Domingo, Novembro 30

O Chapéu


Um dia, o Sr. T. pôs o chapéu e não estava. Como o espelho o confirmasse, o Sr. T. optou por regressar à cama. Assim acordasse, estaria - pensou. Mas quando acordou, alguns dias depois, e pôs o chapéu, não precisou de chegar ao espelho para perceber que continuava a não estar. Nesse dia, o Sr. T. resolveu de vez deixar de usar chapéu. Surpresa a sua, reapareceu. Desde então o Sr. T. passou a ser visto sem o seu característico chapéu e um chapéu insólito desatou a aparecer nos lugares mais inesperados.

O Problema do Sr. Witt


... o que fica é o que comemos e o que nos come, a nossa violência desde o princípio em que começamos a comer a mãe. No fim dejectamos a máscara e com ela vão as raízes que ainda não definharam, a flor antes das sementes, e da vida nada resta senão vida.

- Como é estranho que isto seja belo! – pasmava o Sr. T..

- O Sr. W., calar-se-ia. O que pode ser dito, pode ser dito claramente. E continua assim, ou qualquer coisa como isto: O que se mostra é o indizível, o que não pode ser dito, o místico... E sobre o que não pode ser dito devemos calar-nos – acrescentou o Sr. T.

- É bonito! - admirou Anacreonte - Mas não haverá demasiado de dito no que se mostra? Não há demasiado de pouco dito? Mostrar o que apenas pode ser dito e procurar dizer o indizível, mesmo com o sucesso que se sabe, parecem-lhe tarefas vãs? De modo algum um poeta, o Sr. W., de modo algum um poeta.

- E no entanto… - ainda sussurrou o Sr. T.

- Pensa em termos de soluções, ainda acredita em soluções, o Sr. W. - e nós não temos solução. Uma árvore não tem solução - não se ensina a um bebé como deve chorar. - Percebe? - Não há choros pouco claros nem árvores com solução. Não há nada a verificar e a depurar. Também não há nada de sério a refutar, mas isso seria outra história.

- E no entanto… - sussurrou o Sr. T. – há nele um poeta…
- O problema, caro T., é que se sentou para pensar. Um poeta nunca se senta.

Sábado, Novembro 29

A escada de Jacob

As escadas de madeira, dizia o Sr. T., são objectos para subir que dão muito jeito para descer. Na horizontal uma escada pode ainda ser uma ponte confortável. E sobre um eixo, quem sabe, um singular brinquedo para as crianças. Depois dos chapéus, o Sr. T. tinha uma sincera afeição pelas escadas de madeira.

Contra Aristóteles

Os amigos são algo de profundamente requintado. Algo a defender, seja qual for o caso. Em verdade, nunca os amigos estão de acordo ou em diferendo absoluto uns com os outros, simplesmente todos pedem, entre si, um certo direito de excepção; direito mais do que legítimo entre pares e que caberá ao anfitrião administrar ou não.
Ora, os amigos, diz-nos Aristóteles, teriam como requisito essencial para a amizade “a consciência, a qual só é possível se duas pessoas são agradáveis e gostam das mesmas coisas” . Claramente, neste pequeno capítulo da amizade, o Sr. T. despreza Aristóteles e o que já aí se elabora da moralidade cristã, ou, se quiserem, monoteísta.
Pelo contrário, que os amigos saibam discordar e bater com os punhos na mesa, como possam sorrir uns dos outros, de um modo que a mais ninguém seria permitido sorrir do que se diz, é o que os consolida como amigos. E era apenas por isso que o Sr. T. continuava a ter amigos, basicamente contra Aristóteles.
E mesmo se cada vez menos os tinha em quantidade, mais apreciava a qualidade dos poucos que mantinha.
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Quarta-feira, Novembro 26

Conselhos sem escada fixa


Diz o Sr. T.: Depois de subir há que deixar cair a escada, se não se pretender voltar a descer.

Se o Barão Trepador e o Sr. W. se encontrassem, abraçar-se-iam como irmãos –diz ainda o Sr. T..

Aparecer e desaparecer

No vigésimo sexto andar daquela torre vivia um astrofísico que tinha um telescópio e, todas as noites, vigiava o escuro para além dos céus. No vigésimo sétimo, o último andar, do mesmo lado e janela sobre janela, habitava um marionetista retirado.

A celebridade do astrofísico crescia de observação para observação. As suas publicações discutiam fenómenos nunca antes presenciados, e era uma questão de dias até que as suas detalhadas observações fossem conferidas e logo galardoadas pela comunidade internacional de astrofísica.

