Domingo, Março 29

Cordeiro de Deus


- Este aquapark oculta o teu futuro, querido filho. - Estarás tu apaziguado com o que é, seja esse é o que for? - Capaz, enfim, de agir o que tem de ser consumado, sem apontar erro em lado algum das paixões? - Assim sendo, querido filho, é-te dado nascer...
- Pára lá, pai!
- Sim?
- E se eu não cumprir as cláusulas?
Era tarde demais. O nascituro já berrava sem resposta, concretizando a vontade do pai e a possibilidade da mãe.
- Porque não lhe deste resposta? – perguntou Rea.
- Porque espontaneamente abortaria, Rea, e não é esse o seu destino, tu sabes que não é! – objectou Cronos e, como Rea se detivesse, acrescentou: Vai, Rea, vai lavar o filho que chora.

Sábado, Março 28

O poço

Ao Sr. W., por imprevisíveis peutetres acidentais, um poço o engolia, logo depois o balde abria-lhe a testa e uma inopinada água, despontando sabe deus de onde, ameaçava submergi-lo. Tudo isto, ocorria no repentino em que o Sr. W. saía do Mosteiro de S. Bento da Vitória, depois de assistir à transformação pública de homens em personagens de fingimento. Os homens, agora possuídos, deixavam de ser quem eram e regressavam e logo eram dominados e os seus gestos e os seus olhos, e a sua voz. O Sr. W. pôde imaginar que não regressariam nunca, que estariam doravante sempre descentrados - em algum lado felizes, noutro desgraçados, desde aquele dia. Que de cada vez regressariam menos, que com o tempo um momento surgiria em que não ressurgiriam de todo. E sentiu que algures, bem atrás, perdera algo, muito antes do poço, e algo importante, algo que lhe teria permitido não ser ele – neste momento, por exemplo, ali, à porta de S. Bento da Vitória, metido no escuro húmido daquele poço. Talvez que esses seres desconformes lhe pudessem ter ensinado a felicidade na compartimentação da alma: o to be e o not to be, o terceiro incluído, algo fisicamente tão próximo, tão duradoiro no efeito, como as paredes do poço.
Mas para o Sr. W. e para a sua mosca, metidos no negro daquele poço, à porta de S. Bento da Vitória, já não havia saída; organizavam o poço há demasiado tempo.

Sexta-feira, Março 27

Bonecada


O Sr. T. teve muitos bonecos, inclusive, alguns que já não tem. Acontece que nas mais diversas colecções, há sempre alguns bonecos que são repetidos. Bonecos que, de certo modo, todos mastigámos enquanto nos penteavam ou nos mudavam a fralda, nos assoavam. É só por isto que estamos fadados ao entendimento, uma questão de bonecos. Particularmente, o diálogo acerca da diferença e da repetição dos bonecos.

Terça-feira, Março 24

Dias


Há dias em que um gajo acorda mal disposto e cai na cama exactamente no mesmo estado, mas com um dia pelo meio. Há demasiados dias assim, pensou o Sr. T., dias destronados, postos em meão. A pergunta era: havia ali algo errado ou era espécie?
Ser feliz não basta, de acordo, até poderemos apregoá-lo pelos passeios, zurrá-lo contra a espécie. Onde a necessidade de ser cansado, exaurido no osso e na conta bancária? Há dias em que um gajo cai na cama exactamente no mesmo estado em que acordou - não seria mal suficiente?

Segunda-feira, Março 23

Vaidadezinhas


Todos as abonecamos, sem que qualquer possa atirar pedras. Isto é uma vaidadezinha. Isso é uma vaidadezinha.
Desenrolar personagens antipáticas ao mundo contemporâneo é ainda uma vaidadezinha contemporânea.



Isto não é um pénis ou artista não retrata zona erógena

Ready-made
tabuleiro de fogão, adiposidades várias e altas temperaturas

Sim, tio.


-Tio.
- Sim, Sextus.
Escusado será dizer que Sextus era o seu sobrinho. Não que não os amasse a todos, apenas que Sextus, por alguma estranha razão que escaparia a ambos, era o seu parceiro.
- Porque é que falamos, tio?
- Excelente pergunta, Sextus!
- O tio diz isso quando não tem resposta!
- E mais uma vez não tenho, Sextus. Experimentemos, queres?
- Quer isso dizer o quê?
- Que, por exemplo, podemos falar por excesso ou por defeito.
- …
- Repara que podes partir da ideia do homem como um certo tipo de ser imperfeito, mas assaz maleável, incompleto se quiseres, ou do homem como o ser perfeito por excelência, por isso lógico-gramatical. Assim, de onde partires, onde indefinivelmente acabarás por chegar.
- Se perfeito, há um excesso que o diferencia, é isso? Se imperfeito, um défice, algo que é preciso ultrapassar.
- Exacto. Ou, se quiseres, de um lado o discurso como dom, do outro, o discurso como carência.
- Não temos a terceira hipótese?
- …
- O homem como mais um ser, um entre os outros, apenas tão estranho como o girassol, o morcego ou a bactéria.
- Já te disse o quanto cresceste nestes últimos anos?
- Já Tio. Mas não me respondeu.
- Estávamos a experimentar respostas, lembras-te?
- Sim.
- Ok. Alguém, um certo W., umas décadas atrás, disse que se os leões falassem nunca teríamos modo de o saber – percebes agora aonde podemos chegar?
- … e um gato surdo não mia – sei-o de experiência. Faz ruídos estranhíssimos, tio.
- Já temos muito para pensar, não Sextus? Trazes-me mais uma cerveja do frigorífico?

