Terça-feira, Junho 30

A promessa


A campainha retiniu, Bim acorreu à janela da sala de estar e oculto pelo estore olhou para baixo, a canadiana chegava, era uma da manhã. À luz ténue do lampião pareceu-lhe encantadora. Broca, recostada na cama, retirara os óculos de massa preta e mostrava uma cara redonda como uma lua.
- É ela, não é? Não me vais deixar mal.
- Prometi que fazia o meu melhor e é o que farei. Que mais queres que te diga?
- Que vais conseguir.
- Vou conseguir, disse-lhe sem convicção.
Broca puxou o camisolão de lã cinzenta que lhe caía pelos ombros, fechou o livro à volta do lápis e escondeu-o debaixo dos grandes almofadões que lhe cobriam a cama que também tinha serventia de sofá. Remexeu uma gaveta do armário de que retirou uma écharpe acobreada com que cobriu o candeeiro. Deu uma volta sobre si, esticou-se, arrancou uma fotografia da corticite e atirou-a para dentro do armário. Voltou a espetar os pinos no placard, encheu o peito de ar e saltou para a cama, estirando-se. A perna esquerda flectida desapareceu por debaixo da túnica preta que a rodeava como uma fina pele, logo abaixo do grosso camisolão. Naquele momento Bim lembrou-se de um caniche.
- Abre. Podes abrir.
Por dentro a porta fora pintada de carmesim, vista do exterior era creme, em madeira lacada. O mesmo acontecia com o papel de parede, em riscado creme no exterior, orange juice no interior. Ao todo, o esconso mal iluminado não teria mais de quatro metros quadrados, por cima o declive do vão de escada e um cano pintado de esmalte amarelo que o atravessava junto ao tecto. Bim fechou a porta. Bastava-lhe voltar-se para estar quase que literalmente em cima delas. Mas a menos que quisesse permanecer de costas, tolamente grudado nos reflexos avermelhados da luz coada, não tinha muita escolha. Acabou por se voltar, não sem antes se deter no espelho por detrás da porta. Broca, atravessada sobre dois almofadões púrpura, olhava-o impaciente por cima da cabeça de Karen. Karen Karenina, sentada de costas para ele, capturara as mãos de Broca e contemplava-as, perfeitamente enternecida, alheia a tudo. Os olhos de Broca, dois cachorrinhos negros, imploravam auxílio. Bim viu-se a sacudir os ombros no espelho.
Pela segunda vez pensou em não se voltar, mas pela segunda vez achou-se ridículo. A sua amizade com Broca assentava em supor uma boa razão por detrás do que, de outro modo, aparecia como um mero capricho. Por nada mais do que isto, estavam agora ali os três, uns quase que em cima dos outros, compondo aquela estranha agremiação. Karen Karenina perdida nas mãos de Broca, Bim perfeitamente claustrofóbico entre a porta e as duas fêmeas e Broca cismando que as mãos de Karen deviam pousar nas mãos de Bim, não nas dela.
- Bim, esta é a Karen. Karen, o Bim é um amigo, um amigo especial.
Bim estava agora de frente para elas. Broca conseguira libertar as suas mãos das mãos de Karen e olhava Bim, um ar contrafeito. Que se lixe, pensou, uma noite como aquela não se repetiria tão cedo. Forçou um sorriso.
Vou conseguir, disse para si próprio.

Quinta-feira, Junho 25

Compostagem

'Num mundo hostil, nada é belo. O belo carece de caução e só o que não é ameaçador pode ser belo.' – O Sr. T. parara e pousava a caneta. Recordou que alguma coisa perto disto escrevera o Sr. K., aquele curioso senhor que o que mais apreciava numa exposição era dela poder voltar a sair.

Noutros tempos, os picos montanhosos, o deserto ou a grande vastidão vazia e gelada foram lugares demasiado ameaçadores para os europeus para serem belos. No início do século vinte houve que acertar o homem com a cividade da recta, depois … antes…

O Sr. T. voltou a pegar na caneta e escreveu: 'A arte e o ornamento são como clareiras abertas de sinais (de mijinhas) que tornam o mundo, bruto e simples, convincente para humano habitat. Ilustram-nos o mundo para a necessidade, dir-se-á. E então, P. tinha razão, mas A. também. As artes fazem o homem, que deixa de olhar o mundo sem mediação, como suspeitava o primeiro, e temos Narciso. Mas não, o homem é a mediação, retorque A., sem arte não há homem, e temos Pigmalião. E agora?'
Pousou a caneta. E agora José?
Oedipa, como ele em grande medida, permaneceria (turbulenta) na ignorância.

