
-Tio.
- Sim, Sextus.
Escusado será dizer que Sextus era o seu sobrinho. Não que não os amasse a todos, apenas que Sextus, por alguma estranha razão que escaparia a ambos, era o seu parceiro.
- Porque é que falamos, tio?
- Excelente pergunta, Sextus!
- O tio diz isso quando não tem resposta!
- E mais uma vez não tenho, Sextus. Experimentemos, queres?
- Quer isso dizer o quê?
- Que, por exemplo, podemos falar por excesso ou por defeito.
- …
- Repara que podes partir da ideia do homem como um certo tipo de ser imperfeito, mas assaz maleável, incompleto se quiseres, ou do homem como o ser perfeito por excelência, por isso lógico-gramatical. Assim, de onde partires, onde indefinivelmente acabarás por chegar.
- Se perfeito, há um excesso que o diferencia, é isso? Se imperfeito, um défice, algo que é preciso ultrapassar.
- Exacto. Ou, se quiseres, de um lado o discurso como dom, do outro, o discurso como carência.
- Não temos a terceira hipótese?
- …
- O homem como mais um ser, um entre os outros, apenas tão estranho como o girassol, o morcego ou a bactéria.
- Já te disse o quanto cresceste nestes últimos anos?
- Já Tio. Mas não me respondeu.
- Estávamos a experimentar respostas, lembras-te?
- Sim.
- Ok. Alguém, um certo W., umas décadas atrás, disse que se os leões falassem nunca teríamos modo de o saber – percebes agora aonde podemos chegar?
- … e um gato surdo não mia – sei-o de experiência. Faz ruídos estranhíssimos, tio.
- Já temos muito para pensar, não Sextus? Trazes-me mais uma cerveja do frigorífico?
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