Segunda-feira, Maio 25

Força maior


Por motivo de doença mortal do editor este blogue fica temporariamente inactivo. Entretanto,

Terça-feira, Maio 5

O Sr. T. estreia um Diário


Querido Diário,
Hoje, de regresso a casa, as botas cheiraram-me a merda de cavalo. Algures teria pisado bosta, estava visto. Dei por ela, quer-se dizer, por ele, que é odor e forte, entrava já pelo bairro. Desatei a rir.

Variação dois: Concórdia - força e fraqueza (versão infinitiva) *



O bem implica sempre acção, o belo pode ser encontrado nas coisas imóveis.
Aristóteles, Metafísica,1078a1


Parasita, sem objectivos, negligente, irresponsável, quatro noções disparadas com raiva, a torto e a direito, para o ar. Se não fosse com ele, se fosse com outro, teria permanecido mudo e quedo, como quando coisas desagradáveis ocorrem em lugares públicos e somos forçados a assistir, mesmo se alheios e a uma distância segura. Não era o caso. Maria rasgava a boca e era com aquelas tesouras e era ele o alvo.

De há uns tempos para cá, não conseguia distinguir o chegar a casa da ida ao teatro, onde, esperava-se, a mesma peça desenrolar-se-ia e faria semanas. Maria fazia semanas e ele não era um dos entusiastas, para ser sincero, estava farto. Nenhuma daquelas proposições era nova; com variações, o diálogo repetia-se frequentemente de há alguns anos para cá. Ele era capaz de prevê-lo ao pormenor, não apenas quem iria começá-lo, mas quando, em que tom se iniciaria e quem seria o primeiro a abandoná-lo. Na realidade, não era difícil. Se alguma coisa ele sabia, era quem sempre abandonava primeiro a conversa. Ela falaria eternamente.

De nada lhe adiantava berrar, bater com a porta, sair de casa – era como se todo o ridículo da situação se abatesse sobre si. Mas lá a víamos berrar, bater com a porta, sair de casa, sabendo todos, ela inclusive, que não era a atitude a tomar – tinha seis filhos a vê-la berrar, bater com a porta, sair de casa, e eles, debaixo dos braços, a ir com ela, a voltar com ela; em breve teria os seis a imitar-lhe os gestos purgativos como um modo de estar. Podia não o fazer, podia fazê-lo raramente – evitar o hábito a todo o custo. Ou então sair - sair de uma vez, um Verão. Tomar as medidas grandes. Abandonar tudo. Esquecer o amor, o grande amor, porque era enorme.

Que podia ele, um obstáculo à felicidade, fazer? Reconhecia em Maria a capacidade fundamental de intumescer plateias. Por diversas vezes o que se perdia naqueles espectáculos pouco menos do que privados, assaltara-o. Para todos os efeitos, as representações tinham poucos espectadores. Em regra, a suinidade assistente era ele, mesmo se as lágrimas eram bem mais. Talvez por isso aquela queda pelos lugares públicos, onde, imortalizado actor secundário, até do dom da assistência ele era privado. Chegou a imaginar um restaurante afamado a aplaudi-la de pé, ela a agradecer, vénia para um lado, depois vénia para o outro e entre uma e a outra a sapatada na careca com o hilariante efeito Benny Hill. Depois, sempre aquela tirada final: - Porque é que não discutes comigo? E antes que ele pudesse responder: - porque não tens argumentos, não tens argumentos e é tudo. Era tudo. Abater que argumentos?

Ela sabia tão bem como ele que o que lhes estava a acontecer não era do domínio da lógica. Depois ela descrevia-o tão bem, não fora o tom e poder-se-ia acreditá-la apenas noticiosa, inclusive facciosa. É claro que por vezes até ele granjeava o seu quinhão de aplausos. Por exemplo, quando os filhos estavam presentes e ele levantava e recolhia a mão em susto, exclamando, com um ar muito sério: - Vê o que queres mesmo dizer à frente deles, não vão as super-mães cometer super-erros. Tinha o dom de revigorar plateias, esta tirada do actor secundário.

