Sábado, Março 28

O poço

Ao Sr. W., por imprevisíveis peutetres acidentais, um poço o engolia, logo depois o balde abria-lhe a testa e uma inopinada água, despontando sabe deus de onde, ameaçava submergi-lo. Tudo isto, ocorria no repentino em que o Sr. W. saía do Mosteiro de S. Bento da Vitória, depois de assistir à transformação pública de homens em personagens de fingimento. Os homens, agora possuídos, deixavam de ser quem eram e regressavam e logo eram dominados e os seus gestos e os seus olhos, e a sua voz. O Sr. W. pôde imaginar que não regressariam nunca, que estariam doravante sempre descentrados - em algum lado felizes, noutro desgraçados, desde aquele dia. Que de cada vez regressariam menos, que com o tempo um momento surgiria em que não ressurgiriam de todo. E sentiu que algures, bem atrás, perdera algo, muito antes do poço, e algo importante, algo que lhe teria permitido não ser ele – neste momento, por exemplo, ali, à porta de S. Bento da Vitória, metido no escuro húmido daquele poço. Talvez que esses seres desconformes lhe pudessem ter ensinado a felicidade na compartimentação da alma: o to be e o not to be, o terceiro incluído, algo fisicamente tão próximo, tão duradoiro no efeito, como as paredes do poço.
Mas para o Sr. W. e para a sua mosca, metidos no negro daquele poço, à porta de S. Bento da Vitória, já não havia saída; organizavam o poço há demasiado tempo.