Segunda-feira, Junho 30

Monólogo exterior do Sr. Valdemar


... os jogadores correm, a bola em ziguezague é parada por um jogador adversário e já desata em sentido diverso e os jogadores acorrem, agora em sentido contrário. Por vezes, pares de jogadores adversários dançam um número copioso de passos de desigual elegância e vigor, de outras, o ziguezague expira com um pontapé às redes e um outro jogador a projectar-se com ímpeto. Se a bola estaca ou é desviada, nada acontece ou ocorre então novo ziguezague. Se a bola cursa as redes, o campo incendeia com gente a berrar, a enclavinhar os dentes, a disputar as mãos. De cada vez, o jogo recomeça, a bola de um lado para o outro, os jogadores atrás e as redes pela frente...


Valdemar pousou o lápis e desligou a televisão. O jogo, como sempre sucedia, continuou.

Sábado, Junho 28

Em busca do tempo perdido - Vol. 3.

- Aconteceu alguma coisa?
- Acontecem sempre coisas em demasia, senhor.
- Não falo desse tipo de coisas. Pergunto se aconteceu ‘alguma coisa’.
- … não, basicamente é a continuidade dos processos de erosão, não aconteceu nada de colossal. Eventualmente, uma guerra no mundo árabe. Nada de importância. Usam-nas, aí e na África subsariana, como acções de manutenção. Aquelas coisas que ainda afectam os territórios históricos e nos obrigam…
- Nada mais?
- Um maltrapilho que foi espancado até à morte porque dormia sob o altar, numa freguesia histórica. Três pedófilos, mais a sul – nunca mais fecha a season -, mais uma meia dúzia de assassinatos, na sua maior parte por fastio, tudo, ao que parece, na região centro de História. Bombas nas fronteiras, alguns desempregados mais, pequenas revoltas… Coisas assim.
- Tudo em território...
- ... histórico, com certeza. O meu tamarindo?
- Brotou, e já abriu três raminhos, 12 pares de folíolos oblongos por ramo. Não haja dúvida, senhor, é dedo verde ou milagre ou ambos.
- Não deixa de ser cómico. Deves lembrar-te, com certeza, como perseguia o velho jerdineiro.
- ... empunhava, o senhor, ainda o bibe!
- Mas a mamã quis que não fosse assim.
- Tinha a senhora sua mãe visão!
- Não, via já muito mal, então, coitada. Sabes que sim, real como metaforicamente. Alguém foi lá pôr flores, recentemente?
- Eu próprio.
- Bem.
- Mais alguma coisa, senhor?
- Não, por agora, não. Esperemos que aconteça alguma coisa.

Sexta-feira, Junho 27

Ida e volta na seriedade do mundo: o inevitável


A primeira utopia liberal, ainda o capitalismo era industrialização progressiva, alicerçava na fantasmagoria cientista um futuro em que o lazer e o trabalho comutariam (o paralelo marxista é óbvio e, nesta perspectiva, nada distingue Castor e Polux). As máquinas, prometia-se, alijariam o ónus bíblico. Nada, aliás, que não fizesse todo o sentido: a história da ciência era um apêndice da história do lazer como a cultura era um seu efeito. Esta matriz repercutia ainda pujante nos Toffler, espécie de cisnes de fins do século passado.

Hoje, temos as sessenta horas semanais de trabalho e a flexi-precaridade e o silêncio no lugar do escândalo.

Quinta-feira, Junho 26

Ela.


ela olhava a fotografia
onde tu desusado separavas
peixe de peixe sobre o mármore

atiravas o peixe, escamavas
limpavas a pedra sob a estrela alta
setembro ainda cigano
alourando a navalha

e era só isto: ela agarrava a polaroid
onde tu, as mãos molhadas
extinguias uma alegria de Verão.

- Bim

Sexta-feira, Junho 20

O que aconteceu naquela manhã.



Naquela manhã, o Sr. T. descera para comprar cigarros e tomar café mais cedo do que era habitual. Sentada no café, mesmo no meio do salão, estava a ontologia.

Na marcha.


Demoras de novo nesse familiar de língua pousada no mar. Ao longe, alguém ri de uma tristeza que não tem - e resplende como o Verão.
Tu demoras, sozinho na casa. O pátio rescende suor de pássaro mesmo no bordo onde escorre do muro maior que dá costas à praia. Um miúdo salta a polvilhá-lo de grãos para que more. O miúdo olha de fora, olha da rua para o pássaro, uma rola, parece-te.
Aí, dentro dos olhos, é o único morador. A tua existência não tem outras orelhas.
Há apenas morar: demorar o grão infinitamente na boca: distender como um pingo de sol no verão.
Considerar como é apropriado: Morar, demorar como um pássaro. Regressar como o Verão. Esquecer como o miúdo.

Quarta-feira, Junho 18

A bloga. Apontamentos do caderno do Sr. T.

Os blogues intimistas ou são eróticos ou são absolutamente desinteressantes para terceiros. O solitário funciona melhor com baralho.

A blogosfera não existe para ser lida, mas para ser escrita.

