Quinta-feira, Outubro 30

Less is more?


Anacreonte era decididamente politeísta, é muito mais engraçado, dizia, um mundo em que se tropeça em deuses.

João César


João César adorava ovos frescos à luz da manhã.
Pacheco acendia o primeiro cigarro e punha a sinfonia 7 de beethoven a emergir lentamente do leitor, enquanto fritava os ovos.
Levantara-se com as galinhas. Bebera a meia de leite carregada de sempre. O Xanax. Acabara de fritar dois ovos. Agora passava os olhos no ecrã, os jornais, o mail - o que o tranquilizava. As sensações fortes que electrizavam o mundo àquela hora inseriam-no num balão à prova de quotidiano.
Fuma um finex pelo caminho que faz a pé e serenamente. Bebe as duas primeiras cervejas no café deste lado da avenida. Entra daqui a menos de trinta minutos, o Pacheco. Trabalha do outro lado, quase em frente. O mundo é bonito. Lá para o meio da noite, muitas cervejas e alguns finexes depois, o Pacheco dormirá como um anjo ou como um porco.
Um dos ovos cai, estatelando-se no frio do branco da cozinha.
Nessa altura João César desperta. O Pacheco morrera, fazia mais de dez anos.
Era ele o que restava do Pacheco, pensou, enquanto a sinfonia 7 de Beethoven emergia lentamente do leitor e ele abria uma segunda cerveja.

Domingo, Outubro 26

Matéria de circulação

O sucesso, como um autocarro, obriga. Toda a gente sabe isto. Ora, o Sr. T. não gostava de ser impelido de todos os lados e impingido a todos os outros. Habitualmente também não tinha destino, pelo menos nenhum que conviesse com as paragens de tão ordeiros animais. Por este motivo o Sr. T. andava sempre como quem não anda e sempre com um pé à frente do outro como se andasse de costas. Ou então de burro como se fosse maestro. Quando bem sucedido, de imediato o Sr. T. mudava de rua ou animal.
Em matéria de circulação, dizia o Sr. T, se todo o cuidado é pouco esse pouco é já cuidado demais.

Quarta-feira, Outubro 22

Conjuntivos e Córneas


Ao contrário de outros vizinhos, o Sr. T., nunca descortinou fosse o que fosse de penetrante nessa estranha ideia de um único princípio ou um só desígnio, seja este a natureza ou qualquer outro fantasma. Einstein, naturalmente, como o físico qualquer, e antes os filósofos de que estes emergiriam desde quinhentos, ainda diligencia uma Teoria do Tudo: a aposta é tudo ou nada…
O problema - e por grave já o tinha St. Agostinho -, é que as contradições não surgem quando o sujeito encontra um outro sujeito, mas quando o sujeito se encontra a si mesmo, em possibilidade, na reflexão ou no acto. O monoteísmo, de razão ou outro, parte de um mesmo pressuposto falhado: que nos é permitido considerar o humano como um objecto fora de nós. E não é. Nós somos o que nos surpreende do interior de nós mesmos.
O monoteísmo, nesta perspectiva, é aquela doença cujo principal sintoma é essa estranha vontade de se sentar fora de si para olhar para si como um todo que nunca comparecerá - e que piorará exponencialmente, sempre que ao eu se gargantilhe um nós. Ver-se, como espectador, interpretando o palhaço no circo é, triste que seja, diverso de ver-se como juiz de todos os papéis, lá porque se ajuíza do seu.

Em termos médicos fala-se de Trichiase: 'Desvio congénito ou adquirido das pestanas para dentro, contra o globo ocular, enquanto a pálpebra conserva a sua posição normal. Daí resulta irritação permanente da conjuntiva bulbar e da córnea'.

Comentário: talvez, afinal, o que chamamos de civilizações mais não seja do que um fenómeno prolongado de trichiase. Talvez seja essa a raiz dos mitos de Narciso e Pigmalião: uma 'irritação permanente da conjuntiva bulbar e da córnea'.

Termas


Naquele dia, o Sr. T. tomara um banho de multidão bem ensaboado e à temperatura ideal, quando o corpo saiu lustrado dos cheiros, dos lábios abertos de reconhecimento, das mãos que se lhe davam, o Sr. secou o corpo com uma tolha velha, mas eficaz, e enquanto fazia a barba, o chapéu a querer tombar para frente, parou um instante, olhos nos olhos no vidro, e reconheceu: um dia assim exigia um pijama novo. Seria listrado, dois tons de azul e branco, corte clássico, como todos os outros, mas seria novo. Agora, o Sr. T. sabia mais uma coisa.

Domingo, Outubro 12

Bom serviço


Naquele dia, 12 de Outubro, Sr. T. olhou-se no espelho da casa de banho e não gostou da cara que viu. Nesse momento percebeu. Tinha de contratar uma agência de comunicação para tratar da sua boa imagem. E lembrou-se da tia Berta, que nunca usaria tal tipo de serviço.

