
O bom idiota é um ser frágil, como as flores e os cogumelos são frágeis. Porém, em certas condições, a beleza com que se o vê desabrochar não pode se não deixar-nos enternecidos. E ainda que não tendo a beleza das flores ou a inventividade dos fungos, ajustadas as condições ao seu belo exercício, o bom idiota surpreende.
É sabido, o bom idiota sempre existiu, um pouco como a sombra do homem, um pouco como a sua alma. Todavia, mais raramente a sua prole foi verdadeiramente infestante.
Um bom contra-exemplo tem floração nos anos trinta, já no funcionário exemplar dos regimes totalitários hard, já no oportuno colaboracionismo da vítima (disto tratou Hannah Arendt), outros recuariam à inquisição, ao massacre dos índios, à escravatura, eventualmente ao advento da sociedade patriarcal, talvez já em Adão, antes de Eva, ou ao contrário. Não há totalitarismo sem conivência.
E no entanto, o bom idiota não apenas é probo como é uma cisterna de virtudes, nos seus pequenos actos uma pessoa carinhosa e amável, na profissão um profissional deontologicamente profissional, etc.
Idhiótis, dizem-nos os gregos, é aquele que se priva da polis, que se põe à parte da vida pública, que se despreocupa. E contudo, o bom idiota não é ainda o santo. Como nunca é o vizinho do lado. Se há algo de intrigante, ainda que profano, no bom idiota, é a sua faculdade de errar por ‘bondade’. Em suma - mais uma vez Arendt - de se recusar a pensar sempre que isso vá contra uma outra miúda fidelidade, de carácter ou outra, que se não alcança pôr em dúvida.
Em última acepção, não há maus cá no filme, que nem é a preto e branco, mas a diferentes fidelidades. Há apenas bons idiotas e circunstâncias.
Dito no modo actual: a boa idiotia, dadas as presentes condições atmosféricas (maniqueísmo, medo, intrusão preventiva da privacidade, fatalidade económica, ressentimento, etc.), ostenta-se a mil maneiras. Os campos estão bordados a semente e despontam já os primeiros grelos, e isto é bonito - assim, olhado do ponto de vista de Deus ou do naturalista - uma súbita floração desproporcionada, mas encantadora, de certo tipo de gramínea. Mas, a menos que a surpresa estética nos deslumbre e encandeie, melhor faríamos em olhá-la como homens e temer-lhe os sinais. Há fragilidades que, dadas as condições exemplares, ficam demasiado fortes - demasiado tarde.