
Terça-feira, Julho 14
Cantando e rindo

Ele há lentes...

Segunda-feira, Julho 13
Como é que os gajos souberam...
Terça-feira, Julho 7
Problema com pássaros

Acordas, o sol bate-te nos olhos desenhando uma faixa de fogo. Por essa altura, o café já está cheio de pássaros. Ainda os retiras com uma colherzinha de chá, mas é tarde, tarde demais. Custa-te conter cada sorvo e mexes, mexes furiosamente o café. Sem pássaros, por favor – chegaras a pedir. Em vão.
Acordas, são dez horas e estás lavadinho, escapaste aos pardais, o cabelo escorre-te para trás, mas os pássaros não formam gota. Estás muito branco, é verdade. Já tomaste os comprimidos. Mas continuas muito branco, Anacreonte. Esfregas as mãos em molho de tomate e ensaboas a cara com ele, abres uma cerveja e estendes-te na varanda, fazes um charro. O sol queima a alma.
Acordas, os pássaros esvoaçam em redor. Sentes-te camaleão e num golpe de língua engole-los um a um. Não falhas. ‘Passarinhos com Super Bock’, pensas. É sábado até segunda-feira. Abres a segunda Bock e pensas que tens um problema com os dias de semana.
Domingo, Julho 5
Sexta-feira, Julho 3
Há consciência e consciência
Terça-feira, Junho 30
A promessa

Sexta-feira, Junho 26
Contas

A constatação foi um choque para todos.
Quinta-feira, Junho 25
Compostagem
'Num mundo hostil, nada é belo. O belo carece de caução e só o que não é ameaçador pode ser belo.' – O Sr. T. parara e pousava a caneta. Recordou que alguma coisa perto disto escrevera o Sr. K., aquele curioso senhor que o que mais apreciava numa exposição era dela poder voltar a sair.Noutros tempos, os picos montanhosos, o deserto ou a grande vastidão vazia e gelada foram lugares demasiado ameaçadores para os europeus para serem belos. No início do século vinte houve que acertar o homem com a cividade da recta, depois … antes…
O Sr. T. voltou a pegar na caneta e escreveu: 'A arte e o ornamento são como clareiras abertas de sinais (de mijinhas) que tornam o mundo, bruto e simples, convincente para humano habitat. Ilustram-nos o mundo para a necessidade, dir-se-á. E então, P. tinha razão, mas A. também. As artes fazem o homem, que deixa de olhar o mundo sem mediação, como suspeitava o primeiro, e temos Narciso. Mas não, o homem é a mediação, retorque A., sem arte não há homem, e temos Pigmalião. E agora?'
Pousou a caneta. E agora José?
Oedipa, como ele em grande medida, permaneceria (turbulenta) na ignorância.
(é tempo de dizer que José era um dos primeiros nomes do Sr. T., apesar do bisavó republicano e de chupar pastilhas de mentol)
(abre o pano)
- Não era uma pessoa, Eva.
- Então era o quê Pai?
- Uma parte de ti que estava doente, que houve que erradicar. Foste sujeita a uma pequena cirurgia, é como se te tivessem tirado um quisto.
- Um quisto, Pai? Um quisto? Como podes dizer isso?
- Não sobreviria, Eva. Nem ele, nem tu, não assim.
- E achas que eu sobrevivi?
- Estou apenas a dizer que ele não era uma hipótese. Não era ou tu ou ele, mas ou tu ou nada, percebes isto?
- Não. Nunca perceberei. E nunca te perceberei, Pai. Era tão mais simples se a dor fosse tua, fosse tua a culpa…
- Culpa, minha filha?
- Sim, a tua culpa. Porque no fim é da tua culpa que eu sou culpada. Ela veio antes de mim, a tua culpa. Mas fui eu que o arranquei com a mão, onde estavas?
- Filha…
- Odeio-te! Sai. Sai.
(cerra o pano)
Terça-feira, Junho 23
Simples complexidades

Segunda-feira, Junho 22
Junto ao rio

Ao passear sozinho junto ao rio, não pude deixar de reparar que havia pontes e que as esquinas por vezes tinham lentes convexas entre as crostas da cidade.
Que havia noite, copos, charros, bares, putas e muito mais.
Ao passear sozinho junto ao rio, não pude deixar de reparar num gajo que frente a uma parede branca, junto ao rio, nunca mais parava de mijar.
É verdade que nada disto estava ali para que eu reparasse, mas estava ali, e eu passeava demasiado ali, junto ao rio.
Também ele não estaria ali para que eu reparasse, o gajo que não parava de mijar na parede branca, como se a alvura florisse no seu pénis, junto ao rio.
Também a água cintilava mais do que o costume, é verdade.
E havia a noite, copos, os charros e muito mais.
E eu passeava sozinho, exactamente ali, junto ao rio.
Quinta-feira, Junho 18
Oiço de repente alguém

