Terça-feira, Dezembro 30

A mulher bonita e infeliz


Era uma mulher bonita e infeliz. O marido adoecera, tinha ela cerca de trinta anos. A sua inquieta sensibilidade, o marido estava longe de a poder imaginar. Ele amava-a, talvez por um hábito que muitas vezes se transfigura, acolhendo de novo o amor que já sentira, como se recebe de novo um velho amigo. Mas perdera demasiado tempo, ele – consigo, com a sua revolta contra a doença, com a doença por dentro dela. Um tempo que a ela coubera recolher como rosas no colo de um vestido que ameaçava puir. Nunca, em momento algum, ela decidiu traí-lo. A questão nem se punha. Traí-lo em quê, exactamente? Ele era o velho amigo a quem não podemos contar quanto mudamos, mas era o seu velho amigo de sempre. Que lhe iria ela contar? Como mudara? Não sabia precisamente. Mas ele sabia, e ela sabia que ele sabia, talvez melhor do que ela. Era o seu amigo velho e nunca se consegue enganar suficientemente um amigo velho. Conseguira, acaso, ela enganar-se a si própria a esse respeito? A mulher bonita e infeliz aproximou-se do velho amigo agarrou-se-lhe ao pescoço e disse: vou-me deitar. Eram dez horas da noite. Ele correspondeu ao beijo e mudou o ecrã, recostando-se no sofá. Não lhe apetecia ver nada. Foi até à cozinha, vemo-lo a abrir o frigorifico e a tirar uma cerveja, pôr futebol no ecrã. Podemos sentar-nos. O jogo está mau. Podemos vê-lo ir outra vez à cozinha.

Ela trai-me - pensou o velho amigo.

Domingo, Dezembro 28

O telefone. Três histórias de natal.


Não soasse o telefone, ninguém se lembraria. A rapariga fora contratada para a noite de Natal. Cuidava-do-casal-que-já-devia-ter-morrido-mas-não-morria. Era a hora de os pôr na cama. Fazer ó-ó não era muito diferente do que eles faziam já, mas a rapariga não teve forças. O velho resistira, inteiriçara-se, como fazia perante estranhos, e acabara tombado entre o sofá e a cadeira de rodas, muito, muito antes do quarto, gemendo, e incapaz de se mover. Aflita, a rapariga pegou no telefone que repicou na orelha da festa.
- O pai caiu, a rapariga não tem forças para o reerguer. Vou ter que ir lá.
- Eu vou contigo – fui, apesar da resistência.

- Sabe quem está aqui? O Alberto, lembra-se do Alberto? …sim… o irmão da Néné, não se lembra?
Ele sabia que não.
Alberto, pelo contrário, percebera que o que ali havia de um estranho reconhecimento jamais eclodiria em palavras. Ele era uma névoa mais, mas, sim, ele estava lá.
- Ela sabia…
- Já de pouco dão fé. Por vezes, não me reconhecem.
O filho agarra o pai e puxa-o, os braços em volta das costelas, parece que segura o peso irregular de um saco de batatas, demasiado a resvalar por todos os lados. Faz-lhe uma festa, - Posso?, pergunta, e olha-o enquanto o eleva até à cadeira, depois da cadeira para cama, novamente. O quarto, com duas camas com sistema elevatório atrás e à frente, é branco cal e cheira a hospital, não a extrema idade. O odor da velhice é outro. Olho a rapariga que esfrega nervosamente as mãos. Olho-a da face aos pés e de novo, lentamente, percorro-a no sentido oposto. Ela está demasiado concentrada para poder perceber a indecência do meu olhar na casa da morte.
É a vez da mãe. A mãe fala, a mãe tenta lembrar e tem o cabelo pálido e ele pousa-a na sua cama, beija-a na testa, diz piadas que ela não entende, ela, ali, paralela ao pai, lado a lado, ambos embrulhados como mortos imaturos.
- Vi o modo como a mão do teu pai pousou na tua cara.
- Não. Viste o que sobra de um pai. A gratidão do animal moribundo -os olhos mantinha-os fixos na estrada. Eu vira uma ânsia muda de uma alma onde ele tinha que ver o distanciamento de um corpo incontrolado, nunca o pai. E ia dizer-se-lhe o quê?
- Mas a tua mãe reconheceu-me, só não conseguiu situar-me, mas reconheceu.
- Talvez. Talvez não.
Voltámos para festa sem abrir mais a boca. Ele guiava. Eu pensava em voltar para trás; talvez conhecer melhor a rapariga.

Amigo. Três histórias de natal.