O marionetista, no seu quarto, seguia o sucesso do seu vizinho de baixo com orgulho. Um dia convidou-o para um chá com biscuits e scones. O astrofísico, aceitou, mas o marionetista notou que ele tremia enquanto segurava a chávena. Nessa altura, o marionetista declarou solenemente ser ele, e mais ninguém além dele, quem movia a lua, o sol e, na realidade, todo o sistema solar, e, segurando umas tabuinhas, mostrou como fazia e como uma mão tremente era uma impropriedade na sua profissão, ‘não desfazendo’, acrescentou logo de seguida.

O astrofísico explodiu a meio de um scone, tudo cuspido pela mesa. D.ª Arpente, a auxiliar do astrofísico, assistira a tudo e chamou a polícia que tratou de algemar o velho marionetista. Nessa noite, todo o sistema solar desapareceu nas janelas. Estranhou-se, mas não havia como saber se a causa fora a explosão do astrofísico ou a prisão do marionetista. Como, no dia seguinte, o universo continuasse ausente, os responsáveis da policei, uma vez encarado como impraticável qualquer esforço dispendido no sentido de ressuscitar o astrofísico, resolveram simplesmente tentar libertar o marionetista. Nem sempre o mais inacreditável é o menos verdadeiro – disse um dos sábios da ordem, como foi grafado em acta.

Era tarde porém, o marionetista morrera no calabouço essa mesma manhã. - Foi mesmo antes do pequeno almoço, lamentava-se o carcereiro. E o universo não ressurgira mais, talvez à míngua de prótidos. Perante tão desusado fenómeno, uma imensa maioria dos astrofísicos deixou de saber o que fazer. Alguns tornaram-se marionetistas.

Sexta-feira, Novembro 21

Progresso

No jardim público, o Sr. T deu um passo em frente. Não sabe o que perde, disse a senhora que tinha ficado para trás. Em direcção a quê? – ainda perguntou o Sr. T, mas já prosseguia.

Quinta-feira, Novembro 20

Vinhedos e razão prática

O Sr. T. crescera a olhar as vinhas. Sabia que tudo tinha tempo no seu interior, e, como qualquer filho de vinhateiro, sabia que a relação entre o tempo interior e o tempo exterior era uma aprendizagem de sofrimento.
Ora, porque toda a aprendizagem era essencialmente trabalho empunhado ao futuro, outro nome para o sofrimento, o Sr. T. tinha alguns embaraços com a noção de educação – sobretudo quando esta fortalecia noções tão frescas como as de gestão e de eficiência. A persistência que o Sr. T. conhecia não era a recta lavrada por um punho, era antes o envolver fraco, demorado, de uma hera. Educar era uma morosidade. O crescimento, sabia ele de observação, quando não era de toda a planta, era a doença ou o rodeio.

Hoje, quando todos os lobos afirmam: ‘soprarei e a tua casa irá pelo ar’, o Sr. T. reconhecia a calamidade que lhe contavam na infância e, sempre que tinha oportunidade, asselvajava uma criança.

Parede egípcia


Havia anos em que o Sr. T. lia tanto, que, se não se tratasse do Sr. T., seríamos tentados a dizer que lia desenfreadamente. Havia outros em que o Sr. T. não lia um livro.

O Sr. T. discordava dessa opinião mundana que mantinha que havia livros fortes, como versos fortes, e outros mais magros.

É que o Sr. T. tinha uma imagem de esqueleto dentro dos olhos que justapunha àquelas que lhe vinham dos livros. Os livros eram um esqueleto ainda desimpedido, mas sempre já em pequenas peças, vendidas separadamente. Peças canhestras, não exigindo o desvelo colocado nas ossadas de sáurios nos museus de Ciência Natural, mas exigindo similar imobilidade e, paradoxalmente, trabalho.

Assim imóveis no seu trabalho, não havia ossos magros e ossos fortes, mas funções, nem qualquer diferença entre o rádio e o fémur, senão a inerente ao seu lugar na colecção. Daqui, o Sr. T. não afirmava que todos os livros eram fortes, apenas concluía, opostamente, pela força ou fraqueza dos esqueletos - naturalmente, de fora para dentro. Se tudo começava com uma inocente recolha de peças, tudo acabava, humanamente, no monstro separado.

Naqueles anos em que o Sr. T. não lia um livro, já não os via segundo o esqueleto, mas segundo a ordem das imagens. Nesses momentos, voltava a olhar a paisagem e fazia por perder algumas peças..

Domingo, Novembro 16

O riso de Deus


O Sr. T. eram duas palavras que quando unidas tinham uma certa consequência, não raro, o próprio Sr. T., mas eram ainda e apenas as palavras que o Sr. T. usava quando se movia pela vida.
Por vezes o Sr. T. ria, de outras vezes caía dos olhos e magoava-se. O que acontecia mais e mais com a idade. Nessas alturas, voltava a rir. Ria do colossal, ria do imperturbável movimento desumano da natureza. Ria de Deus. Ria de si.
Rir o riso de Deus. Negligência insondável, pesava o Sr. T., esta de assim rir. Rir de Deus é como rir da morte: oportunamente ineficiente, mas sadio.
Ser persuadido, opostamente, é um modo de deixar de rir.

