
A campainha retiniu, Bim acorreu à janela da sala de estar e oculto pelo estore olhou para baixo, a canadiana chegava, era uma da manhã. À luz ténue do lampião pareceu-lhe encantadora. Broca, recostada na cama, retirara os óculos de massa preta e mostrava uma cara redonda como uma lua.
- É ela, não é? Não me vais deixar mal.
- Prometi que fazia o meu melhor e é o que farei. Que mais queres que te diga?
- Que vais conseguir.
- Vou conseguir, disse-lhe sem convicção.
Broca puxou o camisolão de lã cinzenta que lhe caía pelos ombros, fechou o livro à volta do lápis e escondeu-o debaixo dos grandes almofadões que lhe cobriam a cama que também tinha serventia de sofá. Remexeu uma gaveta do armário de que retirou uma écharpe acobreada com que cobriu o candeeiro. Deu uma volta sobre si, esticou-se, arrancou uma fotografia da corticite e atirou-a para dentro do armário. Voltou a espetar os pinos no placard, encheu o peito de ar e saltou para a cama, estirando-se. A perna esquerda flectida desapareceu por debaixo da túnica preta que a rodeava como uma fina pele, logo abaixo do grosso camisolão. Naquele momento Bim lembrou-se de um caniche.
- Abre. Podes abrir.
Por dentro a porta fora pintada de carmesim, vista do exterior era creme, em madeira lacada. O mesmo acontecia com o papel de parede, em riscado creme no exterior, orange juice no interior. Ao todo, o esconso mal iluminado não teria mais de quatro metros quadrados, por cima o declive do vão de escada e um cano pintado de esmalte amarelo que o atravessava junto ao tecto. Bim fechou a porta. Bastava-lhe voltar-se para estar quase que literalmente em cima delas. Mas a menos que quisesse permanecer de costas, tolamente grudado nos reflexos avermelhados da luz coada, não tinha muita escolha. Acabou por se voltar, não sem antes se deter no espelho por detrás da porta. Broca, atravessada sobre dois almofadões púrpura, olhava-o impaciente por cima da cabeça de Karen. Karen Karenina, sentada de costas para ele, capturara as mãos de Broca e contemplava-as, perfeitamente enternecida, alheia a tudo. Os olhos de Broca, dois cachorrinhos negros, imploravam auxílio. Bim viu-se a sacudir os ombros no espelho.
Pela segunda vez pensou em não se voltar, mas pela segunda vez achou-se ridículo. A sua amizade com Broca assentava em supor uma boa razão por detrás do que, de outro modo, aparecia como um mero capricho. Por nada mais do que isto, estavam agora ali os três, uns quase que em cima dos outros, compondo aquela estranha agremiação. Karen Karenina perdida nas mãos de Broca, Bim perfeitamente claustrofóbico entre a porta e as duas fêmeas e Broca cismando que as mãos de Karen deviam pousar nas mãos de Bim, não nas dela.
- Bim, esta é a Karen. Karen, o Bim é um amigo, um amigo especial.




