Quarta-feira, Julho 23

Pensar com propriedade




Pôr o devaneio no ginásio - e é a isto que, com propriedade, se chama pensar.
Depois de bem ginasticado, o corpo saberá dedicar uma vida a uma ou duas notas de rodapé - a sua propriedade.

Necessidade e necessidade


Que o homem seja um animal carregado de sacolas, eis a desconfiança. Que, por vezes, essa desconfiança seja a última marca de um homem, eis a necessidade.

Segunda-feira, Julho 21

...ainda a propósito de escultura.

O animal que vê é o único que está cego.
(o artista cego tinha que ser escultor)
Daí (para o animal cego) que a realidade seja profunda, da profundidade do que não é visível - e que, como imperceptível, se prometa, não a uma sensorialidade humana medíocre, mas à iluminação da razão humana.
Por outro, que a mesma razão, espécie de radar conceptual do homem cego, viva em perdida expedição nocturna num mundo de que nada retira de absolutamente exterior.
Afinal, que o mundo se torne imagem, que o homem se projecte no mundo como Narciso na água, é talvez a condição sine qua non para haver homem.
Que o homem afeiçoe o mundo como imagem à sua imagem como mundo e que a imagem mude, eis o mistério em Pigmaleão.

Queres?

Aqueceu, desfê-la ferindo-a com os dedos, misturou com um pouco de tabaco, fez um filtro com as orelhas do box e enrolou.
- Porque devoras os chocolates? - perguntou Amir.
- Refrear o mundo não será motivo suficiente, Amir?
- Mas eras tu quem insistia na maleabilidade do mundo, na sua intrínseca mobilidade, na inevitabilidade da luta…
- Estar vivo e permanecer é uma luta, Amir, mas, em certa medida, podemos escolher os adversários. Como podemos trabalhar a diferença entre a taça erguida e o cenho carregado.
- Estás mudado.
- Não, Amir. Os velhos não deixam de brigar, mas o modo de se baterem tem de mudar - não é apenas a crença na vitória que se torna débil num velho, é a própria diferença entre tragédia e comédia que se esbate. Queres?

Domingo, Julho 20

'resiliência'


Todos os dias, pelas onze, o Cicla sobe na velha bicicleta o que irá descer, pelo menos uma vez, em regra perto das sete, com mais ou menos dia. O Cicla tem uma só perna desde sempre e quase não fala, antes teria outro nome.

Não cura de mágoas, Torres aLx, profundo da rampinha, com seu magote de estropiados e arrasados e o seu trânsito de táxis, pais com filhos, mulheres esqueleto, olhos de cherne, ocasionais, polícia, nativos com pequenos índios pela mão.

A falta de uma perna é uma contrariedade que se pode robustecer. Desespero é o fim do bairro. Mas poucos acreditam durar até lá.

Quinta-feira, Julho 17

Torres aLx (a demolição em conversa)

- Quando para aqui viemos já esta merda era momentânea - diz o Dois-dedos - quantas vezes os f. p. nos meteram c’ os pés ao caminho?
- ... e na campanha que não demolia, que isso eram os outros...
- Quanto é que dizem que vale esta porra?
- Mais de doze milhões… - o Dois-dedos não sabia se em contos se em euros.
- ’oda-se! Tudo isso? Os f.p. têm razão, é mais do que valemos. É só uma questão de prazo.
- Tornamos ao Barredo? - apegou-se o Budinha, travando a cadeira.
- Este quer morrer lá onde nasceu… - diz alguém.
- Não estás bem aqui, não, m. p.? O Dois-dedos não espera qualquer resposta - Então deixa-te estar. Está-se bem ou não? Dá-lhe uma palmada no cachaço, o Budinha abana e mostra a falta de dentes. - Não tens na mesma o carvalho do rio, não? Virando-se para os outros:
- … até os motores dos elevadores lhes levamos!
Voltando-se novamente para os dentes do Budinha: - Já morrias pelos cachaços, não é?, o carvalho do velho!

Quarta-feira, Julho 16

In hominem mutatur


Somos como nos vemos, vemo-nos como nos usamos - produzir um mundo é como escolher um par de sapatos. Cada par apreciará segredar-nos um astro diferente.
Outro não é o móbil da arte, condenada a observar e imitar o que não é, a realidade, e a erigir-se em cenário suficiente, onde esta possa prosseguir.
De cima de que par de sapatos percebemos o mundo?
Diferentes atmosferas estéticas têm mundos descoincidentes, e a Srª. História tem um amplo guarda-roupa.

Também se podia dizer assim: Narciso é o que se projecta no inanimado, Pigmaleão é aquele que o anima.

Terça-feira, Julho 15

Hoje a cabeça do Sr. T. era este quadro.

- Hoje não abriste a boca.
- Não.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não.
- Precisas de alguma coisa?
- Não.
- Queres que fique ao pé de ti?
- Não.

Sábado, Julho 12

Os botões de Espichel

‘Ninguém mais tem uma caveira como a tua, já to disseram vezes sem conta’, pensava Espichel com os seus botões. ‘E tu respondes, quando tenho a caveira que tenho estou irrecuperavelmente sozinho. Quando a passeio, fico muito mais colectivo, excessivamente mais colectivo - mas nunca o razoável para que a nubilidade acorra a beijar-me’.