A estupidez natural deixa-me tranquilo. Um género resistente à estupidez não duraria muito tempo e os deuses precisam de tempo para brincar.
O vazio é o inumano. Um discurso disperso e enlouquecido ainda é a incrustação de um eu errante, de um vivo, do avesso de um morto – o vazio é rasgado pelo rosto que toma a palavra. Não brinco, diz. Brinco, diz.
Segunda-feira, Maio 25
Terça-feira, Maio 5
O Sr. T. estreia um Diário
Variação dois: Concórdia - força e fraqueza (versão infinitiva) *

Parasita, sem objectivos, negligente, irresponsável, quatro noções disparadas com raiva, a torto e a direito, para o ar. Se não fosse com ele, se fosse com outro, teria permanecido mudo e quedo, como quando coisas desagradáveis ocorrem em lugares públicos e somos forçados a assistir, mesmo se alheios e a uma distância segura. Não era o caso. Maria rasgava a boca e era com aquelas tesouras e era ele o alvo.
De há uns tempos para cá, não conseguia distinguir o chegar a casa da ida ao teatro, onde, esperava-se, a mesma peça desenrolar-se-ia e faria semanas. Maria fazia semanas e ele não era um dos entusiastas, para ser sincero, estava farto. Nenhuma daquelas proposições era nova; com variações, o diálogo repetia-se frequentemente de há alguns anos para cá. Ele era capaz de prevê-lo ao pormenor, não apenas quem iria começá-lo, mas quando, em que tom se iniciaria e quem seria o primeiro a abandoná-lo. Na realidade, não era difícil. Se alguma coisa ele sabia, era quem sempre abandonava primeiro a conversa. Ela falaria eternamente.
De nada lhe adiantava berrar, bater com a porta, sair de casa – era como se todo o ridículo da situação se abatesse sobre si. Mas lá a víamos berrar, bater com a porta, sair de casa, sabendo todos, ela inclusive, que não era a atitude a tomar – tinha seis filhos a vê-la berrar, bater com a porta, sair de casa, e eles, debaixo dos braços, a ir com ela, a voltar com ela; em breve teria os seis a imitar-lhe os gestos purgativos como um modo de estar. Podia não o fazer, podia fazê-lo raramente – evitar o hábito a todo o custo. Ou então sair - sair de uma vez, um Verão. Tomar as medidas grandes. Abandonar tudo. Esquecer o amor, o grande amor, porque era enorme.
Que podia ele, um obstáculo à felicidade, fazer? Reconhecia em Maria a capacidade fundamental de intumescer plateias. Por diversas vezes o que se perdia naqueles espectáculos pouco menos do que privados, assaltara-o. Para todos os efeitos, as representações tinham poucos espectadores. Em regra, a suinidade assistente era ele, mesmo se as lágrimas eram bem mais. Talvez por isso aquela queda pelos lugares públicos, onde, imortalizado actor secundário, até do dom da assistência ele era privado. Chegou a imaginar um restaurante afamado a aplaudi-la de pé, ela a agradecer, vénia para um lado, depois vénia para o outro e entre uma e a outra a sapatada na careca com o hilariante efeito Benny Hill. Depois, sempre aquela tirada final: - Porque é que não discutes comigo? E antes que ele pudesse responder: - porque não tens argumentos, não tens argumentos e é tudo. Era tudo. Abater que argumentos?
Ela sabia tão bem como ele que o que lhes estava a acontecer não era do domínio da lógica. Depois ela descrevia-o tão bem, não fora o tom e poder-se-ia acreditá-la apenas noticiosa, inclusive facciosa. É claro que por vezes até ele granjeava o seu quinhão de aplausos. Por exemplo, quando os filhos estavam presentes e ele levantava e recolhia a mão em susto, exclamando, com um ar muito sério: - Vê o que queres mesmo dizer à frente deles, não vão as super-mães cometer super-erros. Tinha o dom de revigorar plateias, esta tirada do actor secundário.
Mas ela rapidamente a desperdiçava. Era o vês. Era só ele lembrar-lho e ela desembestava, cavadela atrás de cavadela, enfurecida pelo contra aplauso. Realmente não precisava de ajuda, e não a tinha.
- De que estás à espera para mostrar que és homem?
Ele? Porquê e em que sentido mostrá-lo? Sempre ouvira tudo o que ela tinha para dizer, já conhecia todas as acusações e as imprecações que traziam pela mão. Estava farto, mas ia exasperar-se por que carga de água, se até aí o não fizera? Levantou-se.
- Julgas que eu não sei que há muito que queres sair, sai de uma vez, desampara-me a loja, sai.
E tu ama-la, nesse ar de derrotado. Não é a mulher modelo, não senhor, muito menos a puta modelo, não é a mulher Marie Claire, e tu, o que és tu exactamente?
És feia, és boa. Eras boa, sempre ouviste quando diziam; agora serás só feia e mãe. Não te tens a ti, talvez já nem o tenhas a ele, os filhos vão começar a sair, mais ano menos ano. Ele pode aborrecer o género humano e ter a coragem dessa antipatia, mas tu tens muito pouco. Talvez nem saibas porque é que não queres errar sozinha, afinal tens uma carreira ou não terás? Mas será que é isto o que tu não queres? Sabes, ou julgas saber que o amor não cansa, mesmo que as quatro mesmas paredes fechem o quarto, desenhando um exterior de infinitos aposentos. Mas cansa. Tu sabes que sim.
Mas acreditas na força do cheiro, que não há nada que o odor não revigore, que ele também sabe. Que há uma estranha química e que não é assim que se sai da química. Também sabes do jeito dele. Que ver avultar as árvores dilata-o, que já não é o viandante, que está preso pela sola dos pés, pela palma das mãos; tu sabes, ele ainda não.
Era pior para eles que ela o amasse terrivelmente a ponto de no tormento continuado que a si mesmo infligia o esgadanhar? Era pior para eles conhecer todos os lados do amor? Era melhor para eles que ela fosse um obstáculo à felicidade e ele tivesse pena dela? Profundamente, ela amava-o como as flores as abelhas e as águas os peixes. Era melhor para todos que ela não fosse tão fraca e tão forte como se mostrava?
- Fazes-me falta no dia a dia. - Onde estás tu quando faço o que a minha mãe fazia? - Porque não falas comigo?
Ele olhou-a com um ar desgostoso, voltou-se, abriu a porta da casa de banho e cerrou-a devagar atrás dele. Por um momento ainda a ouviu como se o vozear abatesse contra as paredes, deslizasse por elas abaixo e se infiltrasse pelo soalho. Fixou os olhos no roupão dela, na escova de cabelo, na caixa das lentes; caiu-lhe uma lágrima. Fazes-me falta no dia a dia, anuiu. E se ambos acordamos nisto, onde ocorreu um erro tão fatídico? Amanhã saberia do apartamento. Quando tudo estivesse concluído iria deixá-la representar uma última vez.
- Será melhor que não fales mais. Tenho pena de nós.
Era tudo que ele sabia dizer. Isso, mais do que tudo, exasperava-a.
* Qualquer semelhança entre isto e o conto de Walser quase com o mesmo título não é pura coincidência, mesmo se Walser nunca poderia ter escrito isto.
Quarta-feira, Abril 29
Marcel

