Terça-feira, Julho 7

Problema com pássaros




Acordas, o sol funde o estore, ainda não são nove horas e as listas de sol queimam a pele. Que há que te obrigue? Nada. São nove da manhã, caíste num sábado inesperado - não tens nada para deixar de ser feito, nada para fazer. Estás um perfeito morcão, Anacreonte. Ligas a máquina do café e pões os comprimidos em linha, perguntas-te há quanto tempo não lês as bulas. O café acorda-te, os comprimidos parece que sim, o banho certamente. Se estivesses idiota perguntarias: Serei pássaro?
Acordas, o sol bate-te nos olhos desenhando uma faixa de fogo. Por essa altura, o café já está cheio de pássaros. Ainda os retiras com uma colherzinha de chá, mas é tarde, tarde demais. Custa-te conter cada sorvo e mexes, mexes furiosamente o café. Sem pássaros, por favor – chegaras a pedir. Em vão.
Acordas, são dez horas e estás lavadinho, escapaste aos pardais, o cabelo escorre-te para trás, mas os pássaros não formam gota. Estás muito branco, é verdade. Já tomaste os comprimidos. Mas continuas muito branco, Anacreonte. Esfregas as mãos em molho de tomate e ensaboas a cara com ele, abres uma cerveja e estendes-te na varanda, fazes um charro. O sol queima a alma.
Acordas, os pássaros esvoaçam em redor. Sentes-te camaleão e num golpe de língua deglute-los um a um. Não falhas. ‘Passarinhos com Super Bock’, pensas.
É sábado até segunda-feira. Abres a segunda Bock e pensas que tens um problema com os dias de semana.

Diário de Anacreonte