Quarta-feira, Abril 29

Marcel


Duchamp estava pesaroso como se acabasse de fechar o livro da vida e pela primeira vez todo o seu peso oprimisse o pavimento.
Aquela sensação renovada de peso enterneceu-o, sofreu-a como se tivesse que a memorizar antes da definitiva leveza, como se houvesse aí uma necessidade e a vida adensasse na palavra peso. A leveza que ainda agora pressentira, o seu carácter imperioso, essa em breve o precipitaria com mão pouco afável.
- “Tive uma vida absolutamente maravilhosa” - escreveu.
O seu rosto já não era o de alguém pesaroso, Duchamp levitava. Talvez para que o medo não contaminasse os adolescentes, a quem a morte e a velhice precocemente envergonham. - A leveza, elle a chaud au cul, ainda berrou para o inepto grupo de adeptos e simpatizantes, de cima de uma nuvem. Depois deu o braço a Cossery e pulando de nuvem em nuvem foram ambos a espreitar os deuses.

Terça-feira, Abril 28

Vicent


Gogh, os olhos postos na pistola por terra, sangrava desalmadamente. Devia tê-la pintado antes de a usar, pensava. O quadro despontava na sua cabeça, o que por um momento o espertou na rara dormência que o atingira. – Ah, exclamou o enlevado Gogh. Depois expirou entre torvelinhos de luz.
Felizmente, Theo apontou aquele ‘Ah’. Quem tem um irmão como Theo pode morrer descansado.

Quinta-feira, Abril 23

Seutor Galhano


Onze horas da manhã. Entras no quiosque, cabelo molhado, e o senhor com o capachinho arruivado dá-te passagem. O fato negro é excessivo e está puído nas mangas, por cima uma gabardine creme, não propriamente impecável, as calças um pouco curtas, há coisas que não podes deixar de notar, sobretudo num dia de sol. Com o calor o senhor com o capachinho arruivado exala um perfume reles a lavanda, tão forte que te perguntas se alguma vez experimentara tomar um banho. - Sim, Seutor? Nesse preciso pousas as mãos no balcão e mencionas que queres mortalhas, dois pacotes. - De quais, Seutor? Pergunta-te ela, mas a tua voz arrastada já te traiu. A senhora que está ao teu lado, uma loura platinada até ao buço, mexe-se sobre os tornozelos e faz menção de se te distanciar e olha-te, assim como quem não quer: eu não estou a olhá-lo, diria ela se fosse suficientemente inteligente, estou a olhar através de si. Quase podias acreditar nisso.
Olha-la prolongadamente, abres mais os olhos para que bem se te veja o vermelho vascular invadindo as córneas. Agradeces, como se uma cortesia que te é feita e, já virado para a senhora ao balcão, dizes que queres Smoking, das pretas. Ah, e aquele livro de jogos numéricos. Melindra-te um ruído de cochicho, mas não te voltas. Ainda apercebes alguém entrar, alguém que cumprimentas um tanto cerimoniosa e distraidamente agora que pegavas no livro, tinhas guardado as mortalhas e preparavas-te para sair.
- Então um bom dia, Seutor. Obrigado, Seutor. Conhece-te desde que para ali te mudaste. Cinco anos? Baixas a cabeça em sinal de reconhecimento. De saída quase tropeças nos tornozelos da loura.- Peço desculpa. Tenha a bondade. Nem se faz rogada, o queixo levantado, toda ela cheira a coisas e pós e cremes e aspersões. O capachinho arruivado, um tanto mais relutante mas não menos aromático, segue-a. Cá fora abrandam o passo, olham para trás ficam a falar um com o outro, não te interessa. São onze e dez, segues o teu caminho.

