Segunda-feira, Fevereiro 18

In the end (e pescadinha de rabo na boca)


Ok.
Terminatum est - disse o Sr. T. e partiu de si como uma sombra.

... depois de 'andar ao murro com o amor'.


Depois de andar ao murro com o amor
foi sem nostalgia que Anacreonte mirou a pedra que esculpia Narciso.
O Sr. T. não andaria ao murro com ninguém a não ser com o Sr. Teste.
Depois, tinha uma opinião muito sua sobre Narciso
distinta mesmo da opinião do Sr. Teste.

No início foi o salto


transcurrieron los dias. Y los años.
Y vino la Muerte y pasó su esponja por toda la extensión de la fraga y desaparecieron estos seres y las historias de estos seres.

- Wenceslao Fernández Flórez, El Bosque Animado

O Sr. T. bateu alegremente as mãos uma na outra. - Crudelíssimo! É a isto que chamo uma aproximação entre realidades.

Quinta-feira, Fevereiro 14

Homer and is Guide - W. B.



nada que possa fazer
desta imobilidade feita da tua dúvida mais difícil

faz muito tempo não tinhas paredes
eras inédito
como uma ordem natural que se pode lavrar em todos os sentidos

foi antes de crescerem as paredes de imagens
as paredes de palavras
onde agora retraio

agora sou o teu cenário mais sensível
e não há nada que possa fazer.

Manuel Bim Bim

Dia dos namorados


- Dá-me um beijo - disse ele. Ela deu.
- Olha para mim - disse ele. Ela olhou.
- Diz que me amas. Ela disse que sim e poisou os olhos na janela.
Depois ela foi buscar as cervejas e ele continuou a comer as crianças.

Segunda-feira, Fevereiro 11

Matéria de lei


... é assim porque assim o quis! – diz, saltitante, a Lei. Anacreonte olha-a interessado, não porque seja bela a figura, mas porque a vê saltitar.

Sábado, Fevereiro 9

A refeição da noite


O rato do Sr. T. tem uma luz vermelha que pisca por baixo sempre que desliza no tapete. É uma luz que não se vê sem levantar alguns centímetros o rato. Apenas isso, uma luz vermelha faiscando continuamente num tapete ergonómico de cor negra despido de células fotoeléctricas - como o Sr. T. constatou.
Ocorre que o apenas marca aqui um excedente como um apenas isso, um pouco mais que nada. Há aqui algo de particularmente luxuoso, pensou o Sr. T.. E perante o rato de costas sobre o tapete, o Sr. T. não pôde deixar de pensar que vivia num universo perdulário.
Nesse momento, sentiu-se fortemente sacudido. Lavoisier pegava-lhe por uma orelha da infância e protestava o simplex natura. De passagem, era Laplace que o torturava, puxando-lhe esforçadamente o nariz enquanto o injuriava com funções que asseguravam a trajectória previsível.
A orelha vermelha latejava, o nariz, assaz dorido, projectava signos quebrados, caveiras e suásticas, mas não era um beliscão que ia demover o Sr. T. no infante.
- Seja o que for, a natureza não é simples - retorquiu o Sr. T., o peito inchando em meio às vaidades maltratadas, a mão recolocando o rato sobre a barriga e voltando-o novamente sobre o costado.
- O universo é mesmo é perdulário, o que não augura nada de óptimo e dificultará o bom, mesmo se não deixa de abrigar alguns frutos interessantes: algo de aproximado ao que designamos comummente como liberdade exige esse universo, simultaneamente perdulário e abaixo da eficiência, epistemologicamente um universo relaxado tendendo para a diversidade. - A liberdade não é simples - e o Sr. T. puxou de um cigarro.
Foi como se erguesse a cruz e tranças de alho. Nem Lavoisier, nem Laplace. Apenas um ribombar em eco repetia: relatiiiiiiviiiista, relatiiiiiiviiiista. Nesse instante, o rato deslizou até ao Sr. T. que, aliviado, o festejou lenta e repetidamente. Depois, o Sr. T. rasgou um bocado de pão que empurrou para junto do rato que continuava a piscar vermelho por baixo como uma enguia eléctrica e, finalmente, apagou a luz da sala.
- Um universo despido do luxo e do lixo, isso - exclamou o Sr.T. - seria uma maquina perfeita, nunca um universo.
Ainda viu uma linha ténue de vermelho antes de bater a porta.