Uma lâmina faz-lhe uma incisão no rosto. Outro corte fá-lo cair de joelhos. Ainda se ergue, aberto ao golpe que comporá a flecha bem cravada no bolbo de sangue, depois deixa-se ficar, já solto, a olhar os vultos que escurecem. Tem um coração atravessado na face direita, abaixo do olho – é uma árvore nova, tem apenas quinze anos.
Pelo pescoço sobe-lhe um dragão chinês enegrecido copiado de um emblema; os braços flamejam de ornatos florais a preto e vermelho entrelaçados e cortados por figuras. Tento ajudá-lo enquanto ele leva a mão direita a cara que está viva de sangue. Empurra-me e aponta um dedo à barriga.
- Esta foi a primeira, mostra-me, soerguendo a camisa acima do umbigo e descobrindo uma coroa de espinhos à volta da palavra mãe. – Depois foi esta e esta, e ia apontando com o sangue.
- Tenho a vida desenhada no corpo, acontecimento a acontecimento, não acredita? – Aqui foi a tutoria, ali a morte do velho. Aqui, apontou reticente, o velhaco do meu padrasto, depois sorriu. - Faz amanhã anos que se fodeu. Caiu ao rio, o palhaço.
- Os amores e os dissabores, tenho tudo aqui, e batia no peito. – Agora fodi-me por uma cabra e tinham de me marcar o rosto. Era mais um parágrafo. - O sangue não me assusta, amigo, não enquanto o puder ver.
Vomitou. Tinha-me chamado duas vezes de amigo, pensei enquanto o amparava.

Gotas como de mercúrio cintilavam no solo sob a luz das iluminações de natal. Começámos a ouvir as sirenes, ele ainda esboçou um salto, depois viu as luzes: - É a bófia?
- Não, a ambulância, amigo – era a minha vez. Ele então deixou-se cair, lenta, mas não desamparado. Os pirilampos dardejavam no silêncio rivalizando com as luzes de natal e enquanto o soerguiam a palavra amigo fendeu pela quarta vez a minha razão. O mais provável era que nunca mais o voltasse a ver, o que queria ela ali?

A filha, o pai, o filho dela e o neto dele. Três histórias de natal.

Vira o neto pôr sorrateiramente meia garrafa de branco debaixo da mesa. A mãe estava animada. E o neto escondera o vinho debaixo da mesa, no gesto absurdo de quem não sabe mais.
Acabou-se o vinho? A mãe estava num alegre-negro que ele reconhecia e a qualquer momento podia resvalar. O cunhado chega-lhe uma cerveja, enquanto abre outra para si. – Não queres esconder esta, pois não papá?, diz ela. O avô sorri um sorriso difícil, que não queria dizer sim nem não. - Maria Cristina, o teu filho! – pediu a avó. A mãe estava doente de infelicidade, médicos e mãos de comprimidos por dia. De cerveja, depois das seis. De amigos. - Oh a garrafa, afinal sempre aqui esteve - diz ela em falsete, levantando as faldas da toalha. Depois atira os braços à volta do avô, dá-lhe um beijo como uma filha obediente e festeja-lhe levemente o queixo. Todos chalaceiam, alguns batem palmas, o riso é contagiante. Afinal é Natal e a festa continua. Só o neto não sorri. Uma certa maturidade é indispensável para saber rir da adversidade - e o avô percebe o que lhe cabe.

Terça-feira, Dezembro 23

Jingle Bells


Quase todos temos uma irmã ou um irmão, pelo menos um.
O Sr. T. tinha um de cada.
O irmão esvaíra-se por terras francas e pouco dele se sabia. Estava vivo, mudava de mulher como uma criança muda de fralda, todas as últimas mulheres já tinham filhos e augurava-se, em consequência, um mau final ao galã ou o descaro de um casamento, sempre a descontento.
A jovem irmã, a mulher bonita, jornadeava uma gentil loucura em que servia este mundo e o dos outros entre momentos de mania que a esvaziavam e momentos outros que se não seguiam, mas prolongavam como gráficos em queda. A super-mulher, a irmã querida, era a mais infeliz das fêmeas.
Ao Sr. T. cabia-lhe o papel de escriba. Contava processamentos em declinação como se segurasse ovos frescos.

Segunda-feira, Dezembro 22

Um corpo, é um corpo, é um corpo.

Para o Sr. T., a mente não tem actos absolutamente arbitrários, caso em que o mundo seria inconstante. Do mesmo modo, para o Sr. T., a união de vários e distintos membros num corpo era efectivamente um corpo. Como a união de vários e distintos afluentes era um rio, desse-se-lhe o nome que se lhe desse. Para o Sr. T. um rio era um rio e um corpo era, propriamente, um corpo.

Não há como sair disto, não há como o arrancar dos olhos. Há o laboratório, há a arte conceptual. Há a televisão. E, todavia, um corpo é um corpo, é um corpo, é um corpo.