Domingo, Abril 19

Variação um: Os gatos voltam sempre


– Sabes qual é o teu problema? - Ele sabia de vários e tão indistintos como inconstantes, mas pelo sim pelo não preveniu-se para mais um, talvez que este fosse de todo diferente, talvez que este fosse o verdadeiro problema, o problema que havia que resolver para continuar a viver. - O teu problema é que tu não gostas dos outros, esse é o teu problema, e o pior, é que nem de ti mesmo consegues gostar, que vives zangado com o mundo, que não quero o António a crescer assim. O seu problema, em suma, era o problema que António poderia vir a ter. Não era a primeira vez que lho ouvia, desta vez, porém, a sua voz soava-lhe diferente, diferente ao ponto de a não entender cabalmente, de não perceber, pelo menos de início, o que lhe queria ela dizer com aquelas exactas palavras.
Subitamente, tudo ficava claro. Era o fim do capítulo e a ela coubera fechá-lo. Simples pretextos, percebia-o agora, nada mais que pretextos para atalhar o capítulo - de modo nenhum, como ela lhe parecia exigir, para que tudo recomeçasse outra vez pleno, outra vez cheio de intenção. Mas demorou a percebê-lo. – Que queres de mim, Maria Jorge?
– Que quero eu? Deixar de ser necessária, acordar, um dia que seja, como impossível. Consegues perceber isto?
– Mas, eu amo-te Maria Jorge, não me tires a única certeza que tenho – disse-lhe ele, sabendo embora que estava a ser hipócrita e que já nem palavras como essas que agora lhe saíam o poderiam alguma vez salvar. No íntimo, sabia que já nada o poderia salvar. Que nunca, tendo-a por necessária, ela voltaria a ser-lhe impraticável.
– Diz-me como, como podia eu voltar a tê-la por impossível? - A espaços, enquanto distraidamente afagava o gato, pareceu-me que ainda a olhava, como se lhes procurasse uma saída, um rasgão na vida que os devolvesse ilesos, incólumes - que lhes assegurasse um seguimento mínimo. Como te enganavas! Se, e tu sabia-lo, ela nunca aceitaria um seguimento mínimo. Se ela já tudo tinha decidido, e tu ficavas, desta vez tu ficavas, o que só por si complicava as perspectivas, se era ela quem estava em casa da mãe, ela e o António, na casa da avó. Se, por uma vez, não lhe notavas qualquer agitação na voz.
- Não, não me amas! – era extraordinário, dito naquela voz longínqua que se afastava para o afirmar e logo depois dele se aproximava, já segredando: – Aclimatamo-nos, preocupamo-nos, mas é isso, e é só. Então, o que queria ela dele?
– Quero saber se ainda te amo, disse-lhe ela. Não podes saber o que ela quer dizer com isto, todos sabemos como é difícil o amor; mas podes perceber que ela, nesse momento, nunca mais voltará. Há que esperar o momento feliz, pensas e quedas-te, algo aturdido; depois os olhos ficam-te duros como o vidro, como se algo dentro de ti, fracturado, expirasse lenta mas inexoravelmente e nada pudesses fazer. Ela confirmava-to, cara a cara; que algo se fracturou, que algo está morto, morto até prova em contrário, e, toda a gente sabe, o mais difícil é decidir o primeiro passo, que só esse é ainda nosso, que depois se lhe segue um ritmo, que já não há outros passos.
- O que farias por mim? Como vais fazer com que volte para ti? Um mal entendido, pensas tu, não vais fazer nada, és como és, de certa maneira como sempre foste, que poderias tu fazer? Da noite para o dia, a transfiguração não acontece - nem acontece sempre, mesmo com o tempo todo. - Quero saber se ainda te amo, foi o que ela lhe disse. Que ele não gostava nem mesmo de si próprio - também se lembrava desta parte. Parte essencial dos seus problemas, este do inesperado desamor próprio, uma vez que nele se decidia o mal entendido: ela, Maria Jorge, jamais o poderia amar, comprovado que estava que nem mesmo ele conseguia amar-se. Digo mal entendido? Não devia dizê-lo. Não há, na verdade, qualquer mal entendido, apenas a erosão simples. Ele teria que ter mudado - mudado desde que ela primeiro o amara e mudado apenas por amor dela o que, para Maria Jorge, resumia-se a mudar tão somente por amor da mudança. Coisa inexprimível, todavia verdadeira! Ele, que nunca pusera as coisas em tais termos, continuou a não as pôr.