Duchamp estava pesaroso como se acabasse de fechar o livro da vida e pela primeira vez todo o seu peso oprimisse o pavimento.
Aquela sensação renovada de peso enterneceu-o, sofreu-a como se tivesse que a memorizar antes da definitiva leveza, como se houvesse aí uma necessidade e a vida adensasse na palavra peso. A leveza que ainda agora pressentira, o seu carácter imperioso, essa em breve o precipitaria com mão pouco afável.
- “Tive uma vida absolutamente maravilhosa” - escreveu.
O seu rosto já não era o de alguém pesaroso, Duchamp levitava. Talvez para que o medo não contaminasse os adolescentes, a quem a morte e a velhice precocemente envergonham. - A leveza, elle a chaud au cul, ainda berrou para o inepto grupo de adeptos e simpatizantes, de cima de uma nuvem. Depois deu o braço a Cossery e pulando de nuvem em nuvem foram ambos a espreitar os deuses.
Terça-feira, Abril 28
Vicent

Gogh, os olhos postos na pistola por terra, sangrava desalmadamente. Devia tê-la pintado antes de a usar, pensava. O quadro despontava na sua cabeça, o que por um momento o espertou na rara dormência que o atingira. – Ah, exclamou o enlevado Gogh. Depois expirou entre torvelinhos de luz.
Felizmente, Theo apontou aquele ‘Ah’. Quem tem um irmão como Theo pode morrer descansado.
Quinta-feira, Abril 23
Seutor Galhano

