mais sossegados, desandam os cinco primeiros para a escola em passo de marcha. O sexto permanece, afundado no mapa dos estofos.
- Algum problema, Sextus Empiricus?, pergunta o Sr. B., vincando nos três pontinhos a natural ausência que se deveria seguir.
- Nenhum. Mas competimos para chegar a tempo, mesmo se foi uma sorte, não competimos? E eu tive vertigens - Francisco Sextus Empiricus, sorria.
- Claro, Sextus - disse o Sr. B. -, claro. Por vezes até o vosso pai é competente, mas isto permanecerá um segredo, algo entre nós.
- Vai voltar para a cama?
- Não se pode estar sempre a competir, concordas?