Sábado, Janeiro 31

Entre a imagem reflectida e o sentido reflexivo

A mobilização do ouvido, não pede o silêncio dos lábios, como a mobilização da visão não impede as pálpebras de a refazerem a cada instante.

Esse órgão ‘religioso e nocturno’ que tudo uniria, perdeu-o Osíris e Ísis nunca o resgataria. Diz a historieta que a parte omissa banqueteou um cardume. Estou em crê-lo.

O olho de Hórus, filho de um castrado, um olho penduro, o outro de falcão é, como Édipo, a continuação da historieta. A historieta tem um subtítulo: A condição humana.

Quarta-feira, Janeiro 28

A tempo inteiro onde nada há de pessoal


"Nunca tinha pensado nisso, mas acho que a vida é uma profissão. Tem de se fazer 24 horas por dia. Um gajo não pode dizer: ' hoje não, hoje é domingo'. Não é como conduzir autocarros, bater carteiras, pôr bombas."

"Passo a vida a esperar e depois nunca acontece nada. Graças a Deus ou infelizmente. É tenebroso, um gajo chegar a esta idade e descobrir isto. (...) É precisa paciência para esperar."

"Descobri aquela verdade eterna: se eles não percebem, não vale a pena explicar, se percebem, não é preciso."

"Já estudei o assunto e não tenho nada de esquizofrénico. Não estou interessado em fazer quadros para dizer às pessoas que me dói o estômago. Não me interessa pôr as minhas dores de alma para os outros. Despejar o saco por cima do público? Uma ideia repugnante. Brggggg, que nojo."

Ângelo de Sousa, entrevista à Pública
- lido e copiado à mesa da Duvália.

A luta entre Jacob e o anjo, d'après Gauguin

Manhã cedo, o Sr. T. e Anacreonte subiam a travessa de C., quando, coisa nunca vista por ali, na sua direcção, mas a descer, progredia um monge. O homem, por aquelas bandas, só podia estar perdido.

Ávido, pleno daquilo a que se chamaria, autrefois, 'uma concepção agónica da vida'. Anacreonte dirigiu-se-lhe e esbofeteou-o. Depois, como se estivesse arrependido, rojou-se pelo chão suplicando lhe batesse o monge por sua vez, assim o redimindo de tanto pecado. Como o monge recusasse, Anacreonte pregou-lhe novo par de estalos e a cena renovou-se com Anacreonte já soluçante implorando a coça merecida. De novo o monge permanecia na recusa e de novo se repetia o lance e o carpido. O Sr. T., boquiaberto, assistia.
A certa altura, a cera estourando-se-lhe, o monge dispara ao estalo e ao murro, deixando Anacreonte prostrado, o queixo por terra.
Anacreonte ainda faz um gesto de reconhecimento. Mas o monge declina. Que não tinha sido nada. Que eram irmãos, que lhe concedia a expiação, como a concedera a si próprio em oração. E continua a descer a calçada, um pouco distraído, mas seguramente mais vermelho, com melhores cores, diz o povo.
Anacreonte sorria, mesmo se por terra, quando o Sr. T., readquirindo o dom da mobilidade, dele se aproximou. Era um sorriso de anjo caído, certamente, mas um sorriso incerto, que dava a entender um amargo de boca em meio ao contentamento.

Dois ucranianos que desciam a travessa deitaram-nos os olhos, depois prosseguiram rumo à rampinha. Satisfeitos, apanhamos os olhos.
Anacreonte guardou-os como recordação.

Sábado, Janeiro 24

Beleza


Depois de um massacre o mundo fica muito mais organizado – deu consigo a pensar Anacreonte.
Como pode ficar um jardim passado a corta-relva onde o trevo desapareceu e a irritação tem ainda âncora no negro dos melros e no cinzento dos pardais.
Tudo depende do bom ponto de vista, da boa distância ao massacre.

O Sr. T., do outro lado da mesa, observava uma fotografia de guerra.

A boca e as orelhas e a boca


Em certas geografias manter as orelhas no lugar é algo difícil e que requer grandes estratagemas, uma vez que as orelhas tendem a cair como as folhas. Em outros meios geográficos é apenas algo banal, algo com que se nasce e que se leva, mais cheias, para a tumba. Nestas áreas, como as cabeças cresçam ao tamanho do ouvido e este ao tamanho das cidades - cabeças pequenas serão coisa rara e talvez elogiada.
Em qualquer caso, a boca é algo que acontece entre as orelhas. Algo que ainda pode esvaziar a omnipresença do ouvido.

Terça-feira, Janeiro 20

Cultura material

Num museu não há arte, apenas composição de objectos. Num livro restam as histórias que não se quis escrever, as sobras num vento súbito. De um filme? De uma civilização? Códices, máscaras, artefactos – com o tempo o que a arqueologia designa por cultura material, nada mais. Moldes incompreensíveis do trabalho do espírito. A pista do homem. Pegadas.