Sábado, Março 21

Belarmino


- Belarmino?
- Sim, meu doce?
- Vens para baixo?
- Não vamos todos?
- Belarmino, porque és tão macabro?
- Belarmino?
- Sim, meu doce?
- Vens para baixo ou não?
- Assim acabe a limpeza das câmaras, meu doce, o que é o jantar?
- Cordeiro, serve?
- Porque não? Há Sauerkraut?
- Onde já se viu o cozido sem Sauerkraut? Desces?
- Assim acabe a limpeza das câmaras, meu doce.

Sem vincos


Passa a ponte, já que aí se estende - pensou o Sr. T..

Quarta-feira, Março 18

Oficina de teatro


Viver sem álibi, na cozinha e no deserto. Fazer pátio. Sobretudo, não mexer demais, logo abaixo da crosta pulsa revolto o esterco. Eventualmente, mijar contra o tabique - assistir a formação de salitre. Descrever a lentidão do podre mineral. Podres que nascem para dentro, podres que alastram sempre por dentro, onde o sol não calcina, onde o ar não enxuga. Viver o podre sem álibi, olhá-lo nos cornos.

Terça-feira, Março 17

- Sim tio?


- Sextus…
- Sim tio?
- Lembras-te do que falamos, era Junho, se bem recordo, faz uns seis ou sete anos?
- Não tio, deveria lembrar?
- Não, mas por essa altura, já não sei a que propósito, disse-te que o mais importante era que fosses feliz. Lembras-te agora?
- Como poderia esquecer, tio, desde então, não penso de outra maneira.
- Agora, sete anos depois, pergunto-te, és feliz?
- Sou.
- Pois agora digo-te, ser feliz não basta.

Domingo, Março 15

Branwell



As Brontë tinham um irmão. Branwell Brontë gostava do seu gin com láudano - um mês de sonhos tinha um forte odor e pouca luz. Dormir era uma pergunta.

Sou um acto antes de ser um nome


Não há animal que o acto envergonhe.
Se fossemos evidentes recuaríamos a antes da parra - a pedra angular de todo o mito de criação. Seriamos animais coerentes, nunca animais proscritos.

Quarta-feira, Março 11

Causas (pouco) fornicantes


"Eis o Cavaleiro da Triste Figura: insensato, obstinado, burlesco, parvo de tão ingénuo, grotesco de tão idealista – e o que é isso senão uma descrição de mim próprio? A verdade é que nunca fui bom da cabeça. Só não ataco moinhos de vento. Faço pior: sonho que ataco moinhos de vento, anseio por atacar moinhos de vento e volta e meia imagino que ataquei moinhos de vento. Moinhos de vento ou moinhos de cultura – chamemos as coisas pelos nomes – os mais deleitáveis de todos os objectos inacessíveis, aquelas trituradoras eróticas. Pequenos moinhos lascivos de luxúria, fábricas carnais de prazeres raros, países das maravilhas de fornicadores frustrados, os corpos das minhas Beldades. E no fim qual é a diferença? Uma causa perdida é uma causa perdida. Mas já não me vou obcecar por isso. Obceco-me com isso mais tarde."
- ... e são pesadas essas mós?
- Hoje, após a boda de Darwin e Mendel, usa falar-se de blocos de cultura; como antes se falava da qualidade da moagem. Há um novo mundo de gladiadores, lá fora, Sancho.
- O que interessa o que se tritura, senão que se triture, Senhor?
- A metáfora é outra, Sancho.
- Ah! Então, quer-se dizer que já não vamos pelejar os moinhos, Senhor?
- Não, Sancho, combateremos os Memes.
- E como são eles, Senhor?
- Ninguém sabe.
- Ah.

Demónios


‘Como se recorda o que se não recorda?’ é apenas uma pergunta errada. Não dispões de nenhuma lembrança como dispões de uma lógica.
Equivocou-se o Sr. Marc A.. Esquivou-se o Sr. Marc B..
Não podes esquecer, como não podes recordar. És, como uma irritação na memória menos intermutável, um reservado de atenção. Um gajo que berrou, manhã cedo, quando mundo e mãe se lhe cravaram, distintos, íris adentro, de um certo modo e não de outro, mas com maldade, e a quem, ao fim do dia, se insinuará o silêncio deslumbrado e melancólico, recurso último da memória: a morte longamente coreografada do primeiro demónio que, súbito, lembrou.
Ninguém recorda, como ninguém esquece, mesmo se alguém perde a memória.

