
Primeiro susto: entro e caio em cima do cadáver. A câmara ardente era o átrio, logo atrás de um empurrar de porta de entrada. Três velhinhas movem-se ligeiramente para o lado e dispõem-me os olhos, a ler-me a alma a mais legível, como radiografia fosse. O resto era o choro dos próximos e dos velhos que a si próprios choravam, enquanto velhos, uns, enquanto próximos, os outros, e um tom de preto, em aguada sobre todas as cores.
Segundo susto: - Dás-me um beijo?
- Dou, claro, mas porquê?
- Porque me apetece que me dês um beijo? Porque…que idade tens? – Trinta e três, e tu? - Cinquenta.
- Conhecemo-nos ainda não faz meia dúzia de horas, sabes que sou casado, que tenho filhos…
- Que não gostas de beijos.
- Que gosto.
- Então, cala-te. Chega cá boca que eu deixo que voltes para a tua mulherzinha.
- Não há mulherzinha, há a Leonor.
- O meu pai morreu, faz quatro meses, tenho cinquenta anos, achas que quero saber o nome da tua mulher vinte anos mais nova do que eu?
- E porque achas que eu… porquê eu…?
- Não acho. Não faço intenções de beijar o primeiro que me aparece.
- Porquê eu, Paula?
- Não sei. Mas senti-me cortejada e correspondi.
- Cortejada… por mim? Durante o velório?
- Não tiraste os olhos de mim no café e ainda não sabias que me verias no velório. Entrei e os teus olhos perderam o descanso. Porque te ofereceste para me levar a casa?
- Paula, por delicadeza, cortesia. Sou padrinho…
- Querias comer-me?
- Paula…
- Querias?
- Para ser sincero não - hesitou, soube nesse momento como poderia magoá-la -, sim… sim e não, por favor …
- Encosta aí, há ali um café, vamos beber uma cerveja. Vens? Depois deixo-te ir para a, como é que é… Leonor, é isso.
- Dá-me um beijo bom.
Dei-lhe um beijo, o beijo foi bom. Bebemos a cerveja. Levei-a a casa, não subi.