Arte é sair do mundo, e é difícil como lavrar a terra. Arte não é necessariamente arte, mas outra coisa. Uma vez fora do mundo, os moldes do trabalho do espírito fazem sorrir.

Domingo, Janeiro 18

Alphaville

Ubu: Para que o Estado seja eficiente, todos os cidadãos têm de demonstrar a sua eficiência.
Roi: … e como vamos definir eficiência?
Ubu: …de acordo com um modelo, caro Roi. Os cidadãos avaliam-se uns aos outros e serão supra-avaliados pelo Comité Aconselhamento e Cidadania. Como os cidadãos devem impregnar-se mais do acto de devir eficientes do que da avaliação da sua eficiência propriamente dita, concede-se que o acto não seja avaliado por mais do que as fichas necessárias e um número mínimo de entrevistas, variando estas segundo o acordado pelo Comité em cada caso, evitando-se, deste modo, interferir no acto contínua e propriamente, salvo nos casos considerados prioritários ou já perdidos. É claro que as reuniões entre cidadão avaliado e cidadão avaliador são coisa perfeitamente dispensável. Salvo quando consideradas determinantes, em juízo.
Roi: …ai são?
Ubu: São. Há coisas de que se pode escolher não querer falar ou ver. E há coisas que se cheiram… por telefone, por exemplo. Há coisas que basta um tom, uma hesitação. Um ouvir dizer...
Roi: …pois.
Ubu: Assenta ainda: nenhum cidadão se poderá eximir a observação oportuna e inadvertida por parte do conjunto de peritos do Aconselhamento e Cidadania sempre que a tal se veja coagido, independentemente de razões ou agenda. Em qualquer caso, ineficientes e insuspeitos, deverão ser frequentadas as acções do Aconselhamento e Cidadania, num mínimo a definir por despacho, consoante o caso em presença.
Ubu: Repara, Roi, felicidade a mais é não-eficiência – como uma mulher sem óculos e cabelo solto não pode ser eficiente, mesmo que o seja. A felicidade entregue a si própria cai no desregulamento – na perversão libertária ou libertina, consoante as inclinações do sangue. Não os podemos deixar demasiado tempo fora de escrutínio, Roi. Mas também não precisamos de os perseguir, percebes, eles tropeçam em nós, eles desejam confessar-se...
Roi: … e o Sr. Ministro acha que isto vai fazer…
Ubu: … cidadãos eficientes, portanto cidadãos venturosos e moderados, portanto um Estado venturoso e eficiente. A paz perpétua, acho que foi…
Roi: …Kant, há duzentos anos, Excelência, mas de um ponto de vista…
Ubu: Duzentos anos! Quanto tempo perdido.
Ubu: Já lhe falei da minha interpretação do Fausto?

Sábado, Janeiro 17

Descuido


O eu interior se é uma espontaneidade não tem porque ser interior. Mas, se não for descuidado, então não é nada.

Sexta-feira, Janeiro 16

O colar


A parte superior do formulário pedia dados básicos. Depois vinham os dados relativos ao acontecimento: altura do homem, aspecto, sinais, rua, hora, arma, etc. A nada soube responder com concisa precisão. Sequer sabia se o homem tinha ou não barba.

Eram sete e trinta da manhã, na travessa do C., metida entre um tapume, dir-se-ia que suspenso dos cartazes sempre novos que ali se amontoavam, e o deserto que àquela hora era o centro comercial onde começava a cidade. Dona Eulália avança, travessa abaixo, carteira ao ombro, dir-se-ia picotando entre os quadrados visíveis do granito. Vai Dona Eulália pela calçada, vai formosa e não segura, quando de lado nenhum, eis como de bosques o fero lobo, o meliante lhe salta a caminho, na mão o gume do aço luzia. – Tudo o que tiver, não quero fazer mal!
Dona Eulália tinha cinco euros. Era nada. - …e esse colar, é ouro? – pergunta o meliante. – O colar não, por favor, deu-me a mãe que tenho morta, vai de dizer a Eulália. Era um colar de ouro com uma cruz modesta mas cravejada, no género prenda de baptizado.
- Preferes morrer a dar-me um fio, mulher? - Não, o colar não …. Doeu tirar-lhe o coleiro, cortei-a, foi na mão e acho que no braço, quando a pauta tentou agarrar-me.… a gaja oferecia-se-me em sacrifício por causa de um fio, a filha da puta. Como é que um gajo vai adivinhar. Atestei-lhe com a cruz na testa até sangrar, quando o retirei, pá, era uma autêntica tatuagem. - É por isto, por um fio, que queres morrer? É tudo ou nada, é? – gritei-lhe. Mas ela já não me ouvia.
Deixei-a, não gosto de matar – mas se gostasse tê-la-ia morto, dar a vida por um fio de metal que no máximo, mais a nota, daria para cinco doses!

