Domingo, Abril 19

Variação um: Os gatos voltam sempre


– Sabes qual é o teu problema? - Ele sabia de vários e tão indistintos como inconstantes, mas pelo sim pelo não preveniu-se para mais um, talvez que este fosse de todo diferente, talvez que este fosse o verdadeiro problema, o problema que havia que resolver para continuar a viver. - O teu problema é que tu não gostas dos outros, esse é o teu problema, e o pior, é que nem de ti mesmo consegues gostar, que vives zangado com o mundo, que não quero o António a crescer assim. O seu problema, em suma, era o problema que António poderia vir a ter. Não era a primeira vez que lho ouvia, desta vez, porém, a sua voz soava-lhe diferente, diferente ao ponto de a não entender cabalmente, de não perceber, pelo menos de início, o que lhe queria ela dizer com aquelas exactas palavras.
Subitamente, tudo ficava claro. Era o fim do capítulo e a ela coubera fechá-lo. Simples pretextos, percebia-o agora, nada mais que pretextos para atalhar o capítulo - de modo nenhum, como ela lhe parecia exigir, para que tudo recomeçasse outra vez pleno, outra vez cheio de intenção. Mas demorou a percebê-lo. – Que queres de mim, Maria Jorge?
– Que quero eu? Deixar de ser necessária, acordar, um dia que seja, como impossível. Consegues perceber isto?
– Mas, eu amo-te Maria Jorge, não me tires a única certeza que tenho – disse-lhe ele, sabendo embora que estava a ser hipócrita e que já nem palavras como essas que agora lhe saíam o poderiam alguma vez salvar. No íntimo, sabia que já nada o poderia salvar. Que nunca, tendo-a por necessária, ela voltaria a ser-lhe impraticável.
– Diz-me como, como podia eu voltar a tê-la por impossível? - A espaços, enquanto distraidamente afagava o gato, pareceu-me que ainda a olhava, como se lhes procurasse uma saída, um rasgão na vida que os devolvesse ilesos, incólumes - que lhes assegurasse um seguimento mínimo. Como te enganavas! Se, e tu sabia-lo, ela nunca aceitaria um seguimento mínimo. Se ela já tudo tinha decidido, e tu ficavas, desta vez tu ficavas, o que só por si complicava as perspectivas, se era ela quem estava em casa da mãe, ela e o António, na casa da avó. Se, por uma vez, não lhe notavas qualquer agitação na voz.
- Não, não me amas! – era extraordinário, dito naquela voz longínqua que se afastava para o afirmar e logo depois dele se aproximava, já segredando: – Aclimatamo-nos, preocupamo-nos, mas é isso, e é só. Então, o que queria ela dele?
– Quero saber se ainda te amo, disse-lhe ela. Não podes saber o que ela quer dizer com isto, todos sabemos como é difícil o amor; mas podes perceber que ela, nesse momento, nunca mais voltará. Há que esperar o momento feliz, pensas e quedas-te, algo aturdido; depois os olhos ficam-te duros como o vidro, como se algo dentro de ti, fracturado, expirasse lenta mas inexoravelmente e nada pudesses fazer. Ela confirmava-to, cara a cara; que algo se fracturou, que algo está morto, morto até prova em contrário, e, toda a gente sabe, o mais difícil é decidir o primeiro passo, que só esse é ainda nosso, que depois se lhe segue um ritmo, que já não há outros passos.
- O que farias por mim? Como vais fazer com que volte para ti? Um mal entendido, pensas tu, não vais fazer nada, és como és, de certa maneira como sempre foste, que poderias tu fazer? Da noite para o dia, a transfiguração não acontece - nem acontece sempre, mesmo com o tempo todo. - Quero saber se ainda te amo, foi o que ela lhe disse. Que ele não gostava nem mesmo de si próprio - também se lembrava desta parte. Parte essencial dos seus problemas, este do inesperado desamor próprio, uma vez que nele se decidia o mal entendido: ela, Maria Jorge, jamais o poderia amar, comprovado que estava que nem mesmo ele conseguia amar-se. Digo mal entendido? Não devia dizê-lo. Não há, na verdade, qualquer mal entendido, apenas a erosão simples. Ele teria que ter mudado - mudado desde que ela primeiro o amara e mudado apenas por amor dela o que, para Maria Jorge, resumia-se a mudar tão somente por amor da mudança. Coisa inexprimível, todavia verdadeira! Ele, que nunca pusera as coisas em tais termos, continuou a não as pôr.