Domingo, Dezembro 21

Indícios




Antes era o amor e uma cabana e, óbvios, os lírios do campo em fundo. Depois foi pão com rosas.
Hoje, as vagas de gente acordam desde as cinco. E de manhã nunca os dias têm o nome certo que terão à tardinha. E hoje, dia hoje, hoje em dia, o que era o domínio de um Cupido infante, capitulou… categórico, em ‘consulta’. No time. No time – diz o coelhinho de Carroll. Mais tempo, é menos tempo.

Kultura. Entertainment. Fast, fast, fat. Chegámos para o chá da lebre e do chapeleiro.

Trabalha-se na globalização e a globalização dá todo o trabalho. Um arganaz molhado, com demasiado chá, tem aquele aspecto; é questão apenas tampar ou não o bule.

O Sr. T., em contrapartida, apreciava a particularidade dos pães, dos chás e a lenta peregrinação das ideias e das notícias. A aventura da ignorância era o atrevimento dos rebentos; a indisposição ao trabalho, a saída das serras. A informação, como para Jacinto a técnica, era, sem a imposição das serras, a mera inflação do ridículo geral.

Mas o Sr. T. era alguém para quem uma pequena diferença era um universo, o arganaz um herói e – pior – alguém que ainda sonhava com uma ilha deserta ou uma casa na árvore aos sessenta e três anos.

Por favor, não tampar ou não o bule.

Sábado, Dezembro 20

De modo assim....


Ela fitou-o, indignada, com os olhos que deus lhe dera como uma jóia funda, negra, implacável. Ele limitou-se a devolver-lhe um espelho claro, os lábios entreabertos, tensos naquele sorriso nem sim nem não. À medida que o olhava e à a sua própria imagem no espelho, algo nela cristalizou.
Ele nem esse direito tinha – que ele tivesse olhos translúcidos de bebé era uma desonestidade da natureza, apenas. Foi nesse momento que o rasgou de cima a baixo.
- Não, ele nunca pode ser ele – disse a desenhadora, apartando o cabelo e deixando cair a folha.
- Não, de modo algum – abanou-se a borracha –, de resto, ninguém o pode por muito tempo, não é assim!?
A desenhadora já não ouviu.

Sexta-feira, Dezembro 19

O tempo do voyeur.



Hoje, Anacreonte soube que uma lei permitia doravante à Polícia alemã instalar programas de espionagem em computadores pessoais, via Internet, dentro e fora da Alemanha. Não ficou admirado.

- Anacreonte, pensou Anacreonte de si para consigo, é agora que vais ter o merecido estrelato internacional.

A estranha felicidade de um homem e um rio


Estava desesperado. Hesitou entre atravessar-se no percurso de um comboio e atirar-se da ponte.
Atirou-se do comboio, passava este sobre as viscosas águas do Letes. Os mortos, em libações de vida ou paraíso, não o acolheram.
Regressado à superfície, não se lembra de nada.
Nem o desespero de que se lançara.

Quinta-feira, Dezembro 18

No estranho país...

O Sr. B. esquiva um par de sapatos internacionais, mas atirados em árabe – not my number, diz o texano - é fortemente aplaudida a performance.

O Sr. B, empolgado, decide, quase aí, renunciar aos princípios da economia de mercado para salvar o sistema de economia de mercado. O Sr. O. bate palmas também, mas a preto e branco e nem mão cá nem mão lá - not is number, to.

O Sr. T. tinha aqui a sempre velha questão, nunca achando qualquer resposta e que regressava a cada novo Western. Salvar exactamente o quê? Como é que se salva algo a que constantemente se renuncia? O que é a democracia não praticante? O estado de excepção tornou-se uma norma ou um mistério?
Na realidade, o Sr. T. não tinha uma questão, mas uma família de questões.

Como se...

Hoje o Sr. M. apareceu antes do jantar.
Hoje o Sr. M. apareceu depois do jantar.
Hoje o Sr. M. desapareceu entre o início e o fim do jantar.
Hoje o Sr. M., durante o jantar, estivera fora, como quem vai a outro lado. Nada que não acontecesse muitas vezes ao Sr. M. - de qualquer maneira, não fosse o Sr. M. estar sempre presente nos jantares em que se ausentava, nunca ninguém daria por nada.

Quarta-feira, Dezembro 17

Que crise?

O Sr. T. tinha lido o jornal e comentava consigo mesmo - alguns perceberam finalmente: as multidões que o sistema empurrou para a periferia ameaçam recentralizar-se e radiar enquanto as City se desfazem. Tudo muda, mesmo o fim da história, concluiria. Mas, corrigiu-se, ainda ninguém sabe o que isto quer dizer.

