
Onze horas da manhã. Entras no quiosque, cabelo molhado, e o senhor com o capachinho arruivado dá-te passagem. O fato negro é excessivo e está puído nas mangas, por cima uma gabardine creme, não propriamente impecável, as calças um pouco curtas, há coisas que não podes deixar de notar, sobretudo num dia de sol. Com o calor o senhor com o capachinho arruivado exala um perfume reles a lavanda, tão forte que te perguntas se alguma vez experimentara tomar um banho. - Sim, Seutor? Nesse preciso pousas as mãos no balcão e mencionas que queres mortalhas, dois pacotes. - De quais, Seutor? Pergunta-te ela, mas a tua voz arrastada já te traiu. A senhora que está ao teu lado, uma loura platinada até ao buço, mexe-se sobre os tornozelos e faz menção de se te distanciar e olha-te, assim como quem não quer: eu não estou a olhá-lo, diria ela se fosse suficientemente inteligente, estou a olhar através de si. Quase podias acreditar nisso.
Olha-la prolongadamente, abres mais os olhos para que bem se te veja o vermelho vascular invadindo as córneas. Agradeces, como se uma cortesia que te é feita e, já virado para a senhora ao balcão, dizes que queres Smoking, das pretas. Ah, e aquele livro de jogos numéricos. Melindra-te um ruído de cochicho, mas não te voltas. Ainda apercebes alguém entrar, alguém que cumprimentas um tanto cerimoniosa e distraidamente agora que pegavas no livro, tinhas guardado as mortalhas e preparavas-te para sair.
- Então um bom dia, Seutor. Obrigado, Seutor. Conhece-te desde que para ali te mudaste. Cinco anos? Baixas a cabeça em sinal de reconhecimento. De saída quase tropeças nos tornozelos da loura.- Peço desculpa. Tenha a bondade. Nem se faz rogada, o queixo levantado, toda ela cheira a coisas e pós e cremes e aspersões. O capachinho arruivado, um tanto mais relutante mas não menos aromático, segue-a. Cá fora abrandam o passo, olham para trás ficam a falar um com o outro, não te interessa. São onze e dez, segues o teu caminho.
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