
Pôr o devaneio no ginásio - e é a isto que, com propriedade, se chama pensar.
Depois de bem ginasticado, o corpo saberá dedicar uma vida a uma ou duas notas de rodapé - a sua propriedade.
"Não existe imagem certa do Sr. Teste. Os seus retratos são todos diferentes." p. valéry
O animal que vê é o único que está cego.
Aqueceu, desfê-la ferindo-a com os dedos, misturou com um pouco de tabaco, fez um filtro com as orelhas do box e enrolou.
Todos os dias, pelas onze, o Cicla sobe na velha bicicleta o que irá descer, pelo menos uma vez, em regra perto das sete, com mais ou menos dia. O Cicla tem uma só perna desde sempre e quase não fala, antes teria outro nome.
- Quando para aqui viemos já esta merda era momentânea - diz o Dois-dedos - quantas vezes os f. p. nos meteram c’ os pés ao caminho?
‘Ninguém mais tem uma caveira como a tua, já to disseram vezes sem conta’, pensava Espichel com os seus botões. ‘E tu respondes, quando tenho a caveira que tenho estou irrecuperavelmente sozinho. Quando a passeio, fico muito mais colectivo, excessivamente mais colectivo - mas nunca o razoável para que a nubilidade acorra a beijar-me’.‘Seja como for’, pensava Espichel, ‘não é topo de gama, mas há nela algo como se de um rosto. Como se eu fosse o feliz possuidor de um rosto debaixo do rosto’.
Os botões de Espichel estavam muito atrapalhados, não porque não soubessem o que dizer, mas porque não tinham boca.
I
E aqui um Adão de argila castigada tropeça, fatídico, em Psique, a que ama a um deus ferido - e ninguém se desculpa. Em causa a visão do que antes não era visível, ambos desgraçando-se no mundo. Psique perde Eros e um Palácio de Neuschwanstein, Adão deixa de falar com Deus e passa a amassar pão; desde esse momento, irradiados do play-ground e em caminho, destina-os atravessarem-se na estrada um do outro, nesse estado curioso, entre o afastamento do corpo e do deus, onde se desenrola a vida dos homens de argila. Psique em demanda de Eros, Adão perdido de Yaveh.
Em termos profanos, dir-se-ia talvez: O animal é imediatamente animado. O humano é o animado que se mediatiza, que se perspectiva no hiato entre o ânimo e a actualidade. Neste sentido, é o animal medíocre. O questionamento, vigor da mediocridade, é um poder de denegação do poder, uma economia de desprovido. O animal que se questiona é o único que não conhece. O animal que se veste é o único que está nu.
Nisto e coisas como isto pensava o Sr. T., mas não muito, quando se sentia mais separado.
Uma mulher bonita a ponto de a quereres levar para casa, mesmo aos bocadinhos. Sobretudo em bocados, nunca demasiado grandes, não fosse aquela bela integridade atentar a persistência de alguns objectos.Eros e Psique
- Eras feliz, do que mais precisavas tu?
- O meu filho cresce, dizia-me a Emília. E como todo o predador tem gestos incisivos como trincar e levantar a mão. Diga-se, é um bom predador. Sabe encostar a cabeça e dar beijinhos sem fechar a boca e dizer ‘más, más…’ quando pretende a repetição do estímulo. A vida é uma eterna repetição de instantâneos de vida com predadores e com vítimas e ainda não serei eu quem ficará infeliz com isso. Ensinei ao meu filho que sempre que respiramos matamos milhares de seres invisíveis, exactamente como cada nosso gesto despacha outros tantos entre visíveis e invisíveis, e que viver é matar e que matar não nos faz menos bons, apenas nos caracteriza como género. Em suma, até a preservação do Bambi exige um estômago saciado.