(é tempo de dizer que José era um dos primeiros nomes do Sr. T., apesar do bisavó republicano e de chupar pastilhas de mentol)

(abre o pano)

- Tirei-o com a mão. Tomei a pastilha e tudo ruiu, como um cacho de uvas de células. Tive que mergulhar a mão no sangue que jorrava e puxá-lo, era um bonequinho percebes, um boneco morto, uma morte suja. Tive que meter a mão, Pai, como quem desenraíza uma planta perfeita.
- Não era uma pessoa, Eva.
- Então era o quê Pai?
- Uma parte de ti que estava doente, que houve que erradicar. Foste sujeita a uma pequena cirurgia, é como se te tivessem tirado um quisto.
- Um quisto, Pai? Um quisto? Como podes dizer isso?
- Não sobreviria, Eva. Nem ele, nem tu, não assim.
- E achas que eu sobrevivi?
- Estou apenas a dizer que ele não era uma hipótese. Não era ou tu ou ele, mas ou tu ou nada, percebes isto?
- Não. Nunca perceberei. E nunca te perceberei, Pai. Era tão mais simples se a dor fosse tua, fosse tua a culpa…
- Culpa, minha filha?
- Sim, a tua culpa. Porque no fim é da tua culpa que eu sou culpada. Ela veio antes de mim, a tua culpa. Mas fui eu que o arranquei com a mão, onde estavas?
- Filha…
- Odeio-te! Sai. Sai.

(cerra o pano)

Terça-feira, Junho 23

Simples complexidades



A surpresa de Karamallah não era fingida; estava verdadeiramente surpreendido com a persistência e a amplidão de um pensamento inepto que julgava incapaz de florescer em terras ensolaradas. Assim, a velha ideia emitida por ilustres pensadores originários das regiões frias, segundo a qual o mundo seria complicado e absurdo, tinha atravessado os oceanos e as fronteiras para vir aninhar-se no cérebro de um abominável escroque das margens do Nilo. Esta vilania consistente em negar a simplicidade edénica do mundo servia os interesses dos poderosos, posto que justificava todas as dificuldades sofridas pelas massas ignorantes. Karamallah erguia-se com toda a força do seu amor pela vida contra esta perniciosa desinformação.

Albert Cossery, As cores da infâmia


Ando estranho à arte e ao ornamento; não, felizmente, à beleza.

Fernando Macedo, A bordo


O santo cuja água arde nas lamparinas, o vidente cujo fracasso é entendido como o sopro de Deus, o verdadeiro paranóico para quem tudo se organiza nas esferas alegres ou temíveis em redor da sua própria pulsação central, o sonhador cujos jogos de palavras sondam os antigos túneis e os esgotos fétidos da verdade; todos dependem da palavra - a palavra ou aquilo de que a palavra nos protege. A metáfora é então uma tentativa para se alcançar a verdade e uma mentira, dependendo de onde nos encontramos, no interior, em segurança, ou no exterior, perdidos. Oedipa ignorava onde se encontrava.

Thomas Pynchon, The Cryng of Lot 49

Segunda-feira, Junho 22

Junto ao rio


Ao passear sozinho junto ao rio, não pude deixar de reparar que a água rebrilhava mais do que o costume, que os charros eram fumados e a cerveja era bebida.
Ao passear sozinho junto ao rio, não pude deixar de reparar que havia pontes e que as esquinas por vezes tinham lentes convexas entre as crostas da cidade.
Que havia noite, copos, charros, bares, putas e muito mais.
Ao passear sozinho junto ao rio, não pude deixar de reparar num gajo que frente a uma parede branca, junto ao rio, nunca mais parava de mijar.
É verdade que nada disto estava ali para que eu reparasse, mas estava ali, e eu passeava demasiado ali, junto ao rio.
Também ele não estaria ali para que eu reparasse, o gajo que não parava de mijar na parede branca, como se a alvura florisse no seu pénis, junto ao rio.
Também a água cintilava mais do que o costume, é verdade.
E havia a noite, copos, os charros e muito mais.
E eu passeava sozinho, exactamente ali, junto ao rio.

Quinta-feira, Junho 18

Oiço de repente alguém


Quando a morte de outro se anuncia, ainda não foi a tua vez.

A lentidão das chagas afiada ao coração do homem tumultuoso. Entre a afinação e simpatia lisérgica e the jungle há mesas de pé-de-galo e marinheiros absolutamente bêbados.

A estupidez natural deixa-me tranquilo. Um género resistente à estupidez não duraria muito tempo e os deuses precisam de tempo para brincar.

O vazio é o inumano. Um discurso disperso e enlouquecido ainda é a incrustação de um eu errante, de um vivo, do avesso de um morto – o vazio é rasgado pelo rosto que toma a palavra. Não brinco, diz. Brinco, diz.