Sábado, Novembro 15

Resta o Sr. T. (por agora)

Este é um espaço pequenino onde duas personagens trocam papéis e ajuízam uma troca. Por vezes são três e chegam a ser quatro. Por vezes lêem em voz alta, de outras em surdina, coisas que tomam por importantes, sobretudo se poucos as tomam como tal.
Por vezes é um que fala e os outros que não ouvem, de outras vezes é ao contrário. Mesmo se momentos há em que todos se dão por surdos.
Mas, por pequenino o espaço, são ambiciosos os amores que narram ou deixam de narrar estes vulgares personagens. São amores caridosos, mais do que caprichosos. São espantos. São desideratos, apenas estorvando na esterqueira uma ou outra pista, talvez porque divergem.

Anacreonte, como terão notado os mais aficionados, está em férias prolongadas. De quando em vez, no maxímo, manda-nos um postal. Bim, apesar do seu currículo oculto, arranjou uma amável colocação em Cambridge, England, onde estuda, imagine-se, pirilampos, e a sua colaboração com esta iniciativa limita-se, desde então, a conversas com o editor, naturalmente sigilosas – pelo menos por enquanto.

O Sr. T., como não tem destino ou currículo, manter-se-á como uma dor corajosa. A coragem é uma dor contínua, mesmo quando retrocede dois passos.

Quinta-feira, Novembro 13

Enganos

Condorcet, o paradoxal filósofo da liberdade mecânica, não podia deixar de se embrulhar numa imensa série de contradições. Não a mais pequena, mas de modo algum um seu exclusivo, foi a identificação entre iluminação e filosofia. Outra foi a identificação entre cultura e "l'égalité des âges et des sexes devant l'instruction, l'universalité et la gratuité de l'enseignement élémentaire ".
Hoje, em contrapartida, sobretudo depois das vãs, mesmo se heróicas, altercações de Kant, diríamos talvez com maior finura: ‘Toda a sociedade que não é iluminada pelos charlatães, é enganada pelos filósofos’. Mesmo se há que redefinir a uns e a outros e, antes de mais, objectando a Platão, inocentar o infeliz pantomineiro do maneio das suas marionetas.

Quarta-feira, Novembro 12

O que querem dizer as palavras (uma parábola)

(para quem ainda não notou que o que aqui não é parabólico, trata das outras secções de um cone, todo ele infinitamente jocoso).


Mil cento e trinta e seis gatos circulando ordeiramente por uma cidade europeia, não constituem notícia. Na realidade, não afligem ninguém. Alguns daqueles que nas bermas os viram passar confessaram-se surpreendidos com o civismo dos felinos rua acima, rua abaixo, sem arranhar ninguém.
Capricho e desdém, denunciou um articulista, que, já fora de si, afiançou não ser esta administração sequer um arenque vermelho.
Aqui a gatitude tremeu entre um ou outro sorriso, aplaudiu, mas mostrou-se pouco afeita a almofadas, tapete ou rabo de espinhas, e, inclusive, descuidou o borbulhante dos peixinhos vermelhos que, das janelas, lhes viravam, displicentes, uma memória efémera ou uma gota mal projectada.

Determinação, firmeza e coerência são coisas que são fundamentais para os gatos, logo depois da noção de cuidado – eis o que qualquer gato sabe. Eis o que parece desconhecer a tal de administração que, disse o articulista com razão e enigma, nem um arenque vermelho é.
Havendo cuidado, não se dirá que a determinação é teimosia. Havendo cuidado, a firmeza não é intransigência. Havendo cuidado já a coerência será apenas esperável. Mas sem a ideia de cuidado, qualquer gato sabe, pouco resta do que outrora se chamou humaniora.
E isto é um descuido, um descuidar por parte da humana tutela. Uma derrota humana que se avizinha.

Sexta-feira, Novembro 7

Há males que vêm por bem

Porque é que abrimos quase sempre as caixas de comprimidos pelo lado errado? Era um tal emaranhado de questões: design, predisposição para o erro, ressentimento; ninguém pior do que ele para respingar.
E, no entanto, num dia em que acidentalmente abrira correctamente a caixa de comprimidos, todas estas questões vieram e rebentaram-lhe na cara, assim, de um momento para o outro. Na realidade, explodiram-no. Sobretudo a cara ficou irreconhecível.