Do seu ponto de vista, ele era quem sempre fora e não havia como mudar alguém que era como sempre fora. Maria Jorge conhecera-o assim, ela dele assim se apaixonara, mas agora não, agora queria perceber se ainda o amava. Já não o amava, era tudo. - Que mais queria ela dele? - Que não era fácil viver com ele? - Mas é fácil, alguma vez foi fácil, viver com os outros? Perguntavas-te. E todavia, Maria Jorge ia conseguindo viver com ele – o peso da memória ainda reparava as lamúrias, as neuras, os hábitos de rapaz que ela pensara que desapareceriam com o tempo e que não desapareceram e que ele, pela sua parte, de todo iria repudiar. Conseguia, porém, viver melhor sem ele, desde que a tal se tinha decidido. - Já não me ama, é tudo. Era tudo, e no entanto transbordava.
É claro que tudo isto não saltara do pé para a mão, e se não causas havia-as boas as razões, mesmo se e para o caso não era importante. Interessa apenas dizer que ela tinha as suas, não menos fiáveis do que as dele, talvez mais sofridas, certamente mais trágicas no seu capital equívoco, entre a realidade e o desejo.
– Porque já não pintas tu? - perguntava-lhe ela mais uma vez. Porque já não ouvisse talvez o convidar da tela, o apelo fresco dos pigmentos, o odor dos óleos essenciais, pensou. Mas nem isso era verdade, quem, no tempo das instalações, do multimédia, ainda pintava? E porque lhe perguntava ela isso, a ele? Porquê sempre nesses momentos em que a vida amargava mais, como se estivesse ele constrangido a pintar apenas porque assim a ela lhe agradasse, e, parando ele de o fazer, tudo, a começar por eles, ameaçasse o desmoronamento? Interessará também dizer que ela tinha vinte anos de boas razões - haviam casado há precisamente vinte anos, no dia 18 de Abril, e há mais de quinze anos que ele não pintava nada, que sequer desenhava, sequer como entretenimento, por exemplo, ao telefone. Há quinze anos! - pensou ela. Mas desta vez tu ficavas em casa e era Maria Jorge quem saía, que tudo era novo a este ponto. Que tudo era tão novo e estranho.
- Zangado com o mundo? Talvez, a realidade não é a vida, não é o mesmo, todos sabemos isso, não é verdade? Achas-me tu uma má influência no António?
– Porque é que não te aplicas a escrever tu o próximo capítulo? – pergunto-lhe, à laia de fuga a uma resposta mais precisa. - Porquê? Porque o gajo que tu e a Maria Jorge conhecem não escreve, nunca escreveu e não passará a escrever só porque alguma coisa aconteceu; as coisas à nossa volta estão sempre a acontecer. Fosse como fosse, mesmo se por azougadas linhas, tudo estava de antemão decidido. Ele nunca imitaria o amante ferido de um grande amor, nem mesmo no modo da ironia, ela devia sabê-lo, conhecia-o demasiado bem, sabia que não era assim que ele amava. Maria Jorge, por seu lado, não voltaria, a menos que de novo apaixonada como no primeiro momento, conquistada por um homem que, forçosamente, já não seria ele. Poderia, algures, haver de novo um momento feliz, um momento realmente novo naquela sua relação com Maria Jorge? Sabia que não era provável, que o mais certo era em pouco tempo qualquer relação estar mais defunta do que os próprios mortos, a menos que um dia reacendesse, talvez por segredos da separação. Mas não, não te parecia verosímil.
Abres a porta, deixas sair o gato que outra coisa não quer, voltas a fechá-la. – Os gatos voltam sempre, dizes, um gato que não volta é um gato morto. - Mas não me chegaste a responder, dizes. É verdade. Não responderas, antes descaradamente fugias, mesmo, o que também era verdade, se o fazias com relativo insucesso - mas como é que se responde a isto, como, com alguma franqueza, dizer sim e não, como não responder apenas claro que não? Pensas no teu pai, na sua têmpera grave, ora desalentada ora atemorizante – mas havia ele exercido uma má influência em ti? Era-te difícil lembrar o suficiente, mas, assim de repente, não te concedias ameaçado, como te diziam que acontecia, e nunca o teu pai, embora com o seu carácter, fora um mostrengo, isso conseguias saber; bem pelo contrário. Mas havia ele exercido uma má influência em ti, teria Maria Jorge universalmente razão e deveriam as mães cuidar de quanto antes retirar os filhos da alçada dos pais? É claro que Maria Jorge não tivera em mente o caso geral quando em mau dia o insinuara.
– Diz-me tu, achas-me tu uma má influência nos meus filhos?
O seu olhar distanciara-se bem para lá da janela, depois o seu pescoço rodou e os olhos ficaram à altura dos meus, foi então que sorriu.
– Os filhos, o meu os teus, chegada a altura matam o pai e continuam filhos. Eu e a Maria Jorge dificilmente permaneceremos casados.
Recomeçava a chover. Os raios do sol poente rasgavam ainda por entre a chuva, os ponteiros do relógio da sala pendiam ambos, exactamente nas seis e meia. – A esta hora a Maria Jorge aperta-lhe o cinto, disse ele. - Tem doze anos, mas ela teima em ser ela a apertar-lhe o cinto.