- Dona Eulália …
- Dona Eulália? Temos de lhe fazer uma análise ao sangue, importa-se de vir connosco?

Terça-feira, Janeiro 13

Sistemas


Quando o Sr. T. percebeu que não era um réptil, era tarde demais. O réptil era já todo o seu sistema linfático. Ele fazia parte, parte demasiada. Já não havia como fugir. Os seus linfóides, linfonodos, ductos e tecidos linfáticos haviam deixado de funcionar do modo a que se habituara. O seu sistema imunológico, sentia, não era o mesmo. Os seus resguardos e atracções moviam-se numa estranha passadeira rolante na qual - mero expectante, não havia qualquer controle.

E no entanto, o Sr. T. percebera que não era um réptil e, ao assim aperceber-se, fez aquele simples, mesmo quanto duvidoso, raciocínio: se não era um réptil, mesmo quando era a imagem de um o que o espelho lhe devolvia, outros como ele não teriam de ser exactamente répteis, ainda se permaneciam répteis no seu mutismo, como ele mesmo permanecia. A certa altura, pensou que era mais um filme, certamente americano ou então alemão. Bastaria desligar o televisor, talvez acordar.

Depois, olhou de novo o espelho onde um enorme crocodilo se espalhava sem cerimónias e disse para consigo próprio: isto é esperança, e ter esperança é enganar-se duas vezes.
Colocou o chapéu, abriu bem a boca reptiliana e dirigiu-se lentamente para o trabalho.

Domingo, Janeiro 11

Calderón de la Barca (morto)


Isto não é mais um teatro, Calderón, isto tornou-se a fábrica. Aqui se fabricam os sonhos que já não vais ter que ter, pelo menos de momento, porque estás morto.

Sexta-feira, Janeiro 9

Cambalhotas


Anacreonte dizia: a vida é uma boa volta ou a ausência de uma boa côdea.
O Sr. T gostava de ler e de escrever, de jardinagem e das conversas com Anacreonte, mas aqui dissentiam quase deselegantemente, não fora serem amigos desde os bancos da escola. Era mais do que isto a vida, dizia o Sr.T., não há côdea que encha a alma, nem boa volta que não devolva um solitário interrompido.
- Com certeza, T., há o vinho, a erva-cidreira, no Outono, os cogumelos, no Inverno, um bom livro, um sushi bem feito, um vagar num fogo a bem arder, ronceiro, mas seguro –, mas T., estás tu a plantar palavras – certo…? – e a miúda chega, olha para ti com olhos reprodutivos. Continuas, tu, o plantio?
- Insisto – instou o Sr.T. –, a miúda murchará, é uma questão de dias, como estancam as flores – a terra, essa, não se esgota.
- Tu, tu não existes, T. – acrescentou Anacreonte. – Uma boa volta e uma boa côdea era a resposta certa.
Mas existia. Não para aprumar viagens, sempre interiores à natureza humana. Não por vaidade ou corrupção. Mas, talvez, apenas por um absurdo orgulho ou esquiva perversidade. Fosse como fosse, o Sr. T. exigia ser tido em conta, entre côdeas e para lá de cambalhotas, que, a bom dizer nunca afirmara depreciar.
- Cada experiência importante deve ser registada. E, Anacreonte, o que fica das cambalhotas? Taças. Taças e o todo o laudatório da felicidade que já não discerne. Sentimentos da pele, é tudo. E o incómodo de um regresso à eterna solidão, nada mais.
- Aí, T., estás enganado, o mais importante é irretratável. E a pergunta, num entendimento pleno do mundo, deveria, talvez, ser qualquer coisa como isto: o que fica realmente entre as cambalhotas e as côdeas se não a digestão?

Segunda-feira, Janeiro 5

Padrões cinéticos

Anacreonte olhou demoradamente o mapa, depois exclamou: - Eucaliptal, Acácia, Mimosas?

Domingo, Janeiro 4

"Doo-me até onde penso / E a dor é já de pensar" - R. R.