Desde que a D. Idalina fez carapucinhas em tricô, cada uma de uma cor diferente, isso acabou. E hoje está muito melhor. As crateras sob os olhos cederam e ele agora até tinha mais comprimidos. E tinha pomadas, pomadas com odores.

Há males que vêm por bem e mobilidades que ganham do ordenamento

Quinta-feira, Novembro 6

A propósito de educação

Era uma vez o Butão, um pequeno e fechado reino encravado nos Himalaias, onde talvez ainda houvesse princesas, dragões e, faz dez anos, não havia televisão nem internet.
Que não houvesse crime no reino só mostrava a tacanhez desse povo, a olhos montados em westerns como são os nossos. Que podia dizer-nos uma civilização que exortava: 'livra-te de nascer numa época interessante’, nada. Nada, certamente, que não pudéssemos ter aprendido sozinhos em duas grandes guerras, mas que, sob o pânico do enfado, persistimos em não querer compreender. Agora, passados dez anos o Butão tem tudo, até crime. Ah, também proibiu o tabaco.
Um dia destes a casa não recebe o Butão.
Nessa altura, braços amplamente abertos, a capa vermelha esvoaçante e as ceroulas azuis com estrelas, já a sétima cavalaria terá entrado em campo guarnecida dos corneteiros e das roulottes de farturas a fumegar de colar à pele. Antes, os filmes já invadiram e arrasaram qualquer cultura remanescente. E casas é o que não falta.
Era uma vez o Butão. Um pequeno e quase inacessível reino espetado nos Himalaias, onde talvez ainda houvesse princesas, dragões e monotonia. Há dez anos atrás.

Quarta-feira, Novembro 5

Repetições


Vieram contar ao Sr. T. que o Sr. Obama era Presidente dos EUA, tinham visto na televisão. – Não durará muito, apressaram-se de imediato, é uma questão de tempo, os assassinos já estariam por aí em trabalho de campo. Tão certo como ser ele negro.
O Sr. T. contemplava aquela gente que, vibrante, frenética, com a revista ou o jornal debaixo do braço, lhe confidenciava o próximo filme de Cowboys, e não dizia que sim nem dizia que não.
O Sr. Obama não vivia em Torres aLx. Na realidade, o Sr. Obama interessava ao Sr. T. bem menos do que o anunciado fecho da peixaria, na rua do Ouro. Bem menos, inclusive, do que a eventual carreira política da Rosa .
Em termos de política internacional, o Sr. T. limitava-se a coleccionar repetições e a ajuizar da sua tragédia ou comédia, onde aliás tinha sempre grandes dificuldades.

A inalterabilidade do catalisador

(La pilule a un effet catalisateur sur la combustion )

O Sr. T. era um catalisador e isso era apenas algo que ocorria, de modo algum um super poder que ousasse controlar ou que se determinasse como uma das suas vontades. Em as adequadas condições, acontecia-lhe catalisar. Assim. Como a outros remexer em excrementos. Nada mais, e já lhe trazia sobejos dissabores.
Entre os muitos inconvenientes, um maçava particularmente o Sr. T.
Aquele chapéu já fora do seu avô, antes disso, ao que consta, do pai dele, e, naquelas alturas em que entrava em processo catalítico, o Sr. T. não o aguentava um momento na cabeça. Na verdade, nessas alturas uma peninha que fosse, mesmo as esvoaçantes levíssimas de passaritos de moça carnação, acaso breve pousasse em sua cabeça, eram já dias de tortura.
Cedo - como diria a fábula - o Sr. T. percebeu que havia algo errado com a noção que impunha a inalterabilidade do catalisador. Algum dia, como sempre acontece, uma gota rasgar-lhe-ia a pele, um espinho sangraria um dedo.

Agora, quando ‘isso’ ocorre, isto é, catalisar, abre o guarda-chuva, o chapéu pela mão e finge que não é com ele.
- Que se catalisem, diz o Sr. T., e por vezes pensa no que diz, de outras vezes não...

Domingo, Novembro 2

Exames Médicos


O Sr. T. não fazia exames médicos - uma questão de coerência com os grandes princípios.
Não que acreditasse que as doenças saltassem dos exames médicos para o seu corpo. Já o contrário lhe aparecia plausível, aqueles aparelhos viviam da sua saúde, ganhavam uma razão de ser da sua saúde e, ao fim e ao cabo, era ainda à sua saúde que eles iam buscar os máximos e mínimos que definem a doença, mesmo quando fosse a sua.
Na realidade, ao Sr. T. apetecia expirar simplesmente, sem máquinas de sobrevida e sobrevinda, sem doenças classificadas, um acontecimento de bicho solitário. Ninguém por perto que merecesse envergar lágrimas, só a frescura da relva.

Ainda faltava muito tempo, era a sua verdade. E um exame médico também não podia dizer isso.