Onze horas da manhã. Entras no quiosque, cabelo molhado, e o senhor com o capachinho arruivado dá-te passagem. O fato negro é excessivo e está puído nas mangas, por cima uma gabardine creme, não propriamente impecável, as calças um pouco curtas, há coisas que não podes deixar de notar, sobretudo num dia de sol. Com o calor o senhor com o capachinho arruivado exala um perfume reles a lavanda, tão forte que te perguntas se alguma vez experimentara tomar um banho. - Sim, Seutor? Nesse preciso pousas as mãos no balcão e mencionas que queres mortalhas, dois pacotes. - De quais, Seutor? Pergunta-te ela, mas a tua voz arrastada já te traiu. A senhora que está ao teu lado, uma loura platinada até ao buço, mexe-se sobre os tornozelos e faz menção de se te distanciar e olha-te, assim como quem não quer: eu não estou a olhá-lo, diria ela se fosse suficientemente inteligente, estou a olhar através de si. Quase podias acreditar nisso.
Olha-la prolongadamente, abres mais os olhos para que bem se te veja o vermelho vascular invadindo as córneas. Agradeces, como se uma cortesia que te é feita e, já virado para a senhora ao balcão, dizes que queres Smoking, das pretas. Ah, e aquele livro de jogos numéricos. Melindra-te um ruído de cochicho, mas não te voltas. Ainda apercebes alguém entrar, alguém que cumprimentas um tanto cerimoniosa e distraidamente agora que pegavas no livro, tinhas guardado as mortalhas e preparavas-te para sair.
- Então um bom dia, Seutor. Obrigado, Seutor. Conhece-te desde que para ali te mudaste. Cinco anos? Baixas a cabeça em sinal de reconhecimento. De saída quase tropeças nos tornozelos da loura.- Peço desculpa. Tenha a bondade. Nem se faz rogada, o queixo levantado, toda ela cheira a coisas e pós e cremes e aspersões. O capachinho arruivado, um tanto mais relutante mas não menos aromático, segue-a. Cá fora abrandam o passo, olham para trás ficam a falar um com o outro, não te interessa. São onze e dez, segues o teu caminho.
Domingo, Abril 19
Variação um: Os gatos voltam sempre