Sou judeu, diz-se, dizem-me os familiares, há anos que mo dizem e instruem. O meu trisavô materno era judeu, oriundo do império Austro-húngaro, lembram-me. Histórias de família que se apagam com um golpe de água benta na testa do recém-nascido. Agora, eu sou do Hamas. - Pum. - Nós somos do Hamas, dizemos majestaticamente ao Pum. - Tenho pundonor de ser o Pum contra o idílico do Amos, mas ele come ázimos na mesa branca de Israel, enquanto eu tenho vergonha de aparecer como aquele que advoga a paz no actual estado de coisas. E a vida é pum-pum, cada bomba mata um – a terrível verdade que não se engole, mas vive. E já não acredito na tua boa vontade, Amos. Não creio na tua imodesta (n) eutralidade. E não, não podes ter-me por pacifista, creio, não sei brincar às bonecas. Eu sei. Ao contrário de muitos, eu já não posso acreditar. Talvez porque, a meu ver, Deus seja absolutamente indiferente, de que outro modo poderia ser um Deus?
Por isso, Amos, eu, Alberto Loebe, num canto da Europa, eu, onde se engolfa o teu sangue Israel, eu, torço pelos teus inimigos, mesmo quando os abjuro, e doo-me com a banalidade do teu mal – tu, menos que todos...

Sábado, Janeiro 3

- O meu nome?

- O meu nome? - O meu nome era um nome muito bonito, era realmente. E nessa altura, havia coisas que parecia que não mudavam com a idade, como o som do nosso nome. A sua lealdade para comigo quando me deixava escrito num registo, ainda ontem me comovia. - Como a certas almas moças pode doer um espelho que recusam por orgulho, o nome era para mim, opostamente, um refrigério, a alegria na reflexão que proporcionava, ou era eu então, em tais cacos deveras reflectores, a Branca de Neve dos nomes. Sim. Porque além de o meu nome ser muito bonito, ele inspirava, como é o caso nas obras de arte, indefinidas repercussões no tímpano. - É verdade que passaram muitas horas, dias e anos desde que arrasto o mesmo belo nome. - Para todos os efeitos, é o mesmo belo nome. Não só a ele me habituei como, alguém chamando, o instinto olha, desperto, orgulhoso, quase presunçoso. - Desde há uns tempos, porém, a razão ou os seus conselhos vão no sentido da moderação. Daí, que tenha começado com: “O meu nome era um nome muito bonito.” E não com: “o meu nome é um nome bonito”, em resposta à sua gentil pergunta, cavalheiro. - Sejamos sérios, a beleza de um nome tem limites, concordará, é claro, bem, e esses têm tudo a ver com as limitações do corpo que nomeiam. - Se há realmente coisas que não mudam com a idade, coisa que hesito, outras há que apenas perdem sentido. O nome, e aqui tem a minha resposta, é uma dessas coisas que perdem sentido. - Imagine, o cavalheiro, uma velha densamente desdentada e com um furo em vez de nariz, sim, um furo como os peixes, dois furos para ser mais preciso, por vezes tamponados com algodão, e a mijar-se, escachadas as pernas em V invertido, ali, mesmo à entrada de um restaurante central onde o cavalheiro está prestes a entrar. Quereria o cavalheiro acaso saber – a menos de peculiar acometimento da musa Calíope – que o seu nome é ou foi Dona Azulina Rosa Claro, cognominada a Rosa do Tango, isto em idos de 60, no Grande Orfeão, à praça da Batalha? - Saiba o cavalheiro, um Narciso malsão é como uma erva daninha, uma coisa entregue ao hediondo - ao indigno todo que persiste por trás dos panos e se revela, por mais belo o nome, numa cascata de urina a descer os fios de um qualquer passeio. - Hoje desconfio do meu nome. Exactamente como se pode desconfiar de toda a arte que atavia o verdadeiro no modo humano. A Arte é engano, na verdade um auto-engano, uma espécie de maquilhagem que amanhamos ao espelho todas as manhãs. É por isto que quando me pergunta pelo meu nome tenho que lhe responder assim, cheio de antelóquios. - Não é que não tenha um nome, tenho - é mais como se tivesse deixado de saber o que queria dizer, como com a arte. Com certeza não sou o primeiro que encontra. – Sou? - Desculpe? Parece-me, caro senhor, que não me fiz entender. - Não, não tenho nada contra si. - De modo algum, por favor, não me entenda mal, não me meto consigo, aliás foi o Senhor que se me dirigiu, lembra-se? - Não, deixe estar que eu pago. - Sim, uma boa tarde para si também.

Sexta-feira, Janeiro 2

Compostagem


Os dias que já passaram pelo meu corpo envelhecem-me um montículo. Aqueles que ainda não passaram envelhecem-me outro montículo de não sei quantos anos, mais à frente. A diferença é pequena entre os montículos se notarmos que dos anos que sei que conta o primeiro, dos primeiros, nada sei. O primeiro montículo fez-se compostagem, o que se compreende, sempre assiste o prosperar dos dias presentes. O segundo, atrevo, composta ainda. O perfeito tende à compostagem – é uma lei da vida.

Em alguns casos, parece comprovado, a compostagem fica mal feita e resta uma memória post mortem, uma memória basicamente do tacto – o que poderá ajudar a deslindar o apego de certos corpos, digamos mal falecidos, às coisas mais materiais, como casas, televisões e bonecas.