E que ninguém saiba o que isto quer dizer, sendo isto o que, aos olhos de todos, ocorre, eis um novo sinal dos tempos, adiantou então o Sr. T..

No final, nem estaremos em crise, uma vez que todos perderam o dom de a soletrar.

Estela (ou incubos)


Com os círculos de cisnes no lago e com o céu a picar chuva, entro no café. Aqueço as mãos contra o aquecedor e peço uma cerveja. Lá fora cortinas de chuva atrás de cortinas de chuva. A um canto um homem dos seus cinquenta anos prega-se violentos estalos de tanto em tanto tempo, entretanto bebe, depois desata novamente a bater na cara.
Ao fundo uma mulher, muito calada e sem qualquer expressão, usa um barrete até às sobrancelhas e tenta falar com os cisnes através da vidraça. Quando me vê olhá-la, tenta sorrir enquanto retira o barrete e deixa a descoberto a cabeça sem cabelo. Depois começa a inchar e parece um ovo, desse ovo vai romper um caranguejo, ele sabe, adivinha.
Do lado oposto, está a mulher bonita e infeliz, o modo como ampara a cerveja indicia que se prepara para reentrar em casa, não morará longe – aqui não beberá mais do que uma, é certo. Mas não é só ela. Entre as sombras, a todos os meus olhares, aquele jardim revela-se e faz por se me sorrir nos pormenores mais insignificantes. Mesmo o homem que no outro canto se bate violentamente, sorri-me, deferente. É como se me conhecessem intimamente. Como se nunca tivesse saído de casa. Nesse momento, um ser corpulento dirige-se-me pretendendo apertar-me a mão, súbito aparece o meu irmão, então não te lembras do Sr. Carvalho? - O Sr. Carvalho? Com certeza, o Sr. Carvalho e os campos de batata em Nine, tudo vendido aos comboios ao desbarato - e o meu irmão ali a lembrar-mo, e tudo a emergir da névoa. E o meu irmão, querido irmão, já não era vivo.
*
Acordo à chuva, as gaivotas desapareceram e um cisne rasga lenta e solitariamente as águas picadas. Não há ninguém em volta e estou totalmente encharcado. Vejo a luz de um café aberto, entro, aqueço as mãos no aquecedor e peço uma cerveja. A mulher bonita e infeliz passa por mim. Olha-me como se um dia me tivesse avisado, prepara-se para sair, antes de abrir as portas vira-se para trás: - Vê-se que tem um lar. O que faz você aqui homem do diabo? – Perdi-me, consegue acreditar-me? E não sei como sair daqui. – Aqui só se entra, nunca se sai. Se houvesse saída, julga que ainda aqui estaríamos? Olho agora de novo a mulher careca que, com um sorriso nos olhos, tenta mostrar o pequeno caranguejo que desovara aos cisnes através da vidraça e repito para comigo mesmo: ‘se houvesse saída, julga que ainda aqui estaríamos?’, do outro lado, ainda ouço o homem bater-se furiosamente na cabeça. Desato a correr no escuro, fustigado pelo vento e por uma chuva grossa que molha os ossos.
*
No dia seguinte, acordo meio enterrado na lama, encharcado, a poucos metros do café. Com o céu a picar chuva, entro. Pouso as mãos no aquecedor e peço uma cerveja. Ninguém por ali me conhece. Ouço o estampilho do homem que se esbofeteia e, no meio das gentes que se movimentavam à minha volta, ainda vejo o meu irmão, já indistinto, novamente imergindo na névoa. Acariciava o pequeno caranguejo recém-nascido e ainda o ouvi dizer à mulher bonita e infeliz que me voltara os olhos por um último imenso segundo: - Não lamentes, Estela – nunca mais esquecerei o nome da mulher bonita e infeliz – ele ainda está do lado de lá - continuou o meu irmão -, ainda não pode escolher não ter uma saída, só pode sofrê-lo.
- Podê-la-ia pintar, a Estela ...
Os cisnes faziam círculos no lago.

No início era a linha

A diferença é necessariamente exterior – pensou o Sr. T. - por dentro um homem e um coelho assemelham-se ao limite; como carne e músculos se assemelha a carne e músculos. E no entanto, é uma escada apenas esse exterior, talvez um elevador sempre repousado no mesmo sítio – mas nunca o ginásio, nunca o cabeleireiro. Em última acepção, se não há interior o exterior também desaparece (o Sr. N. já o apontara, recordou).

Fica o que há. Este passar e fazer passar a diferença como uma linha, um limite sempre, sempre à superfície. Do nascimento à morte, ida e volta ou volta e ida ou o carvalho (místico dos druidas)!