Quarta-feira, Abril 15

Ele - Parte II


- Disseste? É bem verdade que as coisas então eram bastante mais simples. Se calhar é por isso, por seres talvez mais novo, que me encaras como se sempre na calha estivesse já a minha parte de reprovação e censura.
- Fizeste a guerra, fizeste uma revolução, escreveste, não merecias mendigar um anexo.
- É isso que te atormenta, cabeça de piça? Repara, eu não mendiguei nada. Tu chamaste-me, querias pôr-me a ver Paris, a percorrer as pontes sobre o Sena, querias que ocupasse o apartamento, que continuasse a escrever, dizias que a tua mulher estimava os meus livros, falavas-me das glicínias. Demorei a decidir-me, na minha idade as decisões têm o peso do irrevogável e qualquer uma pode ser a última. Dei tratos à bola, mas vim e estou satisfeito. É claro, ainda não fiz todas as pontes sobre o Sena e o mais provável é que nunca as venha a fazer. Mas o anexo é um luxo e o pior é que estou a habituar-me a este luxo. Mas tu não estás satisfeito, cabeça de piça, e, pior, confrontas-me com uma sombra reprovadora, algo que eu acariciaria em segredo, por ter feito a guerra dizes, por ter feito a revolução, por escrever, acrescentas. Realmente, essas são algumas das coisas que me caracterizam. Outra é uma certa maneira de olhar para ti à procura do irmão mais novo que já não tenho a certeza que sejas. É verdade, censurei-te amiúde. Aquando da morte do pai, por exemplo, cheguei a perguntar-me de que obscuro ramo brotara tanta estupidez e má fé, tanta leviandade e hasteada com tanto sucesso. Acusavas-me de ter ficado com os teus livros, quando os deixaras em minha casa porque, dizias na altura, não te diziam nada, isso e outras pequenas coisas, ‘o resto da tralha’. Livros revolucionários essencialmente, luta de classes, a maior parte em francês, lembro dois ou três do Daniel Guérin, e umas tantas peças de louça e congéneres, que deixaras para trás, tudo de pouco valor e ainda assim torrado na penhora, depois da morte da Lucília. Isso e muito mais. Mas foi há já muito tempo, cabeça de piça, não achas que foi há já muito tempo? Agora não, porque raio te censuraria eu? O que são a guerra, as revoluções e todos os livros? Fúria e rancor, estupor e medo e para nada. O inumano, isto é, em absoluto nada que possa interessar o homem. Acabou de dizer isto e os olhos ficaram-lhe mudos, sem uma cintila.
- Eu era o irmão mais novo.
- Nova era a circunstância e a cada um cabia dar um passo, apenas o primeiro, um passo solitário e irreversível na direcção desconhecida. Todos os passos, creio, foram diferentes. No meu caso, tudo o que fiz, tive que o fazer, habituei-me a essa ideia. Coisas que ocorreram, que teriam de ocorrer, estando eu onde estava e aí estando porque tinha que estar.
- Durante todo esse tempo, não estive atrás de ti.
- Estavas onde tinhas de estar. Eu, pela minha parte, sempre estive onde havia que estar e nunca me perguntei o que acharias disso. Parou. Há pouco tempo atrás julgaria nunca vir a dizer nada como isto. Quantos, com ideais muito mais austeros do que os dele, jamais ousaram pôr pelas costas o terror a que outros, seus irmãos e amigos, se entregavam. Águas passadas, pensou. Posto isto, vindo de muito longe, pôs-se a olhar-me como se procurasse um apoio, um estímulo para prosseguir.
- Pergunto-te agora, pretendes que me vá embora, isso sossegar-te-ia, é isso?
- Estive hoje com o teu médico.
- E então?
- Fica. Temos muito que falar. Digamos que desta não temos como fugir a falar. Tens um cancro muito feio no pulmão, o médico contou-me; parece que estás por pouco, meu velho. Desta vez não podes simplesmente ir embora, ninguém vai embora da morte. Tens alguma coisa mais forte do que cerveja?
- Serve-te – apontou-me o compartimento junto à cozinha –, tens aí gelo no teu frigorífico. Tens um cigarro?