Sexta-feira, Fevereiro 8

E no entanto...


E no entanto, o homem é um anjo. Isto na medida em que projecta um céu (no céu ou na terra), traça linhas, traduz números e nisto ele se rege e crê. A necessidade de crer é uma necessidade humana tão determinante como sublevar-se: o animal alado pisa e voa.

Tam-tam-tamtam-tam


Não há inúmeras variações do tam-tam-tamtam. As cores que usamos são variações de poucos naipes e é estreito o nosso espectro de gosto (doce, salgado, amargo, ácido e picante). No entanto, de dentro, o animal humano vê um percurso e um progresso. Seja do canto gregoriano ao punk, serial ou imanunesco, seja no gosto das quaisquer ripas à nouvelle cuisine e desta à química culinária. Ou do caçador recolector ao hiper ginasticado cyborg não fumador com memória absoluta e um sentimento protético de mundo. O que é então verdadeiro: a) o ser humano é um ser histórico, b) o ser humano é um animal?
Em termos radicalmente naturalistas, não há diferença entre os murais de Pompeia, o renascimento e o expressionismo abstracto. O canto do animal homem tem um nicho, antes de ter uma história. Um ornitólogo diligente e adequadamente dotado poderá distinguir o canto de um melro do de outro, eventualmente as variações geográficas que assolarão a melritude e delimitarão as culturas do melro como espécie, mas como o melro ou o bico-de-lacre, o nosso canto tem o nosso tom, humano, demasiado humano, antes de tudo. Qualquer animal o sabe: Humano antes que histórico, humano contra o histórico. Humano animal, com cheiro, com lastro.
É claro que a) e b) podem derivar em c): o ser humano é um animal racional, capaz de adequar o tempo e a circunstância. Ora, isto quer dizer: capaz de operar relações e prever relações. Com certeza. Mas em que é que a racionalidade humana é absolutamente diversa de tratar-se de um animal bípede com braços? Em que é que o código das letras se diferencia absolutamente da marca de cheiro? Antes de tudo um ser humano é um ser humano, tem cheiro. Qualquer animal o sabe: falamos de uma forma animada de sinais que qualquer animal reconhece. Não deixa de ser insólito: qualquer animal sabe algo que nós nunca saberemos.

Quarta-feira, Fevereiro 6

Matéria de prova

Even the mass murders of the twentieth century in Europe, China, and the Soviet Union probably killed a smaller proportion of the population than a typical hunter-gatherer feud or biblical conquest. The world’s population has exploded, and wars and killings are scrutinized and documented, so we are more aware of violence, even when it may be statistically less extensive. (...) My optimism lies in the hope that the decline of force over the centuries is a real phenomenon, that is the product of systematic forces that will continue to operate, and that we can identify those forces and perhaps concentrate and bottle them.