– Sabes qual é o teu problema? - Ele sabia de vários e tão indistintos como inconstantes, mas pelo sim pelo não preveniu-se para mais um, talvez que este fosse de todo diferente, talvez que este fosse o verdadeiro problema, o problema que havia que resolver para continuar a viver. - O teu problema é que tu não gostas dos outros, esse é o teu problema, e o pior, é que nem de ti mesmo consegues gostar, que vives zangado com o mundo, que não quero o António a crescer assim. O seu problema, em suma, era o problema que António poderia vir a ter. Não era a primeira vez que lho ouvia, desta vez, porém, a sua voz soava-lhe diferente, diferente ao ponto de a não entender cabalmente, de não perceber, pelo menos de início, o que lhe queria ela dizer com aquelas exactas palavras.
Subitamente, tudo ficava claro. Era o fim do capítulo e a ela coubera fechá-lo. Simples pretextos, percebia-o agora, nada mais que pretextos para atalhar o capítulo - de modo nenhum, como ela lhe parecia exigir, para que tudo recomeçasse outra vez pleno, outra vez cheio de intenção. Mas demorou a percebê-lo. – Que queres de mim, Maria Jorge?
– Que quero eu? Deixar de ser necessária, acordar, um dia que seja, como impossível. Consegues perceber isto?
– Mas, eu amo-te Maria Jorge, não me tires a única certeza que tenho – disse-lhe ele, sabendo embora que estava a ser hipócrita e que já nem palavras como essas que agora lhe saíam o poderiam alguma vez salvar. No íntimo, sabia que já nada o poderia salvar. Que nunca, tendo-a por necessária, ela voltaria a ser-lhe impraticável.
– Diz-me como, como podia eu voltar a tê-la por impossível? - A espaços, enquanto distraidamente afagava o gato, pareceu-me que ainda a olhava, como se lhes procurasse uma saída, um rasgão na vida que os devolvesse ilesos, incólumes - que lhes assegurasse um seguimento mínimo. Como te enganavas! Se, e tu sabia-lo, ela nunca aceitaria um seguimento mínimo. Se ela já tudo tinha decidido, e tu ficavas, desta vez tu ficavas, o que só por si complicava as perspectivas, se era ela quem estava em casa da mãe, ela e o António, na casa da avó. Se, por uma vez, não lhe notavas qualquer agitação na voz.
- Não, não me amas! – era extraordinário, dito naquela voz longínqua que se afastava para o afirmar e logo depois dele se aproximava, já segredando: – Aclimatamo-nos, preocupamo-nos, mas é isso, e é só. Então, o que queria ela dele?
– Quero saber se ainda te amo, disse-lhe ela. Não podes saber o que ela quer dizer com isto, todos sabemos como é difícil o amor; mas podes perceber que ela, nesse momento, nunca mais voltará. Há que esperar o momento feliz, pensas e quedas-te, algo aturdido; depois os olhos ficam-te duros como o vidro, como se algo dentro de ti, fracturado, expirasse lenta mas inexoravelmente e nada pudesses fazer. Ela confirmava-to, cara a cara; que algo se fracturou, que algo está morto, morto até prova em contrário, e, toda a gente sabe, o mais difícil é decidir o primeiro passo, que só esse é ainda nosso, que depois se lhe segue um ritmo, que já não há outros passos.
- O que farias por mim? Como vais fazer com que volte para ti? Um mal entendido, pensas tu, não vais fazer nada, és como és, de certa maneira como sempre foste, que poderias tu fazer? Da noite para o dia, a transfiguração não acontece - nem acontece sempre, mesmo com o tempo todo. - Quero saber se ainda te amo, foi o que ela lhe disse. Que ele não gostava nem mesmo de si próprio - também se lembrava desta parte. Parte essencial dos seus problemas, este do inesperado desamor próprio, uma vez que nele se decidia o mal entendido: ela, Maria Jorge, jamais o poderia amar, comprovado que estava que nem mesmo ele conseguia amar-se. Digo mal entendido? Não devia dizê-lo. Não há, na verdade, qualquer mal entendido, apenas a erosão simples. Ele teria que ter mudado - mudado desde que ela primeiro o amara e mudado apenas por amor dela o que, para Maria Jorge, resumia-se a mudar tão somente por amor da mudança. Coisa inexprimível, todavia verdadeira! Ele, que nunca pusera as coisas em tais termos, continuou a não as pôr.
Do seu ponto de vista, ele era quem sempre fora e não havia como mudar alguém que era como sempre fora. Maria Jorge conhecera-o assim, ela dele assim se apaixonara, mas agora não, agora queria perceber se ainda o amava. Já não o amava, era tudo. - Que mais queria ela dele? - Que não era fácil viver com ele? - Mas é fácil, alguma vez foi fácil, viver com os outros? Perguntavas-te. E todavia, Maria Jorge ia conseguindo viver com ele – o peso da memória ainda reparava as lamúrias, as neuras, os hábitos de rapaz que ela pensara que desapareceriam com o tempo e que não desapareceram e que ele, pela sua parte, de todo iria repudiar. Conseguia, porém, viver melhor sem ele, desde que a tal se tinha decidido. - Já não me ama, é tudo. Era tudo, e no entanto transbordava.
É claro que tudo isto não saltara do pé para a mão, e se não causas havia-as boas as razões, mesmo se e para o caso não era importante. Interessa apenas dizer que ela tinha as suas, não menos fiáveis do que as dele, talvez mais sofridas, certamente mais trágicas no seu capital equívoco, entre a realidade e o desejo.
– Porque já não pintas tu? - perguntava-lhe ela mais uma vez. Porque já não ouvisse talvez o convidar da tela, o apelo fresco dos pigmentos, o odor dos óleos essenciais, pensou. Mas nem isso era verdade, quem, no tempo das instalações, do multimédia, ainda pintava? E porque lhe perguntava ela isso, a ele? Porquê sempre nesses momentos em que a vida amargava mais, como se estivesse ele constrangido a pintar apenas porque assim a ela lhe agradasse, e, parando ele de o fazer, tudo, a começar por eles, ameaçasse o desmoronamento? Interessará também dizer que ela tinha vinte anos de boas razões - haviam casado há precisamente vinte anos, no dia 18 de Abril, e há mais de quinze anos que ele não pintava nada, que sequer desenhava, sequer como entretenimento, por exemplo, ao telefone. Há quinze anos! - pensou ela. Mas desta vez tu ficavas em casa e era Maria Jorge quem saía, que tudo era novo a este ponto. Que tudo era tão novo e estranho.
- Zangado com o mundo? Talvez, a realidade não é a vida, não é o mesmo, todos sabemos isso, não é verdade? Achas-me tu uma má influência no António?
– Porque é que não te aplicas a escrever tu o próximo capítulo? – pergunto-lhe, à laia de fuga a uma resposta mais precisa. - Porquê? Porque o gajo que tu e a Maria Jorge conhecem não escreve, nunca escreveu e não passará a escrever só porque alguma coisa aconteceu; as coisas à nossa volta estão sempre a acontecer. Fosse como fosse, mesmo se por azougadas linhas, tudo estava de antemão decidido. Ele nunca imitaria o amante ferido de um grande amor, nem mesmo no modo da ironia, ela devia sabê-lo, conhecia-o demasiado bem, sabia que não era assim que ele amava. Maria Jorge, por seu lado, não voltaria, a menos que de novo apaixonada como no primeiro momento, conquistada por um homem que, forçosamente, já não seria ele. Poderia, algures, haver de novo um momento feliz, um momento realmente novo naquela sua relação com Maria Jorge? Sabia que não era provável, que o mais certo era em pouco tempo qualquer relação estar mais defunta do que os próprios mortos, a menos que um dia reacendesse, talvez por segredos da separação. Mas não, não te parecia verosímil.
Abres a porta, deixas sair o gato que outra coisa não quer, voltas a fechá-la. – Os gatos voltam sempre, dizes, um gato que não volta é um gato morto. - Mas não me chegaste a responder, dizes. É verdade. Não responderas, antes descaradamente fugias, mesmo, o que também era verdade, se o fazias com relativo insucesso - mas como é que se responde a isto, como, com alguma franqueza, dizer sim e não, como não responder apenas claro que não? Pensas no teu pai, na sua têmpera grave, ora desalentada ora atemorizante – mas havia ele exercido uma má influência em ti? Era-te difícil lembrar o suficiente, mas, assim de repente, não te concedias ameaçado, como te diziam que acontecia, e nunca o teu pai, embora com o seu carácter, fora um mostrengo, isso conseguias saber; bem pelo contrário. Mas havia ele exercido uma má influência em ti, teria Maria Jorge universalmente razão e deveriam as mães cuidar de quanto antes retirar os filhos da alçada dos pais? É claro que Maria Jorge não tivera em mente o caso geral quando em mau dia o insinuara.
– Diz-me tu, achas-me tu uma má influência nos meus filhos?
O seu olhar distanciara-se bem para lá da janela, depois o seu pescoço rodou e os olhos ficaram à altura dos meus, foi então que sorriu.
– Os filhos, o meu os teus, chegada a altura matam o pai e continuam filhos. Eu e a Maria Jorge dificilmente permaneceremos casados.
Recomeçava a chover. Os raios do sol poente rasgavam ainda por entre a chuva, os ponteiros do relógio da sala pendiam ambos, exactamente nas seis e meia. – A esta hora a Maria Jorge aperta-lhe o cinto, disse ele. - Tem doze anos, mas ela teima em ser ela a apertar-lhe o cinto.
Quarta-feira, Abril 15
Ele - Parte II