- Pois, disse de si para si o Sr. T., seja como for.

E lembrou o Sr. Sebastião, o empregado feliz, a repetir sempre que tinha ocasião: ‘O que tem que ser, tem muita força, sim, o que tem que ser, tem muita força’.

Quantas pessoas ostentosamente diferentes ele conhecera? Muitas, ainda assim. Uma menor humildade, atreveria lisonjear-se com isto, ele, sem auto-juízo, tinha apenas histórias para contar com picos e vales, vivos e alguns mortos precoces.

A diferença, acrescentou o Sr. T., é a qualidade de uma superfície. O que dela foi ser-se e o que dela será contado. A diferença é só uma história como as outras. Mesmo se, como a raiz e o juízo na antiga tragédia, é a história mais velha do mundo - talvez só a par do destino.

Segunda-feira, Dezembro 15

Jogos e famílias de jogos

Olha para ti sem tempo e sem lugar, homenzinho, que te
estudaste nos passos tantos e nos terrenos acidentados do tempo
Só quem assume que um jogo é um jogo, diz o Sr. T., pode colocar-se no jogo do outro e, sobretudo, fora do jogo - das regras, antes de tudo, da boa vizinhança e da contenção. Ora, poder ver-se fora de jogo é poder assistir gratuitamente a pelo menos um jogo. Logo, à natural gratuitidade do mundo.
Hoje, a eficiência tecnocrata campeia em todos os campos em jogo, o jogo tornou-se inacessível, dispendioso, selectivo. Não há como sair do seu jugo, deixar de construir a sua prisão. O lugar do outro tornou-se o do adversário natural e estar fora de jogo é o desterro da inexistência, súbito aparado por uma eutanásia. Não há saída, diz-se.
E quando não há saída quase todos aplaudem e gabam a determinação como uma das fatalidades. Olhos fixos, não olham os caminhos tomados. E no entanto, acrescentou o Sr. T., só quem assume que um jogo é um jogo, pode colocar-se no jogo do outro e, sobretudo, fora do jogo. E isto, saber pôr-se em fora de jogo, é o que de melhor se pode ensinar a uma criança. Ou era.
Entramos num tempo, reconhece o Sr. T., em que não é dado às crianças o tempo do labirinto do tempo. Não, criancinhas, acabou-se o que era doce. Agora, não há saída. Eis-vos entregues à authenticated fast food education e aos Networking and Communication Specialists, ao inglês técnico. O Sr. T. lamenta.

Sábado, Dezembro 13

Qua absurdo


O Sr. T. ouvia falar da crise, do desemprego, do fosso crescente ente os ricos e pobres, entre a escola pública e a escola meritocrática e sorria. Não por malícia, certamente.
O Sr. T., simplesmente, não arranjava maneira de perceber o que não percebia. E o Sr. T. percebia a troca, alcançava inclusive apreender a troca de acordo com critérios de valor relativos. Mas aqui parava a sua compreensão. O grande jogo tornara-se-lhe inumano.
E quando o Sr. T. ouvia falar da crise, do desemprego, do fosso crescente ente os ricos e os pobres, entre a escola pública e a escola meritocrática, e sorria, sorria apenas da inconsequente pobreza dos pobres - da sua absurda crença no jogo.

