
- Disseste? É bem verdade que as coisas então eram bastante mais simples. Se calhar é por isso, por seres talvez mais novo, que me encaras como se sempre na calha estivesse já a minha parte de reprovação e censura.
- Fizeste a guerra, fizeste uma revolução, escreveste, não merecias mendigar um anexo.
- É isso que te atormenta, cabeça de piça? Repara, eu não mendiguei nada. Tu chamaste-me, querias pôr-me a ver Paris, a percorrer as pontes sobre o Sena, querias que ocupasse o apartamento, que continuasse a escrever, dizias que a tua mulher estimava os meus livros, falavas-me das glicínias. Demorei a decidir-me, na minha idade as decisões têm o peso do irrevogável e qualquer uma pode ser a última. Dei tratos à bola, mas vim e estou satisfeito. É claro, ainda não fiz todas as pontes sobre o Sena e o mais provável é que nunca as venha a fazer. Mas o anexo é um luxo e o pior é que estou a habituar-me a este luxo. Mas tu não estás satisfeito, cabeça de piça, e, pior, confrontas-me com uma sombra reprovadora, algo que eu acariciaria em segredo, por ter feito a guerra dizes, por ter feito a revolução, por escrever, acrescentas. Realmente, essas são algumas das coisas que me caracterizam. Outra é uma certa maneira de olhar para ti à procura do irmão mais novo que já não tenho a certeza que sejas. É verdade, censurei-te amiúde. Aquando da morte do pai, por exemplo, cheguei a perguntar-me de que obscuro ramo brotara tanta estupidez e má fé, tanta leviandade e hasteada com tanto sucesso. Acusavas-me de ter ficado com os teus livros, quando os deixaras em minha casa porque, dizias na altura, não te diziam nada, isso e outras pequenas coisas, ‘o resto da tralha’. Livros revolucionários essencialmente, luta de classes, a maior parte em francês, lembro dois ou três do Daniel Guérin, e umas tantas peças de louça e congéneres, que deixaras para trás, tudo de pouco valor e ainda assim torrado na penhora, depois da morte da Lucília. Isso e muito mais. Mas foi há já muito tempo, cabeça de piça, não achas que foi há já muito tempo? Agora não, porque raio te censuraria eu? O que são a guerra, as revoluções e todos os livros? Fúria e rancor, estupor e medo e para nada. O inumano, isto é, em absoluto nada que possa interessar o homem. Acabou de dizer isto e os olhos ficaram-lhe mudos, sem uma cintila.
- Eu era o irmão mais novo.
- Nova era a circunstância e a cada um cabia dar um passo, apenas o primeiro, um passo solitário e irreversível na direcção desconhecida. Todos os passos, creio, foram diferentes. No meu caso, tudo o que fiz, tive que o fazer, habituei-me a essa ideia. Coisas que ocorreram, que teriam de ocorrer, estando eu onde estava e aí estando porque tinha que estar.
- Durante todo esse tempo, não estive atrás de ti.
- Estavas onde tinhas de estar. Eu, pela minha parte, sempre estive onde havia que estar e nunca me perguntei o que acharias disso. Parou. Há pouco tempo atrás julgaria nunca vir a dizer nada como isto. Quantos, com ideais muito mais austeros do que os dele, jamais ousaram pôr pelas costas o terror a que outros, seus irmãos e amigos, se entregavam. Águas passadas, pensou. Posto isto, vindo de muito longe, pôs-se a olhar-me como se procurasse um apoio, um estímulo para prosseguir.
- Pergunto-te agora, pretendes que me vá embora, isso sossegar-te-ia, é isso?
- Nova era a circunstância e a cada um cabia dar um passo, apenas o primeiro, um passo solitário e irreversível na direcção desconhecida. Todos os passos, creio, foram diferentes. No meu caso, tudo o que fiz, tive que o fazer, habituei-me a essa ideia. Coisas que ocorreram, que teriam de ocorrer, estando eu onde estava e aí estando porque tinha que estar.
- Durante todo esse tempo, não estive atrás de ti.
- Estavas onde tinhas de estar. Eu, pela minha parte, sempre estive onde havia que estar e nunca me perguntei o que acharias disso. Parou. Há pouco tempo atrás julgaria nunca vir a dizer nada como isto. Quantos, com ideais muito mais austeros do que os dele, jamais ousaram pôr pelas costas o terror a que outros, seus irmãos e amigos, se entregavam. Águas passadas, pensou. Posto isto, vindo de muito longe, pôs-se a olhar-me como se procurasse um apoio, um estímulo para prosseguir.
- Pergunto-te agora, pretendes que me vá embora, isso sossegar-te-ia, é isso?
- Estive hoje com o teu médico.
- E então?
- Fica. Temos muito que falar. Digamos que desta não temos como fugir a falar. Tens um cancro muito feio no pulmão, o médico contou-me; parece que estás por pouco, meu velho. Desta vez não podes simplesmente ir embora, ninguém vai embora da morte. Tens alguma coisa mais forte do que cerveja?
- Serve-te – apontou-me o compartimento junto à cozinha –, tens aí gelo no teu frigorífico. Tens um cigarro?
- E então?
- Fica. Temos muito que falar. Digamos que desta não temos como fugir a falar. Tens um cancro muito feio no pulmão, o médico contou-me; parece que estás por pouco, meu velho. Desta vez não podes simplesmente ir embora, ninguém vai embora da morte. Tens alguma coisa mais forte do que cerveja?
- Serve-te – apontou-me o compartimento junto à cozinha –, tens aí gelo no teu frigorífico. Tens um cigarro?
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