- Nova era a circunstância e a cada um cabia dar um passo, apenas o primeiro, um passo solitário e irreversível na direcção desconhecida. Todos os passos, creio, foram diferentes. No meu caso, tudo o que fiz, tive que o fazer, habituei-me a essa ideia. Coisas que ocorreram, que teriam de ocorrer, estando eu onde estava e aí estando porque tinha que estar.
- Durante todo esse tempo, não estive atrás de ti.
- Estavas onde tinhas de estar. Eu, pela minha parte, sempre estive onde havia que estar e nunca me perguntei o que acharias disso. Parou. Há pouco tempo atrás julgaria nunca vir a dizer nada como isto. Quantos, com ideais muito mais austeros do que os dele, jamais ousaram pôr pelas costas o terror a que outros, seus irmãos e amigos, se entregavam. Águas passadas, pensou. Posto isto, vindo de muito longe, pôs-se a olhar-me como se procurasse um apoio, um estímulo para prosseguir.
- Pergunto-te agora, pretendes que me vá embora, isso sossegar-te-ia, é isso?
- E então?
- Fica. Temos muito que falar. Digamos que desta não temos como fugir a falar. Tens um cancro muito feio no pulmão, o médico contou-me; parece que estás por pouco, meu velho. Desta vez não podes simplesmente ir embora, ninguém vai embora da morte. Tens alguma coisa mais forte do que cerveja?
- Serve-te – apontou-me o compartimento junto à cozinha –, tens aí gelo no teu frigorífico. Tens um cigarro?
Ele - parte I

Vejo-lhe os olhos, estão consumidos, obstinados, fixos no ardor do fogo. Eu não estou entre os seus problemas imediatos. De qualquer maneira, não é a mim que dedica o pensamento. Um cêntimo pelo teu pensamento, penso. Mas logo te deténs. Já não há confidência alguma, apenas o silêncio e o estralejar da madeira. Tentas apartar o cheiro intenso do louro do odor das glicínias, situá-los. Se tudo tivesse um lugar próprio as coisas eram mais simples. Não sabes porquê, lembras-te do faiscar afiado e breve dos trolleys… dos esgotos meio esventrados, da altura de um fedelho, na fábrica abandonada… de ti, sempre à minha frente, a pular o trolley, a transpor a mais sombria galeria. Hoje tens a idade que o pai sempre teve e estiveste numa guerra que fez dos loucos homens ainda mais loucos e já nada resta dessa ingenuidade, de resto, posso sabê-lo, perfeitamente ilusória.
- Até essa idade eu era o irmão mais novo.
- Estás aí, cabeça de piça? – viras-te na minha direcção. Vais tossir. Tosses outra vez e levas a mão ao peito, estás mesmo mal.
- Falavas – saiu-me, contrafeito.
- Por vezes falo.
Mais ninguém me chama cabeça de piça. Só ele. Está bem que vira demasiados homens e vira demasiadas feras e o fizera pelos dois. Está bem que vira cobardes e avistara bestas. Vira o sangue, quando jorra quente e errático. Não o invejavas, não tinhas esse direito, mas admitias-te em falta. Que viras tu que se lhe comparasse? Ao pé dele, admite, não tens verdadeiras recordações. Admites tudo, tanta coisa. Que mais quer ele? Que porra queres tu de mim?
- Falavas...
E tu fechas-te e deixas-me a falar sozinho, sempre comigo mesmo. Pões o tronco e olhas ainda as chamas, os braços enlouquecidos lançados num alarme. Pegas no copo, leva-lo à boca, puxas o último cigarro, tosses. Não dizes palavra, mas olhas-me, fixas-me, assim sem dizeres palavra. Pensa bem, que conversa podiam vocês ter? Se nunca de ti saem senão palavras! Talvez que te auxiliem elas agora no longo monólogo a que estás sentenciado – certamente mais do que o menosprezo polido que lhe lês nos olhos e que ele julga dissimular. Envelheceu como o pai. É o retrato do pai em mais magro. Os mesmos olhos tremendamente orgulhosos.
Domingo, Março 29
Cordeiro de Deus