Quinta-feira, Dezembro 11

Dª Efigénia morreu

A D.ª Efigénia fora duas vezes ao mercado no dia anterior, nada que a apoquentasse, apenas o frio; mas o frio não impedira a felicidade. Durante anos o pequeno Eduardinho fora a sua companhia, mas depois crescera. Sobretudo, desde aquelas férias em que o pai o fizera presenciar a morte de um cavalo que partira as pernas dianteiras.
Da segunda vez que teve que regressar ao mercado, já passava das quatro. Dª. Efigénia nunca fora ao mercado por aquelas horas do meio da tarde. Era outro mercado, e já não gostou tanto dos pimentos, para não falar dos melões e da salsa. Mas ir ao mercado, para a D.ª Efigénia, era uma parte elementar da vida. Viera das serranias de Baião, com apenas 14 anos, para ser criada e educada na grande casa, naquela altura ainda proeminente, sobranceira à grande cidade.Morta a grande casa com a morte da Senhora, passara para a casa pequena da neta, um andar amplo de dois pisos a três quarteirões, onde há alguns anos mais não havia que descampados.
No dia seguinte, D.ª Efigénia foi duas vezes ao hospital. Uma nevrite tolhera-lhe o tronco, sobretudo o lado direito ao longo das costelas. Até respirar lhe doía. Depois, nem tossir o lastro dos cigarrinhos, algo verdadeiramente aflitivo. Quando finalmente conseguia, parecia consentir na deflagração das costelas e assistir ao milagre da sua inversa concreção. Outra pessoa, que não D.ª Efigénia, um astrofísico, por exemplo, talvez pudesse dizer: de cada vez que tusso, dou lugar a um Big Bang. Com D.ª Efigénia as coisas são forçosamente diferentes.Da primeira vez, por volta das 14.45, D.ª Efigénia fora observada, puseram-lhe um comprimido debaixo da língua, entubaram-lhe o soro no braço direito, receitaram-lhe quatro remédios e, três horas depois, recambiaram-na a casa sua. Da segunda, antes ainda das 6.00 da manhã, D.ª Efigénia acorda como se lhe tivessem ensartado um pau ao longo de todo o lado direito. Dá de novo entrada no hospital, é observada, põe-lhe um comprimido debaixo da língua, uma injecção em cada nádega e receitam-lhe apenas três remédios, um dos quais coincide com o receituário do dia anterior, e recambiavam-na a casa sua. Depois de esperar quase duas horas pela mudança de turno na Urgência do St. António, D.ª Efigénia está agora também constipada. Gostava de mercados, D.ª Efigénia, ao contrário do desinteresse inestético pelos hospitais, onde ninguém tem pressa, nem mesmo os doentes. Mas era tão certo como hoje estar a chover que amanhã regressaria ao hospital – e essa certeza, não menos do que as dores, não a deixava adormecer. Amanhã, ir-lhe-iam certamente dizer para não andar ao frio; D.ª Efigénia há que poupar nos cigarritos ao frio - pois, e enfiar-lhe mais dois ou três produtos farmacêuticos, calcinhas cor da pele em baixo, uns comprimidos debaixo da língua, e tornar a mandá-la para casa com atestado médico e a obrigação moral de não fazer nem gestos bruscos nem gestos que lhe sejam pesados por uma semana.
- Atestado médico - era uma coisa bonita, pensou D.ª Efigénia. Mas ela ganhava à hora como empregada e não podia atestar a sua ineficiência de gesto - ela não era senão o seu poder de gesto, o gesto, inclusive, de introduzir os Martin, que amanhã vinham cear lá casa.
Quatro dias apenas, e soube que estava despedida com carta de recomendação enaltecedora, ela que só faltara dois dias aquando da morte de sua mãe, em 8 anos, desde que a velha senhora morrera. Mas, para além do Eduardo, já com 16 anos, havia três filhos pequenos e dois empregos carecendo da exacta pontualidade e eficiência, anteriormente reconhecidas a D.ª Efigénia, mas agora algo incompatível com a nevrite. É claro que D.ª Efigénia compreendia, não é verdade?
Passada uma semana, D.ª Efigénia, estava praticamente boa e estava pela primeira vez, aos 58 anos, sem emprego e sem ninguém. Nessas semanas, a sua cara tinha crescido desmesuradamente à medida que o corpo tolhera. Agora, D.ª Efigénia apercebia-se - entrara na última fase e estava completamente livre ou completamente morta.
Naquele momento, o Honda negro dobra desabridamente a curva, parece perder o controle e, ziguezagueando, sobe o passeio, enfaixando D.ª Efigénia contra o azul do edifício.
A porta do carro não fez barulho ao abrir. D.ª Efigénia ainda está consciente, olha o condutor que se aproxima como num filme mudo.
- Eduardinho…
O vulto abraça-a e segura-lhe a cabeça até que morra. - Não chores, Efigénia. Não chores.

Quarta-feira, Dezembro 10

Entre os homens

‘Entre os homens, na maioria dos casos, a inactividade significa torpor, e a actividade, loucura’ – disse Epicuro. Anacreonte, pousou o livro. Irónico, deliciava-se com a minoria dos casos imagináveis.

(in) puritas cordis

Puritas cordis. Amar tudo de todo o coração é ver a beleza em tudo. É, certamente, olhar o mundo com caridade, mas uma caridade que se preenche de número, de exempla, de mundo. Aqui, o santo é o grande esteta, o homem da solenidade de um céu de estrelas, o santo de um jardim de rosas en Assis – o corpo que se afasta no sublime de um acontecer intempestivo, gratulando a beleza, mas comportando-a, interiormente, na certeza da sua maioridade psíquica.

Hoje, o oposto de santo tem o nome de engenheiro, exactamente como a Narciso cabe um olho caridoso e a Pigmalião a mão que transforma o mármore em realidade.

Diz o Sr. W., ‘o ético e o estético são um’. É o mundo de Narciso maravilhado. Mas é Pigmalião quem dá forma às sombras de Proteu - Pigmalião, o fazedor de hábitos.