‘Se tiro o chapéu, já ouvi dizer, fico agradável, isto é, a minha caveira é agradável entre outras caveiras. Mau era. Não que agradável seja com propriedade encomiástico – como não é de ambicionar terem-nos por boa alma, depois de todo o dispêndio. Mas, devo confessar, dadas as condicionantes, agradável é agradável’.

‘Seja como for’, pensava Espichel, ‘não é topo de gama, mas há nela algo como se de um rosto. Como se eu fosse o feliz possuidor de um rosto debaixo do rosto’.

Os botões de Espichel estavam muito atrapalhados, não porque não soubessem o que dizer, mas porque não tinham boca.

Aparecer Ver

I
‘Ser superior chamam eles a um ser que se enganou. Para nos causar espanto há que vê-lo – e para ser visto tem de se mostrar. (…) Todo o espírito que achamos forte começa pelo erro que o revela’.
- P. Valéry, Monsieur Teste

II
‘A atitude de completa indiferença dos peões nas ruas irrita os automobilistas’.
- R. Walser, O Salteador

Sexta-feira, Julho 11

Verdade ou consequência...

Compreendendo que a parra pouco agasalhava, o animal mortal mais rapidamente acercou o vinho.

Quando se sentia mais separado


Quando Adão escusa ‘que estava nu’ a tónica não é posta na possibilidade da afirmação, mas no questionamento da economia de Deus. A primeira separação é uma produção, um paradoxal vestir do mundo para o conhecimento.

E aqui um Adão de argila castigada tropeça, fatídico, em Psique, a que ama a um deus ferido - e ninguém se desculpa. Em causa a visão do que antes não era visível, ambos desgraçando-se no mundo. Psique perde Eros e um Palácio de Neuschwanstein, Adão deixa de falar com Deus e passa a amassar pão; desde esse momento, irradiados do play-ground e em caminho, destina-os atravessarem-se na estrada um do outro, nesse estado curioso, entre o afastamento do corpo e do deus, onde se desenrola a vida dos homens de argila. Psique em demanda de Eros, Adão perdido de Yaveh.

Em termos profanos, dir-se-ia talvez: O animal é imediatamente animado. O humano é o animado que se mediatiza, que se perspectiva no hiato entre o ânimo e a actualidade. Neste sentido, é o animal medíocre. O questionamento, vigor da mediocridade, é um poder de denegação do poder, uma economia de desprovido. O animal que se questiona é o único que não conhece. O animal que se veste é o único que está nu.


Nisto e coisas como isto pensava o Sr. T., mas não muito, quando se sentia mais separado.

Segunda-feira, Julho 7

Capuchinho vermelho

Há dias em que as cozinhas parecem obras de arte: um jardim catatrópico.

Obstinação na sapataria

Ao contrário do que possa parecer ele apenas a ajuda a colocar o sapatinho. E servia-lhe. Enquanto combinavam o preço ela alertou-o para a qualidade genuína da pele, a raridade do animal.

Sacrilegae curiositate (variações)

Pigmaleão
Uma mulher bonita a ponto de a quereres levar para casa, mesmo aos bocadinhos. Sobretudo em bocados, nunca demasiado grandes, não fosse aquela bela integridade atentar a persistência de alguns objectos.


Eros e Psique

- Eras feliz, do que mais precisavas tu?
- Quis conhecer o que me fazia feliz.
- Conhecias-me em confiança…
- Possuía o que não podia representar.

Sábado, Julho 5

A morada do homem



- As crianças acreditam muito.
- São a própria privação de certeza.

Acreditar é mais fundamental do que não acreditar, pensou o Sr. T. É como confiar e não confiar.

Sexta-feira, Julho 4

história miúda com auto-retrato



Chegou. Bateu. Não estava ninguém. A história podia acabar aqui. Mas na missa o Padre dissera: ‘batei e vos será aberto’ e ele não se resignou. O senhor Padre não mentia.
Ainda hoje continua a bater.

Terça-feira, Julho 1

s/título


Mais do que de história e geografia, as culturas carecem de uma etnologia das rotinas, lugares e ideias de predação.

Questões de género...

- O meu filho cresce, dizia-me a Emília. E como todo o predador tem gestos incisivos como trincar e levantar a mão. Diga-se, é um bom predador. Sabe encostar a cabeça e dar beijinhos sem fechar a boca e dizer ‘más, más…’ quando pretende a repetição do estímulo. A vida é uma eterna repetição de instantâneos de vida com predadores e com vítimas e ainda não serei eu quem ficará infeliz com isso. Ensinei ao meu filho que sempre que respiramos matamos milhares de seres invisíveis, exactamente como cada nosso gesto despacha outros tantos entre visíveis e invisíveis, e que viver é matar e que matar não nos faz menos bons, apenas nos caracteriza como género. Em suma, até a preservação do Bambi exige um estômago saciado.
Emília fez uma pausa, talvez para envergar o sorriso que se seguiu: - O meu filho ainda não entende tudo, mas já me deu uma flor que soube amputar com as suas próprias mãos, também já percebeu que matar invisíveis é desinteressante e já tortura as formigas, instintivamente. Antes que a cultura coincida com o meu filho, a aprendizagem essencial estará feita naturalmente e, de mim, herdará, assim posso esperar, apenas esta ética mínima: a parcimónia e o escrúpulo, na vida e na morte. Emília calava-se, os olhos muito negros. O elevador chegou, desci e por estranho que possa parecer nunca mais vi a Emília. E no entanto, hoje lembrei-me deste nosso último encontro e também do puto que, não sei porquê, impôs-se-me que faria anos por estes dias