Sábado, Fevereiro 28

Courbet IV - avulso


Os queixosos não incriminaram os quiosques de Braga. Há um lugar para tudo, mas nem tudo tem direito ao mesmo lugar.

A pornografia nasceu com a monogamia, depois foi exportada.

A arte nasceu no mesmo momento, depois foi exportada.

Dizem que o mesmo acontece com a democracia, quer-se dizer, é exportável.

Em regra, a pornografia chega primeiro, na mesma embalagem que aperta os filmes de Ginger Rogers e Fred Astaire, e abre caminho.

Sexta-feira, Fevereiro 27

Courbet III - Anacreonte contribui ...

- Isto sim, talvez isto seja o pornográfico em todos os mundos, exclamou Anacreonte e acrescentou: mesmo naqueles poucos mundos em que é deveras arte. E no entanto, a foda pelo menos desde Adão e Eva, é a origem da moral.

Coubert II - Trabalho de casa


No último post, assim o tenham lido, o Editor armou-se em parvo, em pequeno, em mínimo - coisas de latino. Quer isto dizer que foi faccioso! Não propriamente pelo que disse, mas pelo que aí não se diz. Nomeadamente, que o Ocidente não é o mundo todo, como a cidade não é a serra. Que Portugalzinho, apesar do lume profético, não o será mais.

Em suma, acrescentou o Sr.T. após uma pausa, posso ajuizar da minha realidade, nunca, impunemente, da dos outros – na realidade, Courbet, no mundo árabe ou acima de Braga é apenas, passe o termo, uma pachacha bem feita, alguém poderá dizer: ‘incrivelmente bem feita’.

Dito de outro modo, minhas andorinhas, nada em matéria de cultura é generalizável. Para todos os efeitos, em terra de véu que o sol não rasga, mesmo quando uma pachacha é arte, continua, com vossa licença, a ser mesmo uma pachacha. Duchamp soube isso melhor do que ninguém, por isso o interverteu. Toda a criança sabe isso. O gajo do Minho que corre os nudistas das praias fluviais à sacholada, também.

Sr. Editor, minhas andorinhas, o rei vai nu, perdão, vestido!

Quarta-feira, Fevereiro 25

Courbet I - Premonição, Tarzan?


Courbet pornográfico? Com certeza, aquele pedaço de uma mulher, recortado da totalidade mulher, é, no mínimo, materialista, mecanicista, etc. ... Mas pornográfico? Algum erotismo, eventualmente, mas é insosso, na medida em que lhe faltam todos os ingredientes (que abundam no exemplo acima), menos um.
Na realidade, uma pintura de uma mulher, tal como existem no mundo, ou de uma parte significativa de uma mulher tal como não é impossível no mundo.
O primeiro problema que aqui surge é o espantoso poder do realismo pictórico, apesar do zeitgeist, mas este alongar-nos-ia.
O segundo é tratável em duas linhas. Para um amante, a imagem de uma mulher, uma mulher, é a beleza de um corpo. Violento é o que se pode ou não fazer com as coisas bonitas, neste caso o corpo.
O terceiro problema é o mais grave e não detenho qualquer resposta, seja ele: de onde vem este renovo da pulsão para a joalharia que já tão eficazmente se propaga às ‘bases’, ao povo em geral, este ‘lícito’ afinco ao lápis-lazúli?
Entretanto: …chiu ! Não digam a ninguém que não usamos jóias.

Domingo, Fevereiro 22

Carne lavar


Comer, beber, dançar e foder até enfezar o carnaval.
Ser concorrente do próprio carnaval, tê-lo triste ao pé de ti.

Quarta-feira, Fevereiro 18

Platão, Godard, Faulkner e o Sr. T.


Houve um tempo, na realidade uma noite, em que o Sr. T., depois de estudar Platão, e agitado por diversos motivos estranhos ao momento, escreveu o que viria a ser a pedra angular de um seu eventual sistema – assim, um dia, a tal trabalho se desse: "A arte só tem um fito, tornar suportável o insuportável. Fazer como se belo o sinistro. Entretecer-nos ao mundo que é o mundo humano. "

Depois, muito depois para dizer a verdade, o Sr. T. leu ou releu, como saber alguma vez, está frase de Godard, em Dias Felizes: “A beleza é o começo do terror que nós somos capazes de suportar”, e disse para si mesmo: demasiado belo para ser verdade. Logo tem que ser verdade. Seja lá a verdade o que for. Mas não tinha.

Quarta-feira, Fevereiro 11

À volta da mesa polida...

Advertia o Sr. D. H.: - ... 'ao passarmos os olhos pelas bibliotecas, persuadidos destes princípios, que devastação devemos fazer? Se pegarmos num volume de teologia ou de metafísica escolástica, por exemplo, perguntemos: contém ele algum raciocínio acerca da quantidade ou do número? Não. Contém ele algum raciocínio experimental relativo à questão de facto e à existência? Não. Lançai-o às chamas, porque só pode conter sofisma e ilusão.'

Anacreonte estava chocado. É que no Sr. D. H. - que lhe fora apresentado como um céptico - via ele agora, naturalmente ignorante da coisa histórica, aparecer uma estranha espécie de Josep Ratzinger versus Josep Ratzinger. Era, então, deste baptismo de fogo alexandrino que o Sr. T. se reivindicava? - Nesse preciso, os seus pensamentos eram interrompidos pelo aplauso e a vozearia.