Segunda-feira, Dezembro 8

Milagre a milagre

A minha filha tem uma doença irremediável. Sei o que isto quer dizer, por isso digo irremediável, mas também sei que eu de momento não tenho nenhuma doença irremediável.
Na minha filha a doença operou uma espécie de iluminação mística. Centrou-se em si própria e rodeou-se de exclamações, chamadas de atenção à beleza do mundo. Eu vou acompanhando-a e começo a perceber que as frases que repete em voz alta ou que lentamente soletra em sms aos amigos, consentem-lhe a confiança - uma necessidade de se isentar da derrota física e moral. Mas eu não sou o seu ursinho de peluche, o boneco que crucificado vai sempre de milagre em milagre e de beijo em beijo, e estou a pensar fugir de casa.
Eu não me queixo. Por norma não me queixo. A pequenina não tem qualquer culpa. Mas por vezes penso, como seria a minha filha se habitasse um daqueles edifícios em que cada sombra no portão é uma esperança e um medo ou já nem isso.
Se entrasse em montra subitamente, num asilo de adopção, como seria a minha filha? Reconheceria ela que não tem tempo para a minha saúde, que a sua iluminada declinação conflitua com a minha imortal vivacidade? Que eu quero fugir de casa – que um dia eu vou fugir de casa e voltar a pintar as unhas? Compreenderia ela?

Domingo, Dezembro 7

O Sr. T. tem uma pequena balança


Um homem caminha na sua direcção, nota o Sr. T., traz uma capa vermelha presa abaixo do pescoço. É uma questão de tempo até passar por ele, por alguém, um referente, e prosseguir num passo esforçado de Super-herói, afundando-se naquele estranho outro sentido, diferente do seu. O Sr. T. acompanha ainda a sua marcha difícil, mais por ouvido. Nunca saberemos quem é, e o que faz este homem, não interessa realmente.
Mais um passo pesado, demasiado aplicado ao caminho, pesa o Sr. T. na sua pequena balança. O Sr. T. colecciona apenas os passos leves e curtos, passos de quem perde os olhos pelos caminhos - como quem colecciona cotos de lápis de várias cores, já sem préstimo.

Da necessidade dos Super-heróis


Há seres humanos que se tornam cedo protagonistas, que têm sede de protagonismo. Como uma humana tendência para o fomento. Passam por nós, e acompanhando a sua marcha assanhada, vemos o que eles perseguem – o antigo ‘sonho americano’ extravasado ao mais pequenino locus poético-geográfico da morte. Uma mulher, sempre foi a melhor metáfora contra a morte. Mas o Super-herói não deseja Doris Lane, o seu próprio mito é a sua defesa. Já contra o amor, o absurdo anonimato de onde volta a olhar a sua própria morte, a sua prescindibilidade; já contra a triste verdade humana - a ausência de Super-heróis a qualquer tempo integral.

Sábado, Dezembro 6

Sobre a infelicidade


Nunca saberemos, no que se escreveu sobre a felicidade, onde uma servidão real tratou de repicar sobre pelo menos uma sensação rainha.

Onde se trata da arte...


- Tio Anacreonte, posso ler-te uma coisa?
- Claro, Sextus, e do que se trata?
- De arte.
- Ah.
- ‘A arte é uma coisa que se faz com o corpo. Há artes muito diferentes. Se não existisse a arte também não existiam casas, viveríamos na rua. Não, porque nem existiriam ruas, não teríamos sítio nenhum. Basicamente, sem arte não existia nada. Porque, sem arte, não se faz nada.’

- Foste tu que escreveste? - Sim, Tio.
- E onde porias tu a diferença entre a arte e a técnica? Tudo o que aí dizes pode ser quase ipsis verbis aplicado à técnica.
- Sim, Tio, mas as técnicas são do domínio dos meios.
- ...queres dizer que antes das técnicas está sempre uma arte que liga princípios e fins?
- … e que as técnicas são cultivadas para a reprodução, uma ponte representará sempre o momento inicial da noção de ponte, jamais se transformará num rio. Sem arte não haveria produção; com arte não há apenas reprodução, não é assim, Tio?
- Passaste para que ano, Sextus? - perguntou Anacreonte entusiasmado com o sobrinho.
- Estou no sexto ano.
- Acho que pode ser assim, Sextus. Mas, então, parece-me que não está terminado, pois não?