Os ecrãs matam o tempo, exigem velocidade e leitores passarinho que voam mais do que pousam. No ecrã, o acto de pensar é pura nanotecnologia.

Um que entra na vertigem, um outro que larga o vício: é isto a terra dos ecrãs: uma rapidez vertiginosamente visitante e auto movida. Um vazio reiteradamente visitado, povoado de neo-escritores e neo-leitores.

Sábado, Junho 14

Ou outra coisa qualquer... do mesmo género.

- nunca a dor dos outros nos dói suficientemente - disse ela.

- é na medida em que não é ela dor que outros possam sentir, que pode doer-te - é simples, disse-lhe ele.

- Era ele ou eu, Dr..
- Eu sei isso, a sua família sabe isso, toda a gente sabe isso. Só falta a Mónica saber isso; sabê-lo de facto.
- …eu sei, Dr. É só que…
- É só que, Mónica…
- … porque não foi ele, Dr.? Eu enlouquecia entretanto e hoje tiram fetos dos mortos, porquê eu e não ele, Dr.?
- Já falamos sobre isso, Mónica.
- Já?
- Não podíamos arriscar, Mónica; desculpe a crueza, mas era como cortar cerce a árvore e resguardar o fruto podre. Não tínhamos quaisquer garantias de que…
- … o bebé não fosse um monstro ou um idiota.
- … se sobrevivesse. A Mónica sabe o que tomava na altura, sabe que fez o que tinha de ser feito. Não havia realmente escolha.
- Está a querer tomar-me a culpa, Dr.?
- Não há lugar para culpa, Mónica, tenha juízo. A Mónica estava doente, arriscámos perdê-la e tivemos sorte.
- Sorte, Dr.?
- Creia-me, Mónica, ninguém como um médico sabe aceitar o que seja a sorte.
- Estranha sorte, perder um filho.
- Estava perdido, Mónica. Não era o seu filho. Era…
- Era eu, apenas eu. Fui eu quem morreu ali, Dr., e isso não tem cura.
- A Mónica tem duas filhas vivas, saudáveis e maravilhosas.
- Tenho Dr.? Duas miúdas que têm de ver a mãe…
- Doente, Mónica, doente.
- Miúdas felizes e maravilhosas… não são Dr.?.

Sexta-feira, Junho 13

Geleia (imersão)

‘Há só coisas’ - dizia X, em poema inédito lido na rádio.
Bim fechou a porta do carro, puxou do cigarro e deitou-se na relva. Daí a minutos Bim entrava ao serviço e o Sr. X esfumar-se-ia por artes mágicas como um balão que explodisse lenta e silenciosamente.
‘Não há nada que não seja uma coisa’, eis o que ali se escondia e que Bim não alcançava.
Em contrapartida, que não havia coisas, senão em última instância e com prazo, era o que de imediato se lhe impunha. Para ele tudo partia de relações, as relações eram de certo modo anteriores às coisas (e com outro prazo), assim se excluísse uma qualquer singularidade inicial. Cada ser, ao nascer, não apenas se determinaria num horizonte primitivo como, sobretudo, se determinaria do horizonte para a coisa – como o nó não é senão uma posição do fio.
Nunca aquele seu pensamento poderia ser ouvido na rádio, pensou. Depois apagou o cigarro. Depois entrou.
‘ O que acontece não são as coisas, as coisas apenas fazem parte de um horizonte dos acontecimentos’, ainda lhe veio à mente, mas foi como se um relâmpago já sem ruído lampejasse uma última vez, lá muito atrás .
Pousou o pensamento no vestíbulo e ferrou o ponto.

Quinta-feira, Junho 12

200.000 anos de Corrida (Obstáculos)

Um filho da revolução informática, neto da revolução industrial, bisneto da ...

Mais tempo é sempre promessa de menos tempo.

Faz parte...

- Uma praga.
- Nós, os homens?
- Ora essa, disse o agricultor.



- E o mundo? - Não conheço. Os homens brincam, faz parte. Se não acreditassem como poderiam continuar a brincar? Sempre foi assim. Como disse, desconheço a substância das suas brincadeiras. E nem mesmo lhes admiro, como outrora, a seriedade com que se lhes entregam.

Naturalmente...

- Porquê o Bogart?
- Sei lá, uma boa imagem, um homem partilhando a sua vida com cacos de vidro entre dois quases - o quase de cheios e vazios, o quase de luz e de sombra.
- ... e o Mitchum?
- Esse sei, o outsider tranquilo, o fumador de erva. Ali era novinho. Esteve sempre para lá do quase. Naturalmente, não teve o sucesso do outro. Depois, a fotografia de filmes dessas décadas douradas tem aquele 'je ne sais quoi'.
- O Bogart era tudo fingido. O gajo era um actor sério. Apenas um profissional, mais nada - nunca, depois do trágico episódio à volta da inexistência do Pai Natal, o mundo determinaria decepcioná-lo tanto.
- O Mitchum ainda tinha dois lados e tinha pés, tinha uma vida cá fora. O Bogart nem pés tinha, era só película.
- Totalmente desprovido de ironia!
- Totalmente cheio de vazio.