
A D.ª Efigénia fora duas vezes ao mercado no dia anterior, nada que a apoquentasse, apenas o frio; mas o frio não impedira a felicidade. Durante anos o pequeno Eduardinho fora a sua companhia, mas depois crescera. Sobretudo, desde aquelas férias em que o pai o fizera presenciar a morte de um cavalo que partira as pernas dianteiras.
Da segunda vez que teve que regressar ao mercado, já passava das quatro. Dª. Efigénia nunca fora ao mercado por aquelas horas do meio da tarde. Era outro mercado, e já não gostou tanto dos pimentos, para não falar dos melões e da salsa. Mas ir ao mercado, para a D.ª Efigénia, era uma parte elementar da vida. Viera das serranias de Baião, com apenas 14 anos, para ser criada e educada na grande casa, naquela altura ainda proeminente, sobranceira à grande cidade.Morta a grande casa com a morte da Senhora, passara para a casa pequena da neta, um andar amplo de dois pisos a três quarteirões, onde há alguns anos mais não havia que descampados.
No dia seguinte, D.ª Efigénia foi duas vezes ao hospital. Uma nevrite tolhera-lhe o tronco, sobretudo o lado direito ao longo das costelas. Até respirar lhe doía. Depois, nem tossir o lastro dos cigarrinhos, algo verdadeiramente aflitivo. Quando finalmente conseguia, parecia consentir na deflagração das costelas e assistir ao milagre da sua inversa concreção. Outra pessoa, que não D.ª Efigénia, um astrofísico, por exemplo, talvez pudesse dizer: de cada vez que tusso, dou lugar a um Big Bang. Com D.ª Efigénia as coisas são forçosamente diferentes.Da primeira vez, por volta das 14.45, D.ª Efigénia fora observada, puseram-lhe um comprimido debaixo da língua, entubaram-lhe o soro no braço direito, receitaram-lhe quatro remédios e, três horas depois, recambiaram-na a casa sua. Da segunda, antes ainda das 6.00 da manhã, D.ª Efigénia acorda como se lhe tivessem ensartado um pau ao longo de todo o lado direito. Dá de novo entrada no hospital, é observada, põe-lhe um comprimido debaixo da língua, uma injecção em cada nádega e receitam-lhe apenas três remédios, um dos quais coincide com o receituário do dia anterior, e recambiavam-na a casa sua. Depois de esperar quase duas horas pela mudança de turno na Urgência do St. António, D.ª Efigénia está agora também constipada. Gostava de mercados, D.ª Efigénia, ao contrário do desinteresse inestético pelos hospitais, onde ninguém tem pressa, nem mesmo os doentes. Mas era tão certo como hoje estar a chover que amanhã regressaria ao hospital – e essa certeza, não menos do que as dores, não a deixava adormecer. Amanhã, ir-lhe-iam certamente dizer para não andar ao frio; D.ª Efigénia há que poupar nos cigarritos ao frio - pois, e enfiar-lhe mais dois ou três produtos farmacêuticos, calcinhas cor da pele em baixo, uns comprimidos debaixo da língua, e tornar a mandá-la para casa com atestado médico e a obrigação moral de não fazer nem gestos bruscos nem gestos que lhe sejam pesados por uma semana.
- Atestado médico - era uma coisa bonita, pensou D.ª Efigénia. Mas ela ganhava à hora como empregada e não podia atestar a sua ineficiência de gesto - ela não era senão o seu poder de gesto, o gesto, inclusive, de introduzir os Martin, que amanhã vinham cear lá casa.
Quatro dias apenas, e soube que estava despedida com carta de recomendação enaltecedora, ela que só faltara dois dias aquando da morte de sua mãe, em 8 anos, desde que a velha senhora morrera. Mas, para além do Eduardo, já com 16 anos, havia três filhos pequenos e dois empregos carecendo da exacta pontualidade e eficiência, anteriormente reconhecidas a D.ª Efigénia, mas agora algo incompatível com a nevrite. É claro que D.ª Efigénia compreendia, não é verdade?
Passada uma semana, D.ª Efigénia, estava praticamente boa e estava pela primeira vez, aos 58 anos, sem emprego e sem ninguém. Nessas semanas, a sua cara tinha crescido desmesuradamente à medida que o corpo tolhera. Agora, D.ª Efigénia apercebia-se - entrara na última fase e estava completamente livre ou completamente morta.
Naquele momento, o Honda negro dobra desabridamente a curva, parece perder o controle e, ziguezagueando, sobe o passeio, enfaixando D.ª Efigénia contra o azul do edifício.
A porta do carro não fez barulho ao abrir. D.ª Efigénia ainda está consciente, olha o condutor que se aproxima como num filme mudo.
- Eduardinho…
O vulto abraça-a e segura-lhe a cabeça até que morra. - Não chores, Efigénia. Não chores.