- Pára lá, pai!
- Sim?
- E se eu não cumprir as cláusulas?
Era tarde demais. O nascituro já berrava sem resposta, concretizando a vontade do pai e a possibilidade da mãe.
- Porque não lhe deste resposta? – perguntou Rea.
- Porque espontaneamente abortaria, Rea, e não é esse o seu destino, tu sabes que não é! – objectou Cronos e, como Rea se detivesse, acrescentou: Vai, Rea, vai lavar o filho que chora.
Sábado, Março 28
O poço
Ao Sr. W., por imprevisíveis peutetres acidentais, um poço o engolia, logo depois o balde abria-lhe a testa e uma inopinada água, despontando sabe deus de onde, ameaçava submergi-lo. Tudo isto, ocorria no repentino em que o Sr. W. saía do Mosteiro de S. Bento da Vitória, depois de assistir à transformação pública de homens em personagens de fingimento. Os homens, agora possuídos, deixavam de ser quem eram e regressavam e logo eram dominados e os seus gestos e os seus olhos, e a sua voz. O Sr. W. pôde imaginar que não regressariam nunca, que estariam doravante sempre descentrados - em algum lado felizes, noutro desgraçados, desde aquele dia. Que de cada vez regressariam menos, que com o tempo um momento surgiria em que não ressurgiriam de todo. E sentiu que algures, bem atrás, perdera algo, muito antes do poço, e algo importante, algo que lhe teria permitido não ser ele – neste momento, por exemplo, ali, à porta de S. Bento da Vitória, metido no escuro húmido daquele poço. Talvez que esses seres desconformes lhe pudessem ter ensinado a felicidade na compartimentação da alma: o to be e o not to be, o terceiro incluído, algo fisicamente tão próximo, tão duradoiro no efeito, como as paredes do poço.Mas para o Sr. W. e para a sua mosca, metidos no negro daquele poço, à porta de S. Bento da Vitória, já não havia saída; organizavam o poço há demasiado tempo.
Sexta-feira, Março 27
Bonecada

Terça-feira, Março 24
Dias

Ser feliz não basta, de acordo, até poderemos apregoá-lo pelos passeios, zurrá-lo contra a espécie. Onde a necessidade de ser cansado, exaurido no osso e na conta bancária? Há dias em que um gajo cai na cama exactamente no mesmo estado em que acordou - não seria mal suficiente?
Segunda-feira, Março 23
Vaidadezinhas
Isto não é um pénis ou artista não retrata zona erógena
Sim, tio.

-Tio.
- Sim, Sextus.
Escusado será dizer que Sextus era o seu sobrinho. Não que não os amasse a todos, apenas que Sextus, por alguma estranha razão que escaparia a ambos, era o seu parceiro.
- Porque é que falamos, tio?
- Excelente pergunta, Sextus!
- O tio diz isso quando não tem resposta!
- E mais uma vez não tenho, Sextus. Experimentemos, queres?
- Quer isso dizer o quê?
- Que, por exemplo, podemos falar por excesso ou por defeito.
- …
- Repara que podes partir da ideia do homem como um certo tipo de ser imperfeito, mas assaz maleável, incompleto se quiseres, ou do homem como o ser perfeito por excelência, por isso lógico-gramatical. Assim, de onde partires, onde indefinivelmente acabarás por chegar.
- Se perfeito, há um excesso que o diferencia, é isso? Se imperfeito, um défice, algo que é preciso ultrapassar.
- Exacto. Ou, se quiseres, de um lado o discurso como dom, do outro, o discurso como carência.
- Não temos a terceira hipótese?
- …
- O homem como mais um ser, um entre os outros, apenas tão estranho como o girassol, o morcego ou a bactéria.
- Já te disse o quanto cresceste nestes últimos anos?
- Já Tio. Mas não me respondeu.
- Estávamos a experimentar respostas, lembras-te?
- Sim.
- Ok. Alguém, um certo W., umas décadas atrás, disse que se os leões falassem nunca teríamos modo de o saber – percebes agora aonde podemos chegar?
- … e um gato surdo não mia – sei-o de experiência. Faz ruídos estranhíssimos, tio.
- Já temos muito para pensar, não Sextus? Trazes-me mais uma cerveja do frigorífico?
Sábado, Março 21
Belarmino

- Vens para baixo ou não?
- Assim acabe a limpeza das câmaras, meu doce, o que é o jantar?
- Cordeiro, serve?
- Porque não? Há Sauerkraut?
- Onde já se viu o cozido sem Sauerkraut? Desces?
Quarta-feira, Março 18
Oficina de teatro

Viver sem álibi, na cozinha e no deserto. Fazer pátio. Sobretudo, não mexer demais, logo abaixo da crosta pulsa revolto o esterco. Eventualmente, mijar contra o tabique - assistir a formação de salitre. Descrever a lentidão do podre mineral. Podres que nascem para dentro, podres que alastram sempre por dentro, onde o sol não calcina, onde o ar não enxuga. Viver o podre sem álibi, olhá-lo nos cornos.
Terça-feira, Março 17
- Sim tio?

