
No vigésimo sexto andar daquela torre vivia um astrofísico que tinha um telescópio e, todas as noites, vigiava o escuro para além dos céus. No vigésimo sétimo, o último andar, do mesmo lado e janela sobre janela, habitava um marionetista retirado.
A celebridade do astrofísico crescia de observação para observação. As suas publicações discutiam fenómenos nunca antes presenciados, e era uma questão de dias até que as suas detalhadas observações fossem conferidas e logo galardoadas pela comunidade internacional de astrofísica.
O marionetista, no seu quarto, seguia o sucesso do seu vizinho de baixo com orgulho. Um dia convidou-o para um chá com biscuits e scones. O astrofísico, aceitou, mas o marionetista notou que ele tremia enquanto segurava a chávena. Nessa altura, o marionetista declarou solenemente ser ele, e mais ninguém além dele, quem movia a lua, o sol e, na realidade, todo o sistema solar, e, segurando umas tabuinhas, mostrou como fazia e como uma mão tremente era uma impropriedade na sua profissão, ‘não desfazendo’, acrescentou logo de seguida.
O astrofísico explodiu a meio de um scone, tudo cuspido pela mesa. D.ª Arpente, a auxiliar do astrofísico, assistira a tudo e chamou a polícia que tratou de algemar o velho marionetista. Nessa noite, todo o sistema solar desapareceu nas janelas. Estranhou-se, mas não havia como saber se a causa fora a explosão do astrofísico ou a prisão do marionetista. Como, no dia seguinte, o universo continuasse ausente, os responsáveis da
policei, uma vez encarado como impraticável qualquer esforço dispendido no sentido de ressuscitar o astrofísico, resolveram simplesmente tentar libertar o marionetista. Nem sempre o mais inacreditável é o menos verdadeiro – disse um dos sábios da ordem, como foi grafado em acta.
Era tarde porém, o marionetista morrera no calabouço essa mesma manhã. - Foi mesmo antes do pequeno almoço, lamentava-se o carcereiro. E o universo não ressurgira mais, talvez à míngua de prótidos. Perante tão desusado fenómeno, uma imensa maioria dos astrofísicos deixou de saber o que fazer. Alguns tornaram-se marionetistas.