- Steven Pinker, The decline of violence

- Conhecem, os caríssimos auditores, um tal S. P., que parece que até é alpinista em vertente? - perguntou o Sr. T.
- Diz o dito Senhor, entre miríades de coisas outras ilustradas com papeizinhos de rebuçado, que o mundo contemporâneo é essencialmente não violento - pelo menos se o compararmos com os milhões de anos atrabiliários e brutais que o antecederam. P. diz mais: evoluímos claramente em direcção a uma cada vez menor violência porque somos seres na senda da razoabilidade. E tudo isto P. ilustra recorrendo a uma estatística nua. Apetece dizer: obrigado, S. P., ficamos verdadeiramente mais leves e menos esmocados, digo bem?
O Sr. T. fez uma pequena pausa, olhou aqueles que tinham que o ouvir, pelo menos de vez em quando, e continuou: - Trata-se outra vez de transmutar Jerusalém Celeste numa ainda formosa civitas terrestre, o paraíso na terra - e então, certamente, reinará a paz perpétua. Melhor, não há que fazer especificamente nada, o progresso, agora em termos muito mais humanos, é de novo uma inevitabilidade sócio-biológica, agora com cada vez menos danos colaterais. Tal como, insiste-se, a economia, essa mão invisível. Temos a retoma de um obscuro do marxismo (o seu cientismo) pelo neo-liberalismo, agora em versão estatístico -probabilística - que são outros os terreiros actuais.
Mais, teríamos uma prova científica, porque estatística (do decréscimo de violência). Ah, os números, venham as vossas contas, meninos . E que provaria essa prova? Porventura, que a evolução encontra a providência?
- Certo fulano F. F. - acrescentou o Sr. T. - então um director do Grande Departamento, também ele pregou um paraíso de eficiência neo-l., e chegou a garantir: cada vez mais, a lógica das modernas ciências naturais parece ditar uma evolução universal em direcção ao capitalismo.
- Notaram alguma semelhança? - lançou, mas imediato retomou a palavra.
- Sicrano, seja o matemático J. P., com não menor desenvoltura saltou da metáfora da auto-organização para a seguinte conclusão: ...estes progressos científicos vão sem dúvida transformar completamente a nossa concepção do político e do social, dando razão a um certo número de teóricos do liberalismo até aqui rejeitados em nome de a priori ideológicos.
- Ora, pergunto-vos agora eu minhas andorinhas - concluiu então o Sr. T. - que provam estes humildes novos operários de um futuro radioso e esta sua nova providência? Onde há aqui matéria de prova?

Sábado, Fevereiro 2

A propósito de D. Carlos...


Por vezes, o Sr. A. sobe os três degraus que separam o mundo do seu jardim de pé de torre, acede a pousar o ouvido esquerdo no pequeno portão de ferro e dedica, quase entusiasticamente, algum tempo aos ecos de grande vizinhança. De outras, derrete copos na intimidade da pequena vizinhança, optando por diluir-se num conhecimento sem sujeito. Normalmente, evita fazê-lo; uma e outra. As artérias não convidam, a paciência não está de molde e o Sr. A., na sua rarefeita atmosfera económica, já padece antecipadamente a relação custo/benefício. Depois, porque tudo o obrigue a tomar partido no fratricídio político que a vizinhança desenrola, o Sr. A., em regra, prefere escutar os peixes, a desesperada luta das plantas contra os parasitas, a aliança dos pássaros e das plantas. Não é que o Sr. A. não saiba que a guerra é a mesma, mas apenas que ele só sabe cultivar plantas.

Desta vez, porém, o Sr. A. subira os três degraus.

Falava-se de D. Carlos, do Regicídio, do Buíça, de Alfredo Luís da Costa, pouco de Aquilino. Como historiador de arte amador, como naturalista amador, o Sr. A. não poderia senão lamentar o ocorrido. Ademais, como pessoa, amadora, o Sr. A. não apenas era incapaz de matar uma mosca como protegia todo o tipo de insecto caseiro abaixo dos seis centímetros. E no entanto, o Sr. A. podia compreender mesmo o terrorismo no modo como, observador e inumano naturalista, podia entender uma luta pelo direito à contra-violência no grande como no pequeno jardim. Que mais dizer?

- Perante o assassínio - disse então o Sr. A. - só há três pontos de vista possíveis. Ou recusamos qualquer sua possível manifestação, o que em última acepção nos levaria à morte. Ou aceitamos o matar como o morrer, integral e amoralmente, como uma parte da vida. Ou o usamos, como é o modo da política, que toma o direito e o dever de matar em mãos, mesmo quando apenas em última acepção. Ora, se aceitarmos que os partidários da primeira e da segunda hipótese são raros, estamos condenados à gradação política, que não é a ausência de morte violenta, mas o seu encaminhamento como fenómeno público e privado.
Condenados à gradação política, estamos condenados a não poder desconhecer o assassinato como coisa política. O não matarás de Moisés ainda é uma definição de grupo e quer dizer: fora do grupo podes matar quando eu assim te ordenar. No fim, só este eu é variável.