Terça-feira, Junho 23

Simples complexidades



A surpresa de Karamallah não era fingida; estava verdadeiramente surpreendido com a persistência e a amplidão de um pensamento inepto que julgava incapaz de florescer em terras ensolaradas. Assim, a velha ideia emitida por ilustres pensadores originários das regiões frias, segundo a qual o mundo seria complicado e absurdo, tinha atravessado os oceanos e as fronteiras para vir aninhar-se no cérebro de um abominável escroque das margens do Nilo. Esta vilania consistente em negar a simplicidade edénica do mundo servia os interesses dos poderosos, posto que justificava todas as dificuldades sofridas pelas massas ignorantes. Karamallah erguia-se com toda a força do seu amor pela vida contra esta perniciosa desinformação.

Albert Cossery, As cores da infâmia


Ando estranho à arte e ao ornamento; não, felizmente, à beleza.

Fernando Macedo, A bordo


O santo cuja água arde nas lamparinas, o vidente cujo fracasso é entendido como o sopro de Deus, o verdadeiro paranóico para quem tudo se organiza nas esferas alegres ou temíveis em redor da sua própria pulsação central, o sonhador cujos jogos de palavras sondam os antigos túneis e os esgotos fétidos da verdade; todos dependem da palavra - a palavra ou aquilo de que a palavra nos protege. A metáfora é então uma tentativa para se alcançar a verdade e uma mentira, dependendo de onde nos encontramos, no interior, em segurança, ou no exterior, perdidos. Oedipa ignorava onde se encontrava.

Thomas Pynchon, The Cryng of Lot 49

2 eventos:

a-bordo disse...

obrigado pelo sublinhado. fico a pensar nas tuas associações e iluminações. grande abraço

antónio davage disse...

abraço, Fernando.