Quarta-feira, Outubro 8

Espirituais


Matar o bonifrate? Talvez apenas assumir a totalidade dos papéis até perder o centro. Até que o centro se desbarate. Até que o cenho se transfigure no cansaço da mão.

Reflexão à volta de uma floreira


A haver um problema da vida, como se diz em linguagem viva, será ele a aceitação do escuro que tendemos a colocar fora de nós - pensou o Sr. T..
Não há ervas daninhas. Acima da qualidade viva do solo, há húmus e há as ervas e há os bichos nas ervas, e por detrás, e por baixo. E se devemos preparar esse subsolo - o que não é um adquirido -, é para a vida qualquer que nele possa crescer. O nosso eu privado nada é, se não for a reverência diante do escuro que começa a ocorrer em nós quando nos vemos desabrochados em mil contradições. Depois, se não fosse esse escuro, para que serviriam os pijamas?

Quinta-feira, Outubro 2

Hard and light


O bom idiota é um ser frágil, como as flores e os cogumelos são frágeis. Porém, em certas condições, a beleza com que se o vê desabrochar não pode se não deixar-nos enternecidos. E ainda que não tendo a beleza das flores ou a inventividade dos fungos, ajustadas as condições ao seu belo exercício, o bom idiota surpreende.
É sabido, o bom idiota sempre existiu, um pouco como a sombra do homem, um pouco como a sua alma. Todavia, mais raramente a sua prole foi verdadeiramente infestante.
Um bom contra-exemplo tem floração nos anos trinta, já no funcionário exemplar dos regimes totalitários hard, já no oportuno colaboracionismo da vítima (disto tratou Hannah Arendt), outros recuariam à inquisição, ao massacre dos índios, à escravatura, eventualmente ao advento da sociedade patriarcal, talvez já em Adão, antes de Eva, ou ao contrário. Não há totalitarismo sem conivência.
E no entanto, o bom idiota não apenas é probo como é uma cisterna de virtudes, nos seus pequenos actos uma pessoa carinhosa e amável, na profissão um profissional deontologicamente profissional, etc.
Idhiótis, dizem-nos os gregos, é aquele que se priva da polis, que se põe à parte da vida pública, que se despreocupa. E contudo, o bom idiota não é ainda o santo. Como nunca é o vizinho do lado. Se há algo de intrigante, ainda que profano, no bom idiota, é a sua faculdade de errar por ‘bondade’. Em suma - mais uma vez Arendt - de se recusar a pensar sempre que isso vá contra uma outra miúda fidelidade, de carácter ou outra, que se não alcança pôr em dúvida.
Em última acepção, não há maus cá no filme, que nem é a preto e branco, mas a diferentes fidelidades. Há apenas bons idiotas e circunstâncias.

Dito no modo actual: a boa idiotia, dadas as presentes condições atmosféricas (maniqueísmo, medo, intrusão preventiva da privacidade, fatalidade económica, ressentimento, etc.), ostenta-se a mil maneiras. Os campos estão bordados a semente e despontam já os primeiros grelos, e isto é bonito - assim, olhado do ponto de vista de Deus ou do naturalista - uma súbita floração desproporcionada, mas encantadora, de certo tipo de gramínea. Mas, a menos que a surpresa estética nos deslumbre e encandeie, melhor faríamos em olhá-la como homens e temer-lhe os sinais. Há fragilidades que, dadas as condições exemplares, ficam demasiado fortes - demasiado tarde.

Quarta-feira, Outubro 1

Verdades que voltam de lado nenhum


Era a voz da número três, a mãe mãe, mãe de ofício alargado que cuidava filharia, qualquer coisa que com menos de quinze anos mexesse no pátio do recreio e envergasse a bata branca. O Monhé cuspia-lhe as ordens e os afagos, mas ela era ainda o eco que o queria imaculado, tirado o rabo do saibro, jamais na boca as pipocas do ranho.
Olha que te sujas Alberto. Tira a mão da boca, Alberto, queres ficar com a barriga a doer-se? Anda Alberto, chega-te para aqui, para o meu pé, comporta-te, sê um homenzinho. Cheirava a medicamento e creme, um hálito húmido de claustro.
Ser um homenzinho, será que a velha não percebe que tenho quarenta anos?
Súbito, um sopro vazado, depois um estatelar, qualquer coisa que cai, talvez um cofre-forte como nos desenhos animados, um vaso de barro, a gelosia laxa da varanda.
Ela, a mãe mãe, num baixar de pálpebras, reduzida a uma lâmina bizarra, aqui e ali pintalgada a vermelhos vivos, a cinzentos de medula, a massa encefálica, os dentes cerrados como grades que protegessem o rosto da deformidade total.
Monhé olhava, as cuecas carregadas de saibro e raspando tranquilamente as pipocas na língua. Ao fundo, começam a ouvir-se as sirenes.
A Bim, agora nos cinquenta, ainda o espantam as recordações, como a todos os velhos recentes. O modo como recorda a expressão do Monhé sobre um fundo de sirenes.