
“ Os primeiros chilreios dos pássaros ao acordar marcam o point-vierge [ponto virgem] da aurora sob um céu ainda desprovido de verdadeira luz. É um momento de temor reverente e de inexprimível inocência, quando o Pai, em perfeito silêncio, lhes abre os olhos. Eles começam a falar-Lhe, não num canto fluente, mas com uma pergunta de despertar que é o seu estado de aurora, o seu estado no point-vierge. A sua condição pergunta se é tempo de ‘ser’. Ele responde que “sim”. Então, um por um, despertam e tornam-se passarinhos. Manifestam-se como passarinhos e começam a cantar. Logo serão plenamente eles mesmos e até voarão.
Há aqui um segredo inefável: o paraíso envolve-nos e não percebemos. Está escancarado e não entendemos. A espada foi retirada, mas não sabemos. Partimos: ‘um para a sua herdade, outro para os seus negócios’. Luzes acesas. Tiquetaque dos relógios. Barómetros em acção. Os fogões cozinhando. Os barbeadores eléctricos atestando os rádios de estática. ‘Sabedoria’ clama o servente da aurora, mas não acorremos.”
Thomas Merton, Conjectures of a Guilty Bystander