- Sim tio?
- Lembras-te do que falamos, era Junho, se bem recordo, faz uns seis ou sete anos?
- Não tio, deveria lembrar?
- Não, mas por essa altura, já não sei a que propósito, disse-te que o mais importante era que fosses feliz. Lembras-te agora?
- Como poderia esquecer, tio, desde então, não penso de outra maneira.
- Agora, sete anos depois, pergunto-te, és feliz?
- Sou.
- Pois agora digo-te, ser feliz não basta.
Domingo, Março 15
Branwell
Sou um acto antes de ser um nome
Quarta-feira, Março 11
Causas (pouco) fornicantes

- Não, Sancho, combateremos os Memes.
- E como são eles, Senhor?
- Ninguém sabe.
- Ah.
Demónios

Equivocou-se o Sr. Marc A.. Esquivou-se o Sr. Marc B..
Não podes esquecer, como não podes recordar. És, como uma irritação na memória menos intermutável, um reservado de atenção. Um gajo que berrou, manhã cedo, quando mundo e mãe se lhe cravaram, distintos, íris adentro, de um certo modo e não de outro, mas com maldade, e a quem, ao fim do dia, se insinuará o silêncio deslumbrado e melancólico, recurso último da memória: a morte longamente coreografada do primeiro demónio que, súbito, lembrou.
Ninguém recorda, como ninguém esquece, mesmo se alguém perde a memória.
Corto Rimbaud

- Como ler Rimbaud e ficar e repisar e perpetuar? Porra, Rimbaud obriga! Como os santos obrigam. Não podes ler e ficar-te! – abespinhou-se o Sr. T..
- Não, assentiu Anacreonte, mas posso ler e demorar, escrever a morada demoradamente ou até deixar de ler.
- Explica-te.
– Rimbaud é uma história da descrença. O engomador Hanafi, de Cossery, é outra. Há outras. E outras que ainda não há.
Terça-feira, Março 10
Quando o leiteiro passou por ali... e era o narrador um outro que

A festa era rija, como nunca é de uma primeira vez. - há gajos assim, vão no escuro e é logo Ducasses.
Atentamente, viu-os torrar a goma, enrola-la num tabaco pouco e puxar numa ginástica combinada de boca e pulmões. Fez como os outros, puxou, travou. Depois, puxou uma segunda e uma terceira vez – de primeira para terceira, desta para a quinta, tudo em poucos minutos. Suou, ficou branco. - Acha que não chegou a meter a quinta. - O seu vómito rebentou no negro da porta da discoteca. Muito desfocadas, tinha as cores do arco-íris.
- Professor…
- Filipe! Que fazes aqui? O que é que te aconteceu?
Coro: - Precisa que o levem a casa, precisa, não vês?
(virando-se o coro para o imberbe pupilo)
- Michaux, os amigos entraram, ficaste para trás…
- Lowry , não tens dinheiro, esperas a caridade…
ÓÓÓ…
- ... e, Bud, o professorzeco, irá ele incarnar o bom samaritano, Bud? – pergunta o narrador, a um canto da taberna espanhola, súbito impondo-se, bem de pé, quase esticado demais.
Nesse preciso, irrompe o professor, já sob focos, que se dirige ao pupilo assim:
- Filipe, sabes tu o que é o bem?
- …
- Filipe, sabes onde moras?
O Filipe sabia. O táxi também. As luzes acompanharam professor e pupilo até que a porta se fechou, vermelha, nos olhos do professor. 'Deixei-o com as garrafas do leite', pensou o professor enquanto se afastava a passo curto.
Entretanto, na cena primitiva, abandonava já o narrador a taverna espanhola e dava entrada na discoteca, já a teenager, bem na sua frente, inocente como um animal, arrepanhava a mini para componho dos collants. Os collants eram pretos, de malha, torneados com mãos de seda, os olhos tremeluziam-lhe. Sorriu.
O professor baixaria os olhos, pensou. O animal quer sempre ver, cheirar, tocar, não sossega. Mas só ao narrador fora dado observar o que ora se narra e ao narrador cabe narrar, não necessariamente compreender.
O que são aqui o professor, o pupilo e a teenager? O que me querem dizer? - pergunta-se o narrador. O que os move?- pergunta-se de novo.
Quinta-feira, Março 5
‘O artista constrange o observador a situar-se de acordo com as condições dramáticas que as suas obras desvendam’.

Moral da história: Se as perdizes são caça fácil, o elefante anda sempre com um baraço no bolso.