Corto Rimbaud


- Como ler Rimbaud e ficar e repisar e perpetuar? Porra, Rimbaud obriga! Como os santos obrigam. Não podes ler e ficar-te! – abespinhou-se o Sr. T..
- Não, assentiu Anacreonte, mas posso ler e demorar, escrever a morada demoradamente ou até deixar de ler.
- Explica-te.
– Rimbaud é uma história da descrença. O engomador Hanafi, de Cossery, é outra. Há outras. E outras que ainda não há.

Terça-feira, Março 10

Quando o leiteiro passou por ali... e era o narrador um outro que



A festa era rija, como nunca é de uma primeira vez. - há gajos assim, vão no escuro e é logo Ducasses.
Atentamente, viu-os torrar a goma, enrola-la num tabaco pouco e puxar numa ginástica combinada de boca e pulmões. Fez como os outros, puxou, travou. Depois, puxou uma segunda e uma terceira vez – de primeira para terceira, desta para a quinta, tudo em poucos minutos. Suou, ficou branco. - Acha que não chegou a meter a quinta. - O seu vómito rebentou no negro da porta da discoteca. Muito desfocadas, tinha as cores do arco-íris.
- Professor…
- Filipe! Que fazes aqui? O que é que te aconteceu?
Coro: - Precisa que o levem a casa, precisa, não vês?
(virando-se o coro para o imberbe pupilo)
- Michaux, os amigos entraram, ficaste para trás…
- Lowry , não tens dinheiro, esperas a caridade…
ÓÓÓ…
- ... e, Bud, o professorzeco, irá ele incarnar o bom samaritano, Bud? – pergunta o narrador, a um canto da taberna espanhola, súbito impondo-se, bem de pé, quase esticado demais.
Nesse preciso, irrompe o professor, já sob focos, que se dirige ao pupilo assim:
- Filipe, sabes tu o que é o bem?
- …
- Filipe, sabes onde moras?
O Filipe sabia. O táxi também. As luzes acompanharam professor e pupilo até que a porta se fechou, vermelha, nos olhos do professor. 'Deixei-o com as garrafas do leite', pensou o professor enquanto se afastava a passo curto.

Entretanto, na cena primitiva, abandonava já o narrador a taverna espanhola e dava entrada na discoteca, já a teenager, bem na sua frente, inocente como um animal, arrepanhava a mini para componho dos collants. Os collants eram pretos, de malha, torneados com mãos de seda, os olhos tremeluziam-lhe. Sorriu.
O professor baixaria os olhos, pensou. O animal quer sempre ver, cheirar, tocar, não sossega. Mas só ao narrador fora dado observar o que ora se narra e ao narrador cabe narrar, não necessariamente compreender.

O que são aqui o professor, o pupilo e a teenager? O que me querem dizer? - pergunta-se o narrador. O que os move?- pergunta-se de novo.

Quinta-feira, Março 5

‘O artista constrange o observador a situar-se de acordo com as condições dramáticas que as suas obras desvendam’.


Um dia, passeando o elefante por aquelas bandas, deu com um artista estirado na rua, abandonado e sem coleiro. Naturalmente, tipo o artista é o melhor amigo do elefante, atou-o pela perna esquerda a um cordel que a tromba segurava e arrastou-o até casa. Na parede, à esquerda, saindo do hall e entrando na sala, uma verdadeira galeria de arte atormentava o rodapé. O artista passou dobrado. Chegado à cozinha & varanda o artista lentamente retomou a sua costumeira agonia até que, passados alguns meses, morreu de inanição. O elefante, olhando novos os quadros na parede, carpiu com o crocodilo. Depois foram à caça de perdizes, Miguel Bombarda acima.

Moral da história: Se as perdizes são caça fácil, o elefante anda sempre com um baraço no bolso.

Quarta-feira, Março 4

Moeda corrente


Cara: o acúmulo das explicações feitas de terra, como se a sabedoria fosse o conhecimento – e a sobrevivência um índice de adequação mínima.

Coroa: a ausência de mundo, o mundo é interrompido por cada nova vocação ao empíreo das ideias – o mundo está interrompido por excesso de estrelas. Mesmo se a realidade permanece pendurada na janela, poucos serão os que arriscam um relance.

"A bailarina de Corda faz-se acompanhar pelas suas sombras" - Homem Rei

Antes tudo amparavas sem que qualquer sono sobreviesse
mesmo quando eram hordas o que passava e não ouvias
e assim te ficavas impunemente
- uma aventura por escrever.

Mas empeçavas em desejos pequenos onde não havia que ensaiar empreender
e talvez que dançasses
talvez até que cair caísses
ou por pântanos perdesses o cansaço
estando ali do lado, e ninguém que te apontaria
- caso nenhum que fosses por resolver.

Agora abres menos do que antes
e pensas
que se viveres absolutamente não terás sonhos, mas outra coisa.
E outra coisa, descobres, é o que já tens.

M. M. B.