- Esse senhor é um camelo - disse o conviva de laço garrido. - Camelo é o Sr.! - dizia um outro de nome Folhais. Eis senão quando, um terceiro, quase reclinado sobre o do laço, exclamou: - ... 'alguns livros estão imerecidamente esquecidos, nenhum é imerecidamente recordado.' - É o W.H.A.... - ouviu - ... o poeta inglês - ouviu.

Anacreonte não sabia quem era o poeta inglês chamado W.H.A. e também não reconhecia Sr. D. H., nem isso constituía uma preocupação. Mesmo de Josep Ratzinger, a bem da verdade, sabia apenas o que viajava no ar. Mas reconheceu ali outro tipo de cepticismo.

Segunda-feira, Fevereiro 9

Quem?



Tu escreves. Os leitores lêem e inventam-te e isso não é de todo estranho.

Sábado, Fevereiro 7

Velório


Primeiro susto: entro e caio em cima do cadáver. A câmara ardente era o átrio, logo atrás de um empurrar de porta de entrada. Três velhinhas movem-se ligeiramente para o lado e dispõem-me os olhos, a ler-me a alma a mais legível, como radiografia fosse. O resto era o choro dos próximos e dos velhos que a si próprios choravam, enquanto velhos, uns, enquanto próximos, os outros, e um tom de preto, em aguada sobre todas as cores.

Segundo susto: - Dás-me um beijo?
- Dou, claro, mas porquê?
- Porque me apetece que me dês um beijo? Porque…que idade tens? – Trinta e três, e tu? - Cinquenta.
- Conhecemo-nos ainda não faz meia dúzia de horas, sabes que sou casado, que tenho filhos…
- Que não gostas de beijos.
- Que gosto.
- Então, cala-te. Chega cá boca que eu deixo que voltes para a tua mulherzinha.
- Não há mulherzinha, há a Leonor.
- O meu pai morreu, faz quatro meses, tenho cinquenta anos, achas que quero saber o nome da tua mulher vinte anos mais nova do que eu?
- E porque achas que eu… porquê eu…?
- Não acho. Não faço intenções de beijar o primeiro que me aparece.
- Porquê eu, Paula?
- Não sei. Mas senti-me cortejada e correspondi.
- Cortejada… por mim? Durante o velório?
- Não tiraste os olhos de mim no café e ainda não sabias que me verias no velório. Entrei e os teus olhos perderam o descanso. Porque te ofereceste para me levar a casa?
- Paula, por delicadeza, cortesia. Sou padrinho…
- Querias comer-me?
- Paula…
- Querias?
- Para ser sincero não - hesitou, soube nesse momento como poderia magoá-la -, sim… sim e não, por favor …
- Encosta aí, há ali um café, vamos beber uma cerveja. Vens? Depois deixo-te ir para a, como é que é… Leonor, é isso.
- Dá-me um beijo bom.
Dei-lhe um beijo, o beijo foi bom. Bebemos a cerveja. Levei-a a casa, não subi.

Quinta-feira, Fevereiro 5

4 de Fevereiro de 1961



Início da luta armada em Angola com motins em Luanda, assalto à Casa de Reclusão e Quartel da PSP e à Emissora Nacional.

Ainda não eram passados oito meses, nasceu, precoce, Anacreonte. O Sr. T. já era um velho, um velho que nascera velho. Trinta anos depois conhecer-se-iam, num boteco de má fama na Invicta, ao baixar da noite. Um jovem e um velho, puer senilis – as mãos tremeram, com verdadeira electricidade. Uma lâmpada acendeu.
O resto é este paginar, dia a dia, do virtual. Ou não.

Quarta-feira, Fevereiro 4

... ou a cortina é outra?


Pilinha!
Pilinha!
Pilinha!
Pronto, pensou o Sr. T., já disse.

E agora, onde está a cortina que aparte a pilinha ou pitinha do Sr. T. de todas as outras?

Ou a cortina é outra? Mais, sei lá, à la Faixa de Gaza do que à la cinta de gaja?

O Sr. F. abriu a janela

O Sr. F. abriu a janela e foi fulminado.
- Cristina, que céu esplendoroso, que sol, e ainda ontem que chovia.
- F., querido, chove a potes, não ouves o vento…
- Toma o teu café, vá, depois falamos.
- Cristina…
- Sim?
- … não está um sol que cega?
- Já tomaste o café?
­- Sim, querida, é o segundo.
Cristina acorreu à cozinha, depois deteve-se, incapaz.
O Sr. F. tinha dois melros espetados nas órbitas, até ao cerebelo.

Ontem, hoje e amanhã...


Ao longe vozes:
– A nova idade…
– Como lhe irão chamar?
– ‘Até o invulgar tem de ter limites’ – atreveu K.
O Sr. T. devia ter um sentimento sobre isto. Coragem, talvez, se coragem fosse um sentimento. Mas não fez nada, o Sr. T.
Espera o momento, o Sr. T., em que também ela – A nova idade – resulte apenas nova nos livros de história. A sua beleza será, então, a juventude que alguém teve.

Pigmalião não se cansa de esculpir.