Do seu ponto de vista, ele era quem sempre fora e não havia como mudar alguém que era como sempre fora. Maria Jorge conhecera-o assim, ela dele assim se apaixonara, mas agora não, agora queria perceber se ainda o amava. Já não o amava, era tudo. - Que mais queria ela dele? - Que não era fácil viver com ele? - Mas é fácil, alguma vez foi fácil, viver com os outros? Perguntavas-te. E todavia, Maria Jorge ia conseguindo viver com ele – o peso da memória ainda reparava as lamúrias, as neuras, os hábitos de rapaz que ela pensara que desapareceriam com o tempo e que não desapareceram e que ele, pela sua parte, de todo iria repudiar. Conseguia, porém, viver melhor sem ele, desde que a tal se tinha decidido. - Já não me ama, é tudo. Era tudo, e no entanto transbordava.
É claro que tudo isto não saltara do pé para a mão, e se não causas havia-as boas as razões, mesmo se e para o caso não era importante. Interessa apenas dizer que ela tinha as suas, não menos fiáveis do que as dele, talvez mais sofridas, certamente mais trágicas no seu capital equívoco, entre a realidade e o desejo.
– Porque já não pintas tu? - perguntava-lhe ela mais uma vez. Porque já não ouvisse talvez o convidar da tela, o apelo fresco dos pigmentos, o odor dos óleos essenciais, pensou. Mas nem isso era verdade, quem, no tempo das instalações, do multimédia, ainda pintava? E porque lhe perguntava ela isso, a ele? Porquê sempre nesses momentos em que a vida amargava mais, como se estivesse ele constrangido a pintar apenas porque assim a ela lhe agradasse, e, parando ele de o fazer, tudo, a começar por eles, ameaçasse o desmoronamento? Interessará também dizer que ela tinha vinte anos de boas razões - haviam casado há precisamente vinte anos, no dia 18 de Abril, e há mais de quinze anos que ele não pintava nada, que sequer desenhava, sequer como entretenimento, por exemplo, ao telefone. Há quinze anos! - pensou ela. Mas desta vez tu ficavas em casa e era Maria Jorge quem saía, que tudo era novo a este ponto. Que tudo era tão novo e estranho.
- Zangado com o mundo? Talvez, a realidade não é a vida, não é o mesmo, todos sabemos isso, não é verdade? Achas-me tu uma má influência no António?
– Porque é que não te aplicas a escrever tu o próximo capítulo? – pergunto-lhe, à laia de fuga a uma resposta mais precisa. - Porquê? Porque o gajo que tu e a Maria Jorge conhecem não escreve, nunca escreveu e não passará a escrever só porque alguma coisa aconteceu; as coisas à nossa volta estão sempre a acontecer. Fosse como fosse, mesmo se por azougadas linhas, tudo estava de antemão decidido. Ele nunca imitaria o amante ferido de um grande amor, nem mesmo no modo da ironia, ela devia sabê-lo, conhecia-o demasiado bem, sabia que não era assim que ele amava. Maria Jorge, por seu lado, não voltaria, a menos que de novo apaixonada como no primeiro momento, conquistada por um homem que, forçosamente, já não seria ele. Poderia, algures, haver de novo um momento feliz, um momento realmente novo naquela sua relação com Maria Jorge? Sabia que não era provável, que o mais certo era em pouco tempo qualquer relação estar mais defunta do que os próprios mortos, a menos que um dia reacendesse, talvez por segredos da separação. Mas não, não te parecia verosímil.
Abres a porta, deixas sair o gato que outra coisa não quer, voltas a fechá-la. – Os gatos voltam sempre, dizes, um gato que não volta é um gato morto. - Mas não me chegaste a responder, dizes. É verdade. Não responderas, antes descaradamente fugias, mesmo, o que também era verdade, se o fazias com relativo insucesso - mas como é que se responde a isto, como, com alguma franqueza, dizer sim e não, como não responder apenas claro que não? Pensas no teu pai, na sua têmpera grave, ora desalentada ora atemorizante – mas havia ele exercido uma má influência em ti? Era-te difícil lembrar o suficiente, mas, assim de repente, não te concedias ameaçado, como te diziam que acontecia, e nunca o teu pai, embora com o seu carácter, fora um mostrengo, isso conseguias saber; bem pelo contrário. Mas havia ele exercido uma má influência em ti, teria Maria Jorge universalmente razão e deveriam as mães cuidar de quanto antes retirar os filhos da alçada dos pais? É claro que Maria Jorge não tivera em mente o caso geral quando em mau dia o insinuara.
– Diz-me tu, achas-me tu uma má influência nos meus filhos?
O seu olhar distanciara-se bem para lá da janela, depois o seu pescoço rodou e os olhos ficaram à altura dos meus, foi então que sorriu.
– Os filhos, o meu os teus, chegada a altura matam o pai e continuam filhos. Eu e a Maria Jorge dificilmente permaneceremos casados.
Recomeçava a chover. Os raios do sol poente rasgavam ainda por entre a chuva, os ponteiros do relógio da sala pendiam ambos, exactamente nas seis e meia. – A esta hora a Maria Jorge aperta-lhe o cinto, disse ele. - Tem doze anos, mas ela teima em ser ela a apertar-lhe o cinto.