Quarta-feira, Abril 15

Ele - parte I


- Eu próprio, até aos vinte anos… – falava, absolutamente sozinho. Estava frio e ele fixara as labaredas aspiradas pelo vento. Tinha o ar de quem acabava de aclarar, mesmo se unicamente para si mesmo, alguma preciosidade que, forçosamente, me escaparia. Tosse, uma tosse compulsiva que o faz dobrar repetidas vezes, depois funga aparatosamente e cospe no lenço que dobra com cuidado.
Vejo-lhe os olhos, estão consumidos, obstinados, fixos no ardor do fogo. Eu não estou entre os seus problemas imediatos. De qualquer maneira, não é a mim que dedica o pensamento. Um cêntimo pelo teu pensamento, penso. Mas logo te deténs. Já não há confidência alguma, apenas o silêncio e o estralejar da madeira. Tentas apartar o cheiro intenso do louro do odor das glicínias, situá-los. Se tudo tivesse um lugar próprio as coisas eram mais simples. Não sabes porquê, lembras-te do faiscar afiado e breve dos trolleys… dos esgotos meio esventrados, da altura de um fedelho, na fábrica abandonada… de ti, sempre à minha frente, a pular o trolley, a transpor a mais sombria galeria. Hoje tens a idade que o pai sempre teve e estiveste numa guerra que fez dos loucos homens ainda mais loucos e já nada resta dessa ingenuidade, de resto, posso sabê-lo, perfeitamente ilusória.
- Até essa idade eu era o irmão mais novo.
O irmão mais novo, dez anos mais novo, o irmão que desertou, que, a salto, rasgou aquela linha que o puxaria até Paris. O teu irmão, deu todos os livros começando pelos que em muito mais jovem o coloriam do encardido revolucionário. O teu irmão! Hoje, o senhor teu irmão, de terras e gentes mui abastado, até tem, anexo, um T1 + 1 para as visitas. Que previdente se te revela agora o teu irmão; que seria de ti, sem este irmão que deprecias? Mas tu não sabes agradecer-me, na verdade não podes.
- Estás aí, cabeça de piça? – viras-te na minha direcção. Vais tossir. Tosses outra vez e levas a mão ao peito, estás mesmo mal.
- Falavas – saiu-me, contrafeito.
- Por vezes falo.
Mais ninguém me chama cabeça de piça. Só ele. Está bem que vira demasiados homens e vira demasiadas feras e o fizera pelos dois. Está bem que vira cobardes e avistara bestas. Vira o sangue, quando jorra quente e errático. Não o invejavas, não tinhas esse direito, mas admitias-te em falta. Que viras tu que se lhe comparasse? Ao pé dele, admite, não tens verdadeiras recordações. Admites tudo, tanta coisa. Que mais quer ele? Que porra queres tu de mim?
- Falavas...
E tu fechas-te e deixas-me a falar sozinho, sempre comigo mesmo. Pões o tronco e olhas ainda as chamas, os braços enlouquecidos lançados num alarme. Pegas no copo, leva-lo à boca, puxas o último cigarro, tosses. Não dizes palavra, mas olhas-me, fixas-me, assim sem dizeres palavra. Pensa bem, que conversa podiam vocês ter? Se nunca de ti saem senão palavras! Talvez que te auxiliem elas agora no longo monólogo a que estás sentenciado – certamente mais do que o menosprezo polido que lhe lês nos olhos e que ele julga dissimular. Envelheceu como o pai. É o retrato do pai em mais magro. Os mesmos olhos tremendamente orgulhosos.
- Sei que me censuras – digo-lhe e fico-me, observo-o, o seu rosto a sobrelevar-se no que não é ainda espanto mas vai ser. Não vem todo de uma vez, o espanto; primeiro há uma tensão, um quase recuar, a face ainda hirta, e só depois o desenho do espanto se apodera de todos os traços do rosto, genuíno, legítimo.
- Censurar-te? Só podes ter endoidecido, porque diabo devia eu censurar-te? O preço que pago pelo anexo é generoso. O apartamento é porreirinho, há lugar suficiente para receber, um luxo que nunca poderia pagar pelo preço de um quarto, não lá fora.
- Não se trata do anexo. De que é que falavas?
- De nada, pensava alto. Acontece-me, por vezes.
Censuras-me por ser quem sou, por viver como vivo. Por… – Podias acrescentar uma colecção de razões. Ser o preferido do pai e da madrasta? Por sair ao pai enquanto tu – sempre achaste que só te acontecera a ti – perdias uma mãe? Mas, por algum motivo, não o fizeste. Dizeres-lhe que sabias que te censurava era suficiente. São sempre inúmeras as razões por que se pode ser censurado, uma vez nos desaprovem. E enquanto o examinavas, sabias exactamente o que se lhe afigurava condenável em ti, uma vez que era o que tu tinhas por condenável e só isso; e só a isso e a nada mais do que isso poderia ele atender.
- Falavas dos teus vinte anos. Eu disse-te que por essa idade eu era o irmão mais novo.