Sexta-feira, Dezembro 5

Uma cerveja no Inverno

Caras à janela empoleiradas no cimo dos prédios. Ruas cheias de faróis rasgados de chuva. Um velho cospe lá de cima. O Sr. B. odiava os almoços ampliados – almoços com pessoas entremeadas na sua hora de almoço. No café, a televisão passa o fim da manhã com outras cores e menos cinza. O Sr. B. compra uma sanduíche, preenche-a a salada e molhos de pasta, exagera no molho de azeite e alho, uma cerveja e sai. O Inverno é deferente na televisão. Fora, é o velho inverno.
O Sr. B. levanta os olhos, algumas caras permanecem, quase ilegíveis, engalfinhadas às paredes, olhando de soslaio, protegendo-se da chuva. Nesse instante a mão do Sr. B. estrebucha, repentinamente molhada. O velho que cuspira lá de cima, por um revés, acertara a sua cerveja.

O Sr. B. pensou duas vezes se ia trabalhar de tarde, depois foi.
Mas não sem beber duas ao balcão.

O lavagante e a Morte Branca


- O lavagante… - começou e interrompeu-se e parou - pousara o copo avermelhado das uvas sobre o Anjo Ancorado e riu do seu próprio gesto.
- Não... - virou-se-me com os lábios cheios de uva - é como com Walser, arrastou a língua. Não há duas versões de um conto de fadas, há dois contos, há duas fadas, há duas narrativas e um irreal provecto, um irreal que faz a comparabilidade do real. A ética nasce com a arte ou, sendo-se um pouco preciso, a arte é a cesariana da ética.
O fim da tarde apertava, e no espartilho obscuro da noite aquela mão branca abria a porta e escurecia para sempre.

Quarta-feira, Dezembro 3

Sair para comprar tabaco e trazer consigo um coelho a mais

Chove. O Sr. T. de samarra escura bem apertada submete-se ao manto de chuva o mais dobrado sobre si que pode, como um gato preto.
O café, a meros seiscentos metros, é a demasiada chuva de distância. E, no entanto, nem, antigo, o mar vermelho o travaria. O meio do dia ainda não soou e ele já está sem tabaco há quase uma hora.
Ora, acabara a samarra do Sr. T. de tomar aquela difícil forma de quasi-esquadro-quasi-rompendo-as-bátegas quando todo aquele trabalho, súbito, era detido por uma voz, abrigada à direita sob um alpendre, que o obrigara a pôr o nariz de fora e, acompanhando-o, um par de olhos semicerrados.
- Bom dia – disse o coelho.
- Bom dia – disse o sr. T. e persistiu tentando rasgar, tesourada a tesourada, aquele imenso manto de chuva. De repente estancou, olhou para traz e disse: - … como quem diz!, e continuou.
O Coelho sorriu e repetiu, ‘como quem diz!’.
Mas o Sr. T. já voltara à carapaça. ‘Um bom dia’, foi repetindo o Sr. T.; e depois, ‘como quem diz’. Como quem diz o quê?, parou o Sr. T.. Como quem diz bom dia, naturalmente, quando, naturalmente, não está um bom dia. Como quem fala por falar. Em suma, como quem fala, como quem diz alguma coisa em vez de passar calado. A tagarelice num sentido bem humano - concluiu o Sr. T. - era o princípio da cortesia.
-Bom dia, Coelho – disse o Sr. T. já de regresso, agora em pose mais retesada do que a anteriormente ensaiada, essa decididamente mais aerodinâmica.
- Como quem diz! – sorriu o Coelho e repetiu: - Como quem diz!

Falar é uma relação de cortesia que temos com o mundo, sem que daqui se possa de modo algum inferir qualquer eventual cortesia do mundo para com o homem - pensou o Sr.T..
E no entanto, aquele fora certamente um coelho cortês.

Segunda-feira, Dezembro 1

Escrever

Um dia perguntaram ao Sr. T., porque raio escrevia ele. E ele respondeu, eu não escrevo.

Retratos do Sr. T.


A figura do Sr. T. assustava pela secura, como a aridez de certas praias assusta no Inverno, mesmo com chapéu.
Havia ali um abismo onde, em perigo de vida, o crente chegava a abraçar o céptico, para depois o empurrar. Depois, havia ainda o duro transmontano, o intemporal já muitas costelas após, e também o pernóstico, o mundano e, quem sabe - talvez o habitante de Torres aLx fosse ainda um outro, alguém atarantado entre as páginas de um livro que não lhe fora dado escrever.
O conjunto destes traços faz o rosto atroz, ilógico, do Sr. T.. Talvez, no fundo, se trate apenas de um homem frio, uma espécie de mamute congelado num Iceberg. Ou, sugerem outros, um esguicho de lava, pouco moldada abaixo do chapéu. Um padre desencamisado, dizem. Talvez apenas, dizem uns poucos bem-aventurados, um pirralho, uns calções inflamando uma a uma as relíquias de um velho camarim.

– Uma série de opiniões - segredava-me o Sr. T. - apenas opiniões, e o que são opiniões?