
Quisera marcar o mundo com a marca com que havia cunhado os seus brinquedos de menina primeiro, os seus livros depois. Quisera ser amável naquele terreno, tão maior do que o seu quarto de brincadeiras amáveis. Serenamente, saía daquele estado de pequeno forno, daquele estado se confissão absoluta. Mas, se fracassamos, devemos fazer o quê? Foi colar-se à obscuridade do quarto. As brincadeiras haviam-se tomado de um pânico sem generosidade e o pânico alimentaria os genes da revolta, confirmando os vaticínios. Antes esvoaçaria entre os amores sincronizados de um pai e uma mãe. Agora o quarto sacudia-se num singular aperto. A vida atira repetida, repentinamente a sua sombra sobre a nossa. Ela fora o último visitante, vira o desmoronar como se um diagrama que se lhe exibisse num écran, uns olhinhos ocorridos quando as carradas de coisas bonitas denunciavam a eminente elefantíase. As paredes pergaminhavam-se. Acocorou-se como uma mola em tensão e ninguém vislumbrou qualquer indício. Não fez investidas. Não manifestou destempero. Ficou imóvel na intimidade do desmoronamento. Mas os pensamentos eram empilhados como caixas de fósforos. Com a dignidade que auferiam da imobilidade. Eram naturais e salientes, achou. Chegou a temer que qualquer excessividade de um ou de outro a denunciasse como uma explosão. Mas não aconteceu. Se os pensamentos fossem algo de físico não seriam mais do que pregas na testa, entre as sobrancelhas, logo acima da cana do nariz. Esteve assim, num ranger imóvel, algum tempo, como a petrificação de uma sombra. Mas o silêncio detinha o sabor da eternidade.
Ao fundo da sala, que do quarto parecia imensurável, a escada encostava-se excrescente a uma parede, por detrás de um reposteiro. Era da severidade das coisas que o esquecimento guarda. Desprovida de qualquer alusão humanizante, não entrava em qualquer conversa, não preenchia uma função necessária, ninguém a sovava com a emissão de juízos ou a olhava com olhinhos de recurso. Era algo completamente inútil, esquecido desde que deixara de ser usada, inexistente, não se houvesse acusado àqueles olhos quando os átomos ameaçavam a desconstrução definitiva.
Um dia, como se um qualquer disparo lhe trocasse as voltas, viram-na, estupefactos, arrastar a escada para o quarto e sentar-se no terceiro degrau. A menina mexia, a menina arrastava-se com a escada pelo soalho, a menina. A ela, a relativa facilidade com que o fizera aturdia-a. Havia conquistado o velo de oiro sem se defrontar com a dramaturgia habitual a estas coisas. Sentia-se feliz como nas suas brincadeiras de infanta, quando era protagonista com direito a destino sobre as personagens secundárias que sempre rodeavam o sem destino das histórias de criança. Mas jamais os objectos importam do peso do ânimo, como era duro reconhecer que estávamos sós, que era a nossa tragédia e que tudo lhe passava indiferente. Que o único elo entre o sofrimento humano e uma coisa era a acção que o nosso sofrimento imprimia a essa coisa, nada mais, nenhuma solidariedade.
A escada permanecia o objecto sacro, o marco da superação a que se votara. Ela via-os, fitados e satisfeitos, mesmo se apreensivos. Ela movera-se. A menina movera-se. Toda a vizinhança acabaria por saber. A menina movera-se. Era inevitável que o mundo soubesse. A menina erguera-se, a menina. Dona Ernestina rojava-se por terra e agradecia aos santos de devoção, o Sr. José olhava para o tecto folhado a madeira como se olhasse directamente nos olhos de Deus. Curioso era ver o pai empurrar-se contra a parede com medo de ceder na direcção contrária e os olhos marejados da mãe, o seu peso e força contra si, o ombro molhado, frio e quente. O quente da pele molhada. A satisfação que damos àqueles que nos amam é algo comovente. Mas havia que permanecer lúcida e não provocar expectativas para além das que se quer satisfazer. Metade dela ainda era a mesma, seria sempre a mesma como uma âncora definitiva.
A menina movera-se, gritava D. Ernestina. A menina arrastara a escada a pulso e elevara-a até ao tecto sentando-se no terceiro degrau. Tudo a menina fizera sozinha. Mas já a menina estancava todo aquele movimento.
Como a escada também ela perderia a agilidade das novidades e definharia de novo. Como seria ser como era daqui, digamos, a dez e vinte e mais anos? Os anos, como os passos largos, tudo deixam rapidamente para trás. Muitas vezes se perguntara uma razão para esta passagem por este mundo. Por que deveria passar a provação de ter pai e mãe e têmporas e dedos, e sentir fome e sede, desejo e ódio, vontade e paralisia? E ali estava ela como é próprio das coisas vivas, naquele seu quarto do torpor babado olhando o vazio entre os degraus.
A escada acabaria como a cabeça embalsamada na parede. O troféu e o fim do animal. Uma cabeça de veado para que olhava continuamente como se aquela ascensão desse para outro lado qualquer onde estaria o resto do corpo do animal, quem sabe, talvez, o movimento que as suas pernas não tinham.