Mas ela rapidamente a desperdiçava. Era o vês. Era só ele lembrar-lho e ela desembestava, cavadela atrás de cavadela, enfurecida pelo contra aplauso. Realmente não precisava de ajuda, e não a tinha.

- De que estás à espera para mostrar que és homem?

Ele? Porquê e em que sentido mostrá-lo? Sempre ouvira tudo o que ela tinha para dizer, já conhecia todas as acusações e as imprecações que traziam pela mão. Estava farto, mas ia exasperar-se por que carga de água, se até aí o não fizera? Levantou-se.

- Julgas que eu não sei que há muito que queres sair, sai de uma vez, desampara-me a loja, sai.
Reaprender a dizer: não, não é isto que eu quero. Não pode ser isto a vida, não pode ser isto a vida deles, não queres que o seja. Não foi com isto que sonhaste. Sequer a vida dela – merece melhor, reconheces. Também ela caiu na mesma ratoeira que tu. Também ela se enamorou, também ela se casou do mesmo casamento. Também ela se cansa.

E tu ama-la, nesse ar de derrotado. Não é a mulher modelo, não senhor, muito menos a puta modelo, não é a mulher Marie Claire, e tu, o que és tu exactamente?

És feia, és boa. Eras boa, sempre ouviste quando diziam; agora serás só feia e mãe. Não te tens a ti, talvez já nem o tenhas a ele, os filhos vão começar a sair, mais ano menos ano. Ele pode aborrecer o género humano e ter a coragem dessa antipatia, mas tu tens muito pouco. Talvez nem saibas porque é que não queres errar sozinha, afinal tens uma carreira ou não terás? Mas será que é isto o que tu não queres? Sabes, ou julgas saber que o amor não cansa, mesmo que as quatro mesmas paredes fechem o quarto, desenhando um exterior de infinitos aposentos. Mas cansa. Tu sabes que sim.

Mas acreditas na força do cheiro, que não há nada que o odor não revigore, que ele também sabe. Que há uma estranha química e que não é assim que se sai da química. Também sabes do jeito dele. Que ver avultar as árvores dilata-o, que já não é o viandante, que está preso pela sola dos pés, pela palma das mãos; tu sabes, ele ainda não.

Era pior para eles que ela o amasse terrivelmente a ponto de no tormento continuado que a si mesmo infligia o esgadanhar? Era pior para eles conhecer todos os lados do amor? Era melhor para eles que ela fosse um obstáculo à felicidade e ele tivesse pena dela? Profundamente, ela amava-o como as flores as abelhas e as águas os peixes. Era melhor para todos que ela não fosse tão fraca e tão forte como se mostrava?

- Fazes-me falta no dia a dia. - Onde estás tu quando faço o que a minha mãe fazia? - Porque não falas comigo?

Ele olhou-a com um ar desgostoso, voltou-se, abriu a porta da casa de banho e cerrou-a devagar atrás dele. Por um momento ainda a ouviu como se o vozear abatesse contra as paredes, deslizasse por elas abaixo e se infiltrasse pelo soalho. Fixou os olhos no roupão dela, na escova de cabelo, na caixa das lentes; caiu-lhe uma lágrima. Fazes-me falta no dia a dia, anuiu. E se ambos acordamos nisto, onde ocorreu um erro tão fatídico? Amanhã saberia do apartamento. Quando tudo estivesse concluído iria deixá-la representar uma última vez.

- Será melhor que não fales mais. Tenho pena de nós.
Era tudo que ele sabia dizer. Isso, mais do que tudo, exasperava-a.

* Qualquer semelhança entre isto e o conto de Walser quase com o mesmo título não é pura coincidência, mesmo se Walser nunca poderia ter escrito isto.