Quinta-feira, Julho 23

The least


Amanhã vou fazer de conta que estico homens na confiança onde eles esmorecem

maquilhagem


O cenário coagula e estala, zelosos os estucadores velam para que readquira a primitiva flexibilidade. Pintam-se-lhe os lábios, penteiam-se-lhe os longos cabelos.

Quarta-feira, Julho 22

pluf...


Belas são as ideias feitas enquanto se fazem. Uma maneira de embelezar o mundo para o receber. A arte não difere de varrer o chão.

Domingo, Julho 19

Tire-se o Pai da boca, disse o Sr. T., o resto fica...


“ Os primeiros chilreios dos pássaros ao acordar marcam o point-vierge [ponto virgem] da aurora sob um céu ainda desprovido de verdadeira luz. É um momento de temor reverente e de inexprimível inocência, quando o Pai, em perfeito silêncio, lhes abre os olhos. Eles começam a falar-Lhe, não num canto fluente, mas com uma pergunta de despertar que é o seu estado de aurora, o seu estado no point-vierge. A sua condição pergunta se é tempo de ‘ser’. Ele responde que “sim”. Então, um por um, despertam e tornam-se passarinhos. Manifestam-se como passarinhos e começam a cantar. Logo serão plenamente eles mesmos e até voarão.
Há aqui um segredo inefável: o paraíso envolve-nos e não percebemos. Está escancarado e não entendemos. A espada foi retirada, mas não sabemos. Partimos: ‘um para a sua herdade, outro para os seus negócios’. Luzes acesas. Tiquetaque dos relógios. Barómetros em acção. Os fogões cozinhando. Os barbeadores eléctricos atestando os rádios de estática. ‘Sabedoria’ clama o servente da aurora, mas não acorremos.”


Thomas Merton, Conjectures of a Guilty Bystander

Terça-feira, Julho 14

Cantando e rindo


Inopinadamente, surge uma musiqueta. Inútil, inexplicável emerge dos profundos recessos da mente e dá-se ao ouvido interno. Quanto mais ligeira a música melhor regressa ao ouvido, é um facto. Onde uma razão para este luxo da memória?

Ele há lentes...


Que a vida nos aproxime e afaste é uma evidência e as evidências estruturam-se comummente. Mas, ontem, o Sr. T. reviu uma amiga que não já não via há alguns anos e tudo se lhe confundiu. Que velho que eu estou, pensou o Sr. T., os olhos presos na felicidade gasta que agora ali se lhe transfigurava. A que ponto queremos reviver-nos? A bem da verdade, o Sr. T. acercava aquele ténue confim onde o futuro ou esmorece ou rebenta ou nos deixa exactamente na mesma. Ora, quando não há futuro, não há nenhum passado, e então nada para reviver. E quando não reconheceres ninguém? – ainda pensou - mas a questão já não se punha. E nisto pensando, o Sr. T., muitíssimo mais sossegado, prosseguiu de novo no seu inofensivo desvio.

Segunda-feira, Julho 13

Como é que os gajos souberam...

Do you love pills? Oxycontin, Hydrocodone and Valium at our Online Pharmacy. Guaranteed delivery and savings. No prescription required.
Yours,
Online Pharmacy, we love pills.

Terça-feira, Julho 7

Problema com pássaros




Acordas, o sol funde o estore, ainda não são nove horas e as listas de sol queimam a pele. Que há que te obrigue? Nada. São nove da manhã, caíste num sábado inesperado - não tens nada para deixar de ser feito, nada para fazer. Estás um perfeito morcão, Anacreonte. Ligas a máquina do café e pões os comprimidos em linha, perguntas-te há quanto tempo não lês as bulas. O café acorda-te, os comprimidos parece que sim, o banho certamente. Se estivesses idiota perguntarias: Serei pássaro?
Acordas, o sol bate-te nos olhos desenhando uma faixa de fogo. Por essa altura, o café já está cheio de pássaros. Ainda os retiras com uma colherzinha de chá, mas é tarde, tarde demais. Custa-te conter cada sorvo e mexes, mexes furiosamente o café. Sem pássaros, por favor – chegaras a pedir. Em vão.
Acordas, são dez horas e estás lavadinho, escapaste aos pardais, o cabelo escorre-te para trás, mas os pássaros não formam gota. Estás muito branco, é verdade. Já tomaste os comprimidos. Mas continuas muito branco, Anacreonte. Esfregas as mãos em molho de tomate e ensaboas a cara com ele, abres uma cerveja e estendes-te na varanda, fazes um charro. O sol queima a alma.
Acordas, os pássaros esvoaçam em redor. Sentes-te camaleão e num golpe de língua deglute-los um a um. Não falhas. ‘Passarinhos com Super Bock’, pensas.
É sábado até segunda-feira. Abres a segunda Bock e pensas que tens um problema com os dias de semana.

Diário de Anacreonte

Domingo, Julho 5

Ata-me!


- ... mais do que sombras?
- Sim, muito mais. Telas gigantescas cobrindo toda a extensão dos protectorados, pinturas capazes de afugentar o inimigo e reunir os acólitos, está a perceber, não está? As paliçadas e o covil, o medo e o amor; sim, e dentro de telas o mundo…
- … seria outro.
- Exactamente, no interior das telas…
- … mais um mundo perfeito!
Ele já não o ouvia. Um pouco mais à frente, atava o pano cru entre as duas cerejeiras e já empunhava o pau de carvão.

Sexta-feira, Julho 3

Mestre

- Mestre, a consciência histórica, entra ela em confronto com a necessidade de uma ética? Preciso mesmo de saber, coisas de senhoras.
- Mas com certeza, queridinha. Mas, diga-me, encontra algo mais próprio à consciência, entre senhoras?