Ele - parte I


- Eu próprio, até aos vinte anos… – falava, absolutamente sozinho. Estava frio e ele fixara as labaredas aspiradas pelo vento. Tinha o ar de quem acabava de aclarar, mesmo se unicamente para si mesmo, alguma preciosidade que, forçosamente, me escaparia. Tosse, uma tosse compulsiva que o faz dobrar repetidas vezes, depois funga aparatosamente e cospe no lenço que dobra com cuidado.
Vejo-lhe os olhos, estão consumidos, obstinados, fixos no ardor do fogo. Eu não estou entre os seus problemas imediatos. De qualquer maneira, não é a mim que dedica o pensamento. Um cêntimo pelo teu pensamento, penso. Mas logo te deténs. Já não há confidência alguma, apenas o silêncio e o estralejar da madeira. Tentas apartar o cheiro intenso do louro do odor das glicínias, situá-los. Se tudo tivesse um lugar próprio as coisas eram mais simples. Não sabes porquê, lembras-te do faiscar afiado e breve dos trolleys… dos esgotos meio esventrados, da altura de um fedelho, na fábrica abandonada… de ti, sempre à minha frente, a pular o trolley, a transpor a mais sombria galeria. Hoje tens a idade que o pai sempre teve e estiveste numa guerra que fez dos loucos homens ainda mais loucos e já nada resta dessa ingenuidade, de resto, posso sabê-lo, perfeitamente ilusória.
- Até essa idade eu era o irmão mais novo.
O irmão mais novo, dez anos mais novo, o irmão que desertou, que, a salto, rasgou aquela linha que o puxaria até Paris. O teu irmão, deu todos os livros começando pelos que em muito mais jovem o coloriam do encardido revolucionário. O teu irmão! Hoje, o senhor teu irmão, de terras e gentes mui abastado, até tem, anexo, um T1 + 1 para as visitas. Que previdente se te revela agora o teu irmão; que seria de ti, sem este irmão que deprecias? Mas tu não sabes agradecer-me, na verdade não podes.
- Estás aí, cabeça de piça? – viras-te na minha direcção. Vais tossir. Tosses outra vez e levas a mão ao peito, estás mesmo mal.
- Falavas – saiu-me, contrafeito.
- Por vezes falo.
Mais ninguém me chama cabeça de piça. Só ele. Está bem que vira demasiados homens e vira demasiadas feras e o fizera pelos dois. Está bem que vira cobardes e avistara bestas. Vira o sangue, quando jorra quente e errático. Não o invejavas, não tinhas esse direito, mas admitias-te em falta. Que viras tu que se lhe comparasse? Ao pé dele, admite, não tens verdadeiras recordações. Admites tudo, tanta coisa. Que mais quer ele? Que porra queres tu de mim?
- Falavas...
E tu fechas-te e deixas-me a falar sozinho, sempre comigo mesmo. Pões o tronco e olhas ainda as chamas, os braços enlouquecidos lançados num alarme. Pegas no copo, leva-lo à boca, puxas o último cigarro, tosses. Não dizes palavra, mas olhas-me, fixas-me, assim sem dizeres palavra. Pensa bem, que conversa podiam vocês ter? Se nunca de ti saem senão palavras! Talvez que te auxiliem elas agora no longo monólogo a que estás sentenciado – certamente mais do que o menosprezo polido que lhe lês nos olhos e que ele julga dissimular. Envelheceu como o pai. É o retrato do pai em mais magro. Os mesmos olhos tremendamente orgulhosos.
- Sei que me censuras – digo-lhe e fico-me, observo-o, o seu rosto a sobrelevar-se no que não é ainda espanto mas vai ser. Não vem todo de uma vez, o espanto; primeiro há uma tensão, um quase recuar, a face ainda hirta, e só depois o desenho do espanto se apodera de todos os traços do rosto, genuíno, legítimo.
- Censurar-te? Só podes ter endoidecido, porque diabo devia eu censurar-te? O preço que pago pelo anexo é generoso. O apartamento é porreirinho, há lugar suficiente para receber, um luxo que nunca poderia pagar pelo preço de um quarto, não lá fora.
- Não se trata do anexo. De que é que falavas?
- De nada, pensava alto. Acontece-me, por vezes.
Censuras-me por ser quem sou, por viver como vivo. Por… – Podias acrescentar uma colecção de razões. Ser o preferido do pai e da madrasta? Por sair ao pai enquanto tu – sempre achaste que só te acontecera a ti – perdias uma mãe? Mas, por algum motivo, não o fizeste. Dizeres-lhe que sabias que te censurava era suficiente. São sempre inúmeras as razões por que se pode ser censurado, uma vez nos desaprovem. E enquanto o examinavas, sabias exactamente o que se lhe afigurava condenável em ti, uma vez que era o que tu tinhas por condenável e só isso; e só a isso e a nada mais do que isso poderia ele atender.
- Falavas dos teus vinte anos. Eu disse-te que por essa idade eu era o irmão mais novo.