Terça-feira, Setembro 30

Correm os ventos...


Talvez de pudor, os ventos estranham-se, voltam-se para dentro.
O mundo humano anda estranho, estes dias - dizem entre si os ventos na linguagem sem metáforas que é a sua.
Na sua linguagem sem juízos ainda se pode dizer estranho, apenas estranho, e percebem-se, sim, percebem-se uns aos outros, os ventos. Estranhos tempos estranhos, diriam, dizem.
Ou são estranhos estes precisos humanos? Estes, os homens molusco, se quiserem. O homem medíocre no seu grau abjecto. Tão despido de ideologias como pobre de ideias, quase que absolutamente privado de esqueleto, vê-lo-ão dobrar-se ao arquear de cada árvore, a cada gume de esquina, e, em vez de um gemido fatigado, ele sorri. Um sorriso quase ingénuo, atreveríamos.
Sim, talvez seja do homem molusco que falam os ventos. Desse triste fruto do capitalismo tardio que infecta enquanto sorri.
É claro que os ventos não falam disto como nós, muito menos nestes termos. Dizem apenas, na sua linguagem sibilante de sentidos: Estranho, o mundo humano anda estranho.